{"id":36156,"date":"2016-01-30T10:42:03","date_gmt":"2016-01-30T13:42:03","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=36156"},"modified":"2016-01-30T10:42:03","modified_gmt":"2016-01-30T13:42:03","slug":"a-economia-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-economia-do-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"A economia do fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p><em><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-192138\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/economiameioambiente.jpg\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/economiameioambiente-300x298.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/economiameioambiente.jpg 640w\" alt=\"economiameioambiente\" width=\"340\" height=\"338\" \/>Por Dal Marcondes*<\/em><\/p>\n<p><em>Movimentar a economia por meio do consumo foi uma decis\u00e3o tomada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, e serviu apenas para acelerar o uso e a degrada\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e econ\u00f4micos do planeta.<\/em><\/p>\n<p>Os Estados Unidos emergiram da Segunda Guerra Mundial como a \u00fanica grande economia que n\u00e3o teve sua ind\u00fastria arrasada por bombas. Um parque produtivo superdimensionado pela guerra, uma economia global em frangalhos e milhares de soldados voltando para casa. O que fazer para n\u00e3o voltar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de recess\u00e3o anterior \u00e0 guerra, quando hordas de desempregados vagavam em busca de trabalho e comida? A ideia, aparentemente genial, veio de um consultor norte-americano especializado em varejo, Victor Lebow, que viu na acelera\u00e7\u00e3o do ciclo de produ\u00e7\u00e3o e consumo a sa\u00edda para o impasse: \u201cnossa economia enormemente produtiva (\u2026) requer que fa\u00e7amos do consumo o nosso modo de vida, que convertamos a compra e o uso de mercadorias em rituais (\u2026) que busquemos a nossa satisfa\u00e7\u00e3o espiritual ou do nosso ego no consumo (\u2026) n\u00f3s precisamos de coisas consumidas, destru\u00eddas, gastas, substitu\u00eddas e descartadas numa taxa continuamente crescente\u201d. E isto foi feito, a ponto de 99% dos produtos vendidos pelo com\u00e9rcio nos Estados Unidos j\u00e1 terem sido abandonados no fundo de arm\u00e1rios ou gavetas, ou simplesmente descartados em apenas seis meses.<\/p>\n<p>A economia do consumo substituiu a \u201ceconomia do abastecimento\u201d, na qual as pessoas compravam aquilo que precisavam e a ideia central era vender mais, para mais pessoas. Nossos av\u00f3s compravam coisas dur\u00e1veis para poderem se dedicar a outras atividades e n\u00e3o terem de retornar sempre \u00e0s compras para repor coisas cuja obsolesc\u00eancia foi planejada em um laborat\u00f3rio. \u201cDa mesma forma que se planejou a sociedade de consumo, \u00e9 preciso planejar que tipo de economia vai desconstruir essa armadilha onde nos metemos\u201d, explica o economista Ladislau Dowbor. H\u00e1 diagn\u00f3sticos realizados e metas estabelecidas sobre o que h\u00e1 de errado com o modelo econ\u00f4mico atual, que mant\u00e9m cerca de um ter\u00e7o da humanidade sem acesso a direitos universais como educa\u00e7\u00e3o, \u00e1gua e saneamento, alimentos e habita\u00e7\u00e3o, entre outros. No entanto, h\u00e1 uma cr\u00f4nica falta de planejamento sobre como mudar a produ\u00e7\u00e3o e o consumo em dire\u00e7\u00e3o a uma economia de baixo impacto ambiental e dentro das metas nacional e global de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de carbono.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que a economia deu grandes saltos nestes 50 anos, com o desenvolvimento de tecnologias e materiais extremamente avan\u00e7ados. No entanto, as curvas de crescimento da popula\u00e7\u00e3o, do Produto Interno Bruto, da extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, da redu\u00e7\u00e3o de florestas e da sobrepesca mostram que os n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o do planeta e os impactos causados pelas atividades humanas v\u00eam crescendo de forma exponencial nos \u00faltimos 50 anos (ver gr\u00e1fico 1). E isto est\u00e1 acontecendo apesar do aumento da efici\u00eancia no uso de materiais e energia no mesmo per\u00edodo. Os carros dirigidos por nossos av\u00f3s continham mais materiais (eram mais pesados) e consumiam mais combust\u00edvel do que qualquer outro nas ruas de hoje. Por\u00e9m, o volume de combust\u00edvel utilizado hoje pela humanidade \u00e9 centenas de vezes maior do que 50 anos atr\u00e1s. \u201cA ecoefici\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o tem caminhado a passos largos, mas o modelo de economia baseado no ciclo de acelera\u00e7\u00e3o do consumo e descarte apenas aumenta o impacto sobre os ecossistemas e n\u00e3o reduz as desigualdades sociais\u201d, explica Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Nos anos 1950, a diferen\u00e7a de sal\u00e1rios entre um oper\u00e1rio da General Motors e seu presidente era cerca de 50 vezes. Hoje, em grande parte das empresas globais essa diferen\u00e7a entre ch\u00e3o de f\u00e1brica e alta dire\u00e7\u00e3o pode atingir quase mil vezes. Para modificar este quadro \u00e9 necess\u00e1rio o planejamento do uso dos recursos naturais e energ\u00e9ticos de forma a definir onde se quer chegar. \u201cAlgumas pessoas diriam que isto \u00e9 socialismo\u201d, diz Luiz Pinguelli Rosa, cientista e diretor da Coppe, \u00f3rg\u00e3o ligado \u00e0 Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos mais respeitados centros de pesquisa em engenharia da Am\u00e9rica Latina. Pinguelli Rosa explica que a \u00e1rea de energia precisa de um planejamento com d\u00e9cadas de anteced\u00eancia para evitar apag\u00f5es. \u201cOs investimentos s\u00e3o altos e os projetos demoram para entrar em opera\u00e7\u00e3o\u201d. Por isto, planejar \u00e9 fundamental, mas o mesmo n\u00e3o acontece com outras \u00e1reas da economia. \u201cMuita coisa \u00e9 deixada para a vontade do mercado\u201d, diz o pesquisador. O mercado, no entanto, n\u00e3o tem uma vis\u00e3o de futuro, apenas busca solu\u00e7\u00f5es para manter sua diretriz de crescimento em um planeta com recursos naturais finitos. \u201cEssa filosofia de crescer por crescer s\u00f3 tem um paralelo na natureza, o c\u00e2ncer\u201d, explica Ladislau Dowbor.<\/p>\n<p>A desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios entre a humanidade \u00e9 gritante. Os 20% mais ricos se apropriam de 82,7% da renda. Os dois ter\u00e7os mais pobres t\u00eam acesso a apenas 6% da renda, e esta disparidade vem crescendo. Em 1960, a renda apropriada pelos 20% mais ricos era 70 vezes maior do que a renda dos 20% mais pobres. Em 1989, essa diferen\u00e7a havia subido para 140 vezes. Para Dowbor, este \u00e9 o problema central a ser atacado, e fazer a economia crescer n\u00e3o passa nem perto de solucionar o problema \u00e9tico da injusti\u00e7a e dos dramas de bilh\u00f5es de pessoas. \u201cN\u00e3o haver\u00e1 tranquilidade no planeta enquanto a economia for organizada em fun\u00e7\u00e3o de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Um dado importante, levantado por Ricardo Young, empres\u00e1rio e ex-presidente do Instituto Ethos, organiza\u00e7\u00e3o que atua em responsabilidade socioambiental empresarial, \u00e9 que j\u00e1 h\u00e1 mudan\u00e7as em curso na economia. \u201cPor\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o uniformes\u201d, alerta. Para ele muitas empresas e governos est\u00e3o n\u00e3o apenas preocupados, mas atuando para reverter o quadro de degrada\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e ambiental. \u201c\u00c9 o caso do Brasil, que est\u00e1 conseguindo ampliar a renda nas classes mais baixas e, tamb\u00e9m, vem exercendo uma lideran\u00e7a global em temas\u00a0 ambientais, como as metas que o governo assumiu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d, explica. Young alerta que \u00e9 preciso saber identificar os movimentos na sociedade, que buscam uma nova organiza\u00e7\u00e3o da economia, mais criativa, com menor impacto ambiental e maior benef\u00edcio social. E esta tend\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 sendo identificada apenas por militantes sociais ou economistas otimistas. Um estudo publicado pela revista inglesa <em>The Economist<\/em> concluiu que a ascens\u00e3o das mulheres na sociedade nos \u00faltimos dez anos contribuiu mais para o crescimento global da economia do que o desenvolvimento da China. Essa percep\u00e7\u00e3o levou a ag\u00eancia Goldman Sachs a indicar que diversas regi\u00f5es do mundo poderiam aumentar seu PIB se reduzissem as desigualdades nas taxas de emprego de homens e mulheres. O Brasil poderia se beneficiar ainda mais desse movimento de equil\u00edbrio entre os g\u00eaneros no trabalho. Desde os anos 1970, essa inclus\u00e3o vem avan\u00e7ando. Naquela \u00e9poca, as mulheres representavam 20% dos trabalhadores do pa\u00eds, passando para 44% no final da primeira d\u00e9cada do S\u00e9culo 21. Registre-se ainda que 35% dos lares brasileiros s\u00e3o chefiados por mulheres.<\/p>\n<p>O Brasil atualmente vive uma grande oportunidade para planejar seu desenvolvimento com base em quest\u00f5es bastante objetivas, como os investimentos superiores a R$ 500 bilh\u00f5es que est\u00e3o em andamento em todo o pa\u00eds por conta dos grandes eventos esportivos dos pr\u00f3ximos anos, as Olimp\u00edadas do Rio de Janeiro, a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es e a Copa do Mundo de Futebol. Entretanto, \u00e9 preciso integrar os esfor\u00e7os e mostrar uma certa l\u00f3gica na dire\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios desejados, como melhorar a mobilidade nas cidades e redirecionar esfor\u00e7os para uma sociedade que esteja estruturada em uma economia menos baseada em consumo e exporta\u00e7\u00e3o de <em>commodities<\/em>, e mais focada em desenvolver vetores como cultura, turismo, bioci\u00eancia, educa\u00e7\u00e3o e conhecimento. No entanto, o pa\u00eds tem adotado nos \u00faltimos anos a mesma ortodoxia econ\u00f4mica com que o mundo tenta enfrentar a sucess\u00e3o de crises que assola o planeta desde 2008, estimulando o aumento do consumo sem exigir contrapartidas da ind\u00fastria ou do sistema financeiro. \u201cO momento \u00e9 especial para uma troca de gentilezas, o governo estimula o consumo, mas deveria exigir mais efici\u00eancia no uso de energia e mat\u00e9rias-primas\u201d, explica o tamb\u00e9m economista Ignacy Sachs, que preconiza a necessidade de planejamento para adequar o modelo econ\u00f4mico \u00e0 realidade do S\u00e9culo 21. Nas rela\u00e7\u00f5es com o mundo, entre 1998 e 2008 as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de <em>commodities<\/em> passaram de 20% para 35% do com\u00e9rcio exterior. Se, por um lado, isso elevou as reservas internacionais do pa\u00eds, por outro barateou as importa\u00e7\u00f5es e desestimulou a ind\u00fastria local, al\u00e9m do impacto sobre \u00e1reas naturais para a amplia\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o dessas <em>commodities<\/em>.<\/p>\n<p>Segundo o diretor-geral do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, o consumo global chegou a nove toneladas anuais de mat\u00e9rias-primas por pessoa na Terra, e isso para os atuais sete bilh\u00f5es de habitantes. Em um planeta com nove bilh\u00f5es de pessoas, o consumo <em>per capita<\/em> n\u00e3o poder\u00e1 ficar acima de cinco ou seis toneladas por habitante. Outra quest\u00e3o importante \u00e9 o consumo de energia por habitante, que, segundo o Departamento para Assuntos Econ\u00f4micos e Sociais da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), deveria ser limitado a 70 gigajaules por ano. Trocando em mi\u00fados, isto significa que um europeu m\u00e9dio teria de cortar pela metade seu consumo de energia, enquanto um norte-americano poderia utilizar apenas 25% do que gasta atualmente. J\u00e1 um indiano poderia multiplicar por quatro os 15 gigajaules que utiliza. O Brasil est\u00e1 no meio termo, com cerca de 50 gigajaules por ano por pessoa. Contudo, h\u00e1 que se levar em conta a desigualdade e o desequil\u00edbrio no uso dessa energia.<\/p>\n<p>O mundo vive atualmente uma conflu\u00eancia de crises, onde o desequil\u00edbrio financeiro, ambiental e social oferece oportunidades para a constru\u00e7\u00e3o de novos pontos de apoio. E a Confer\u00eancia da ONU sobre o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, a Rio+20, que acontecer\u00e1 em junho do ano que vem, pode ser um ponto de partida importante para esta estrat\u00e9gia. O jornalista e ambientalista Aron Belinky, que atua na articula\u00e7\u00e3o de demandas da sociedade civil para o evento, explica que empresas e organiza\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o mais avan\u00e7adas do que governos na busca de solu\u00e7\u00f5es. \u201cTemos de entender que a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ambiental, como alguns acreditam, mas de modelo de desenvolvimento e de governan\u00e7a global\u201d, explica. Para ele, os governos devem assumir compromissos para planejar uma sa\u00edda dessa encruzilhada, que olhe para o futuro e entenda que h\u00e1 limites que precisam ser encarados e respeitados. Por\u00e9m, lembra que isto n\u00e3o significa a estagna\u00e7\u00e3o, mas sim um modelo de desenvolvimento focado em valores \u00e9ticos e criativos, onde as pessoas possam ter acesso aos seus direitos universais nesta e em todas as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p><em>* <strong>Dal Marcondes<\/strong> \u00e9 jornalista, diretor da Envolverde e especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <em>Envolverde<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dal Marcondes* Movimentar a economia por meio do consumo foi uma decis\u00e3o tomada ap\u00f3s<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Dal Marcondes* Movimentar a economia por meio do consumo foi uma decis\u00e3o tomada ap\u00f3s","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36156"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36156"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36156\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}