{"id":35710,"date":"2016-01-23T00:14:39","date_gmt":"2016-01-23T03:14:39","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=35710"},"modified":"2016-01-23T00:15:06","modified_gmt":"2016-01-23T03:15:06","slug":"mudancas-climaticas-versus-interesses-privados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/mudancas-climaticas-versus-interesses-privados\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas versus interesses privados"},"content":{"rendered":"<div class=\"texto\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ecodesenvolvimento.org\/posts\/2016\/posts\/janeiro\/artigo-mudancas-climaticas-versus-interesses\/images\/emissoes-ecod.jpg\" alt=\"emissoes-ecod.jpg\" width=\"640\" height=\"391\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda_foto\">Queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis contribui para o aquecimento global<br \/>\nFoto:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/booleansplit\/14664075014\/in\/photolist-okPdBy-eb5aa7-9zRogi-4B11e8-bk5t8E-jGjdgM-jzafuK-b7BhF-jBRW4x-9p2Hsw-pbKkbV-cTMTJY-9YSZqU-qnEFGX-qPYxpd-63NeUj-83kG4o-e3BW9E-fmYcT5-6VJXqq-5nCcEv-8171YW-4aWeJ5-n4JeK-pfztJt-5f9yVp-bKzuqe-fPYHyj-epEPc-7kzYHo-aopYhb-6A2yL7-5vSqWs-d7N3ty-9ytL2f-97wtEq-4ZpYU3-sWeZ8c-fpZ4F5-oCxRhF-jpXSd7-pT3Ybo-jrt9bs-oKiPxn-opA8tA-sD13Dn-6qxqy3-7deWGB-BZ7Ld8-7deWWr\" target=\"_blank\">Robert S. Donovan\/ Flickr\/ (cc)<\/a><\/span><\/p>\n<p><strong>Por Heitor Scalambrini Costa*<\/strong><\/p>\n<p>Contra fatos n\u00e3o existem argumentos, principalmente os falaciosos. Sem d\u00favida, hoje, os combust\u00edveis f\u00f3sseis, particularmente o petr\u00f3leo (seus derivados) \u00e9 o principal respons\u00e1vel pelo aquecimento global e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que est\u00e3o ocorrendo no planeta. Os combust\u00edveis f\u00f3sseis s\u00e3o os maiores emissores dos gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento da Terra.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2015, depois de 18 anos de negocia\u00e7\u00f5es, as 195 na\u00e7\u00f5es que integram a Conven\u00e7\u00e3o da ONU sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas chegaram a um novo pacto, ap\u00f3s a assinatura do Protocolo de Kyoto. No acordo de Paris (COP21), uma das decis\u00f5es mais importantes foi o compromisso un\u00e2nime dos pa\u00edses em reduzir as emiss\u00f5es, favorecendo e incentivando mudan\u00e7as em suas matrizes energ\u00e9ticas. Levou-se em conta a import\u00e2ncia e a urg\u00eancia de se agir contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas provocadas pelo homem, comprometendo os pa\u00edses a terem metas para que o aumento da temperatura m\u00e9dia fique abaixo de 2\u00b0C, buscando limit\u00e1-la a 1,5\u00b0C.<\/p>\n<p>Indubitavelmente, existe hoje um reconhecimento de que a ci\u00eancia estava certa sobre o aquecimento global. Os fatos s\u00e3o incontest\u00e1veis. O ano de 2015 termina como aquele mais quente at\u00e9 ent\u00e3o registrado, superando 2014 que detinha a marca anterior. E 2016, segundo a previs\u00e3o da ag\u00eancia meteorol\u00f3gica brit\u00e2nica (Met Office), ultrapassar\u00e1 ambos.<\/p>\n<p>Em 2015 a temperatura m\u00e9dia da atmosfera terrestre esteve 1\u00baC acima do registrado no per\u00edodo pr\u00e9-industrial, quando iniciou o consumo dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e a emiss\u00e3o em larga escala dos gases causadores do efeito estufa, como o CO<sub>2<\/sub>.<\/p>\n<p>Incontestavelmente, o petr\u00f3leo e seus derivados s\u00e3o o inimigo n\u00famero um do aquecimento global e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que assolam o planeta Terra. Portanto, reduzir e mesmo abolir o consumo desta fonte energ\u00e9tica, assim como de outros combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 atualmente imperativo para que a temperatura do planeta n\u00e3o se eleve acima de 2\u00baC, considerada critica pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, conhecido como o f\u00f3rum que re\u00fane os \u201ccientistas da ONU\u201d).<\/p>\n<div class=\"olho\">A consci\u00eancia coletiva transformada em pr\u00e1tica atuante poder\u00e1 pender a balan\u00e7a para os interesses p\u00fablicos envolvidos nesta quest\u00e3o que interesse a toda civiliza\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p>Todavia, diante desta constata\u00e7\u00e3o irrefut\u00e1vel cientificamente, setores poderosos economicamente (empresas petrol\u00edferas, montadoras, ind\u00fastrias qu\u00edmicas, ind\u00fastria do carv\u00e3o, sider\u00fargicas) e de grande influ\u00eancia em governos e em estruturas pol\u00edticas manipulam a opini\u00e3o p\u00fablica e travam verdadeira guerra psicol\u00f3gica para desacreditar o debate sobre o aquecimento e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais.<\/p>\n<p>Exemplos destas iniciativas n\u00e3o faltam.\u00a0A empresa Exxonmobil, a maior petrol\u00edfera do mundo, na \u00faltima d\u00e9cada gastou milh\u00f5es de d\u00f3lares montando um time de pesquisadores para manipular a opini\u00e3o p\u00fablica sobre o aquecimento, usando o poder econ\u00f4mico para desacreditar a tese do IPCC sobre o aquecimento global e a mudan\u00e7a do clima no planeta.<\/p>\n<p>O caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 do cientista Wei-Hock Soon, do Centro Harvard-Smithsonian de Astrof\u00edsica. Segundo mat\u00e9ria publicada no jornal <em>New York Times<\/em> de 21 de fevereiro de 2015, documentos obtidos nos termos da Lei de Liberdade de Informa\u00e7\u00e3o americana, comprovam que este cientista foi financiado pela ind\u00fastria do petr\u00f3leo durante longos anos. Neste per\u00edodo ele apareceu em v\u00e1rios programas de TV, prestou depoimento no Congresso dos EUA, escreveu artigos cient\u00edficos e fez confer\u00eancias negando o aquecimento global e os riscos decorrentes, e que fosse causado por a\u00e7\u00f5es humanas (uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis), mas sim por varia\u00e7\u00f5es nas atividades do sol.<\/p>\n<p>A Koch Industries (dos irm\u00e3os Charles e David), a segunda maior empresa privada dos Estados Unidos e uma das 10 que mais poluem, detentora de refinarias de petr\u00f3leo no Alaska, no Texas e em Minnesota, al\u00e9m de f\u00e1bricas de celulose tem muitos motivos para lutar contra a redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases estufa.<\/p>\n<p>Conforme revelado pelo documentarista Roben Greenwald, no filme \u201cKoch Brothers Exposed\u201d, utilizam t\u00e1ticas intimidat\u00f3rias comprando ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, cientistas e pol\u00edticos para que ideias contr\u00e1rias ao debate sobre a vincula\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de poluentes e o aquecimento global fossem propagadas. Esta corpora\u00e7\u00e3o mant\u00e9m uma liga\u00e7\u00e3o muito estreita com a ultra-direita americana, e tamb\u00e9m financia o Partido Republicano, que resiste em aprovar medidas de corte de emiss\u00e3o no Congresso norte americano, onde det\u00e9m a maioria das cadeiras.<\/p>\n<p>As petrol\u00edferas americanas Exxon, Chevron e Conoco Philips consideram que ainda os combust\u00edveis f\u00f3sseis sustentar\u00e3o a economia mundial por muitas d\u00e9cadas. Defendem seus interesses e dos acionistas utilizando m\u00e9todos n\u00e3o diferentes dos irm\u00e3os Koch.<\/p>\n<div class=\"olho\">Mas ainda estamos muito aqu\u00e9m do que seria necess\u00e1rio para impedir o caos clim\u00e1tico<\/div>\n<p>J\u00e1 as corpora\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas europeias \u2013 Shell, BP, Total, Eni, Statoil -, admitiram recentemente que erraram sobre o posicionamento adotado contr\u00e1rio ao aquecimento global. Todavia ao fazerem o \u201cmea culpa\u201d creditaram as emiss\u00f5es ao uso do carv\u00e3o mineral, propondo assim precificar a polui\u00e7\u00e3o deste energ\u00e9tico. Todavia os Estados Unidos dependem dele para gerar 40% da eletricidade consumida, a China 80%, a \u00cdndia 70% e a Austr\u00e1lia 70%. Mesmo com investimentos crescentes em fontes renov\u00e1veis o discurso destes pa\u00edses \u00e9 contradit\u00f3rio e hip\u00f3crita.<\/p>\n<p>A fraude das emiss\u00f5es da Volkswagen, a maior empresa da Alemanha, tamb\u00e9m \u00e9 um evidente sinal de como as grandes corpora\u00e7\u00f5es atuam. N\u00e3o respeitam lei alguma, praticam todo tipo de manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pr\u00e1ticas para burlar os controles p\u00fablicos. Neste caso, diversos ve\u00edculos a diesel foram fabricados e comercializados como sendo de baixas emiss\u00f5es, mas na realidade emitiam n\u00edveis muito mais elevados de poluentes do que os declarados, com um software interno concebido para ludibriar os testes governamentais. Os gases emitidos desses carros podiam chegar a 40 vezes o limite legal de poluentes nos EUA, onde o caso foi denunciado por investigadores de uma ONG.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria petrol\u00edfera det\u00e9m um poder que influencia governos e estruturas pol\u00edticas. Dela depende a pol\u00edtica energ\u00e9tica dos grandes pa\u00edses poluidores, como China, \u00cdndia e EUA. Apesar dos investimentos globais em favor das energias renov\u00e1veis serem crescentes, ainda os investimentos globais em petr\u00f3leo nos \u00faltimos anos superam 3 a 5 vezes os investimentos em fontes renov\u00e1veis de energia (solar, e\u00f3lica, biomassa&#8230;).<\/p>\n<p>Desde a Confer\u00eancia RIO-92, por\u00e9m, a a\u00e7\u00e3o dos \u201cc\u00e9ticos do clima\u201d, muitos deles ligados ao poderoso lobby da ind\u00fastria do petr\u00f3leo, conseguiram barrar os avan\u00e7os que seriam necess\u00e1rios para evitar a situa\u00e7\u00e3o alarmante em que nos encontramos hoje. Existe uma grande semelhan\u00e7a nesta a\u00e7\u00e3o com o que ocorreu com o poderoso lobby da ind\u00fastria tabagista no s\u00e9culo passado. V\u00e1rios \u201ccientistas\u201d afirmavam naquela \u00e9poca, n\u00e3o haver rela\u00e7\u00e3o causa-efeito entre o tabaco e o c\u00e2ncer. O que s\u00f3 fez adiar medidas que poderiam salvar milhares de vida.<\/p>\n<p>Assim, cada vez mais, o debate sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas coloca de um lado as corpora\u00e7\u00f5es gananciosas que lutam contra a redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases estufa. De outro, os movimentos sociais lutam pela vida, por um planeta justo, \u00e9tico, plural e protegendo os ecossistemas naturais. A luta \u00e9 desigual. Todavia, a consci\u00eancia coletiva transformada em pr\u00e1tica atuante poder\u00e1 pender a balan\u00e7a para os interesses p\u00fablicos envolvidos nesta quest\u00e3o que interesse a toda civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A COP21 foi um novo ponto de partida, \u00e9 mais um passo na dire\u00e7\u00e3o certa ao n\u00edvel diplom\u00e1tico. Mas ainda estamos muito aqu\u00e9m do que seria necess\u00e1rio para impedir o caos clim\u00e1tico. O Acordo de Paris n\u00e3o traz compromissos suficientes, nem garantias, n\u00e3o t\u00eam mecanismos coercitivos, apenas propostas volunt\u00e1rias que n\u00e3o s\u00e3o suficientes para alcan\u00e7ar os objetivos anunciados.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 proposto \u00e9 muito vago e n\u00e3o vai impedir o aquecimento do planeta acima de 2\u00baC. As popula\u00e7\u00f5es mais pobres, as mais vulner\u00e1veis, principalmente do Hemisf\u00e9rio Sul, ser\u00e3o as que mais sofrer\u00e3o com o aumento do n\u00edvel do mar, com as inunda\u00e7\u00f5es e com a seca.<\/p>\n<p>Assim o engajamento nesta luta, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dos ambientalistas, mas de todos os homens e mulheres de boa vontade s\u00e3o fundamentais para a sobreviv\u00eancia da humanidade que est\u00e1 amea\u00e7ada se n\u00e3o houver profundas mudan\u00e7as no atual modelo civilizat\u00f3rio. O que implica mudar o modelo insustent\u00e1vel de produ\u00e7\u00e3o e consumo, al\u00e9m do pr\u00f3prio modo de vida das pessoas.<\/p>\n<p><em>*Professor da Universidade Federal de Pernambuco.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: EcoD<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis contribui para o aquecimento global Foto:\u00a0Robert S. 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