{"id":34976,"date":"2016-01-11T15:00:15","date_gmt":"2016-01-11T18:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=34976"},"modified":"2016-01-10T19:15:56","modified_gmt":"2016-01-10T22:15:56","slug":"inventario-da-flora-nas-montanhas-da-amazonia-descobre-especies-ineditas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/inventario-da-flora-nas-montanhas-da-amazonia-descobre-especies-ineditas\/","title":{"rendered":"Invent\u00e1rio da flora nas montanhas da Amaz\u00f4nia descobre esp\u00e9cies in\u00e9ditas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/inventario_floresta.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-34977\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/inventario_floresta-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/inventario_floresta-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/inventario_floresta.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>N\u00e3o h\u00e1 oceano no entorno. Em vez disso, uma mata densa e \u00e1reas de igarap\u00e9s alagadas transformam montanhas com quase tr\u00eas mil metros de altitude em ilhas territoriais. Nessa por\u00e7\u00e3o de terra onde as fronteiras de Brasil, Guiana e Venezuela se encontram, no extremo norte da Floresta Amaz\u00f4nica, reside um laborat\u00f3rio vivo da biologia, cercado por lendas e protegido pelo isolamento.<\/p>\n<p>Foi nesse cen\u00e1rio que um grupo de pesquisadores do Jardim Bot\u00e2nico do Rio, de diferentes \u00e1reas de estudo, desbravou \u2014 de barco, de helic\u00f3ptero e a p\u00e9 \u2014 as serras Grande, do Arac\u00e1 e da Mocidade, o Pico da Neblina e o Monte Cabura\u00ed em busca de um elo verde perdido. Em cinco expedi\u00e7\u00f5es, entre 2011 e 2014, num total de 50 dias de pesquisa em campo, foram coletadas quatro mil amostras de plantas que, agora, est\u00e3o sendo identificadas e catalogadas por bot\u00e2nicos. Entre elas, encontram-se oito registros in\u00e9ditos para a ci\u00eancia, 52 exemplares encontrados pela primeira vez em solo brasileiro e outras dezenas conhecidas antes pela equipe apenas por ilustra\u00e7\u00f5es e exemplares conservados em herb\u00e1rios.<\/p>\n<p>A empreitada, ao custo de R$ 1,7 milh\u00e3o, foi uma ousadia em muitos sentidos, e deu origem a um livro a ser lan\u00e7ado no pr\u00f3ximo dia 19. As regi\u00f5es escolhidas sequer tinham um invent\u00e1rio pr\u00e9vio de plantas, ou somente listagens reduzidas, e tratam-se de \u00e1reas in\u00f3spitas e distantes at\u00e9 mesmo de um vilarejo ribeirinho ou de uma aldeia ind\u00edgena, al\u00e9m de estarem sujeitas a mudan\u00e7as bruscas nas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Tal qual a Gal\u00e1pagos de Charles Darwin, as montanhas que fazem parte do Escudo das Guianas \u2014 forma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica mais antiga da Am\u00e9rica do Sul \u2014 apresentam uma rica biodiversidade, preservada ap\u00f3s eras de evolu\u00e7\u00e3o. Seus picos conhecidos como tepuis, palavra ind\u00edgena para \u201cmorada dos deuses\u201d, s\u00e3o individualmente isolados em vez de constitu\u00edrem uma cadeia montanhosa, ambiente que propicia o desenvolvimento de esp\u00e9cies \u00fanicas. E, at\u00e9 ent\u00e3o, permaneciam praticamente inexplorados por bot\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Adentrar uma \u00e1rea inacess\u00edvel, e portanto mais preservada, \u00e9 um caminho para encontrar respostas a quest\u00f5es sobre como detectar a amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o e como algumas esp\u00e9cies sobrevivem sob determinadas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Catalogar biodiversidade \u00e9 o primeiro passo para qualquer tipo de estudo futuro. No momento j\u00e1 estamos realizando estudos com gen\u00e9tica de popula\u00e7\u00f5es para entender melhor como foi a evolu\u00e7\u00e3o desses ecossistemas de montanhas ao longo do tempo \u2014 afirma o pesquisador do Jardim Bot\u00e2nico Marcus Nadruz, coordenador do projeto, que teve patroc\u00ednio da Natura.<\/p>\n<p>Caixas com dezenas de plantas extraviadas pela companhia a\u00e9rea, fot\u00f3grafo perdido na mata e princ\u00edpio de inc\u00eandio na estufa montada no barco. A primeira expedi\u00e7\u00e3o do grupo, muito al\u00e9m de conquistas de cumes e trechos alagados, representou um batismo de percal\u00e7os prosaicos, a come\u00e7ar pela log\u00edstica envolvida em toda incurs\u00e3o \u00e0 floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 A cada expedi\u00e7\u00e3o fomos aprendendo. Na primeira, coloc\u00e1vamos as esp\u00e9cies em caixas de papel\u00e3o, o que n\u00e3o conserva t\u00e3o bem, e n\u00e3o faz\u00edamos uma lista do que estava em cada uma. Perder orqu\u00eddeas e brom\u00e9lias para cultivo no trajeto de avi\u00e3o at\u00e9 o Rio foi um custo muito alto, mas aprendemos a nos precaver \u2014 lembra a pesquisadora Denise Pinheiro da Costa.<\/p>\n<p>Equipamentos de geolocaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foram inclu\u00eddos na lista de precau\u00e7\u00f5es depois de um susto na equipe.<\/p>\n<p>\u2014 Eu aproveitava a tarde para circular perto do acampamento. Fui andando, mas perdi a refer\u00eancia, embora a vegeta\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse alta. J\u00e1 me perdi na Amaz\u00f4nia, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito inc\u00f4moda. Na segunda vez, j\u00e1 estava com GPS. E depois a equipe levou aparelhos de emerg\u00eancia para localizar e pedir resgate \u2014 lembra o fot\u00f3grafo Ricardo Azoury.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, as expedi\u00e7\u00f5es contabilizavam bagagens de at\u00e9 uma tonelada, quase 200kg por membro. Al\u00e9m dos itens b\u00e1sicos de qualquer trilheiro \u2014 lanterna, barraca, sacos de dormir, itens de farm\u00e1cia, fac\u00f5es etc. \u2014, o kit de sobreviv\u00eancia dos bot\u00e2nicos inclu\u00eda vidros para a coleta de amostras, \u00e1lcool para secagem, s\u00edlica gel para extra\u00e7\u00e3o de DNA, cintas e grades de madeira para a prensagem das plantas. Somavam-se a isso v\u00e1rios botij\u00f5es de g\u00e1s para o funcionamento de uma estufa m\u00f3vel e para uso na cozinha.<\/p>\n<p>\u2014 Cozinhar no acampamento tem uma log\u00edstica complexa. \u00c9 preciso improvisar. Na primeira expedi\u00e7\u00e3o n\u00f3s mesmos cozinhamos, mas depois levamos um cozinheiro. N\u00e3o \u00e9 luxo. \u00c9 uma quest\u00e3o de aproveitar a luz do fim do dia para trabalhar \u2014 explica Rafaela Forzza, curadora do herb\u00e1rio do Jardim Bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>No card\u00e1pio, arroz, feij\u00e3o, carne-seca, salame, frutas, goiabada, castanhas, queijos duros e caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Chocolate derrete todo. O brigadeiro \u00e9 que salva \u2014 conta ela, lembrando que alguns mateiros experimentaram pela primeira vez a iguaria. \u2014 Farinha n\u00e3o pode faltar sen\u00e3o rola uma insurrei\u00e7\u00e3o. Para a trilha, os mateiros fazem pa\u00e7oca de farinha e carne-seca. Sandu\u00edche ou barrinha de cereal n\u00e3o t\u00eam vez. Nas panelas, o cozinheiro Waldir Xurim\u00e3, descendente ind\u00edgena que improvisava nos utens\u00edlios enquanto embalava os integrantes da expedi\u00e7\u00e3o com cl\u00e1ssicos do jazz.<\/p>\n<p>\u2014 Ele \u00e9 uma figura. Morou em Nova York, no Bronx, por dois anos. Fala ingl\u00eas, espanhol, ianom\u00e2mi, portugu\u00eas. \u00c9 um ser global, com todas as viv\u00eancias da selva. Al\u00e9m de ser engra\u00e7ado e espirituoso \u2014 define Azoury.<\/p>\n<p>A jornada come\u00e7ava por volta das 7h e durava at\u00e9 as 23h. Pela manh\u00e3, as equipes se dividiam em duplas ou trios para cobrir uma \u00e1rea maior de pequisa. Logo depois do almo\u00e7o, iniciava-se o trabalho de descri\u00e7\u00e3o, prensagem e secagem do material.<\/p>\n<p>\u2014 Nos revez\u00e1vamos para tomar conta da estufa. As plantas ficam envoltas em papel\u00e3o para a secagem, \u00e9 f\u00e1cil pegar fogo. Um dia resolvemos deix\u00e1-la ligada durante a noite e tivemos um pequeno acidente \u2014 conta o pesquisador Gustavo Martinelli, h\u00e1 44 anos no Jardim Bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>Nem de longe, por\u00e9m, o momento mais tenso do projeto na Serra da Mocidade. Na viagem de barco para o local, boa parte da equipe passou quatro dias lutando contra uma febre de 40\u00b0C. Vencida a infec\u00e7\u00e3o, dois integrantes embarcaram num helic\u00f3ptero para realizar a primeira coleta no topo da montanha. Quando j\u00e1 se aproximava do ch\u00e3o, a aeronave foi empurrada por uma corrente de ar para perto de um precip\u00edcio. Miss\u00e3o abortada.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito frustrante. Pod\u00edamos ver as plantas da cabine \u2014 lembra Martinelli.<\/p>\n<p>Diz-se que o local recebeu esse nome pois s\u00f3 os que est\u00e3o no vigor da idade podem chegar l\u00e1. O conjunto de montanhas ainda permanece uma inc\u00f3gnita para a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Gratas surpresas tamb\u00e9m fizeram parte das expedi\u00e7\u00f5es. Ponto mais alto do pa\u00eds, o Pico da Neblina est\u00e1 inteiramente inserido na \u00e1rea ind\u00edgena ianom\u00e2mi. Ele \u00e9 chamado de Yaripo, local onde viveria o \u201cesp\u00edrito de abano\u2019\u2019, respons\u00e1vel pela ventania constante do lugar, cujo acesso s\u00f3 \u00e9 garantido a pesquisadores ap\u00f3s delicadas negocia\u00e7\u00f5es com lideran\u00e7as da etnia.<\/p>\n<p>Com um ano de anteced\u00eancia, Nadruz come\u00e7ou a levantar a documenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria em \u00f3rg\u00e3os como Ibama e Funai e contatos com as lideran\u00e7as por telefone \u2014 um orelh\u00e3o da aldeia, diga-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o adiantava termos todas as autoriza\u00e7\u00f5es, ajuda do helic\u00f3ptero da Aeron\u00e1utica, a \u00faltima palavra \u00e9 da comunidade ind\u00edgena \u2014 conta o pesquisador. \u2014 Aprendemos que n\u00e3o d\u00e1 para negociar por telefone, tem que ser pessoalmente. Tivemos que convenc\u00ea-los de que a pesquisa n\u00e3o iria interferir na cultura deles.<\/p>\n<p>Negocia\u00e7\u00f5es superadas, o grupo seguiu de helic\u00f3ptero rumo ao Pico acompanhado pelo ianom\u00e2mi Armindo G\u00f3es, como parte do acordo. A parceria, por\u00e9m, foi al\u00e9m, e os pesquisadores foram convidados durante a estadia na regi\u00e3o para uma cerim\u00f4nia de pajelan\u00e7a na aldeia natal do \u00edndio. Alguns meses depois do retorno ao Rio, Armindo foi ao Jardim Bot\u00e2nico ver o destino das amostras colhidas.<\/p>\n<p>\u2014 O cham\u00e1vamos de \u201cembaixador dos ianom\u00e2mis\u201d. Foi uma troca importante: fomos para a realidade dele e o trouxemos para a nossa. Pudemos mostrar que n\u00e3o se tratava apenas de coletar plantas, mas de acessar e compartilhar esse conhecimento \u2014 aponta Rafaela Forzza.<\/p>\n<p>Acessar picos de grande altitude era um dos objetivos do grupo, j\u00e1 que poucos organismos est\u00e3o adaptados a essas condi\u00e7\u00f5es extremas.<\/p>\n<p>\u2014 As montanhas s\u00e3o um dos grandes pilares da pesquisa em bot\u00e2nica porque traduzem um isolamento geogr\u00e1fico, uma evolu\u00e7\u00e3o independente \u2014 ressalta Martinelli, que em 2007 relacionou 112 serras, montes e chapadas brasileiras carentes de pesquisa bot\u00e2nica. \u2014 O Brasil n\u00e3o tem defini\u00e7\u00e3o conceitual que caracterize com propriedade as montanhas, tampouco uma pol\u00edtica p\u00fablica que as proteja. \u00c9 onde nasce a \u00e1gua do mundo, onde a agricultura floresce.<\/p>\n<p>Dentre as montanhas amaz\u00f4nicas brasileiras, os picos no Parque Estadual da Serra do Arac\u00e1 eram um dos poucos a j\u00e1 contar com uma lista de esp\u00e9cies. Publicado em 1991, ap\u00f3s expedi\u00e7\u00f5es do bot\u00e2nico e ecologista brit\u00e2nico Ghillean Prance, o invent\u00e1rio incluiu cerca de 250 esp\u00e9cies, uma gota na diversidade total de uma \u00e1rea de 1.818.700 hectares (equivalente a mais de 2,4 milh\u00f5es de campos de futebol) e altitudes que variam entre 44 e 2.121 metros.<\/p>\n<p>\u2014 Sab\u00edamos que h\u00e1 lacunas no conhecimento, e a chave para identificar est\u00e1 l\u00e1. \u00c9 um centro de biodiversidade e, por isso, concentra muitas esp\u00e9cies \u2014 afirma Denise.<\/p>\n<p>A partir das incurs\u00f5es do grupo do Jardim Bot\u00e2nico, a listagem do Arac\u00e1 aumentou em mais de 50% o n\u00famero de esp\u00e9cies, com mais de 430 novas coletas. E pela primeira vez listou as bri\u00f3fitas do local, foco de estudo de Denise, e que funcionam como um bioindicador da sa\u00fade da floresta.<\/p>\n<p>\u2014 A partir dessa identifica\u00e7\u00e3o surge um novo pacote de esp\u00e9cies que o Brasil tem que cuidar e preservar. Para unidades de conserva\u00e7\u00e3o, ter uma lista das que ocorrem ali \u00e9 fundamental \u2014 destaca Rafaela.<\/p>\n<p>O processo de identifica\u00e7\u00e3o de uma planta n\u00e3o \u00e9 simples. Primeiro, \u00e9 preciso que na coleta haja flor ou fruto. Por isso, o m\u00eas de pesquisa define quais exemplares poder\u00e3o ser catalogados. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio comparar as amostras com esp\u00e9cies j\u00e1 conhecidas, atrav\u00e9s de literatura ou especialista, a fim de defini-la. Tudo isso pode levar anos no caso de exemplares raros, end\u00eamicos ou in\u00e9ditos.<\/p>\n<p>\u2014 As expedi\u00e7\u00f5es acabaram, mas as pesquisas a partir dessas amostras n\u00e3o. Elas ficar\u00e3o guardadas por s\u00e9culos e o que n\u00e3o enxergamos hoje podemos perceber daqui a 20 anos. H\u00e1 os frutos imediatos e os futuros \u2014 projeta Rafaela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 oceano no entorno. 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