{"id":32916,"date":"2015-12-07T08:00:43","date_gmt":"2015-12-07T11:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=32916"},"modified":"2015-12-06T21:10:19","modified_gmt":"2015-12-07T00:10:19","slug":"ilha-de-pascoa-arqueologos-estao-tentando-descobrir-como-as-estatuas-andaram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/ilha-de-pascoa-arqueologos-estao-tentando-descobrir-como-as-estatuas-andaram\/","title":{"rendered":"Ilha de P\u00e1scoa: arque\u00f3logos est\u00e3o tentando descobrir como \u201cas est\u00e1tuas andaram\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-32917\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em uma noite de inverno no ano passado, Jos\u00e9 Antonio Tuki, de 30 anos, artista da ilha de P\u00e1scoa, faz uma das coisas de que mais gosta: sai de sua casa de um c\u00f4modo na costa sudoeste e atravessa a ilha a p\u00e9 at\u00e9 a praia de Anakena, ao norte. Diz a lenda que os primeiros colonizadores polin\u00e9sios atracaram suas canoas em Anakena, h\u00e1 mil anos, depois de navegar por mais de 2 mil quil\u00f4metros pelo Pac\u00edfico. Sob a mesma lua e estrelas, Tuki senta-se na areia e fita as colossais est\u00e1tuas humanas, os moais, esculpidas s\u00e9culos atr\u00e1s em tufo vulc\u00e2nico para corporificar os esp\u00edritos deificados de ancestrais.<\/p>\n<p>Galos insones cantam, c\u00e3es sem dono latem. Tuki \u00e9 um rapanui, ind\u00edgena descendente de polin\u00e9sios residente em Rapa Nui, como os habitantes chamam a ilha de P\u00e1scoa; e seus ancestrais esculpiram algumas das centenas de est\u00e1tuas da ilha. Em Anakena, sete moais aprumam-se em uma plataforma de pedra de 16 metros de comprimento \u2013 de costas para o Pac\u00edfico, os bra\u00e7os ao lado do corpo, cada cabe\u00e7a enchapelada com um alto pukao, feito de esc\u00f3ria vermelha, outra rocha vulc\u00e2nica. As est\u00e1tuas velam essa ilha long\u00ednqua desde tempos remotos, mas, quando Tuki contempla seus rostos, sente forte liga\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 uma coisa estranha, uma energia\u201d, diz. \u201cEste \u00e9 um produto da minha cultura. \u00c9 rapanui.\u201d E indaga, perplexo: \u201cComo foi que eles fizeram?\u201d<\/p>\n<p>A ilha de P\u00e1scoa, de apenas 164 quil\u00f4metros quadrados, fica a 3 500 quil\u00f4metros a oeste da Am\u00e9rica do Sul e a 2 000 quil\u00f4metros a leste de Pitcairn, sua vizinha habitada mais pr\u00f3xima. Toda energia e os recursos despendidos nos moais \u2013 que t\u00eam de 1 a 10 metros de altura e chegam a pesar mais de 80 toneladas \u2013 vieram da pr\u00f3pria ilha. No entanto, quando exploradores holandeses desembarcaram ali, no domingo de P\u00e1scoa de 1722, encontraram uma cultura da Idade da Pedra. Os moais foram esculpidos com ferramentas de pedra, a maioria em uma \u00fanica pedreira, e transportados, sem animais de tra\u00e7\u00e3o nem rodas, at\u00e9 imensas plataformas de pedra, ou ahu, por at\u00e9 18 quil\u00f4metros. A pergunta de Tuki \u2013 como foi que eles fizeram? \u2013 instiga legi\u00f5es de visitantes.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, os moais entraram em um debate mais amplo, que op\u00f5e duas vers\u00f5es do passado da ilha \u2013 e da humanidade em geral. A primeira, defendida com eloqu\u00eancia por Jared Diamond, laureado com o pr\u00eamio Pulitzer, apresenta a ilha como uma par\u00e1bola de alerta: o caso mais extremo de uma sociedade que se destruiu arruinando o pr\u00f3prio ambiente. O planeta como um todo, pergunta Diamond, ser\u00e1 capaz de evitar o mesmo destino? Na outra vers\u00e3o, os antigos rapanuis s\u00e3o emblemas enaltecedores da resili\u00eancia e do engenho humanos \u2013 por exemplo, sua habilidade de carregar est\u00e1tuas gigantescas em p\u00e9 por quil\u00f4metros de terreno irregular.<\/p>\n<p>Quando os colonizadores polin\u00e9sios chegaram a Rapa Nui, haviam percorrido o oceano por semanas em canoas abertas. Eram apenas d\u00fazias de pessoas. Hoje chegam 12 voos por semana, vindos do Chile, do Peru e do Taiti, e em 2011 trouxeram 50 mil turistas, dez vezes a popula\u00e7\u00e3o da ilha. H\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, carros, eletricidade e telefone eram raros; agora, a \u00fanica cidade, Hanga Roa, fervilha de cibercaf\u00e9s, bares e danceterias, e as ruas ficam apinhadas de carros e utilit\u00e1rios nas noites de s\u00e1bado. Turistas endinheirados deixam 1 000 d\u00f3lares por noite nos mais luxuosos dentre as dezenas de hot\u00e9is. \u201cA ilha n\u00e3o \u00e9 mais ilha\u201d, diz Kara Pate, de 40 anos, escultora, casada com um alem\u00e3o que conheceu 23 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O Chile anexou a ilha de P\u00e1scoa em 1888, mas, at\u00e9 1953, permitiu que uma companhia escocesa a administrasse como uma gigantesca fazenda de ovelhas. Os animais andavam soltos, enquanto os rapanuis viviam confinados em Hanga Roa. Em 1964, eles se revoltaram. Obtiveram a cidadania chilena e o direito de eleger seu prefeito.<\/p>\n<p>\u00c9 grande a ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a el conti (o continente). Os pascoenses dependem do Chile para seu combust\u00edvel e remessas di\u00e1rias de alimento. Falam espanhol e v\u00e3o at\u00e9 l\u00e1 cursar o ensino superior. Enquanto isso, migrantes chilenos, atra\u00eddos em parte pela isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda na ilha, aceitam de bom grado os empregos desprezados pelos rapanuis. \u201cUm rapanui dir\u00e1: O qu\u00ea, est\u00e1 pensando que eu vou lavar pratos?\u201d, conta Beno At\u00e1n, de 27 anos, guia tur\u00edstico nativo. Embora muitos rapanuis tenham desposado de pessoas do continente, alguns receiam que sua cultura esteja sendo dilu\u00edda. A popula\u00e7\u00e3o atual, de 5 mil habitantes, \u00e9 quase o dobro da de 20 anos atr\u00e1s, e menos da metade \u00e9 rapanui.<\/p>\n<p>A grande maioria dos empregos na ilha de P\u00e1scoa depende do turismo. \u201cSem os visitantes, todo mundo passaria fome\u201d, resume Mahina Lucero Teao, diretora da C\u00e2mara de Turismo.<\/p>\n<p>A atual prefeita, Luz Zazzo Paoa, explica: \u201cNosso patrim\u00f4nio \u00e9 a base de nossa economia. Voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o aqui por nossa causa, mas sim por nosso patrim\u00f4nio\u201d. Ou seja, pelos moais.<\/p>\n<p>Thor Heyerdahl, etn\u00f3grafo e aventureiro noruegu\u00eas cujas expedi\u00e7\u00f5es no Pac\u00edfico ajudaram a despertar a curiosidade pela ilha de P\u00e1scoa, pensava que as est\u00e1tuas haviam sido criadas por pr\u00e9-incas do Peru, e n\u00e3o por polin\u00e9sios. O su\u00ed\u00e7o Erich von D\u00e4niken, autor do best-seller Eram os Deuses Astronautas?, tinha certeza de que os moais foram constru\u00eddos por ETs. A ci\u00eancia moderna \u2013 baseada apenas em evid\u00eancias lingu\u00edsticas, arqueol\u00f3gicas e gen\u00e9ticas \u2013 provou que quem fez os moais foram os polin\u00e9sios, mas n\u00e3o descobriu como os transportaram. Pesquisadores tendem a supor que os ancestrais deram um jeito de arrastar as est\u00e1tuas usando cordas e madeira. H\u00e1 controv\u00e9rsias. \u201cOs especialistas podem dizer o que quiser\u201d, desafia Suri Tuki, de 25 anos, meioirm\u00e3o de Jos\u00e9 Antonio, \u201cmas sabemos a verdade. As est\u00e1tuas andaram.\u201d Na tradi\u00e7\u00e3o oral rapanui, os moais eram animados pelo mana, uma for\u00e7a espiritual transmitida dos ancestrais.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 relatos sobre constru\u00e7\u00e3o de moais depois da chegada dos europeus, no s\u00e9culo 18. \u00c0quela altura, s\u00f3 havia algumas \u00e1rvores raqu\u00edticas. Nos anos 1970 e 1980, contudo, o bioge\u00f3grafo John Flenley encontrou ind\u00edcios \u2013 p\u00f3len preservado em sedimentos lacustres \u2013 de que, por milhares de anos, a ilha foi coberta de florestas, que inclu\u00edam milh\u00f5es de gigantescas palmeiras. S\u00f3 depois da chegada dos polin\u00e9sios, por volta do ano 800, as florestas deram lugar a campinas.<\/p>\n<p>O trabalho de Flenley serviu de base para Jared Diamond afirmar em seu influente livro Colapso, publicado em 2005, que os antigos pascoenses cometeram um ecoc\u00eddio impremeditado.<\/p>\n<p>Eles tiveram o azar, sup\u00f5e Diamond, de estabelecer-se em uma ilha muito fr\u00e1gil \u2013 seca, fria e remota, e por isso pouco fertilizada por poeira ou cinza vulc\u00e2nica trazidas pelo vento (os vulc\u00f5es da ilha est\u00e3o extintos). Quando os habitantes desmataram para plantar, as florestas n\u00e3o voltaram a crescer. Quando a madeira escasseou, os ilh\u00e9us n\u00e3o puderam mais construir canoas para pescar em alto-mar; por isso, comeram as aves. A eros\u00e3o do solo empobreceu as colheitas. Antes da chegada dos europeus, os rapanuis haviam descambado para a guerra civil e o canibalismo. O colapso de sua civiliza\u00e7\u00e3o isolada, escreveu Diamond, \u00e9 \u201co mais claro exemplo de uma sociedade que se autodestruiu com a explora\u00e7\u00e3o de seus recursos\u201d e \u201cuma catastr\u00f3fica amostra do que pode estar a nossa espera no futuro\u201d.<\/p>\n<p>Para Diamond, os moais aceleraram essa autodestrui\u00e7\u00e3o. Ele os interpreta como exibi\u00e7\u00f5es de poder por chefes rivais que, em uma ilha remota, n\u00e3o dispunham de outros meios para ostentar grandeza. Por isso, competiam construindo est\u00e1tuas cada vez maiores. Diamond sup\u00f5e que transportavam os moais em tren\u00f3s de madeira, arrastados em trilhos de toras \u2013 uma t\u00e9cnica testada com \u00eaxito pela arque\u00f3loga Jo Anne van Tilburg, da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles, diretora do Projeto Est\u00e1tuas da Ilha de P\u00e1scoa. Isso, por\u00e9m, requeria muita madeira e gente. Para alimentar essa multid\u00e3o, foi preciso desmatar ainda mais. Quando a madeira se extinguiu e a guerra civil eclodiu, os ilh\u00e9us come\u00e7aram a derrubar os moais. No s\u00e9culo 19, n\u00e3o restava nenhum em p\u00e9. A paisagem da ilha adquiriu uma aura de trag\u00e9dia que, aos olhos de Diamond e de muitos outros, conserva at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Mas, se rearranjarmos e reinterpretarmos os esparsos fragmentos de fatos, teremos uma vis\u00e3o mais otimista do passado de Rapa Nui: a mesma dos arque\u00f3logos Terry Hunt, da Universidade do Hava\u00ed, e Carl Lipo, da Universidade do Estado da Calif\u00f3rnia em Long Beach, que estudaram a ilha na d\u00e9cada passada. \u00c9 uma vis\u00e3o povoada de pac\u00edficos e engenhosos construtores de moais e zelosos guardi\u00f5es da terra. Hunt e Lipo concordam que a ilha de P\u00e1scoa perdeu suas florestas em uma \u201ccat\u00e1strofe ecol\u00f3gica\u201d, mas acham que a culpa n\u00e3o foi dos ilh\u00e9us. Nem dos moais.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica vers\u00e3o de Hunt e Lipo, baseada em estudos pr\u00f3prios e de terceiros, come\u00e7ou com suas escava\u00e7\u00f5es na praia de Anakena. Elas os convenceram de que os polin\u00e9sios s\u00f3 chegaram em 1200, quatro s\u00e9culos mais tarde do que se sup\u00f5e. Isso lhes daria apenas cinco s\u00e9culos para desnudar a paisagem. As queimadas n\u00e3o teriam sido suficientes, pensam Hunt e Lipo. Seja como for, havia outro exterminador de \u00e1rvores. Quando os arque\u00f3logos desenterraram nozes da extinta palmeira da ilha, viram que muitas estavam machucadas com min\u00fasculos sulcos, feitos por afiados dentes de ratos polin\u00e9sios.<\/p>\n<p>Os roedores chegaram nas mesmas canoas dos primeiros colonizadores. Ossos na escava\u00e7\u00e3o de Anakena sugerem que os ilh\u00e9us os comiam, mas, al\u00e9m deles, os ratos n\u00e3o tinham outros predadores. Em poucos anos, calculam Hunt e Lipo, a ilha foi infestada por esses animais. Ao banquetear-se com as nozes das palmeiras, eles consumiram as sementes que poderiam repor aquelas \u00e1rvores de crescimento lento, e assim condenaram \u00e0 extin\u00e7\u00e3o a floresta de Rapa Nui. Sem d\u00favida, os ratos tamb\u00e9m comiam ovos de aves.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que os colonizadores foram culpados por trazer os ratos; Hunt e Lipo sup\u00f5em que eles o fizeram de prop\u00f3sito (tamb\u00e9m levaram galinhas). Mas, assim como as esp\u00e9cies invasivas atuais, os ratos prejudicaram o ecossistema mais que os seres humanos. Hunt e Lipo n\u00e3o viram ind\u00edcios de que a civiliza\u00e7\u00e3o rapanui tenha entrado em colapso com a floresta de palmeiras. Eles julgam que a popula\u00e7\u00e3o cresceu depressa para 3 mil pessoas ap\u00f3s a coloniza\u00e7\u00e3o, e que ficou mais ou menos est\u00e1vel at\u00e9 a chegada dos europeus.<\/p>\n<p>Os campos desmatados eram mais valiosos que as florestas de palmeiras para os rapanuis. Para plantar, assim como para mover os moais, os ilh\u00e9us deslocaram quantidades monumentais de rocha \u2013 para dentro de seus campos, mas n\u00e3o para fora. Constru\u00edram milhares de quebraventos de pedra circulares, chamados manavai, e cultivavam nesse interior protegido. Forraram campos inteiros com rochas vulc\u00e2nicas quebradas para manter o solo \u00famido. Em suma, sup\u00f5em Hunt, Lipo e outros, os rapanuis foram pioneiros da agricultura sustent\u00e1vel, e n\u00e3o perpetradores de ecoc\u00eddio. \u201cEm vez de ser um humilhante fracasso, Rapa Nui \u00e9 uma improv\u00e1vel hist\u00f3ria de sucesso\u201d, afirmam Hunt e Lipo em seu livro recente.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do livro \u00e9 The Statues That Walked (\u201cAs Est\u00e1tuas Que Andaram\u201d), e os rapanuis s\u00e3o retratados com mais simpatia que em Colapso. Hunt e Lipo n\u00e3o confiam em relatos orais de conflitos entre os rapanuis; sup\u00f5em que os fragmentos afiados de obsidiana que outros arque\u00f3logos julgam ser armas eram, na verdade, ferramentas. Mais: mover os moais requeria poucas pessoas e nenhuma madeira, pois eram transportados em p\u00e9.<\/p>\n<p>Sergio Rapu, de 63 anos, arque\u00f3logo rapanui, leva seus colegas americanos at\u00e9 a antiga pedreira em Rano Raraku, o vulc\u00e3o no sudoeste da ilha. Fitando os moais, Rapu explica como foram projetados para andar: a barriga protuberante inclinava-os para frente, e uma base em forma de D permitia aos transportadores rolar e balan\u00e7ar as esculturas de um lado para outro. Em 2011, em experimentos financiados pelo Conselho de Expedi\u00e7\u00f5es da National Geographic, Hunt e Lipo mostraram que apenas 18 pessoas podiam, com tr\u00eas cordas fortes, manobrar uma r\u00e9plica de moai de 3 metros e 5 toneladas por algumas centenas de metros. Na vida real, andar quil\u00f4metros com moais bem maiores teria sido uma tarefa enervante. Dezenas de est\u00e1tuas ca\u00eddas ladeiam as estradas que saem da pedreira. Outras, por\u00e9m, chegaram intactas a suas plataformas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo quando a \u00faltima est\u00e1tua foi esculpida. Muitas ainda estavam em p\u00e9 quando os holandeses ali aportaram em 1722, e a civiliza\u00e7\u00e3o rapanui, na \u00e9poca, era pac\u00edfica e pr\u00f3spera, sup\u00f5em Hunt e Lipo. Mas os exploradores introduziram doen\u00e7as contra as quais os nativos n\u00e3o tinham imunidade, al\u00e9m de artefatos que substitu\u00edram os moais como s\u00edmbolo de status. No s\u00e9culo 19, traficantes de escravos dizimaram a popula\u00e7\u00e3o, que, em 1877, encolhera para 111.<\/p>\n<p>Os habitantes atuais est\u00e3o diante de um novo desafio: explorar seu legado cultural sem arruin\u00e1- lo. A popula\u00e7\u00e3o crescente e milhares de turistas est\u00e3o esgotando o limitado estoque de \u00e1gua. A ilha n\u00e3o tem rede de esgoto nem onde p\u00f4r seu lixo cada vez mais volumoso: entre 2009 e meados de 2011, P\u00e1scoa mandou 230 toneladas para o continente. \u201cO que podemos fazer?\u201d, indaga a prefeita Luz Zasso Paoa. \u201cLimitar a imigra\u00e7\u00e3o? Limitar o turismo? Eis o nosso dilema.\u201d H\u00e1 pouco tempo, a ilha come\u00e7ou a pedir aos turistas que levem seu lixo embora na bagagem.<\/p>\n<p>O desejo dos ilh\u00e9us de desenvolver suas terras ancestrais pode ser uma amea\u00e7a ainda maior a sua concentrada heran\u00e7a: mais de 20 mil artigos arqueol\u00f3gicos no total, como jardins murados e galinheiros de pedra, al\u00e9m de moais e ahu. Mais de 40% da ilha \u00e9 um parque nacional, o que limita a terra dispon\u00edvel. \u201cAs pessoas t\u00eam de aprender que a arqueologia n\u00e3o \u00e9 inimiga\u201d, diz Rapu. D\u00e9cadas atr\u00e1s, ele pr\u00f3prio ajudou a recolocar em p\u00e9 os moais de Akena. Nesse processo, descobriu que os construtores dos moais puseram olhos de coral branco e pupilas de obsidiana ou esc\u00f3ria vermelha nas \u00f3rbitas vazias.<\/p>\n<p>Um bosque de coqueiros, importados do Taiti, hoje margeia a praia de Anakena, assegurando a banhistas e rec\u00e9m-casados chilenos que eles est\u00e3o mesmo na Polin\u00e9sia, ainda que o vento esgani\u00e7ado e os morros gramados atr\u00e1s deles lembrem mais as escocesas Highlands. Os moais agora n\u00e3o t\u00eam olhos e nada revelam sobre a verdadeira hist\u00f3ria da ilha. Tuki \u00e9 um dos que aceitam a ambiguidade. \u201cQuero saber a verdade\u201d, diz. \u201cMas talvez a ilha n\u00e3o d\u00ea todas as respostas. E talvez saber tudo remova seu poder.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma noite de inverno no ano passado, Jos\u00e9 Antonio Tuki, de 30 anos, artista<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":32917,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/ilhapascoa.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Em uma noite de inverno no ano passado, Jos\u00e9 Antonio Tuki, de 30 anos, artista","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32916"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32916"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32916\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32917"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}