{"id":35258,"date":"2016-01-15T21:38:18","date_gmt":"2016-01-16T00:38:18","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=35258"},"modified":"2016-01-15T21:39:25","modified_gmt":"2016-01-16T00:39:25","slug":"toda-agua-e-benta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/toda-agua-e-benta\/","title":{"rendered":"Toda \u00e1gua \u00e9 benta"},"content":{"rendered":"<p><span id=\"conteudo\"><em><img loading=\"lazy\" class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/www.revistaecologico.com.br\/esite\/kcfinder\/upload\/images\/noticias\/Rio-Doce-na-altura-de-Pingo-d-Agua-credito-Anoeljr.jpg\" alt=\"Rio Doce, altura de Pingo d \u00c1gua (MG) - Imagem: anoeljr\" width=\"368\" height=\"245\" \/>Reuber Brand\u00e3o *<\/em><\/span><\/p>\n<p>Lembro muito de minha av\u00f3 materna. Moleque de pouca idade, toda vez que minhas aventuras terminavam mal (algo corriqueiro), l\u00e1 vinha ela acalmar meu choro e, invariavelmente, lavar meus arranh\u00f5es com \u00a0algumas gotinhas de \u00e1gua benta. N\u00e3o sei se era a \u00e1gua ou o carinho de minha av\u00f3, mas sempre funcionava.<\/p>\n<p>No misticismo cat\u00f3lico caipira de minha av\u00f3, nascida e criada na zona da mata mineira, no <strong>vale do rio Doce<\/strong>, era poss\u00edvel uma b\u00ean\u00e7\u00e3o conferir poderes especiais \u00e0 \u00e1gua. E, na inoc\u00eancia dos meus seis anos, essa ideia me fascinava. Poderia a \u00e1gua fazer milagres? Se minha amada avozinha dizia, era \u00f3bvio que sim\u2026<\/p>\n<p>Hoje, arrebatado pela vida no Planeta e entendendo a religi\u00e3o apenas como mitologia misturada a controle social, preservo meu direito a ter f\u00e9. Para mim, se existe algo que pode ser chamado de alma, algo partilhado e que une toda a vida, desde o seu g\u00eanesis, \u00e9 a \u00e1gua. O meio, o substrato e a ess\u00eancia b\u00e1sica\u2026<\/p>\n<p>A vida foi concebida imersa na \u00e1gua primordial. A vida sempre ondulou ao sabor da \u00e1gua, seguindo seus caminhos e caprichos. Toda vida precisa estar cercada de \u00e1gua para ser gerada e mantida. Mesmo os personagens m\u00edticos, concebidos sem sexo, cresceram no interior de um \u00fatero materno, repleto de \u00e1gua. O mesmo aconteceu com todos n\u00f3s, independentemente de credo, ra\u00e7a ou cor\u2026<\/p>\n<p>L\u00e1grimas de dor, de alegria ou de saudade, s\u00e3o \u00e1gua. O suor do esfor\u00e7o, do trabalho ou do amor, \u00e9 \u00e1gua. O sangue que jorra do cora\u00e7\u00e3o, irrigando e alimentando o corpo, \u00e9 \u00e1gua. O leite materno, que nutre e protege o que existe de mais importante, \u00e9 \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>Somos \u00e1gua, Todos.<\/strong><\/p>\n<p>A \u00e1gua refresca, limpa a poeira do corpo, carrega os res\u00edduos de nossas entranhas, leva o alimento para todos rec\u00f4nditos do nosso organismo. Sem \u00e1gua n\u00e3o vivemos, sem \u00e1gua nada cresce, sem \u00e1gua n\u00e3o h\u00e1 felicidade. Todos sabem disso. Por isso, cuidar da \u00e1gua, em todos os seus estados e manifesta\u00e7\u00f5es, \u00e9 sagrado, assim como s\u00e3o sagrados o nosso suor, o nosso sangue e nossas l\u00e1grimas. A \u00e1gua nos une e, em muitos casos, tamb\u00e9m nos separa&#8230; Podemos aprender muito sobre os seres humanos observando a forma como lidam, apropriam e valoram a \u00e1gua e outras manifesta\u00e7\u00f5es da vida no planeta.<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a viajava milhares de quil\u00f4metros, com minha fam\u00edlia, para visitar minha av\u00f3. A rodovia margeava o rio Doce, onde circulavam os \u00f4nibus azuis da via\u00e7\u00e3o Mar Doce. Para uma crian\u00e7a, o rio se chamar Doce era algo realmente muito especial. At\u00e9 minha adolesc\u00eancia, ap\u00f3s a partida de minha av\u00f3, seguir grande parte do rio Doce era o caminho certo at\u00e9 Caratinga e a pequena S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Sacramento, onde ela morava, na mesma casa onde meu pai havia nascido, antes das demandas da vida o conduzir, candango de tudo, ao Planalto Central, de paisagens t\u00e3o diferentes das matas frescas que vicejavam no topo das montanhas, onde o caf\u00e9 n\u00e3o havia chegado e onde era ainda poss\u00edvel encontrar monos-carvoeiros\u2026<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o havia mais matas ao longo do rio Doce&#8230; Me lembro do meu pai dizendo que, mesmo sendo Doce, n\u00e3o pod\u00edamos nadar naquele rio, j\u00e1 polu\u00eddo pelo esgoto das dezenas de cidades que pontuavam a paisagem \u00e0s suas margens. O Doce j\u00e1 estava amargo&#8230; J\u00e1 era v\u00edtima da aus\u00eancia de cuidado, do descaso e do desperd\u00edcio t\u00edpico das pessoas acostumadas com a fartura de \u00e1gua. Desperdi\u00e7avam at\u00e9 o que era Doce&#8230;<\/p>\n<p>Por fim, terminaram de destruir o rio Doce&#8230; Rejeitos seguem seu caminho morto, agora atingindo os fr\u00e1geis ecossistemas marinhos no Esp\u00edrito Santo e Bahia, solapando e envenenando homeopaticamente os delicados bancos coralinos e os organismos associados.<\/p>\n<p>O tempo passou. Hoje, o que era Doce, se acabou. N\u00e3o consigo evitar que l\u00e1grimas de tristeza salguem meus olhos, que a indigna\u00e7\u00e3o, diante da aura de impunidade que circunda os poderosos torne minhas palavras azedas, e que um profundo sentimento de revolta amargue meu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas a minha alma que est\u00e1 amarga. Acredito que a ess\u00eancia da humanidade, a alma das pessoas, est\u00e1 polu\u00edda pelo ego\u00edsmo, pela vaidade, pelo descaso, pela sedimenta\u00e7\u00e3o de res\u00edduos t\u00f3xicos, criados por valores equivocados. N\u00e3o tenho f\u00e9 na humanidade. Estamos polu\u00eddos pelo desrespeito \u00e0 vida, pela ignor\u00e2ncia transvestida em progressismo irrespons\u00e1vel, pela confus\u00e3o no entendimento sobre o que \u00e9 realmente importante, sobre o que realmente tem valor. N\u00e3o respeitamos a vida. Estamos perdendo a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser humano. De onde viemos e para onde vamos. N\u00e3o conseguimos mais ver o que realmente \u00e9 sagrado.<\/p>\n<p>Por melhores que sejam as inten\u00e7\u00f5es, n\u00e3o adianta orar pelo <strong>rio Doce<\/strong>. Tais preces n\u00e3o ir\u00e3o desfazer o pecado original do nosso descaso quanto \u00e0s nossas responsabilidades sobre o uso que fazemos da natureza. Do pecado original do nosso descaso com a vida. De pouco adianta resgatar os peixes do rio Doce, pois quem realmente precisa de resgate somos n\u00f3s. Somos n\u00f3s que precisamos de salva\u00e7\u00e3o, que precisamos depurar a polui\u00e7\u00e3o de nosso esp\u00edrito e de nossa exist\u00eancia. Somos t\u00e3o ego\u00edstas que imaginamos que nossos umbigos s\u00e3o maiores que o planeta. Somos soberbos pelo quanto acumulamos de dinheiro e poder. Nossa vaidade \u00e9 proporcional \u00e0 nossa pegada ecol\u00f3gica.<br \/>\nSe n\u00e3o resgatarmos nossa alma, n\u00e3o haver\u00e1 humanidade, n\u00e3o haver\u00e1 natureza, n\u00e3o haver\u00e1 futuro. Apenas um mundo repleto de zumbis amorais, sem alma, sem valores, sem vida.<\/p>\n<p>Desculpem pelo texto. N\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnico, n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfico, n\u00e3o vale nada. \u00c9 apenas um libelo, um triste desabafo diante da cegueira est\u00fapida e da impot\u00eancia diante da imbecilidade. Eu n\u00e3o podia nadar no rio Doce. Meus filhos n\u00e3o poder\u00e3o imaginar que o Doce j\u00e1 foi um rio. Os que morreram, pessoas e animais, nunca mais. Temo pela heran\u00e7a dos filhos dos nossos filhos&#8230; Herdar\u00e3o um planeta destru\u00eddo, repleto de vidas corrompidas? Mas minha maior tristeza, na realidade, \u00e9 nossa incapacidade para resgatarmos nossa pr\u00f3pria alma. Realmente merecemos o inferno, para a felicidade daqueles que j\u00e1 se tornaram dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>N\u00f3s decidimos nosso destino, decidimos o que fazer com nossa alma. Cabe a cada um resgatar a si mesmo e o que \u00e9 sagrado ao seu redor, sem reza, ter\u00e7o, manual de instru\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ou l\u00edder espiritual. Precisamos apenas de moral e de valores verdadeiros para lavar a polui\u00e7\u00e3o de nossa alma. E minha av\u00f3, na sua simplicidade e humildade, estava coberta de raz\u00e3o. Toda \u00e1gua \u00e9 benta.<\/p>\n<p><em>* Bi\u00f3logo e doutor em ecologia, leciona manejo de fauna e manejo de \u00e1reas protegidas na Universidade de Bras\u00edlia. Estuda r\u00e9pteis e anf\u00edbios com paix\u00e3o. Analista Ambiental do IBAMA entre 2002 e 2006<\/em><\/p>\n<p>Fonte: O Eco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reuber Brand\u00e3o * Lembro muito de minha av\u00f3 materna. 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