{"id":33567,"date":"2015-12-18T20:03:02","date_gmt":"2015-12-18T23:03:02","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=33567"},"modified":"2015-12-18T20:03:02","modified_gmt":"2015-12-18T23:03:02","slug":"entrevista-especial-com-carlos-rittl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-carlos-rittl\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Carlos Rittl"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"contentheading\">Acordo de Paris: avan\u00e7o nas metas, mas fragilidade na implementa\u00e7\u00e3o.<\/h2>\n<p><strong>\u201cA transi\u00e7\u00e3o para um mundo sem energia f\u00f3ssil e baseado em fontes renov\u00e1veis de energia ter\u00e1 que ser muito mais r\u00e1pida nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas\u201d, destaca o bi\u00f3logo.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i63.tinypic.com\/313qf4i.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.entornointeligente.com\">www.entornointeligente.com<\/p>\n<p><\/a><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Razo\u00e1vel. Essa \u00e9 a palavra que, para <strong>Carlos Rittl<\/strong>, melhor define o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550110-paises-assinam-em-paris-historico-acordo-contra-a-mudanca-climatica\" target=\"_blank\"><strong>acordo de Paris<\/strong><\/a>. \u201cH\u00e1 aspectos positivos, como o objetivo de limitar o aumento de temperatura em rela\u00e7\u00e3o a n\u00edveis pr\u00e9-industriais. Foram definidos processos de revis\u00e3o para os compromissos de todos os pa\u00edses, com vistas a avaliar a adequa\u00e7\u00e3o das metas de <strong>redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es<\/strong> a uma trajet\u00f3ria compat\u00edvel para limitar o <strong>aquecimento global<\/strong> e incentivar o aumento de seu n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o\u201d, aponta. Entretanto, ressalta que \u201ch\u00e1 aspectos fr\u00e1geis, como por exemplo, a falta de uma data, ano ou per\u00edodo objetivo para pico global de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e para elimina\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p><strong>Rittl<\/strong> conversou com a<strong> IHU On-Line<\/strong> por telefone, ainda em Paris, durante a<strong> COP-21<\/strong>, e voltou a fazer contato assim que o acordo de <strong>Paris<\/strong> foi definido. Ainda em meio \u00e0s reuni\u00f5es, destacava como positivo o engajamento dos pa\u00edses de forma volunt\u00e1ria, em que o comprometimento e as metas n\u00e3o vinham de cima para baixo e sim eram propostos pelos pr\u00f3prios pa\u00edses. Entretanto, ap\u00f3s o encontro, reconhece que esse car\u00e1ter volunt\u00e1rio pode comprometer o cumprimento do pr\u00f3prio acordo. \u201cFica a cargo de cada pa\u00eds definir se e quanto aumentar\u00e1 o <strong>n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o<\/strong> em mitiga\u00e7\u00e3o ou financiamento. Sem tal aumento de ambi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e, desde j\u00e1, antes de o acordo entrar em implementa\u00e7\u00e3o, limitar o aquecimento global a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550157-o-pacto-de-um-grau-e-meio\" target=\"_blank\"><strong>1,5 grau<\/strong><\/a>\u00a0passa a correr o risco de ser apenas um objetivo te\u00f3rico\u201d, pondera.<\/p>\n<p>De modo geral, <strong>Rittl<\/strong> avalia como positivo todo o processo, a din\u00e2mica e o ritmo das reuni\u00f5es da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/549887-cop-21-o-risco-de-ser-mais-um-pacote-de-promessas-vazias-entrevista-especial-com-lucia-ortiz\" target=\"_blank\"><strong>COP-21<\/strong><\/a>. Para ele, o mundo j\u00e1 vive um outro momento, e a necessidade de mudan\u00e7as para reduzir a emiss\u00e3o de gases e a busca de solu\u00e7\u00f5es para problemas decorrentes do aquecimento global passam a ser cobradas pela pr\u00f3pria sociedade global. \u201cAntes do <strong>Acordo de Paris<\/strong>, o mundo j\u00e1 estava mudando. Entramos n\u00e3o apenas na era do baixo carbono, mas na era em que zerar as emiss\u00f5es mundiais passa a ser parte da obriga\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses para que se atinja o objetivo do Acordo de Paris e o da pr\u00f3pria <strong>Conven\u00e7\u00e3o sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 ONU<\/strong>\u201d, pontua.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/544963-laudato-si-a-novidade-que-provoca-e-agita-a-agenda-ambiental-entrevista-especial-com-carlos-rittl\" target=\"_blank\"><strong>Carlos Rittl<\/strong><\/a> \u00e9 mestre e doutor em Biologia Tropical e Recursos Naturais. Foi coordenador do Greenpeace Brasil, como coordenador da Campanha de Clima, e do WWF-Brasil, como coordenador do Programa de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas e Energia. Participou da COP-21, em Paris, como coordenador executivo do Observat\u00f3rio do Clima.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i58.tinypic.com\/r2ro5c.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto: Arquivo Pessoal \/ Linkedim<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o Acordo de Paris? Quais as fragilidades e os pontos fortes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550238-o-acordo-climatico-de-paris-e-a-logica-dos-tijolos\" target=\"_blank\"><strong>Acordo de Paris<\/strong><\/a> \u00e9 razo\u00e1vel. H\u00e1 aspectos positivos, como o objetivo de limitar o <strong>aumento de temperatura<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o a n\u00edveis pr\u00e9-industriais &#8211; bem abaixo dos <strong>2 graus<\/strong> Celsius, mas buscando-se implementar esfor\u00e7os para limitar o aquecimento a <strong>1,5 grau<\/strong>\u00a0Celsius, o que \u00e9 cr\u00edtico para os pa\u00edses que s\u00e3o pequenas ilhas, muito vulner\u00e1veis \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Foram definidos processos de revis\u00e3o para os compromissos de todos os pa\u00edses, com vistas a avaliar a adequa\u00e7\u00e3o das metas de <strong>redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es<\/strong> a uma trajet\u00f3ria compat\u00edvel para limitar o aquecimento global e incentivar o aumento de seu n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o. Decis\u00e3o complementar da <strong>COP-21<\/strong> definiu que o <strong>financiamento clim\u00e1tico<\/strong> parte de um piso de 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, que deve aumentar at\u00e9 pelo menos 2025.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 <strong>aspectos fr\u00e1geis<\/strong>, como por exemplo, a falta de uma data, ano ou per\u00edodo objetivo para pico global de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e para elimina\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es &#8211; os pa\u00edses devem atingir seu pico de emiss\u00f5es o mais cedo poss\u00edvel. O Acordo deveria ser espec\u00edfico acerca desta trajet\u00f3ria e dos processos para definir quem deve fazer mais. E o engajamento maior de todos os pa\u00edses acaba tendo car\u00e1ter volunt\u00e1rio, pois fica a cargo de cada pa\u00eds definir se e quanto aumentar\u00e1 o n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o em mitiga\u00e7\u00e3o ou financiamento. Sem tal aumento de <strong>ambi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica<\/strong> e, desde j\u00e1, antes de o acordo entrar em implementa\u00e7\u00e3o, limitar o aquecimento global a 1,5 grau passa a correr o risco de ser apenas um objetivo te\u00f3rico. Sabe-se que as promessas de compromissos apresentadas no processo de preparo do <strong>Acordo de Paris<\/strong> nos levam a um mundo cerca de <strong>3 graus<\/strong> Celsius mais quente que os n\u00edveis pr\u00e9-industriais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como avalia a decis\u00e3o de limitar o aumento da temperatura do planeta em 1,5 grau Celsius? E como avalia a diferencia\u00e7\u00e3o entre as responsabilidades de pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento, bem como as formas de financiamento de esfor\u00e7os para frear os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, no texto final?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> O objetivo de limitar a 1,5 grau o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549794-com-mais-dois-graus-que-terra-nos-espera-em-2100\" target=\"_blank\"><strong>aquecimento global<\/strong><\/a> \u00e9 fundamental para as pequenas ilhas do Pac\u00edfico, pa\u00edses que podem literalmente sumir do mapa devido ao aumento do n\u00edvel do mar, em cen\u00e1rios de aquecimento superior a este limite. Trata-se de reconhecer o direito basilar daqueles pa\u00edses e de suas popula\u00e7\u00f5es de existir enquanto na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O <strong>Acordo de Paris<\/strong> trouxe um bom equil\u00edbrio na diferencia\u00e7\u00e3o em mitiga\u00e7\u00e3o, meios de implementa\u00e7\u00e3o e transpar\u00eancia entre pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento \u2013 os desenvolvidos continuam com maior responsabilidade, inclusive na demonstra\u00e7\u00e3o de que est\u00e3o progredindo para atingir suas metas -, mas cobrando um aumento progressivo dos compromissos de todos os pa\u00edses. <strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cO Acordo de Paris trouxe um bom equil\u00edbrio na diferencia\u00e7\u00e3o em mitiga\u00e7\u00e3o, meios de implementa\u00e7\u00e3o e transpar\u00eancia entre pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em que medida o Acordo de Paris obriga \u00e0 &#8220;transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica&#8221;? E como projeta que essa transi\u00e7\u00e3o deva se dar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> O \u201cnorte\u201d definido pela busca para limitar a <strong>1,5 grau<\/strong>\u00a0o aquecimento global exige uma mudan\u00e7a forte na trajet\u00f3ria das <strong>emiss\u00f5es globais<\/strong> de gases de efeito estufa. Sem uma trajet\u00f3ria de redu\u00e7\u00f5es mais profundas, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel ficar dentro daquele limite. A transi\u00e7\u00e3o para um mundo sem energia f\u00f3ssil e baseado em fontes renov\u00e1veis de energia ter\u00e1 que ser muito mais r\u00e1pida nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Antes do <strong>Acordo de Paris<\/strong>, o mundo j\u00e1 estava mudando. Entramos n\u00e3o apenas na era do baixo carbono, mas na era em que <strong>zerar as emiss\u00f5es<\/strong> mundiais passa a ser parte da obriga\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses para que se atinja o objetivo do Acordo de Paris e o da pr\u00f3pria<strong> Conven\u00e7\u00e3o sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; ONU<\/strong>, que \u00e9 de evitar a interfer\u00eancia perigosa das atividades humanas no sistema clim\u00e1tico global. O Acordo de Paris definiu que o aquecimento global bem abaixo dos 2 graus Celsius e possivelmente limitado a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550181-entra-15dc-saem-direitos-humanos-quase-200-paises-adotam-o-acordo-de-paris-definindo-um-caminho-para-acao-contra-o-aquecimento-global\" target=\"_blank\"><strong>1,5 grau<\/strong><\/a>\u00a0Celsius \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o do objetivo maior da Conven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o do \u201cencontro de Paris\u201d como um todo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> A <strong>COP-21<\/strong> negociou o acordo mais importante sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 existente. \u00c9 algo sem precedentes, e por isso come\u00e7ou com a presen\u00e7a de chefes de Estado e de governos que trouxeram uma mensagem pol\u00edtica no seu primeiro dia. Foram mais de 150 chefes de Estado presentes, nuca tivemos participa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande \u2013 em <strong>Copenhague<\/strong>, se n\u00e3o me engano, eram 119. Isso tamb\u00e9m demonstra um engajamento dos pa\u00edses, seja por quais raz\u00f5es forem, pois temos os extremamente vulner\u00e1veis, e outros com medo dos acordos que ser\u00e3o fechados, como \u00e9 o caso dos grandes exportadores de petr\u00f3leo. \u00c9 a confer\u00eancia de maior impacto que j\u00e1 se teve at\u00e9 hoje e que vai perdurar.<\/p>\n<p>O <strong>Acordo de Paris<\/strong> n\u00e3o \u00e9 algo que vai ser negociado nos pr\u00f3ximos cinco ou dez anos, tende a ser implementado e aprimorado com a evolu\u00e7\u00e3o dos compromissos dos pa\u00edses ao longo do tempo. Isso responde por que o encontro foi estendido por mais um dia. As decis\u00f5es s\u00e3o de extrema complexidade, relev\u00e2ncia e ter\u00e3o impacto durante muito tempo. \u00c9 o que acaba justificando tantas reuni\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como foi o clima das reuni\u00f5es e das negocia\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> Todos que vieram para esta <strong>COP<\/strong> e que acompanharam outras COPs sabem que sempre h\u00e1 crise, com momentos de bastante tens\u00e3o. As crises, \u00e0s vezes, ajudam a evoluir o grau de <strong>ambi\u00e7\u00e3o<\/strong>, de assertividade de textos. Mas essa foi uma COP diferente, pois n\u00e3o percebemos grandes momentos de tens\u00e3o entre os pa\u00edses. Em determinado momento houve at\u00e9 calma, claro que com momentos intensos de discuss\u00f5es, mas sem ningu\u00e9m levantar a voz, afirmando que est\u00e1 sendo tra\u00eddo por outro grupo de pa\u00edses ou amea\u00e7ando sair do processo.<\/p>\n<p>Essa calmaria, de um ambiente muito amistoso, chegou a preocupar porque era a indica\u00e7\u00e3o de que, talvez, houvesse certo conformismo nas salas e que para se chegar a um acordo as concess\u00f5es teriam de ser grandes. Entretanto, tamb\u00e9m houve uma press\u00e3o enorme para que a Confer\u00eancia chegasse a um acordo. Todos sabem que se n\u00e3o tivesse havido acordo, esses processos estariam muito mais em xeque do que quando sa\u00edmos, por exemplo, da<strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/29424-a-cop-15-e-outros-micos\" target=\"_blank\">COP-15<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Prepara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O governo franc\u00eas esteve muito bem preparado para essa confer\u00eancia. A <strong>Fran\u00e7a<\/strong> assumiu o compromisso de hospedar essa confer\u00eancia no final da <strong>COP-18<\/strong>, em 2012, que foi realizada em Vars\u00f3via (Pol\u00f4nia). Assim, desde 2013 e ao longo de 2014, eles come\u00e7aram a prepara\u00e7\u00e3o e, do ano passado para c\u00e1, trabalharam muito em sintonia com o <strong>governo peruano<\/strong>, que tinha a responsabilidade e a presid\u00eancia da \u00faltima confer\u00eancia. Ou seja, houve de fato um preparo muito grande para se chegar a essa forma de condu\u00e7\u00e3o do processo: de que as discuss\u00f5es s\u00e3o importantes, mas que n\u00e3o se pode aprofundar em discuss\u00f5es que n\u00e3o sejam t\u00e3o objetivas.<\/p>\n<p><strong>Compromissos volunt\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Mais um elemento que favoreceu esse ambiente menos tenso \u00e9 o fato de o processo ter sido constru\u00eddo com base em compromissos volunt\u00e1rios, definidos pelos pr\u00f3prios pa\u00edses. N\u00e3o existe uma <strong>defini\u00e7\u00e3o de compromissos<\/strong> de cima para baixo, os pa\u00edses foram convidados a dizer o que poderiam e o que deveriam fazer e o que consideravam ambicioso e justo. \u00c9 o conjunto de <strong>INDCs<\/strong> (Intended Nationally Determined Contributions) apresentado.<\/p>\n<p>Quase todos os pa\u00edses indicaram o que pretendem fazer, talvez menos de dez pa\u00edses n\u00e3o tenham apresentado. Se me recordo bem, dos 196 pa\u00edses, 185 submeteram seus compromissos. \u00c9 uma imensa maioria de pa\u00edses, o que demonstra tamb\u00e9m um engajamento para uma melhor defini\u00e7\u00e3o do que seria sua contribui\u00e7\u00e3o em termos de <strong>redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es<\/strong> ou de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549870-financiamento-causa-primeira-crise-em-paris\" target=\"_blank\"><strong>financiamento<\/strong><\/a> para o acordo. Esse engajamento ajuda e contribui para que o processo como um todo tenha sucesso, sem nenhuma imposi\u00e7\u00e3o de compromissos obrigat\u00f3rios por parte da conven\u00e7\u00e3o. Por outro lado, quanto \u00e0 an\u00e1lise do impacto desses compromissos, vemos que existe uma lacuna imensa.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cCom 1 grau j\u00e1 estamos vendo muitos desastres se intensificando\u201d<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Ao longo do encontro, houve muita discuss\u00e3o quanto a limitar o aquecimento em 1,5 ou em 2 graus. Mas o que significa esse percentual na pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> Com <strong>1 grau<\/strong> j\u00e1 estamos vendo muitos desastres se intensificando. S\u00f3 no <strong>Brasil<\/strong>, neste ano, pelo menos 25% dos munic\u00edpios decretaram situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia e calamidade p\u00fablica em fun\u00e7\u00e3o da intensifica\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549867-as-extremidades-do-evento-climatico\" target=\"_blank\"><strong>eventos extremos<\/strong><\/a> e ligados a um clima mais hostil, secas, estiagem, enchentes, alagamentos e deslizamentos de terras em fun\u00e7\u00e3o de tempestades, tornados. E isso tudo com 1 grau.<\/p>\n<p>Com <strong>1,5 grau<\/strong>, teremos a intensifica\u00e7\u00e3o de todos esses processos e um certo grau de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Al\u00e9m da intensifica\u00e7\u00e3o desses eventos, pa\u00edses insulares do Pac\u00edfico, por exemplo, que s\u00e3o os mais vulner\u00e1veis \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, correm o risco de desaparecer, em decorr\u00eancia do derretimento maci\u00e7o das camadas de gelo de todo o planeta, o que levaria a uma eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Ent\u00e3o, seremos impactados, mas de certa forma se consegue uma <strong>adapta\u00e7\u00e3o<\/strong> em fun\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Com <strong>2 graus<\/strong>, a preocupa\u00e7\u00e3o com pa\u00edses muito vulner\u00e1veis aumenta enormemente, levando at\u00e9 ao seu desaparecimento. N\u00e3o h\u00e1 adapta\u00e7\u00e3o para isso. Ainda tenderemos a perder muita biodiversidade terrestre, marinha, com grande amea\u00e7a a recifes de coral, que s\u00e3o ber\u00e7os da vida marinha, gerando assim um impacto em cadeia desde os pequenos crust\u00e1ceos at\u00e9 os grandes mam\u00edferos. Junto com essa maior eleva\u00e7\u00e3o do <strong>n\u00edvel do mar<\/strong> haver\u00e1 maior <strong>impacto<\/strong> nas regi\u00f5es costeiras de todo o mundo, tanto pelos impactos econ\u00f4micos nessa perda de biodiversidade importante para as atividades econ\u00f4micas, como tamb\u00e9m perda de \u00e1reas de praias, de dunas, impactos de infraestrutura, no sistema de esgotamento sanit\u00e1rio, entre outros problemas. O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/548611-brasil-2040-cenarios-e-alternativas-de-adaptacao-a-mudanca-do-clima\" target=\"_blank\"><strong>Brasil<\/strong><\/a>, por exemplo, j\u00e1 sofre com a mudan\u00e7a no regimento de mar\u00e9s, na circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Outra quest\u00e3o que foi pauta das discuss\u00f5es durante o encontro foi a diferencia\u00e7\u00e3o das responsabilidades entre os pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento. Como avalia esse debate?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> Foi o ponto mais complexo da negocia\u00e7\u00e3o, porque a diferencia\u00e7\u00e3o se aplica n\u00e3o apenas a <strong>compromissos<\/strong> de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00e3o (de gases), mas a compromissos de meios de implementa\u00e7\u00e3o, de apoio, financiamento clim\u00e1tico, transfer\u00eancia de tecnologia e capacita\u00e7\u00e3o, que hoje \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o de pa\u00edses desenvolvidos para com os pa\u00edses em desenvolvimento. A diferencia\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m diz respeito aos meios de acesso a essa implementa\u00e7\u00e3o, discutindo, por exemplo, que pa\u00edses poder\u00e3o acessar os recursos e quais ter\u00e3o direitos, de que forma esse acesso se dar\u00e1, que n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o precisa ser prestado para dar transpar\u00eancia \u00e0s necessidades desses pa\u00edses nos termos desse apoio.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o de <strong>diferencia\u00e7\u00e3o<\/strong> est\u00e1 relacionada a pontos muito importantes, por exemplo, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 equidade, quando se discute como se busca um equil\u00edbrio que, por um lado, d\u00e1 responsabilidade e capacidade para os pa\u00edses agirem e, por outro, traz a necessidade que pa\u00edses em desenvolvimento, especialmente os mais pobres, t\u00eam de receber apoio para o desenvolvimento mais limpo. E, principalmente, de maneira urgente, para lidar com os impactos dos desastres naturais atrav\u00e9s das estrat\u00e9gias de <strong>adapta\u00e7\u00e3o<\/strong>. H\u00e1 pa\u00edses em que a ajuda que recebem para seu desenvolvimento \u00e9 gasta totalmente para lidar com impactos de desastres naturais. Por exemplo: um furac\u00e3o que tenha atingido um pa\u00eds do<strong>\u00a0Caribe<\/strong>, que ainda \u00e9 muito pobre, vai fazer com que toda ajuda e investimento que seria para educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e outras \u00e1reas a fim de melhorar a qualidade de vida da sua popula\u00e7\u00e3o acabe sendo utilizada para reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, da infraestrutura que foi danificada. A diferencia\u00e7\u00e3o est\u00e1 vinculada a isso, ao equil\u00edbrio de definir responsabilidades e direitos de forma justa.<\/p>\n<p><strong>Destaque Brasil<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil teve um papel importante no debate em torno da diferencia\u00e7\u00e3o de responsabilidades, pois \u00e9 um pa\u00eds que vinha, desde a <strong>COP<\/strong> passada, apresentando propostas de diferencia\u00e7\u00e3o no que diz respeito a compromisso. A ministra do Meio Ambiente, <strong>Izabella Teixeira<\/strong>, com apoio do embaixador <strong>Luis Alberto Figueiredo Machado<\/strong>, facilitou ao longo do encontro as discuss\u00f5es dentro do grupo que tratou da diferencia\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m analisou como ela deveria ser aplicada aos diferentes elementos, como metas de mitiga\u00e7\u00e3o, financiamento e tamb\u00e9m ao mecanismo de transpar\u00eancia.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cH\u00e1 pa\u00edses em que a ajuda que recebem para seu desenvolvimento \u00e9 gasta totalmente para lidar com impactos de desastres naturais\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Outro ponto pol\u00eamico que emergiu em Paris foi como financiar esfor\u00e7os para frear e abrandar os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Como compreender essa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl &#8211;<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/547894-recursos-financeiros-sao-fundamentais-para-conter-mudancas-climaticas\" target=\"_blank\"><strong>financiamento<\/strong><\/a> est\u00e1 dentro de um pacote chamado \u201cmeios de implementa\u00e7\u00e3o\u201d que junta o financiamento, transfer\u00eancia de tecnologia limpa e capacita\u00e7\u00e3o, para que os pa\u00edses possam desenvolver ou assimilar tecnologia em a\u00e7\u00f5es que v\u00e3o reduzir emiss\u00f5es ou melhorar a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 um elemento muito importante, e os pa\u00edses, em 2009, se comprometeram a chegar a 2020 com 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares neste pacote de meios de implementa\u00e7\u00e3o. Agora, a discuss\u00e3o \u00e9 como evoluir a partir da\u00ed; 100 bilh\u00f5es parece uma quantia imensa de recursos, mas quando avaliamos s\u00f3 os impactos de <strong>desastres naturais<\/strong> em todo o mundo, eles atingem uma escala muito maior do que isso ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Se juntarmos a isso necessidades de <strong>desenvolvimento <\/strong>limpo e adaptado \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u00e9 um recurso importante, embora insuficiente, mas se aplicado aos pa\u00edses mais pobres pode fazer uma grande diferen\u00e7a. Ou voc\u00ea divide a conta do clima s\u00f3 com pa\u00edses desenvolvidos ou tamb\u00e9m promove o engajamento, inicialmente volunt\u00e1rio, de pa\u00edses em desenvolvimento, em a\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o de sul para sul. \u00c9 preciso pensar como esses pa\u00edses podem se engajar ao longo do tempo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como avalia a participa\u00e7\u00e3o do Brasil na COP de Paris?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Rittl \u2013<\/strong> O <strong>Brasil<\/strong> teve um papel construtivo. N\u00e3o foi um pa\u00eds que colocou obst\u00e1culos para a evolu\u00e7\u00e3o da negocia\u00e7\u00e3o para o caminho do acordo mais robusto, mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o foi muito forte ao defender as op\u00e7\u00f5es mais fortes, como <strong>1,5 grau<\/strong>\u00a0de limite m\u00e1ximo de aumento de temperatura ou mecanismos de revis\u00e3o de metas mais objetivos. Isso tornaria o acordo o melhor acordo poss\u00edvel em <strong>Paris<\/strong>. Tanto que foi objeto de uma campanha de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil nos \u00faltimos dias para que, junto com <strong>China, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul<\/strong>, trabalhasse por um <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550243-clima-vem-ai-um-grande-acordo--so-que-nao\" target=\"_blank\">acordo efetivamente ambicioso<\/a> em Paris.<\/p>\n<p><em>Por Jo\u00e3o Vitor Santos<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <strong>IHU On-Line<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordo de Paris: avan\u00e7o nas metas, mas fragilidade na implementa\u00e7\u00e3o. \u201cA transi\u00e7\u00e3o para um mundo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Acordo de Paris: avan\u00e7o nas metas, mas fragilidade na implementa\u00e7\u00e3o. \u201cA transi\u00e7\u00e3o para um mundo","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33567"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33567"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33567\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}