{"id":31848,"date":"2015-11-19T11:00:33","date_gmt":"2015-11-19T14:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=31848"},"modified":"2015-11-19T08:12:14","modified_gmt":"2015-11-19T11:12:14","slug":"o-preco-do-descaso-com-a-sustentabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-preco-do-descaso-com-a-sustentabilidade\/","title":{"rendered":"O pre\u00e7o do descaso com a sustentabilidade se reflete no caos de um mar de lama"},"content":{"rendered":"<div class=\"theContent\">\n<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-31434\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por Marcos Fabr\u00edcio Lopes da Silva<\/p>\n<p>Ditado catal\u00e3o: \u201cEntre Deus e o dinheiro, o segundo \u00e9 sempre o primeiro.\u201d Do caos \u00e0 lama, eis o resultado de um pa\u00eds que, inebriado pela gan\u00e2ncia financeira, vira as costas para a sustentabilidade: \u201cEram 16h20 quando um estrondo anunciou a trag\u00e9dia que ficar\u00e1 para sempre marcada na hist\u00f3ria de Minas Gerais e, sobretudo, nas mem\u00f3rias de moradores das cidades de Mariana e Ouro Preto. A barragem do Fund\u00e3o, da Mina do Germano, propriedade da mineradora Samarco, entre os dois munic\u00edpios da Regi\u00e3o Central do estado, estourou, liberando um tsunami de lama e rejeito t\u00f3xico que varreu o que encontrava pela frente. O povoado de Bento Rodrigues, distante 2,8 quil\u00f4metros, onde havia 200 casas e viviam 620 pessoas, foi arrasado\u201d, informam os rep\u00f3rteres Landercy Hemerson, Rodrigo Melo e Roney Garcia, no <i>Correio Braziliense<\/i> de 06\/11\/2015.<\/p>\n<p>Em <i>Saber cuidar: \u00e9tica do humano, compaix\u00e3o pela terra<\/i> (2008), Leonardo Boff oferece ao p\u00fablico um conceito acertado acerca da sustentabilidade: \u201cDiz-se que uma sociedade ou um processo de desenvolvimento possui sustentabilidade quando por ele se consegue a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades, sem comprometer o capital natural e sem lesar o direito das gera\u00e7\u00f5es futuras de verem atendidas tamb\u00e9m as suas necessidades e de poderem herdar um planeta sadio em seus ecossistemas preservados.\u201d Al\u00e9m desta contribui\u00e7\u00e3o conceitual, o te\u00f3logo e fil\u00f3sofo brasileiro destaca S\u00e3o Francisco de Assis (1182-1226) como figura exemplar em prol da sustentabilidade no planeta.<\/p>\n<p>Fazendo quest\u00e3o de destacar os la\u00e7os de fraternidade que nos une a todos os seres, o padroeiro da sustentabilidade, com ternura, chamava a todos de irm\u00e3os e de irm\u00e3s: o Sol, a Lua, as formigas e o lobo de Gubbio. Para S\u00e3o Francisco de Assis, todas as coisas tinham um cora\u00e7\u00e3o, um pulsar pelo qual nutria venera\u00e7\u00e3o e respeito, considerando como especial cada ser, por menos que fosse. Mesmo as ervas daninhas, nas hortas, eram bem consideradas por S\u00e3o Francisco de Assis, pois, na vis\u00e3o dele, elas, do seu jeito, louvavam o Criador. Assim, o not\u00e1vel evangelista simboliza o modo-de-ser do cuidado com respeito ao meio ambiente, representando um modelo verdadeiramente alternativo ao modo-de-ser do trabalho-domina\u00e7\u00e3o-agress\u00e3o da natureza, conforme bem observa Leonardo Boff.<\/p>\n<p>Admirado em nosso pa\u00eds, S\u00e3o Francisco de Assis sintetiza muito bem o <i>vanguardismo ambiental<\/i> que se faz pujante no Brasil, pot\u00eancia ambiental por natureza. O reconhecimento deste m\u00e9rito se faz presente pelo menos desde a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500. Mesmo sabendo das inten\u00e7\u00f5es patrimonialistas da coroa portuguesa em extrair ao m\u00e1ximo os recursos naturais da col\u00f4nia \u201cdescoberta\u201d, o documento em quest\u00e3o revela o fasc\u00ednio dos que aqui aportaram: \u201cAt\u00e9 agora n\u00e3o pudemos saber se h\u00e1 ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si \u00e9 de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo d\u2019agora assim os ach\u00e1vamos como os de l\u00e1. \u00c1guas s\u00e3o muitas; infinitas. Em tal maneira \u00e9 graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-\u00e1 nela tudo; por causa das \u00e1guas que tem!\u201d<\/p>\n<p><b>Um<\/b><b> subdesenvolvimento traum\u00e1tico<\/b><\/p>\n<p>Do trecho em destaque nasceu o famoso \u201cem se plantando tudo d\u00e1\u201d. Infelizmente, esta caracter\u00edstica atraiu muito mais a gan\u00e2ncia predat\u00f3ria do que o zelo preservador. Se, na esteira orgulhosamente nacionalista de Jorge Ben Jor, na can\u00e7\u00e3o <i>Pa\u00eds tropical <\/i>(1969), podemos nos orgulhar de que \u201cmoro no pa\u00eds tropical\/aben\u00e7oado por Deus\/e bonito por natureza\u201d, temos que admitir que o nosso patrim\u00f4nio ambiental \u00e9 constantemente dilapidado de forma tenebrosa, conforme testemunhou, certa vez, o poeta \u00e1rcade Cl\u00e1udio Manuel da Costa (1729-1789): \u201cLeia a posteridade, \u00f3 p\u00e1trio Rio,\/Em meus versos teu nome celebrado;\/Por que vejas uma hora despertado\/O sono vil do esquecimento frio:\/N\u00e3o v\u00eas nas tuas margens o sombrio,\/Fresco assento de um \u00e1lamo copado;\/N\u00e3o v\u00eas ninfa cantar, pastar o gado\/Na tarde clara do calmoso estio.\/Turvo banhando as p\u00e1lidas areias\/Nas por\u00e7\u00f5es do riqu\u00edssimo tesouro\/O vasto campo da ambi\u00e7\u00e3o recreias.\/Que de seus raios o planeta louro\/Enriquecendo o influxo em tuas veias,\/Quanto em chamas fecunda, brota em ouro\u201d. Destacando as belezas do Ribeir\u00e3o do Carmo, o \u201cp\u00e1trio Rio\u201d, Cl\u00e1udio Manuel da Costa, neste soneto, tamb\u00e9m ressalta a ambi\u00e7\u00e3o desenfreada daqueles que exploravam, no s\u00e9culo XVIII, o ouro presente naquela importante paisagem mineira.<\/p>\n<p>No poema \u201cEstranhas Minas\u201d (<i>Em ponto de bala<\/i>, 2013), Ricardo Evangelista tamb\u00e9m denunciou a ordem econ\u00f4mica como respons\u00e1vel direta pelo descaso brutal que afeta nossa dimens\u00e3o ecol\u00f3gica: \u201cMinas estranha\/o que te d\u00e1 nome\/estraga vossas estranhas.\/Minas,\/extirpam suas tripas\/de ouro, calc\u00e1rio\/diamante ferro brita.\/Estupram vossas matas\/rios, lagos e grutas.\/Exportam pro estranja\/China, Europa, Jap\u00e3o.\/Poucos imaginam, mas esse apito do trem\/\u00e9 um grito do min\u00e9rio que te roubam \u00e0s escondidas.\/Oh! Minas Gerais! Que esvai em feios vag\u00f5es.\/No caminho que tu andas n\u00e3o restar\u00e1 nem os Gerais.\u201d<\/p>\n<p>Face ao exposto, \u00e9 preciso encarar a quest\u00e3o da sustentabilidade como princ\u00edpio m\u00e1ximo do comportamento respons\u00e1vel a favor da qualidade de vida. Para tanto, \u00e9 preciso que o investimento de recursos, a dire\u00e7\u00e3o do desenvolvimento tecnol\u00f3gico e as mudan\u00e7as institucionais estejam em sintonia com o est\u00edmulo voltado para o progresso da gera\u00e7\u00e3o presente, como tamb\u00e9m da gera\u00e7\u00e3o futura, suprindo, assim, suas necessidades e aspira\u00e7\u00f5es. Considerando a etimologia latina da palavra, o termo sustentabilidade prov\u00e9m dos verbos <i>sustentare<\/i> (manter) e <i>sustinere<\/i> (n\u00e3o deixar cair). O desenvolvimento que ignora a preserva\u00e7\u00e3o e o progresso do nosso ecossistema, no fundo, se consolida como subdesenvolvimento traum\u00e1tico, resultante da hist\u00f3rica falta de cuidado para com todos os seres da cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\n***<br \/>\nMarcos Fabr\u00edcio Lopes da Silva \u00e9 professor universit\u00e1rio, jornalista, poeta e doutor em Estudos Liter\u00e1rios<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcos Fabr\u00edcio Lopes da Silva Ditado catal\u00e3o: \u201cEntre Deus e o dinheiro, o segundo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":31434,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/lama_barragem.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Marcos Fabr\u00edcio Lopes da Silva Ditado catal\u00e3o: \u201cEntre Deus e o dinheiro, o segundo","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31848"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31848"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31848\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}