{"id":37794,"date":"2016-02-25T15:00:23","date_gmt":"2016-02-25T18:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=37794"},"modified":"2016-02-24T13:22:27","modified_gmt":"2016-02-24T16:22:27","slug":"anti-inflamatorio-pode-evitar-a-morte-de-vitimas-do-escorpiao-amarelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/anti-inflamatorio-pode-evitar-a-morte-de-vitimas-do-escorpiao-amarelo\/","title":{"rendered":"Medicamentos anti-inflamat\u00f3rios podem evitar a morte de v\u00edtimas do escorpi\u00e3o amarelo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg\" rel=\"attachment wp-att-37796\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-37796\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Com meros 7 cent\u00edmetros de comprimento, o escorpi\u00e3o amarelo (<i>Tityus serrulatus<\/i>) n\u00e3o parece muito amea\u00e7ador, mas a esp\u00e9cie \u00e9, na verdade, a mais pe\u00e7onhenta da Am\u00e9rica do Sul. Todos os anos, mais de 1,2 milh\u00e3o de pessoas em todo o mundo s\u00e3o v\u00edtimas de seu veneno. Dessas, cerca de 3 mil acabam morrendo.<\/p>\n<p>De acordo com dados da literatura cient\u00edfica, a maioria das mortes decorrentes da picada do escorpi\u00e3o amarelo \u2013 esp\u00e9cie venenosa prevalente no Sudeste brasileiro \u2013 est\u00e1 relacionada a complica\u00e7\u00f5es card\u00edacas e pulmonares que resultam em um quadro de insufici\u00eancia respirat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um <a href=\"http:\/\/www.nature.com\/ncomms\/2016\/160223\/ncomms10760\/full\/ncomms10760.html\" target=\"_blank\"><b>estudo <\/b><\/a>publicado nesta ter\u00e7a (23\/02) por pesquisadores brasileiros na revista <i> Nature Communications<\/i>\u00a0sugere que o problema poderia ser evitado \u2013 ou pelo menos minimizado \u2013 com a pronta administra\u00e7\u00e3o de medicamentos anti-inflamat\u00f3rios encontrados em qualquer farm\u00e1cia, como a indometacina e o celecoxibe.<\/p>\n<p>\u201cNossos experimentos foram feitos com camundongos, mas h\u00e1 grandes chances de que os resultados se repliquem em humanos, pois as bases moleculares \u2013 os mediadores envolvidos na rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria pulmonar \u2013 s\u00e3o iguais nesse caso. Se isso se confirmar, ser\u00e1 uma ferramenta importante no pronto atendimento das v\u00edtimas e certamente vai diminuir a mortalidade\u201d, avaliou a pesquisadora <a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/402\/lucia-helena-faccioli\/\" target=\"_blank\"><b>L\u00facia Helena Faccioli<\/b><\/a>, da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas de Ribeir\u00e3o Preto (FCFRP) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>O trabalho foi desenvolvido com <a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/153723\/estudo-da-relacao-entre-ativacao-do-inflamassoma-e-producao-de-mediadores-lipidicos-com-a-inflamacao\/\" target=\"_blank\"><b>apoio<\/b><\/a> da FAPESP durante o p\u00f3s-doutorado de Karina Furlani Zoccal, no \u00e2mbito de um <b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/6594\/mediadores-lipidicos-como-reguladores-da-resposta-imune\/\" target=\"_blank\">Projeto Tem\u00e1tico<\/a><\/b> coordenado por Faccioli na USP.<\/p>\n<p>Conforme explicou a professora da FCFRP-USP, sempre que algu\u00e9m \u00e9 picado pelo <i>T. serrulatus<\/i> ocorre uma rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria local que causa fortes dores, mas n\u00e3o leva \u00e0 morte. Em alguns casos, por\u00e9m, tamb\u00e9m \u00e9 desencadeada uma rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria sist\u00eamica, que pode resultar em edema pulmonar (ac\u00famulo de l\u00edquido no pulm\u00e3o) e prejudicar a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, o consenso entre os cientistas era que a gravidade do quadro de envenenamento dependeria essencialmente da rela\u00e7\u00e3o entre a massa corporal da v\u00edtima e a dose de toxina inoculada. No entanto, o estudo da FCFRP-USP indica que pode haver fatores gen\u00e9ticos relacionados, que influenciariam na capacidade do indiv\u00edduo de produzir certas mol\u00e9culas inflamat\u00f3rias e anti-inflamat\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u201cOs mecanismos pelos quais essa rea\u00e7\u00e3o sist\u00eamica \u00e9 disparada, os mediadores envolvidos, n\u00e3o eram conhecidos e foram objetos do nosso estudo\u201d, contou Faccioli.<\/p>\n<p><b>Em busca de um suspeito<\/b><\/p>\n<p>Em trabalhos anteriores, o grupo coordenado por Faccioli j\u00e1 havia mostrado por meio de experimentos com camundongos que a pe\u00e7onha do escorpi\u00e3o amarelo era reconhecida por receptores celulares do tipo Toll, que fazem parte do sistema imune inato. Tamb\u00e9m havia constatado que isso induzia a produ\u00e7\u00e3o de um mediador inflamat\u00f3rio chamado interleucina-1 beta (IL-1\u03b2), al\u00e9m de mediadores lip\u00eddicos conhecidos como prostaglandina E2 (PGE2) e leucotrienos B4 (LTB4).<\/p>\n<p>\u201cPartimos, portanto, da hip\u00f3tese de que o edema pulmonar p\u00f3s-envenenamento seria induzido pela produ\u00e7\u00e3o de IL-1\u03b2 derivada da ativa\u00e7\u00e3o do inflamassoma. Isso porque dados da literatura sugerem que quando uma subst\u00e2ncia \u00e9 reconhecida por receptores do tipo Toll ocorre ativa\u00e7\u00e3o do inflamassoma\u201d, explicou a pesquisadora.<\/p>\n<p>O inflamassoma \u00e9 um complexo localizado no citoplasma das c\u00e9lulas de defesa e formado por v\u00e1rias prote\u00ednas, entre elas as caspases. Quando ele \u00e9 ativado, ocorre a libera\u00e7\u00e3o de IL-1\u03b2, que induz o processo inflamat\u00f3rio tanto por mecanismo direto quanto indireto, por meio da produ\u00e7\u00e3o de mediadores lip\u00eddicos como PGE2 e LTB4. Estes mediadores s\u00e3o os respons\u00e1veis pela atra\u00e7\u00e3o para o pulm\u00e3o de outras c\u00e9lulas de defesa e pelo edema pulmonar, que caracterizam o processo inflamat\u00f3rio. Embora a inflama\u00e7\u00e3o seja um mecanismo de defesa essencial, quando exagerada pode levar \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Os primeiros testes <i>in vitro<\/i>, feitos com macr\u00f3fagos \u201cselvagens\u201d (sem nenhum gene alterado) de camundongos, confirmaram que o veneno do escorpi\u00e3o amarelo de fato ativa o inflamassoma e induz a produ\u00e7\u00e3o de IL-1\u03b2. Quando o mesmo experimento foi feito com c\u00e9lulas geneticamente alteradas \u2013 sem alguns dos genes codificadores das prote\u00ednas que comp\u00f5em o inflamassoma \u2013, n\u00e3o houve produ\u00e7\u00e3o de IL-1\u03b2 e nem de mediadores lip\u00eddicos.<\/p>\n<p>O passo seguinte foi testar a hip\u00f3tese <i>in vivo<\/i>. Ao analisar o tecido pulmonar de camundongos inoculados com a pe\u00e7onha do <i>T. serrulatus<\/i>, os pesquisadores observaram a forma\u00e7\u00e3o de edema e um aumento no n\u00famero de neutr\u00f3filos (um tipo de c\u00e9lula de defesa) \u2013 dois fatores que indicam inflama\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, havia grandes quantidades de IL-1\u03b2, PGE2 e LTB4.<\/p>\n<p>Para ter certeza de que a IL-1\u03b2 era a pe\u00e7a-chave na rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria, o grupo usou dois modelos de camundongos geneticamente modificados. Um deles n\u00e3o tinha os genes que codificavam duas das prote\u00ednas formadoras do inflamassoma. O outro n\u00e3o tinha o gene da prote\u00edna que funciona como receptor de IL-1\u03b2 nas c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>Nesses dois modelos, todos os animais sobreviveram mesmo quando inoculados com doses letais do veneno, confirmando que sem a atua\u00e7\u00e3o da IL-1\u03b2 o edema pulmonar n\u00e3o progride ao ponto de tornar-se letal.<\/p>\n<p><b>Aliado desconhecido<\/b><\/p>\n<p>Ao analisar o tecido pulmonar desses camundongos geneticamente modificados que sobreviveram \u00e0s doses letais de veneno, os cientistas notaram que eles produziam menor quantidade de PGE2 e de LTB4 quando comparados aos camundongos \u201cselvagens\u201d.<\/p>\n<p>O grupo ent\u00e3o decidiu investigar o papel desses dois mediadores na rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria e, para surpresa dos cientistas, descobriram que o LTB4 \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o descrito como uma mol\u00e9cula pr\u00f3-inflamat\u00f3ria \u2013 tinha na verdade a fun\u00e7\u00e3o de proteger o tecido da inflama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cFizemos o experimento com animais geneticamente modificados para n\u00e3o produzir a enzima que participa da produ\u00e7\u00e3o do LTB4. Ach\u00e1vamos que certamente eles iriam sobreviver a uma dose letal do veneno, pois n\u00e3o tinham um dos componentes da resposta inflamat\u00f3ria. Mas, na verdade, observamos que eles morriam bem mais r\u00e1pido que os camundongos selvagens e tinham uma inflama\u00e7\u00e3o pulmonar exagerada, com muita produ\u00e7\u00e3o de IL-1\u03b2 e PGE2\u201d, contou Faccioli.<\/p>\n<p>Em seguida, o grupo tratou animais \u201cselvagens\u201d inoculados com doses letais de veneno com indometacina \u2013 uma droga inibidora da s\u00edntese de prostaglandinas (inclusive a PGE2). Todos sobreviveram.<\/p>\n<p>Por meio de estudos <i>in vitro<\/i>, o grupo descobriu que a PGE2 aumenta a produ\u00e7\u00e3o de uma mol\u00e9cula chamada monofosfato c\u00edclico de adenosina (cAMP), que por sua vez leva a um aumento de IL-1\u03b2 e potencializa a inflama\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o LTB4 diminui a produ\u00e7\u00e3o de cAMP e, consequentemente, de IL-1\u03b2.<\/p>\n<p>\u201cSe conseguirmos mostrar que em humanos o edema pulmonar tamb\u00e9m \u00e9 mediado por PGE2 e IL-1\u03b2, o impacto para a popula\u00e7\u00e3o ser\u00e1 grande. As v\u00edtimas poder\u00e3o ser tratadas com medicamentos dispon\u00edveis em qualquer farm\u00e1cia enquanto aguardam a chegada do soro antiescorpi\u00f4nico\u201d, disse Faccioli.<\/p>\n<p>Em parceria com a Unidade de Emerg\u00eancia do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (FMRP-USP), o grupo pretende dosar todos esses mediadores envolvidos na rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria pulmonar no soro de pacientes picados pelo escorpi\u00e3o amarelo.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m faremos estudos <i>in vitro<\/i> usando c\u00e9lulas humanas estimuladas com a pe\u00e7onha para ver se apresentam o mesmo padr\u00e3o molecular que observamos nas c\u00e9lulas de camundongo. Se os resultados forem semelhantes, podemos pensar em um projeto \u2013 em parceria com m\u00e9dicos \u2013 para tratar v\u00edtimas do escorpi\u00e3o amarelo com indometacina\u201d, afirmou Faccioli.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com meros 7 cent\u00edmetros de comprimento, o escorpi\u00e3o amarelo (Tityus serrulatus) n\u00e3o parece muito amea\u00e7ador,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37796,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/camaleao.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Com meros 7 cent\u00edmetros de comprimento, o escorpi\u00e3o amarelo (Tityus serrulatus) n\u00e3o parece muito amea\u00e7ador,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37794"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37794\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}