{"id":33668,"date":"2015-12-20T10:00:13","date_gmt":"2015-12-20T13:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=33668"},"modified":"2015-12-19T21:21:11","modified_gmt":"2015-12-20T00:21:11","slug":"carlos-nobre-o-brasil-nao-esta-preparado-para-se-adaptar-ao-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/carlos-nobre-o-brasil-nao-esta-preparado-para-se-adaptar-ao-antropoceno\/","title":{"rendered":"Carlos Nobre: &#8220;O Brasil n\u00e3o est\u00e1 preparado para se adaptar ao antropoceno&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-33669\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Segundo um dos principais cientistas do Brasil, o planeta j\u00e1 entrou em uma nova \u00e9poca, o antropoceno, gra\u00e7as \u00e0 interfer\u00eancia humana na Terra.<\/p>\n<p>Nunca, em toda a hist\u00f3ria da vida na Terra, uma esp\u00e9cie alterou tanto o planeta, e em uma escala t\u00e3o r\u00e1pida, quanto a humanidade. Mudamos os cursos de rios, alteramos a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da atmosfera e dos oceanos, domesticamos plantas e animais a ponto de sermos considerados uma <strong>&#8220;for\u00e7a tect\u00f4nica&#8221;<\/strong> no planeta. Esse impacto \u00e9 t\u00e3o forte que alguns cientistas est\u00e3o propondo mudar a \u00e9poca geol\u00f3gica \u2013 deixar\u00edamos o holoceno, que come\u00e7ou com o fim da era do gelo, e passar\u00edamos ao <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/colunas-e-blogs\/blog-do-planeta\/noticia\/2015\/12\/o-que-e-o-antropoceno-epoca-em-que-os-humanos-tomam-controle-do-planeta.html\">antropoceno, a \u00e9poca dominada pelo homem<\/a>. O climatologista Carlos Nobre, presidente da Capes, \u00e9 o \u00fanico brasileiro a integrar o grupo de trabalho internacional que avalia se devemos formalizar a \u00e9poca do antropoceno. Em entrevista por email, Nobre disse que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 preparado para os impactos que vir\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA &#8211; Como n\u00f3s podemos caracterizar o antropoceno? Ser\u00e1, ou \u00e9, uma era de extremos?<br \/>\nCarlos Nobre &#8211;<\/strong> Caracteriza-se pelo efeito global sobre o planeta de uma esp\u00e9cie, o <em>Homo sapiens<\/em>, e pela velocidade das transforma\u00e7\u00f5es do planeta pelas a\u00e7\u00f5es humanas. Nunca antes, durante toda a longa presen\u00e7a da vida na Terra, estimados em 3,6 bilh\u00f5es de anos, uma esp\u00e9cie conseguiu alterar o ambiente globalmente numa escala de s\u00e9culos. S\u00e3o esses aspectos que est\u00e3o fazendo muitos ge\u00f3logos propor que j\u00e1 adentramos uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica \u2013 nomeado como antropoceno pelo professor Paul Crutzen \u2013, em que sinais das transforma\u00e7\u00f5es j\u00e1 se materializaram nos sedimentos geol\u00f3gicos. O antropoceno n\u00e3o se caracteriza somente por <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/colunas-e-blogs\/blog-do-planeta\/epoca-clima\/noticia\/2015\/12\/10-duvidas-em-relacao-mudancas-climaticas.html\">altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas provocadas por emiss\u00f5es humanas de gases de efeito estufa<\/a>, ainda que o registro geol\u00f3gico, por exemplo das geleiras, j\u00e1 mostrem claramente o aumento das concentra\u00e7\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico e metano, entre outros gases aprisionados no gelo. H\u00e1 mudan\u00e7as globais em biodiversidade, nos ciclos biogeoqu\u00edmicos de nitrog\u00eanio e f\u00f3sforo, na supress\u00e3o de transportes de sedimentos fluviais devido ao represamento da maior parte dos rios, na altera\u00e7\u00e3o da cobertura de vegeta\u00e7\u00e3o. Ainda assim, sim, o aquecimento global est\u00e1 trazendo no seu bojo o aumento da frequ\u00eancia de fen\u00f4menos hidrometeor\u00f3gicos e clim\u00e1ticos extremos e isto \u00e9 um dos sintomas do antropoceno.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA &#8211; \u00c9 poss\u00edvel se adaptar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do antropoceno? O que pa\u00edses, governos, precisam fazer em adapta\u00e7\u00e3o?<br \/>\nNobre &#8211;<\/strong> Buscar adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel e urgente, pois algumas mudan\u00e7as ocorrendo no antropoceno j\u00e1 se tornaram irrevers\u00edveis em escalas de tempo de s\u00e9culos a mil\u00eanio \u2013 por exemplo, o aumento do n\u00edvel do mar. Por\u00e9m, \u00e9 essencial ter clareza sobre os limites absolutos \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o. Dois exemplos. Com 3\u00baC de eleva\u00e7\u00e3o da temperatura global, h\u00e1 bastante certeza cient\u00edfica de que as geleiras da <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/colunas-e-blogs\/viajologia\/noticia\/2014\/07\/bmudancas-climaticasb-apontam-fragilidade-do-barticob.html\">Groel\u00e2ndia<\/a> e da <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/colunas-e-blogs\/blog-do-planeta\/noticia\/2015\/11\/o-consenso-cientifico-e-que-antartica-esta-derretendo-cada-vez-mais-rapido.html\">Ant\u00e1rtica Ocidental<\/a>\u00a0derreter\u00e3o total ou parcialmente. Isso elevar\u00e1 o n\u00edvel do mar em de 7 a 10 metros. H\u00e1 grande incerteza sobre as escalas de tempo em que isso poder\u00e1 ocorrer, entre 200 anos e um mil\u00eanio. Na maior parte das cidades costeiras, n\u00e3o haveria como adapt\u00e1-las para eleva\u00e7\u00f5es do mar t\u00e3o grandes. Portanto, a maior parte das cidades costeiras do mundo deixaria de existir como as conhecemos. O segundo exemplo \u00e9 t\u00e3o ou mais preocupante. Trata-se do limite absoluto de humanos de intoler\u00e2ncia fisiol\u00f3gica \u00e0 estresse de calor. Com umidade de 100%, o corpo humano n\u00e3o resiste mais do que 6 horas a temperaturas acima de 35\u00baC, num estado chamado hipertermia. Esta temperatura \u00e9 chamada de temperatura de bulbo \u00famido. Hoje, em muitas partes do mundo, estas temperaturas de bulbo \u00famido chegam a 31\u00baC. Numa situa\u00e7\u00e3o extrema de aumento da temperatura global entre 8\u00baC e 10\u00baC devido ao aquecimento global, em v\u00e1rias partes do planeta, a temperatura de bulbo \u00famido ultrapassaria 35\u00baC, tornando a vida ao ar livre imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Como via de regra, pa\u00edses desenvolvidos t\u00eam avan\u00e7ado na agenda da adapta\u00e7\u00e3o, seja atrav\u00e9s do aumento do conhecimento sobre o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, seja igualmente na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas ativas de adapta\u00e7\u00e3o. Pa\u00edses em desenvolvimento est\u00e3o mais atrasados na agenda da adapta\u00e7\u00e3o e colocam mais peso pol\u00edtico na redu\u00e7\u00e3o do risco via esfor\u00e7o global de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es. Ainda que no discurso ret\u00f3rico buscam-se mecanismos para pa\u00edses ricos ajudarem os pa\u00edses mais pobres em estrat\u00e9gias e custos de adapta\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica isto n\u00e3o tem ocorrido.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA &#8211; Qual \u00e9 o cen\u00e1rio do Brasil no antropoceno? Estamos preparados para as mudan\u00e7as que ocorrer\u00e3o no mundo?<br \/>\nNobre &#8211;<\/strong> O Brasil \u00e9 pa\u00eds de m\u00e9dia vulnerabilidade \u00e0s mudan\u00e7as ocorrendo ou projetadas no antropoceno. Entretanto, na quest\u00e3o da biodiversidade, os riscos s\u00e3o enormes em fun\u00e7\u00e3o da intrincada intera\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. O assunto destas mudan\u00e7as encontra resson\u00e2ncia na popula\u00e7\u00e3o brasileira, o que faz avan\u00e7ar a discuss\u00e3o sobre pol\u00edticas p\u00fablicas e apoia as arrojadas <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/colunas-e-blogs\/blog-do-planeta\/epoca-clima\/noticia\/2015\/12\/qual-e-o-papel-do-brasil-nas-negociacoes-da-cop-21-em-paris.html\">posi\u00e7\u00f5es brasileiras com respeito \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es<\/a>. Entretanto, n\u00e3o estamos preparados para responder \u00e0s mudan\u00e7as projetadas, o que diminuir\u00e1 a resili\u00eancia social, econ\u00f4mica e ambiental.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA &#8211; Por muito tempo, a sociedade discutiu os impactos que o homem causa no meio ambiente. Agora, com o alto grau de que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 ocorrem e s\u00e3o causadas pela atividade humana, n\u00e3o \u00e9 hora de mudar o foco e pensar em solu\u00e7\u00f5es para os problemas ambientais?<br \/>\nNobre &#8211;<\/strong> No Brasil, h\u00e1 razo\u00e1vel consenso de que as a\u00e7\u00f5es humanas causam impactos significativos no planeta. Isso \u00e9 verdade na maior parte do mundo, mas n\u00e3o em todos os pa\u00edses. Por exemplo, nos EUA ainda h\u00e1 um debate amplo sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o que tem ainda impedido a\u00e7\u00f5es resolutas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es. Sem d\u00favida, o foco principal tem que ser em solu\u00e7\u00f5es, principalmente em reduzir o risco futuro atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es urgentemente e em grande monta, no caso das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA &#8211; Na opini\u00e3o do senhor, quais as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas caso a comunidade cient\u00edfica formalize a mudan\u00e7a de \u00e9poca para o antropoceno? Ser\u00e1 uma forma de ampliar a press\u00e3o para que governos tomem a\u00e7\u00f5es na \u00e1rea do clima?<br \/>\nNobre &#8211;<\/strong> Ser\u00e1 um grande marco filos\u00f3fico para a humanidade e o reconhecimento de que somos uma &#8220;for\u00e7a tect\u00f4nica&#8221; no planeta. Num sentido diverso, ter\u00e1 um impacto semelhante ao de grandes outros marcos recentes da humanidade, como a descoberta da for\u00e7a destruidora da bomba at\u00f4mica ou o homem na Lua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo um dos principais cientistas do Brasil, o planeta j\u00e1 entrou em uma nova \u00e9poca,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":33669,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/carlos_nobre.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Segundo um dos principais cientistas do Brasil, o planeta j\u00e1 entrou em uma nova \u00e9poca,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33668"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33668"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33668\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33669"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}