{"id":35621,"date":"2016-01-22T12:00:41","date_gmt":"2016-01-22T15:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=35621"},"modified":"2016-01-21T21:09:51","modified_gmt":"2016-01-22T00:09:51","slug":"sera-que-um-so-casal-seria-suficiente-para-salvar-a-especie-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/sera-que-um-so-casal-seria-suficiente-para-salvar-a-especie-humana\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que um s\u00f3 casal seria suficiente para salvar a esp\u00e9cie humana?"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\"><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/casal.jpg\" rel=\"attachment wp-att-35622\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-35622\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/casal-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/casal-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/casal.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Imaginemos a Terra daqui a cem anos. Suponhamos que os esfor\u00e7os da Humanidade tenham dado errado e um levante de rob\u00f4s tenha eliminado todos os seres humanos do planeta \u2013 um destino previsto por Stephen Hawking em 2014.<\/p>\n<p>Mas um casal sobreviveu. Ser\u00e1 que ele seria suficiente para repovoar o planeta?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 mais do que uma curiosa discuss\u00e3o de mesa de bar. Das pesquisas da Nasa sobre o n\u00famero de pessoas necess\u00e1rias para colonizar um novo planeta a decis\u00f5es de bi\u00f3logos sobre a preserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amea\u00e7adas, trata-se de um assunto cada vez mais importante e urgente no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>A primeira gera\u00e7\u00e3o descendente desse casal fict\u00edcio seria de irm\u00e3os e irm\u00e3s que teriam que se procriar entre si. Mas o incesto n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um enorme tabu como tamb\u00e9m \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n<p>Um estudo com crian\u00e7as nascidas na antiga Tchecoslov\u00e1quia entre 1933 e 1970 mostrou que quase 40% daquelas cujos pais eram parentes em primeiro grau apresentavam defici\u00eancias graves, enquanto 14% morreram ainda na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Probabilidades aumentadas<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"> <img loading=\"lazy\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/ws\/624\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2016\/01\/19\/160119210706_royalty_624x351_getty_nocredit.jpg\" alt=\"\" width=\"638\" height=\"359\" \/><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span> <span class=\"media-caption__text\"> Os efeitos negativos dos casamentos consangu\u00edneos surgiram nas fam\u00edlias reais da Europa <\/span> <\/figcaption><\/figure>\n<p>Para entendermos por que a consanguinidade \u00e9 t\u00e3o perigosa, precisamos nos lembrar das aulas de gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s temos duas c\u00f3pias de todos os genes, um da m\u00e3e e outro do pai. Mas algumas varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas n\u00e3o se manifestam, a n\u00e3o ser que os dois genes sejam exatamente iguais. S\u00e3o as chamadas varia\u00e7\u00f5es \u201crecessivas\u201d, que escapam do radar evolutivo porque sozinhas n\u00e3o causam problemas.<\/p>\n<p>Quando o casal tem um parentesco, n\u00e3o demora muito para esse \u201cdisfarce\u201d cair. \u00c9 o caso, por exemplo, da acromatopsia, um dist\u00farbio recessivo raro que provoca o daltonismo. Se um de nossos sobreviventes p\u00f3s-apocalipse tiver esse gene, h\u00e1 25% de chance de eles terem um filho com o mesmo gene.<\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed tudo bem. Mas depois de apenas uma gera\u00e7\u00e3o de casamentos consangu\u00edneos, o risco dispara \u2013 25% de chance de um filho ter os <i>dois<\/i> genes e apresentar o dist\u00farbio. Isso significa 1 chance em 16 de que cada neto daquele casal original nas\u00e7a com a doen\u00e7a em si.<\/p>\n<p>Foi isso o que aconteceu com os habitantes de Pingelap, um atol isolado no oeste do Pac\u00edfico. A popula\u00e7\u00e3o inteira descende de apenas 20 sobreviventes de um tuf\u00e3o que atingiu o local no s\u00e9culo 18. Um deles tinha o gene da acromatopsia. Hoje, 10% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 dalt\u00f4nica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Os riscos da realeza<\/h2>\n<p>Mesmo tendo em mente esses riscos, se os sobreviventes de nossa experi\u00eancia tivessem muitos filhos, pelo menos alguns deles seriam saud\u00e1veis. Mas o que acontece quando a consanguinidade prossegue por centenas de anos?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ir para uma ilha isolada para descobrir isso. H\u00e1 uma comunidade no mundo que costuma promover o casamento entre parentes pr\u00f3ximos: as fam\u00edlias reais europeias. Com nove gera\u00e7\u00f5es de casamentos estrat\u00e9gicos entre primos, tios e sobrinhos ao longo de 200 anos, os Habsburgos, da Espanha, se revelaram uma esp\u00e9cie de grande laborat\u00f3rio natural.<\/p>\n<p>Carlos 2\u00ba foi a v\u00edtima mais famosa dentro da fam\u00edlia. Nascido com v\u00e1rias defici\u00eancias f\u00edsicas e mentais, o rei s\u00f3 aprendeu a andar aos 8 anos de idade. Quando adulto, sua infertilidade resultou na extin\u00e7\u00e3o de toda uma dinastia.<\/p>\n<p>Em 2009, uma equipe de cientistas espanh\u00f3is descobriu a origem das afli\u00e7\u00f5es do rei. Seus ancestrais eram t\u00e3o emaranhados que seu \u201ccoeficiente de consanguinidade\u201d era maior do que se tivesse sido gerado por um casal de irm\u00e3os.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Queda na qualidade reprodutiva<\/h2>\n<p>Essa tamb\u00e9m \u00e9 a medida usada por ecologistas para avaliar os riscos gen\u00e9ticos enfrentados por esp\u00e9cies amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>\u201cEm uma popula\u00e7\u00e3o reduzida, todos os indiv\u00edduos acabar\u00e3o sendo parentes em algum momento. Conforme o parentesco aumenta, os efeitos da consanguinidade se tornam mais importantes\u201d, explica Bruce Robertson, zo\u00f3logo da Universidade de Otago, na Nova Zel\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 especializado no estudo dos kakapos, uma esp\u00e9cie de papagaio gigante que n\u00e3o voa que \u00e9 t\u00edpica do pa\u00eds mas hoje s\u00f3 tem 125 representantes no planeta.<\/p>\n<p>Uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es dos bi\u00f3logos s\u00e3o os efeitos da consanguinidade na qualidade dos espermatozoides. Isso aumentou a propor\u00e7\u00e3o de ovos que n\u00e3o resultam em nascimento de filhotes de 10% para 40%. \u201c\u00c9 um exemplo do problema causado pela exposi\u00e7\u00e3o a falhas gen\u00e9ticas recessivas em uma popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz Robertson.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Evolu\u00e7\u00e3o e imunidade<\/h2>\n<p>Esp\u00e9cies amea\u00e7adas tamb\u00e9m enfrentam riscos a longo prazo. Apesar de elas j\u00e1 estarem bem adaptadas a seu ambiente, a diversidade gen\u00e9tica permite que as esp\u00e9cies evoluam para se adaptar a futuras mudan\u00e7as. E a imunidade \u00e9 provavelmente a caracter\u00edstica mais importante trazida pela evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se de um aspecto que muitas esp\u00e9cies parecem dispostas a preservar, ao procurarem parceiros com uma composi\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica diferente, para que os filhotes apresentem uma gama maior de defesas. N\u00f3s, humanos, tamb\u00e9m fazemos isso\u201d, afirma Philip Stephens, zo\u00f3logo da Universidade de Durham, na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Mas mesmo se nossa esp\u00e9cie conseguisse se reproduzir e sobreviver, ter\u00edamos humanos irreconhec\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o ao que somos hoje.<\/p>\n<p>Quando pequenos bols\u00f5es de indiv\u00edduos permanecem isolados por muito tempo, eles se tornam suscet\u00edveis \u00e0 perda da diversidade gen\u00e9tica. Os novos humanos n\u00e3o s\u00f3 iriam ter uma apar\u00eancia e uma voz diferentes, como tamb\u00e9m poderiam ser uma esp\u00e9cie totalmente distinta.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Prote\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies<\/h2>\n<p>Ent\u00e3o, qual a variedade gen\u00e9tica necess\u00e1ria para uma reprodu\u00e7\u00e3o bem-sucedida?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que come\u00e7ou nos anos 80, quando um cientista australiano prop\u00f4s uma regra b\u00e1sica: a de que s\u00e3o necess\u00e1rios 50 reprodutores para evitar problemas reprodutivos decorrentes da consanguinidade, e outros 500 indiv\u00edduos para que a popula\u00e7\u00e3o consiga se adaptar ao ambiente\u201d, explica Stephens.<\/p>\n<p>Essa regra ainda \u00e9 usada hoje em dia, mas os n\u00fameros foram aumentados para 500 reprodutores e 5 mil indiv\u00edduos a mais, para compensar perdas aleat\u00f3rias de genes passados de uma gera\u00e7\u00e3o para a outra. \u00c9 o crit\u00e9rio usado para manter o cat\u00e1logo das esp\u00e9cies mais amea\u00e7adas do mundo.<\/p>\n<p>Mas antes de desistir daquele casal de sobreviventes, lembremos que somos a prova viva das falhas inerentes desse conceito.<\/p>\n<p>Segundo evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas e anat\u00f4micas, nossos ancestrais n\u00e3o teriam atingido essa meta populacional, j\u00e1 que apenas mil indiv\u00edduos viveram durante um per\u00edodo de 1 milh\u00e3o de anos.<\/p>\n<p>Entre 50 mil e 100 mil anos atr\u00e1s, enfrentamos novas dificuldades quando nossos ancestrais emigraram da \u00c1frica. Fomos deixados com uma diversidade gen\u00e9tica impressionantemente baixa.<\/p>\n<p>Um estudo realizado em 2012 sobre as diferen\u00e7as gen\u00e9ticas de grupos vizinhos de chimpanz\u00e9s indicou que h\u00e1 mais diversidade em cada um deles do que entre todos os 7 bilh\u00f5es de seres humanos que vivem hoje na Terra.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Colonizando outro planeta<\/h2>\n<p>Em 2002, o antrop\u00f3logo John Moore publicou um estudo pela Nasa, no qual calculou a quantidade de indiv\u00edduos necess\u00e1rios para colonizar um novo planeta. Ele fez uma estimativa moldada nos pequenos grupos n\u00f4mades da pr\u00e9-Hist\u00f3ria \u2013 cerca de 160 pessoas.<\/p>\n<p>Moore recomendou come\u00e7ar com casais jovens e sem filhos, e test\u00e1-los para a presen\u00e7a de genes recessivos potencialmente perigosos.<\/p>\n<p>Seus n\u00fameros permitem 200 anos de isolamento antes que os pioneiros colonizadores pudessem voltar \u00e0 Terra.<\/p>\n<p>Basicamente, se o apocalipse n\u00e3o destruir as bases da civiliza\u00e7\u00e3o moderna, a Humanidade pode reflorescer de maneira surpreendentemente r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Na virada do s\u00e9culo 20, os huteritas da Am\u00e9rica do Norte, cuja comunidade (semelhante \u00e0 dos Amish) \u00e9 altamente consangu\u00ednea, atingiram o maior n\u00edvel de crescimento populacional j\u00e1 registrado, dobrando a cada 17 anos.<\/p>\n<p>Pode parecer muito, mas se cada mulher do futuro tivesse oito filhos, poder\u00edamos voltar a ser 7 bilh\u00f5es em apenas 556 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imaginemos a Terra daqui a cem anos. 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