{"id":37632,"date":"2016-02-23T10:00:58","date_gmt":"2016-02-23T13:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=37632"},"modified":"2016-02-22T20:22:31","modified_gmt":"2016-02-22T23:22:31","slug":"sobre-mobilidade-urbana-e-um-desenvolvimento-voltado-as-necessidades-humanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/sobre-mobilidade-urbana-e-um-desenvolvimento-voltado-as-necessidades-humanas\/","title":{"rendered":"Sobre mobilidade urbana e um desenvolvimento voltado \u00e0s necessidades humanas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg\" rel=\"attachment wp-att-37633\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-37633\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A conversa, hoje cedo, na padaria onde sempre tomo um cafezinho, foi a retirada de dois \u00f4nibus aqui da regi\u00e3o. Os dois faziam um trajeto fundamental para quem presta servi\u00e7o na vizinhan\u00e7a \u2013 e n\u00e3o s\u00e3o poucas pessoas \u2013 deixando-as na Central do Brasil. Todos os dias, por volta das 17h, era comum ver uma fila se formar no ponto final. Os ve\u00edculos sa\u00edam lotados e chegavam lotados por volta das 7h, 8h da manh\u00e3. Assim mesmo, foram extintos.<\/p>\n<p>Em conversa com um t\u00e9cnico da Prefeitura encarregado de informar a popula\u00e7\u00e3o sobre as mudan\u00e7as urbanas na \u201cCidade Ol\u00edmpica\u201d, fiquei sabendo que uma das ideias \u00e9 desafogar as ruas pequenas do inc\u00f4modo de terem que abrigar carros enormes. Nesse caso, a mudan\u00e7a foi a seguinte: em vez de duas linhas de \u00f4nibus, a mesma ruazinha pequena est\u00e1 sendo utilizada por uma linha de \u00f4nibus. Se, para o tr\u00e2nsito local e para os moradores, \u00e9 uma troca quase irrelevante, com certeza para quem usava os \u00f4nibus como transporte de casa para o trabalho, n\u00e3o \u00e9. A \u00fanica op\u00e7\u00e3o que esses trabalhadores, prestadores de servi\u00e7o, t\u00eam de agora em diante para chegar aqui, \u00e9 andar pouco mais de um quil\u00f4metro desde onde fica o \u00faltimo ponto da linha que vem da Central do Brasil.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lembrou, na conversa da padaria, que andar faz bem. Concordo plenamente. Tenho como h\u00e1bito de sa\u00fade fazer uma longa caminhada di\u00e1ria, subindo e descendo ruas, de cerca de uma hora. Com roupa adequada, cal\u00e7ado adequado, sabendo que depois disso posso chegar em casa, tomar um banho, beber \u00e1gua e come\u00e7ar o dia de trabalho. Isso \u00e9 bem diferente do que a rotina de muitos trabalhadores que moram bem longe e que, para chegarem aqui por volta de 8h, precisam come\u00e7ar a \u201cviagem\u201d \u00e0s 6h ou antes. Depois de um trem lotado e de outra baldea\u00e7\u00e3o, ter que encarar um quil\u00f4metro a p\u00e9, muitas vezes com bolsa pesada e sapato n\u00e3o apropriado&#8230; eu n\u00e3o chamaria de exerc\u00edcio ideal.<\/p>\n<p>Ampliamos, assim, a reflex\u00e3o sobre mobilidade urbana para um motivo importante: o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o que precisa de transporte p\u00fablico. N\u00e3o s\u00f3 a l\u00f3gica de quem quer fugir dos engarrafamentos.<\/p>\n<p>A mobilidade urbana \u00e9 um dos seis estudos que o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) , em parceria com o governo brasileiro, est\u00e1 disponibilizando em <a href=\"https:\/\/nacoesunidas.org\/onu-habitat-e-governo-do-brasil-publicam-estudos-sobre-desenvolvimento-urbano-sustentavel\/\">seu site\u00a0 <\/a>com recomenda\u00e7\u00f5es para implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. A ideia \u00e9 que esses documentos tenham um papel importante na prepara\u00e7\u00e3o da Terceira Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Habita\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Urbano Sustent\u00e1vel (Habitat III), que acontece daqui a sete meses, em Quito, no Equador. No pano de fundo, o desejo de que tais estudos possam ser \u00fateis para a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades e para a promo\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento urbano sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Na primeira parte, o texto faz cr\u00edticas ao uso indiscriminado do solo e \u00e0 expans\u00e3o urbana sem planejamento. S\u00e3o dois fatores que t\u00eam efeitos diretos sobre a efici\u00eancia do transporte p\u00fablico. Numa cidade baseada na horizontaliza\u00e7\u00e3o, e S\u00e3o Paulo \u00e9 um exemplo dado pelos pesquisadores, esse formato prejudica o acesso dos sistemas coletivos de transporte. \u00c9 necess\u00e1rio ter aglomera\u00e7\u00e3o de demanda, dizem eles, para que as empresas de \u00f4nibus ou do Metr\u00f4 ou de trens tenham lucro e queiram continuar fornecendo o servi\u00e7o. A quest\u00e3o \u00e9: o que elas consideram lucro suficiente?<\/p>\n<p>\u201cCidades pouco densas n\u00e3o conseguem sustentar sistemas de alta capacidade; e redes de baixa capacidade precisariam de v\u00e1rios transbordos para acessos espec\u00edficos. Assim, em uma cidade pouco densa, o sistema de transporte coletivo \u00e9 pouco eficiente, logo, existir\u00e1 uma prefer\u00eancia por viagens individuais que ir\u00e3o saturar o tr\u00e2nsito nas zonas centrais\u201d, diz o texto do estudo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que as cidades crescem por conta do desenvolvimento econ\u00f4mico, o que torna as viagens mais longas e aumenta a necessidade de mais viagens.<\/p>\n<p>\u201cA forma\u00e7\u00e3o de novas localiza\u00e7\u00f5es para o trabalho, estudo, servi\u00e7os e lazer, bem como o aumento no n\u00famero de dependentes ou o crescimento da renda impulsionam a gera\u00e7\u00e3o de mais viagens. A necessidade de mais tempo para cumprir todos os compromissos sociais e econ\u00f4micos de uma fam\u00edlia, que nesse tipo de urbaniza\u00e7\u00e3o se encontram mais distantes, \u00e9, em parte, respondida com o uso do autom\u00f3vel como meio de transporte\u201d, diz o estudo.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que, segundo pesquisa feita em 2010 pelo Banco Mundial, nos \u00faltimos 20 anos, a m\u00e9dia do n\u00famero de ve\u00edculos por mil habitantes cresceu 6% nas na\u00e7\u00f5es membros da OCDE (os mais ricos, entre eles Noruega, Fran\u00e7a e Dinamarca). J\u00e1 os indicadores de motoriza\u00e7\u00e3o do Brasil, China, \u00cdndia e R\u00fassia cresceram em 89%, 213%, 50% e 34% respectivamente para o mesmo per\u00edodo, de 2003 e 2009. A cidade do Rio de Janeiro, no mesmo per\u00edodo, teve crescimento populacional de apenas 5%, enquanto o de autom\u00f3veis foi de aproximadamente 50 %.<\/p>\n<p>\u201cO fen\u00f4meno \u00e9 ainda mais preocupante, no Rio, se for adicionado o crescimento da frota de motocicletas (300% em 20 anos), que tem sido importante alternativa ao autom\u00f3vel para enfrentar o congestionamento di\u00e1rio\u201d, relata o texto.<\/p>\n<p>Alguns dados indicam uma forte tend\u00eancia de aumento do n\u00famero de autom\u00f3veis justamente nas camadas sociais de mais baixa renda, que precisam de transporte p\u00fablico. Em Bogot\u00e1, segundo o estudo, mesmo com a implementa\u00e7\u00e3o do sistema Bus Rapid Transit (BRT), em 2000 a taxa de motoriza\u00e7\u00e3o aumentou, o que revelava a necessidade de pol\u00edticas voltadas para pautar o uso do autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>Como acontece com frequ\u00eancia em nosso tempo, que Milton Santos gostava de definir como \u201cUm mundo confuso e confusamente percebido\u201d, h\u00e1 v\u00e1rias maneiras de se ver e refletir sobre a mobilidade urbana. Se, por um lado, o baixo pre\u00e7o dos autom\u00f3veis e dos combust\u00edveis tem propiciado \u00e0s pessoas de menor renda comprar um ve\u00edculo para se locomover, por outro lado isso vem criando o caos urbano de que tanto nos queixamos. Sem falar na quest\u00e3o de absoluta relev\u00e2ncia que \u00e9 a polui\u00e7\u00e3o pelos gases de efeito estufa que geram as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Pensar em diminuir a compra de autom\u00f3veis pode trazer tamb\u00e9m consequ\u00eancias econ\u00f4micas que ningu\u00e9m quer, como o desemprego e a consequente falta de renda.<\/p>\n<p>O trabalho de quem se prop\u00f5e a administrar uma cidade, portanto, somente no quesito mobilidade urbana j\u00e1 exige uma tremenda concentra\u00e7\u00e3o, por exemplo, para planejar e organizar uma rede de transportes p\u00fablicos coletivos que tenha capacidade para se articular com o desenvolvimento local. \u00c9 o quesito n\u00famero um na lista de sugest\u00f5es proposta no estudo que servir\u00e1 de base para a Confer\u00eancia de Quito em setembro. H\u00e1 outras tantas, e cada uma dela vem acompanhada por reflex\u00f5es bem detalhadas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central, no entanto, foge um pouco. Porque se estamos falando sobre o ir e vir de pessoas, \u00e9 importante que elas sejam levadas em conta. No livro \u201cDesenvolvimento \u00e0 Escala Humana\u201d, escrito por Manfred A. Max-Neef, Antonio Elizalde e Martin Hopenhayn, da cole\u00e7\u00e3o Sociedade e Meio Ambiente edita pela Universidade Regional de Blumenau, os autores lembram que o desenvolvimento precisa ser orientado para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas, o que \u201cexige uma nova maneira de interpretar a realidade\u201d.<\/p>\n<p>No topo das sugest\u00f5es dos tr\u00eas autores \u2013 um economista, um soci\u00f3logo e o outro fil\u00f3sofo, todos chilenos \u2013 est\u00e1 o de que aqueles que s\u00e3o escolhidos para implantar as pol\u00edticas que v\u00e3o nortear a vida dos cidad\u00e3os deixem a arrog\u00e2ncia de lado. Os que sofrem na pele e no dia a dia os efeitos de pol\u00edticas voltadas apenas \u00e0 l\u00f3gica desenvolvimentista precisam menos de \u201cprogramas de conscientiza\u00e7\u00e3o\u201d e mais de espa\u00e7o para dizer o que pensam.<\/p>\n<p>Termino com um trecho do livro, do qual recomendo a leitura:<\/p>\n<p>\u201cA cria\u00e7\u00e3o de uma ordem pol\u00edtica que possa representar as necessidades e interesses de uma popula\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea \u00e9 um desafio, tanto para um estado como para uma cultura democr\u00e1tica. \u00c9 respeitar e encorajar a diversidade, em vez de control\u00e1-la. Visando atingir este fim, o desenvolvimento precisa fomentar a exist\u00eancia de espa\u00e7os locais, facilitar as micro-organiza\u00e7\u00f5es e dar apoio \u00e0 multiplicidade de matrizes culturais que fazem parte da sociedade civil\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A conversa, hoje cedo, na padaria onde sempre tomo um cafezinho, foi a retirada de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37633,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/mobilidade_urbana.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A conversa, hoje cedo, na padaria onde sempre tomo um cafezinho, foi a retirada de","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37632"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37632"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37632\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}