{"id":34255,"date":"2015-12-30T13:00:22","date_gmt":"2015-12-30T16:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=34255"},"modified":"2015-12-29T21:47:52","modified_gmt":"2015-12-30T00:47:52","slug":"como-o-chifre-de-rinoceronte-se-tornou-a-substancia-ilegal-mais-cara-do-mundo-e-alimenta-uma-verdadeira-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/como-o-chifre-de-rinoceronte-se-tornou-a-substancia-ilegal-mais-cara-do-mundo-e-alimenta-uma-verdadeira-guerra\/","title":{"rendered":"Como o chifre de rinoceronte se tornou a subst\u00e2ncia ilegal mais cara do mundo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-34256\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em uma tarde de setembro, sentado em um caf\u00e9 em Han\u00f3i, capital do Vietn\u00e3, sou abordado por um homem vendendo livros de turismo. Ele quer, na verdade, oferecer maconha. Mas ap\u00f3s dois anos de viagens pela \u00c1frica e pela \u00c1sia apenas uma coisa me interessa: um chifre de rinoceronte, ou s\u00f9\u2019ng t\u00ea gi\u00e1c, em vietnamita, como escrevo na mesa. Explico que quero apenas tirar uma foto.<\/p>\n<p>\u201cTenho tudo o que voc\u00ea imaginar, mas o chifre \u00e9 o mais caro e o mais dif\u00edcil\u201d, afirma o traficante. \u201cPreciso viajar para fora da cidade e talvez demore um ou dois dias para trazer.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esses dois dias, alguns encontros e muitas ren\u00fancias por parte dele, minha insist\u00eancia surte efeito. O homem consegue um peda\u00e7o de 20 gramas, que quer vender por 50 milh\u00f5es de dongs vietnamitas (aproximadamente US$ 2,5 mil). \u201cO pouco que circula do chifre \u00e9 oferecido a gente muito rica\u201d, diz.<\/p>\n<p>A conversa ocorre em um local p\u00fablico, com gente ao redor. O contraventor vem acompanhado de um amigo sorridente, gentil e elegante, vestido com roupa social, que tira do bolso um saco pl\u00e1stico vermelho de onde desenrola o peda\u00e7o de chifre. Eu j\u00e1 havia me deparado com rinocerontes mortos ou extremamente debilitados sabendo que, gra\u00e7as ao cruel e violento tr\u00e1fico de chifres, o animal pode chegar \u00e0 extin\u00e7\u00e3o. Mas ainda n\u00e3o tinha visto o produto da barb\u00e1rie. A textura, o peso e o cheiro adocicado me levam a crer que \u00e9, sim, um chifre verdadeiro.<\/p>\n<p>Os traficantes est\u00e3o nervosos. Fa\u00e7o uma d\u00fazia de fotografias, das quais poucas puderam ser aproveitadas posteriormente. Pago a bebida da dupla. Ap\u00f3s meses de investiga\u00e7\u00f5es sobre o com\u00e9rcio da vida selvagem, tendo gravado na mem\u00f3ria a imagem de in\u00fameras carca\u00e7as dos animais jogadas pelas savanas da \u00c1frica, l\u00e1 estava eu diante do elo final antes de o chifre chegar \u00e0s m\u00e3os do consumidor. Foi a \u00faltima fotografia que fiz em 2015. Era 22 de setembro, Dia Mundial dos Rinocerontes, quando ativistas do mundo todo se unem para celebrar os esfor\u00e7os de preserva\u00e7\u00e3o das \u00fanicas cinco esp\u00e9cies que ainda sobrevivem.<\/p>\n<p>Dois anos antes desse encontro, estou diante de uma imagem outonal na \u00c1frica do Sul: um lind\u00edssimo rinoceronte-branco, a n\u00e3o mais do que 5 metros de dist\u00e2ncia. N\u00e3o me canso de olhar. Gosto de pensar no rinoceronte como um f\u00f3ssil vivo, um elo que nos conecta a um mundo muito antigo. Consigo fechar os olhos e ver as grandes manadas na \u00c1frica, na \u00c1sia e at\u00e9 ao norte da R\u00fassia, nos Montes Urais, onde rinocerontes enormes e peludos viviam em paisagens brancas de gelo. Posso imaginar os acasalamentos, os filhotes nascendo, as disputas por territ\u00f3rio. Tamb\u00e9m me esfor\u00e7o para tentar saber como devem ter sido as tempestades que os afogaram ou mesmo as grandes erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas que os cobriram de cinzas.<\/p>\n<p>O maior mam\u00edfero terrestre que j\u00e1 viveu, mais ou menos 30 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, foi o <em>Paraceratherium<\/em>, um rinoceronte de 20 toneladas. Com 5 metros de altura, longas patas e pesco\u00e7o mais comprido, essa criatura gigantesca habitou desde o Leste Europeu at\u00e9 o territ\u00f3rio que hoje \u00e9 a China. O <em>Paraceratherium<\/em> foi o \u00e1pice da exist\u00eancia dos rinocerontes no planeta. Uma jornada que, ap\u00f3s 50 milh\u00f5es de anos, passa hoje por seu pior momento.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo quando os primeiros <em>Paraceratherium<\/em> apareceram. Um estudo publicado em 2014 sugere que tenha sido h\u00e1 55 milh\u00f5es de anos, na \u00cdndia. Curiosamente, naquela \u00e9poca eles n\u00e3o tinham chifres e se pareciam mais com antas. Apesar do tamanho avantajado, eram presas de crocodilos igualmente gigantescos. Mesmo assim, parecia improv\u00e1vel a possibilidade de que seus \u201cparentes\u201d futuros pudessem um dia desaparecer.<\/p>\n<p>O rinoceronte s\u00f3 passou de fato a ser amea\u00e7ado quando teve de coexistir com o Homo sapiens. Essa \u00ednfima fra\u00e7\u00e3o de tempo em que convivemos \u2013 apenas alguns milhares de anos \u2013 foi o bastante para que impus\u00e9ssemos a devasta\u00e7\u00e3o sobre esse animal, entre tantos outros que destru\u00edmos ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo. A cada oito horas um rinoceronte \u00e9 morto em algum lugar. Armas com silenciadores chegam \u00e0s m\u00e3os de pessoas que sempre levaram um dia a dia de muita pobreza em lugares como o oeste de Mo\u00e7ambique ou o nordeste da \u00cdndia. Carentes de tudo, veem na ca\u00e7a ilegal a oportunidade de uma vida melhor. Mais que isso, uma vida de enriquecimento r\u00e1pido e de excessos.<\/p>\n<p>Quadrilhas nascem do dia para a noite. \u201cO padr\u00e3o dos ca\u00e7adores \u00e9 n\u00e3o ter padr\u00e3o. Antes eles atuavam mais em noites de lua cheia. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais assim. Eles est\u00e3o sempre um passo \u00e0 frente da gente\u201d, diz o ecologista Steve Dell, com quem falo em uma reserva em Pilanesberg, na \u00c1frica do Sul. Guardas florestais corruptos fazem vista grossa em troca de uma comiss\u00e3o do dinheiro do chifre, chegando at\u00e9 a indicar o local onde viram um rinoceronte dentro de um parque ou reserva. Matar um animal desses n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil para quem est\u00e1 acostumado com a vida no mato. Um rinoceronte \u00e9 baleado em uma noite e na tarde do dia seguinte o chifre j\u00e1 est\u00e1 sendo despachado em algum navio para a \u00c1sia. N\u00e3o \u00e9 de estranhar que esse artefato tenha atingido pre\u00e7os exorbitantes no mercado negro. \u00c9 hoje a subst\u00e2ncia ilegal mais cara do mundo.<\/p>\n<p>Com tamanho terror rondando os pa\u00edses que ainda abrigam rinocerontes, sobretudo na \u00c1frica, h\u00e1 conservacionistas dispostos a lutar como soldados para salvar esses animais. \u201cQuando os guardas florestais [honestos] t\u00eam o nosso apoio, h\u00e1 esperan\u00e7a para o rinoceronte e para o mundo natural que essa esp\u00e9cie representa. Enquanto estamos aqui sentados conversando, os guardas est\u00e3o no campo lutando, sangrando, perseverantes. S\u00e3o o ex\u00e9rcito da M\u00e3e Natureza\u201d, diz Damien Mander, especialista em estrat\u00e9gias antica\u00e7a e Fundador da IAPF \u2013 International Anti-Poaching Foundation (em portugu\u00eas, Funda\u00e7\u00e3o Internacional contra a Ca\u00e7a Ilegal).<\/p>\n<p>O rinoceronte sobreviveu a diferentes ciclos de resfriamento e aquecimento global. E, assim como a maioria dos animais da chamada Megafauna, como tigres-dentes-de-sabre,mamutes e pregui\u00e7as gigantes, seus ancestrais foram extintos em algum momento da evolu\u00e7\u00e3o. As raz\u00f5es que levaram os primeiros rinocerontes a desaparecer s\u00e3o diferentes e se deram em \u00e9pocas e locais tamb\u00e9m distintos, por\u00e9m a maioria dos cientistas concorda que essa extin\u00e7\u00e3o ocorreu mais rapidamente quando os animais foram expostos a ca\u00e7adores humanos. Portanto, foram pessoas, e n\u00e3o o clima, os respons\u00e1veis pelo desaparecimento da grande maioria dos animais da Megafauna, rinocerontes inclu\u00eddos. A destrui\u00e7\u00e3o de habitat tamb\u00e9m teve grande impacto, mas a a\u00e7\u00e3o humana direta \u00e9 a principal causa da maior parte das extin\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cinco esp\u00e9cies de rinoceronte sobreviveram ao purgat\u00f3rio da evolu\u00e7\u00e3o e todas elas est\u00e3o hoje em graus diferentes de risco de desaparecer do planeta. S\u00e3o elas o rinoceronte-indiano (unic\u00f3rnio), o de Java, o de Sumatra (estes dois \u00faltimos vivem na Indon\u00e9sia; s\u00e3o os mais amea\u00e7ados), o negro e o branco, os mais numerosos.<\/p>\n<p>Os rinocerontes-brancos j\u00e1 viveram momentos muito piores no continente africano. Na d\u00e9cada de 1960 a popula\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie foi reduzida a 1,8 mil indiv\u00edduos por causa da ca\u00e7a furtiva. Ent\u00e3o, um gigantesco esfor\u00e7o foi realizado \u2013 a chamada Opera\u00e7\u00e3o Rinoceronte \u2013, e os animais foram distribu\u00eddos em parques e zool\u00f3gicos no mundo todo, no esfor\u00e7o de criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias de reprodu\u00e7\u00e3o e natalidade. Hoje a popula\u00e7\u00e3o mundial dos rinocerontes-brancos est\u00e1 em torno de 18 mil animais, sendo essa uma das mais bem-sucedidas reabilita\u00e7\u00f5es de uma esp\u00e9cie de que se tem not\u00edcia.<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul det\u00e9m atualmente 95% da popula\u00e7\u00e3o mundial de rinocerontes. Pouco mais de 25 mil, entre todas as esp\u00e9cies, ainda existem no planeta.<\/p>\n<p>O chifre do rinoceronte \u00e9 composto basicamente de queratina, o mesmo material de nossas unhas e cabelos. N\u00e3o \u00e9 osso, como muita gente pensa. O destino dos chifres tem sido prioritariamente a \u00c1sia, sobretudo as cidades do Vietn\u00e3, onde se apregoa seu uso como rem\u00e9dio. Quem o compra acredita que o chifre ralado e misturado com \u00e1gua pode curar ressaca, febres, convuls\u00f5es e at\u00e9 c\u00e2ncer. O l\u00edquido branco \u00e9 sorvido em pratos, como uma sopa.<\/p>\n<p>Em uma ter\u00e7a-feira muito quente e chuvosa, t\u00edpica de setembro, visito a rua L\u00e3n \u00d4ng, conhecida por ser o destino da venda de rem\u00e9dios da medicina tradicional chinesa em Han\u00f3i, capital do Vietn\u00e3. D\u00e9cadas atr\u00e1s, o chifre era vendido abertamente nesse local; hoje, sendo ilegal, o com\u00e9rcio \u00e9 velado<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil encontrar o produto, mas vendedores simp\u00e1ticos existem em abund\u00e2ncia. Geralmente trabalham com com\u00e9rcio na parte da frente do pr\u00e9dio e moram com a fam\u00edlia nos fundos do im\u00f3vel. N\u00e3o \u00e9 incomum ver crian\u00e7as brincando, pessoas fazendo suas refei\u00e7\u00f5es no balc\u00e3o das lojas ou mesmo caminhando de pijama pelas esquinas.<\/p>\n<p>Depois de papear com alguns desses lojistas, decido trazer o assunto \u00e0 tona com um rapaz chamado Nguy\u00ean Anh Th\u00e2ng, perguntando se ele tem chifres para vender. Th\u00e2ng olha para os lados, me fita de cima a baixo. \u201cPosso conseguir, apenas preciso de um dia para mandar buscar\u201d, ele afirma. \u201c\u00c9 numa cidade na prov\u00edncia de Ngh\u00ea An. Tenho um amigo l\u00e1 que consegue. Amanh\u00e3 j\u00e1 estaria aqui e a garantia de autenticidade do produto \u00e9 de 100%\u201d (como se houvesse maneira de ele garantir isso). Th\u00e2ng vai at\u00e9 o fundo da loja e retorna com um prato com o fundo \u00e1spero onde se v\u00ea o desenho de um rinoceronte. \u201cPosso ralar e misturar com \u00e1gua aqui, se voc\u00ea quiser beber.\u201d O pre\u00e7o? Oitenta milh\u00f5es de dongs vietnamitas por uma por\u00e7\u00e3o, aproximadamente US$ 3,5 mil. Ele pr\u00f3prio costuma consumir, inclusive para o banal prop\u00f3sito de curar ressacas. \u201cTomo ainda quando tenho febre por causa de uma gripe ou resfriado. Tamb\u00e9m \u00e9 muito bom para desintoxicar de veneno.\u201d<\/p>\n<p>O fato de n\u00e3o haver nenhum estudo cient\u00edfico que comprove a efic\u00e1cia n\u00e3o \u00e9 o mais relevante, mas sim a ideia de que as pessoas continuam consumindo o chifre (n\u00e3o apenas pelas supostas propriedades medicinais, mas tamb\u00e9m como sinal de status), enquanto organiza\u00e7\u00f5es criminosas se aproveitam dessa demanda crescente. Grande parte de quem j\u00e1 ingeriu o p\u00f3 do chifre sequer viu um rinoceronte ao vivo na vida.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mostra que a refer\u00eancia ao mito do unic\u00f3rnio como uma fera ex\u00f3tica dos tr\u00f3picos, amplamente espalhada na \u00e9poca do Imp\u00e9rio Romano, foi a raz\u00e3o mais evidente que levou o Ocidente e o Oriente (em diferentes \u00e9pocas e lugares) a desejarem o chifre do rinoceronte como regalia. Era como uma po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica coletada diretamente de um conto de fadas.<\/p>\n<p>A Europa por muito tempo foi um dos principais destinos do consumo de chifres de diferentes animais como droga. Ricos e pobres o usavam como panaceia para uma s\u00e9rie de enfermidades. Farmac\u00eauticos e comerciantes \u00e1rabes fizeram fortuna por s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o chamado de \u201cchifre de unic\u00f3rnio\u201d, o chifre do rinoceronte era um ingrediente levado a s\u00e9rio e muitas vezes a pe\u00e7a inteira era estocada dentro de igrejas e de casas de pessoas ricas. A rainha Elizabeth I tinha um em seu banheiro no Pal\u00e1cio de Windsor. Era um de seus pertences mais valiosos.<\/p>\n<p>Em 1741 o chifre ainda era considerado oficialmente um ingrediente farmacol\u00f3gico no Reino Unido. At\u00e9 os papas se deixavam seduzir por essa subst\u00e2ncia dos sonhos. No seu leito de morte, o papa Greg\u00f3rio XIV tomou um medicamento feito \u00e0 base de chifre de rinoceronte-unic\u00f3rnio. Mesmo assim, n\u00e3o conseguiu evitar a morte. O que restou do chifre consumido por ele foi mantido protegido para a posteridade e chegou a ser exibido no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Nova York.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 18, um rinoceronte em particular tornou-se famoso na cena da fanfarra europeia. O empres\u00e1rio holand\u00eas Douvemont van der Meer mantinha preso um animal da esp\u00e9cie unic\u00f3rnio para utiliz\u00e1-lo como seu ganha-p\u00e3o. A exibi\u00e7\u00e3o era um evento festivo para os humanos, e s\u00e1dico para o animal. Diz-se que Van der Meer dava ao rinoceronte grandes quantidades de cerveja e vinho para mant\u00ea-lo sob controle.<\/p>\n<p>Muitos poemas foram escritos sobre o pobre rinoceronte de Van der Meer. Jean-Baptiste Oudry o pintou e Giacomo Casanova o citou em suas mem\u00f3rias biogr\u00e1ficas. Lu\u00eds XV tentou compr\u00e1-lo, mas o valor era alto demais, at\u00e9 para os padr\u00f5es de um rei.<\/p>\n<p>No parque kaziranga, no nordeste da \u00cdndia, local conhecido por ser habitat dos gigantes rinocerontes-unic\u00f3rnio, a bicicleta \u00e9 o meio de transporte mais comum na \u00e1rea rural. De passagem por l\u00e1, me pergunto, ent\u00e3o, o que uma moto possante faz parada perto de um pequeno grupo de pessoas. A resposta chega r\u00e1pido: adquirida com o dinheiro da ca\u00e7a de rinocerontes. Identifico um dos homens como um dos matadores. UttamSaikia, um amigo conservacionista, mostra uma foto dele em seu celular: \u201cVeja, ele est\u00e1 at\u00e9 com a mesma camisa\u201d.<\/p>\n<p>Geralmente banidos da vizinhan\u00e7a ou marginalizados pelos amigos, os ca\u00e7adores adquirem uma reputa\u00e7\u00e3o sombria nesses pequenos vilarejos de gente simples e trabalhadora, seja na \u00cdndia, em Mo\u00e7ambique ou na \u00c1frica do Sul. No entanto, muitos deles ainda s\u00e3o vistos com roupas caras e exibindo suas novas aquisi\u00e7\u00f5es enquanto tentam reencontrar seu espa\u00e7o na sociedade. Afinal, com quem compartilhar agora o novo estilo de vida? Arrecadam em uma noite de ca\u00e7a o que muitos de seus amigos e parentes nunca conseguiram ganhar em anos de trabalho na lavoura. \u00c0 custa do derramamento do sangue dos rinocerontes, muitos ca\u00e7adores rastejam-se na obscuridade, deixam sua mulher, afastam-se dos pais, perdem a admira\u00e7\u00e3o dos filhos. Alguns s\u00e3o presos e cumprem pena, outros acabam pagando fian\u00e7a ou simplesmente fogem para outros pa\u00edses, como But\u00e3o ou Mianmar, para dar continuidade a uma triste trajet\u00f3ria no mercado de crime ambiental. H\u00e1 ainda os que acabam mortos exatamente como os rinocerontes que ca\u00e7am: com um tiro de um guarda em uma de suas incurs\u00f5es noturnas. No Parque Kaziranga, os cad\u00e1veres desses homens por vezes se transformam em comida de tigres e abutres.<\/p>\n<p>Nora Novunga \u00e9 uma das mulheres que tiveram a fam\u00edlia destru\u00edda pela ca\u00e7a e pelo tr\u00e1fico. Seu irm\u00e3o, ca\u00e7ador, est\u00e1 preso em Mo\u00e7ambique; o pai dela morreu ca\u00e7ando. \u201cQuem sabe um dia os rinocerontes comecem a nascer sem os chifres\u201d, ela roga. \u201cTalvez assim n\u00e3o tiv\u00e9ssemos tantas mortes e essa guerra acabaria.\u201d De um l\u00edder comunit\u00e1rio, ou\u00e7o que \u201cpara cada rinoceronte morto na \u00c1frica do Sul, h\u00e1 um jovem morto em Mo\u00e7ambique\u201d.<\/p>\n<p>Um policial investigador sul-africano e um especialista em vida selvagem no Vietn\u00e3 confirmam a informa\u00e7\u00e3o corrente de que a maioria dos chifres vendidos como de rinocerontes s\u00e3o na verdade chifres de b\u00fafalos. Quase id\u00eanticos e tamb\u00e9m compostos de queratina, levam a duas conclus\u00f5es: primeiro, que h\u00e1 uma imensa demanda no mercado sendo suprida por chifres falsos. Segundo, se os consumidores usam chifres falsos sem saber, significa que seus supostos efeitos medicinais s\u00e3o irrelevantes \u2013 ou que, menos prov\u00e1vel, os de b\u00fafalo teriam tamb\u00e9m as mesmas propriedades medicinais.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 200 anos a popula\u00e7\u00e3o de rinocerontes na \u00c1frica foi reduzida em 95%. Apenas na d\u00e9cada de 1970, mais da metade dos que restavam foi exterminada. Vida e morte cercam as reservas na \u00c1frica onde existem esses animais. H\u00e1 sempre um clima de tens\u00e3o no ar. Se um carro estaciona pr\u00f3ximo \u00e0s cercas, j\u00e1 se trata de uma atitude suspeita. H\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o, boatos, olhares amea\u00e7adores. Inclusive eu, um estrangeiro branco, sou observado com certa desconfian\u00e7a. Ao final de duas semanas em Mo\u00e7ambique, para mim todos ali parecem absorvidos pelos efeitos psicol\u00f3gicos dessa guerra. \u00c9 uma chacina da vida selvagem, com um poss\u00edvel final catastr\u00f3fico: em poucas d\u00e9cadas, todos os rinocerontes poder\u00e3o desaparecer da natureza.<\/p>\n<p>Apesar do cen\u00e1rio desanimador, homens como Damien Mander, fundador da IAPF, se mant\u00eam perseverantes na luta contra o exterm\u00ednio do mam\u00edfero. \u201cPor que o rinoceronte? O rinoceronte \u00e9 uma esp\u00e9cie-chave, \u00e9 o animal mais dif\u00edcil do planeta para proteger\u201d, declara. \u201cQuando desenvolvemos e implementamos estrat\u00e9gias para proteger o rinoceronte, todo o resto no ecossistema est\u00e1 sendo protegido tamb\u00e9m. Se projetarmos isso pensando nos nossos maiores problemas, como o aquecimento global, o desmatamento e o crescimento da popula\u00e7\u00e3o humana, a coisa mais imediata que podemos fazer agora, hoje, \u00e9 proteger o que ainda nos resta.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma tarde de setembro, sentado em um caf\u00e9 em Han\u00f3i, capital do Vietn\u00e3, sou<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":34256,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/rinocerontes_chifres.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em uma tarde de setembro, sentado em um caf\u00e9 em Han\u00f3i, capital do Vietn\u00e3, sou","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34255"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34255"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34255\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34256"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}