{"id":37344,"date":"2016-02-19T07:00:45","date_gmt":"2016-02-19T10:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=37344"},"modified":"2016-02-18T19:05:52","modified_gmt":"2016-02-18T22:05:52","slug":"fosforo-a-proxima-guerra-depois-da-agua-claro-artigo-de-fabio-jose-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/fosforo-a-proxima-guerra-depois-da-agua-claro-artigo-de-fabio-jose-gomes\/","title":{"rendered":"F\u00f3sforo, a pr\u00f3xima guerra? Depois da \u00e1gua, claro! artigo de F\u00e1bio Jos\u00e9 Gomes"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/seca-1.jpg\" rel=\"attachment wp-att-37345\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-37345\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/seca-1-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/seca-1-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/seca-1.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Nos \u00faltimos s\u00e9culos, especialmente ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o industrial, os recursos naturais do planeta sofreram intensa explora\u00e7\u00e3o pelo homem. Isso se deve ao aumento explosivo da popula\u00e7\u00e3o humana e \u00e0 mudan\u00e7a de seus h\u00e1bitos. Hoje a popula\u00e7\u00e3o mundial passa de sete bilh\u00f5es de indiv\u00edduos, com estimativa para 2100 de onze bilh\u00f5es, de acordo com o artigo publicado na revista Science \u201cWorld population stabilization unlikely this century\u201d, sendo que essa popula\u00e7\u00e3o consome milhares de toneladas de alimentos e outros recursos diariamente.<\/p>\n<p>Para suprir a crescente demanda mundial por alimentos, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de v\u00e1rios pa\u00edses entrou na fase da agroindustrializa\u00e7\u00e3o, deixando para tr\u00e1s o padr\u00e3o extensivo tradicional e assumindo um padr\u00e3o intensivo, no qual a produtividade tornou-se a principal fonte de lucratividade.<\/p>\n<p>Surge assim uma agricultura mecanizada onde as caracter\u00edsticas f\u00edsicas do solo s\u00e3o mais importantes que as qu\u00edmicas, ou seja, o solo deve funcionar como um bom suporte para as plantas, capaz de sustentar as lavouras e ainda tornar poss\u00edvel a mecaniza\u00e7\u00e3o, sendo, at\u00e9 certo ponto, dispens\u00e1vel uma boa fertilidade natural.<\/p>\n<p>Um bom exemplo dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a agricultura de larga escala que \u00e9 praticada no cerrado brasileiro, um dos principais celeiros agr\u00edcolas do mundo, mas que s\u00f3 produz com a implementa\u00e7\u00e3o da aduba\u00e7\u00e3o e da corre\u00e7\u00e3o da acidez. Em um artigo publicado em 2012 o renomado pesquisador brasileiro Alfredo Scheid Lopes e colaboradores, estes afirmam que nos solos do Brasil predominam graves limita\u00e7\u00f5es para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola em termos de baixa fertilidade natural, sendo ainda, \u00e1cidos e pobres em nitrog\u00eanio dispon\u00edvel (N), f\u00f3sforo (P), pot\u00e1ssio (K), de c\u00e1lcio (Ca), magn\u00e9sio (Mg), enxofre (S), boro (B), cobre (Cu), molibd\u00e9nio (Mo) e zinco (Zn).<\/p>\n<p>Nesse caso, quando o solo n\u00e3o disponibiliza naturalmente os nutrientes em quantidades adequadas, h\u00e1 a possibilidade de elevada produtividade somente com o suprimento dos nutrientes deficit\u00e1rios atrav\u00e9s de aduba\u00e7\u00e3o. Nutrientes como f\u00f3sforo, nitrog\u00eanio e pot\u00e1ssio s\u00e3o necess\u00e1rios para o crescimento e produ\u00e7\u00e3o das plantas. O nitrog\u00eanio pode ser obtido por meio de fixa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica ou processos industriais, mas outros nutrientes, como por exemplo, o f\u00f3sforo \u00e9 obtido em grande parte atrav\u00e9s da minera\u00e7\u00e3o ou em menor quantidade por reciclagem.<\/p>\n<p>A demanda por fertilizantes no cen\u00e1rio internacional \u00e9 crescente, em especial pelos fosfatados. A maior procura e a oferta limitada causou um aumento no custo do fosfato de rocha. Em 1961 a tonelada custava cerca de 80 d\u00f3lares saltando para at\u00e9 450 d\u00f3lares em 2008, o pre\u00e7o deste insumo, desde ent\u00e3o, t\u00eam flutuado, mas agora est\u00e1 em cerca de 700 d\u00f3lares a tonelada, segundo relat\u00f3rio de 2015 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).<\/p>\n<p>O mundo \u00e9 altamente dependente do f\u00f3sforo como nutriente para produ\u00e7\u00e3o de alimentos, no entanto, estima-se que a maior mina de f\u00f3sforo dos EUA estar\u00e1 esgotada em 20 anos e um balan\u00e7o da vida \u00fatil das reservas que podem suprir \u00e0 agroind\u00fastria e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o humana est\u00e3o limitadas a cerca de 60 a 250 anos. Assim, o equil\u00edbrio geopol\u00edtico do poder pode ficar abalado quando na\u00e7\u00f5es e corpora\u00e7\u00f5es come\u00e7arem a competir pelas reservas remanescentes em lugares como Marrocos.<\/p>\n<p>A FAO \u2013 \u00f3rg\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o acendeu a luz vermelha em fevereiro de 2011 alertando que oitenta pa\u00edses se encontravam em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar. Essa situa\u00e7\u00e3o pode se agravar, e muito, com a escassez das reservas de f\u00f3sforo, quando haver\u00e1 consider\u00e1vel redu\u00e7\u00e3o na produtividade agr\u00edcola em decorr\u00eancia da falta desse nutriente (vide Lei do M\u00ednimo), principalmente em lavouras de solos tropicais que tem baixas concentra\u00e7\u00f5es de f\u00f3sforo dispon\u00edvel e no decorrer dos ciclos de culturas pode acabar se esgotando.<\/p>\n<p>Surge ent\u00e3o uma equa\u00e7\u00e3o nada f\u00e1cil de resolver, em que se percebe um cen\u00e1rio global que projeta uma crise de oferta de f\u00f3sforo, e consequentemente de alimentos, em um futuro n\u00e3o muito distante, podendo culminar em conflitos entre na\u00e7\u00f5es pelo dom\u00ednio das ultimas reservas ou por solos com capacidade produtiva de alimentos.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que esse \u00e9 o destino da humanidade? Padecer por falta de alimento, recorrer a mecanismos como a guerra para garantir a sobreviv\u00eancia? De acordo com os relatos na literatura existem meios para evitar mais essa trag\u00e9dia humana. A solu\u00e7\u00e3o ir\u00e1 exigir um esfor\u00e7o proporcional \u00e0 magnitude do problema, por exemplo, estudos realizados no Departamento de Ci\u00eancia do Solo da Universidade Federal de Lavras (DCS\/UFLA) procuram uma alternativa para minimizar a necessidade de altas doses de aplica\u00e7\u00e3o de f\u00f3sforo com o uso de bact\u00e9rias solubilizadoras desse nutriente, enquanto que um outro publicado na renomada revista Nature em 2015 pelo cientista do solo Ronald Amundson e colaboradores apontam que a diminui\u00e7\u00e3o das taxas de perda de nutrientes do solo pela eros\u00e3o h\u00eddrica e a reciclagem dos nutrientes s\u00e3o sa\u00eddas a considerar. Segundo esses autores deve haver parcerias para desenvolver m\u00e9todos eficientes de reciclagem de nutrientes e sistemas de redistribui\u00e7\u00e3o em ambientes urbanos.<\/p>\n<p>Nessa realidade onde a reciclagem \u00e9 indicada para suprir os nutrientes do solo \u00e9 aconselh\u00e1vel incentivar o aproveitamento dos res\u00edduos compost\u00e1veis e a produ\u00e7\u00e3o e consumo local de alimentos, uma vez que diminui a demanda por alimentos produzidos pela agroind\u00fastria que fatalmente continuar\u00e1 consumindo os fertilizantes das fontes em esgotamento. A reciclagem do f\u00f3sforo pode ser tomada como a principal sa\u00edda para contornar a escassez das reservas desse nutriente e evitar a uma grande guerra mundial motivada pela disputa por este recurso.<\/p>\n<p>Outro problema que preocupa na\u00e7\u00f5es \u00e9 a escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel no mundo. A \u00e1gua doce \u00e9 uma pequena fra\u00e7\u00e3o do total existente e uma diminuta parte dessa fra\u00e7\u00e3o se encontra em rios e lagos, locais onde normalmente o homem usufrui.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o fica mais cr\u00edtica devido \u00e0 m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o espacial e temporal dos recursos h\u00eddricos que faz com que algumas \u00e1reas sofram permanentemente com a falta de \u00e1gua. Segundo Claudio Hehl Forjaz em seu livro \u201c\u00c1gua: Subst\u00e2ncia da Vida\u201d somente 1% da \u00e1gua da Terra \u00e9 pot\u00e1vel, mas a quase totalidade ou \u00e9 impr\u00f3pria para o consumo ou est\u00e1 em inacess\u00edveis geleiras.<\/p>\n<p>A \u00e1gua era vista como um recurso inesgot\u00e1vel e ainda dotada de capacidade de autodepura\u00e7\u00e3o de todo tipo de contaminante. Esse pensamento levou \u00e0 polui\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos em todos os continentes do mundo, principalmente nos locais mais populosos e que culturalmente tem a \u00e1gua como destino final dos mais diversos res\u00edduos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s s\u00e9culos de utiliza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua sem planejamento os recursos h\u00eddricos em todo o Mundo sofreram intensa degrada\u00e7\u00e3o. Nesse contexto surge a preocupa\u00e7\u00e3o em usar a \u00e1gua de forma sustent\u00e1vel com a proposta de f\u00f3runs internacionais para discutir o assunto ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da Carta Europ\u00e9ia da \u00c1gua, na Fran\u00e7a em 1968. Os principais eventos que sucederam e que discutiram o uso da \u00e1gua no Mundo foram: a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Estocolmo, no ano de 1972, a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a \u00c1gua, no Uruguai no ano de 1977 e a Declara\u00e7\u00e3o de Dublin, na Irlanda em 1992, esta alertava que a \u00e1gua \u00e9 um recurso esgot\u00e1vel e vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>Durante e ap\u00f3s esse per\u00edodo de conscientiza\u00e7\u00e3o de autoridades come\u00e7aram a surgir leis que passaram a proteger os recursos h\u00eddricos em diversos pa\u00edses. No entanto, muitas vezes a cultura arraigada de desobedi\u00eancia \u00e0s leis e a busca pelo crescimento a qualquer custo colocou em segundo plano a prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente. Claudio Hehl Forjaz em seu livro afirma que o pre\u00e7o da prosperidade das na\u00e7\u00f5es \u00e9 muito alto, podendo resultar em escassez de \u00e1gua pot\u00e1vel. O mundo est\u00e1 prestes a viver uma crise de grandes propor\u00e7\u00f5es, podendo levar na\u00e7\u00f5es inteiras ao desespero, quando n\u00e3o \u00e0s guerras.<\/p>\n<p>O texto \u201cConflitos por causa da \u00e1gua\u201d publicado na \u2018Revista Horizonte Geogr\u00e1fico\u2019 em abril de 2008 relata que nos \u00faltimos 50 anos foram registrados 1831 casos de disputas por \u00e1gua entre pa\u00edses, sendo que a maioria foi resolvida sem que evolu\u00edsse para conflitos armados. No entanto, em muitos locais a guerra pela \u00e1gua se tornou realidade, \u00e9 o caso de v\u00e1rios pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio, em partes da \u00c1sia, na \u00c1frica, \u00cdndia, China, Bol\u00edvia etc. A \u00e1gua atrai a cobi\u00e7a daqueles que n\u00e3o podem obt\u00ea-la com facilidade e passa a ser considerada, cada vez mais, como um produto de valor.<\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas ONU de 1992, por volta do ano 2020 a car\u00eancia de \u00e1gua vai afetar 2\/3 da popula\u00e7\u00e3o mundial. Essa situa\u00e7\u00e3o pode se agravar em anos posteriores levando a conflitos armados pelo uso deste recurso.<\/p>\n<p>Com o crescimento da popula\u00e7\u00e3o mundial que passa a demandar cada vez mais \u00e1gua, aliado ao agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, h\u00e1 quem diga que se a humanidade enfrentar a III Guerra Mundial ser\u00e1 decorrente da disputa por este recurso, considerado por muitos como a maior riqueza do terceiro mil\u00eanio.<\/p>\n<p>A falta de \u00e1gua pot\u00e1vel para abastecimento humano \u00e9 um problema atual que j\u00e1 se verifica em v\u00e1rias partes do mundo, e que, se n\u00e3o tratado com seriedade e com a aplica\u00e7\u00e3o de todas as tecnologias j\u00e1 adquiridas, s\u00f3 tende a agravar, portanto se tiver que ocorrer uma guerra mundial motivada por um recurso escasso, ser\u00e1 primeiramente em fun\u00e7\u00e3o da demanda por \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p><em>F\u00e1bio Jos\u00e9 Gomes \u00e9 Engenheiro Florestal pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), (fabiojgomes85@yahoo.com.br) e colaborador do portal EcoDebate \u2013 Cidadania &amp; Meio Ambiente. Atualmente faz mestrado em Ci\u00eancia do Solo com \u00eanfase em Recursos Ambientais e Uso da Terra pela UFLA atuando no Projeto \u201cConservador das \u00c1guas\u201d no munic\u00edpio de Extrema\/MG desenvolvendo um projeto de pesquisa que visa determinar a qualidade do solo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 eros\u00e3o h\u00eddrica de uma sub-bacia hidrogr\u00e1fica. 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