{"id":31658,"date":"2015-11-15T11:13:18","date_gmt":"2015-11-15T14:13:18","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=31658"},"modified":"2015-11-15T11:14:12","modified_gmt":"2015-11-15T14:14:12","slug":"felinos-abandonados-no-brasil-o-dilema-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/felinos-abandonados-no-brasil-o-dilema-continua\/","title":{"rendered":"Felinos abandonados no Brasil: o dilema continua"},"content":{"rendered":"<div id=\"txt\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"irc_mi\" src=\"http:\/\/imirante.globo.com\/imagens\/2013\/07\/10\/beiradorio3100713.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" \/><\/p>\n<p>Por S\u00f4nia T. Felipe*<\/p>\n<p>Toda compaix\u00e3o por esses animais eu compreendo bem. Por isso, compreendo bem as cr\u00edticas ao que escrevo. Ent\u00e3o, para acalentar alguns coment\u00e1rios ao <a href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/felinos-felizes\" target=\"_blank\">outro texto<\/a>, no qual tratei do dilema \u00e9tico entre castrar ou n\u00e3o castrar os animais retidos sob a guarda humana (os que foram recolhidos das ruas antes que a morte os atingisse, ou mesmo os comprados em lojas e fornecedores), sigo pensando a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m escreveu na postagem anterior: n\u00e3o existe mundo ideal para esses animais, porque sempre algu\u00e9m abandona algum deles e a gente n\u00e3o suporta ver tanta dor e sofrimento e acaba levando para cuidar, e da\u00ed tem que prender em casa e castrar, para poupar dois males: a morte torturante nas ruas e a reprodu\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica de novos felinos. Muito boa a\u00e7\u00e3o. Aquele animal foi salvo da morte ou de uma agonia imensa, aquele animal paga sua parte por ter sido salvo da morte. Mas o pre\u00e7o pago para ter a vida poupada tem que ser cobrado de todos?<\/p>\n<p>Existem. sim, cidades onde n\u00e3o h\u00e1 um animal sequer perdido, abandonado, dilacerado ou morto por envenenamento, enforcamentos e pancadas. Ent\u00e3o, h\u00e1, nessas cidades algo que nas outras se perdeu.<\/p>\n<p>Vou dar um exemplo que vivi por seis anos. Na Alemanha nunca vi um gato sequer abandonado ou qualquer c\u00e3o. N\u00e3o creio que, simplesmente ou por natureza, os alem\u00e3es sejam melhores do que n\u00f3s. Mas, tamb\u00e9m sabemos que, para ser bom e responder pela vida de algu\u00e9m, o ser humano tamb\u00e9m precisa de uma estrutura material, pol\u00edtica, financeira e emocional favor\u00e1vel \u00e0 bondade. Como \u00e9 que os alem\u00e3es podem ser bons com os gatos e c\u00e3es?<\/p>\n<p>L\u00e1, n\u00e3o h\u00e1 como abandonar um animal sem que o abandonador seja reconhecido pelas autoridades. N\u00e3o h\u00e1 como um gato qualquer sair por ali e se perder, perdendo o lar que o tutela, muito menos h\u00e1 quem possa \u201csoltar\u201d seu gato ou abandon\u00e1-lo sem ser identificado. E sabem qual a m\u00e1gica inventada pelos alem\u00e3es? A m\u00e1gica foi uma atitude pol\u00edtica, institucional, uma pol\u00edtica de Estado, v\u00e1lida em todas as cidades, para todas as pessoas humanas, incluindo todos os moradores de rua que queiram ter um animal n\u00e3o humano junto a si (geralmente o c\u00e3o, por raz\u00f5es \u00f3bvias, pois os gatos saem de perto quando algo vai mal).<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, mas ningu\u00e9nzinho mesmo pode ter um animal como se fosse um objeto que se pega e se larga quando melhor aprouver. Toda pessoa humana que quiser ter uma pessoa de outra esp\u00e9cie sob sua guarda e companhia, precisa ir \u00e0 Prefeitura registrar a pessoa da outra esp\u00e9cie sob sua tutela. H\u00e1 regras. E se algu\u00e9m n\u00e3o as cumpre, h\u00e1 fiscaliza\u00e7\u00e3o e penalidades. Aqui, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, porque n\u00e3o queremos lidar com a causa do mal, o abandono de animais que sequer tiveram um registro de nascimento e muito menos a assinatura de responsabilidade aposta a uma tutela, essa liberalidade brasileira para se ter animais como se fossem bonecas e bonecos sint\u00e9ticos descart\u00e1veis, ficamos enxugando gelo, lidando apenas com a consequ\u00eancia, o desdobramento final dessa pseudo liberdade ou desse pseudo direito humano de possuir animais como se fossem objetos. Ali\u00e1s, at\u00e9 para ter certos objetos \u00e9 preciso registrar: celular, autom\u00f3vel, casa, terreno.<\/p>\n<p>E, como somos bem-estaristas a favor de nosso conforto, se n\u00e3o lidamos com a causa, porque isso nos d\u00e1 trabalho, quando lidamos s\u00f3 com o que chega ao final de um tra\u00e7ado e nos causa mal, acabamos por descontar parte do mal-estar que nos causa, outra vez, em quem? Nos animais. \u00c9 que quem socorre v\u00e1rios animais, dezenas ou at\u00e9 centenas deles, n\u00e3o tem meios para fazer as coisas de outro jeito. Mas est\u00e1 certo uma pessoa ser pressionada moralmente a tal ponto, o de ter que ser socorrista em tantos casos? Se h\u00e1 tantos casos, h\u00e1 tantos casos errados a serem corrigidos. E quem est\u00e1 corrigindo tantos erros? Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Sempre sobra para os animais. Damos comida e abrigo a eles. Certo. Milhares de humanos, milh\u00f5es, est\u00e3o fazendo isso. Mas est\u00e1 faltando um trabalho pedag\u00f3gico junto com o socorrismo, para que o socorro, no futuro, seja s\u00f3 por algum acidente, n\u00e3o por abandono. Nos \u00faltimos 30 anos n\u00e3o vi um trabalho de educa\u00e7\u00e3o para n\u00e3o se ter animais sem registro de tutor nas cidades, o registro de sua presen\u00e7a na casa como se registra a de um rec\u00e9m-nascido humano. E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Porque, dos dois lados, o do abandonador e o do socorrista, a forma humana de abordar o problema est\u00e1 equivocada h\u00e1 d\u00e9cadas: machucar, n\u00e3o dar alimento ou cuidado, torturar ou mesmo matar, de um lado; e, de outro, recolher, recolher e recolher (seguindo a compaix\u00e3o, o que \u00e9 louv\u00e1vel), dar comida e prote\u00e7\u00e3o aos desamparados. E o que mais? Mais nada.<\/p>\n<p>A que esta engrenagem: abandono seguido de coleta, tem levado? Ao esgotamento emocional das socorristas. Ao descaso dos abandonadores. Indiferen\u00e7a e exaust\u00e3o, juntas, resultam em atonia pol\u00edtica. E a senvergonhice alheia cada vez mais inchada. Imaginemos o que pode estar acontecendo, nesses minutos, a 22 milh\u00f5es de felinos, estimativa populacional do IBGE, em nosso pa\u00eds?<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de recolher, que \u00e9 da ordem da compaix\u00e3o, confirma o ato de descartar, que \u00e9 um ato pol\u00edtico de um sujeito ativo n\u00e3o identificado, um ato que joga para o outro, o p\u00fablico, neste caso, para um sujeito compassivo n\u00e3o identificado, um sujeito indeterminado que o destino marcar\u00e1 para ser a socorrista daquele animal, a responsabilidade que era privada do sujeito abandonador n\u00e3o identificado, e da qual ele pode se livrar sem penalidade alguma, porque n\u00e3o h\u00e1 registro de sua responsabilidade por aquele animal que descartou.<\/p>\n<p>A atitude da compaix\u00e3o precisa ter uma nova orienta\u00e7\u00e3o. E, para dar amparo e acolher essa nova orienta\u00e7\u00e3o tem que ter uma pol\u00edtica. Descartar animais \u00e9 um ato pol\u00edtico. Recolher tem sido um ato privado, um ato de compaix\u00e3o. Sabemos que entre a compaix\u00e3o e a pol\u00edtica, entre os socorristas e os abandonadores, maltratadores, mutiladores e matadores de animais eleitos para estima h\u00e1 um fosso.<\/p>\n<p>Precisamos abordar isso de forma pol\u00edtica. E por pol\u00edtica, por favor, n\u00e3o estou pensando em pol\u00edtica partid\u00e1ria. Estou pensando em responsabilidade civil, comum, coletiva, p\u00fablica. Uma responsabilidade que em todas essas d\u00e9cadas jamais os maltratadores, negligenciadores, mutiladores e matadores de cavalos, c\u00e3es ou gatos tiveram que assumir, porque sempre tem alguma pessoa compassiva para fazer o trabalho de recolha do que eles descartam como lixo. Se a gente pega o saco de lixo que o vizinho joga em nossa garagem todos os dias e o coloca na lixeira, todos os dias o vizinho vai atirar seu lixo em nossa garagem. \u00c9 disso que estou falando. Da mudan\u00e7a de atitude de quem hoje est\u00e1 ref\u00e9m, na condi\u00e7\u00e3o de catador do lixo alheio. E n\u00e3o estou dizendo que os animais devam ficar l\u00e1 onde s\u00e3o jogados. S\u00f3 estou dizendo que tir\u00e1-los de l\u00e1 sem que haja qualquer meio de identificar e cercar o respons\u00e1vel por ele, ou sem ter qualquer outra atitude pol\u00edtica para escudar o socorro desse animal, est\u00e1 refor\u00e7ando o ato de descart\u00e1-lo em quem n\u00e3o v\u00ea na pessoa equina, felina ou canina, nada mais do que um res\u00edduo do qual quer se livrar. E o dilema \u00e9tico: ter gatos nas cidades e ter que castr\u00e1-los, tema abordado no texto Felinos felizes?, continua, pois as gatas entram no cio quando em contato com os gatos, n\u00e3o h\u00e1 um ciclo regular de ovula\u00e7\u00e3o nelas, segundo o que li em minhas buscas.<\/p>\n<p><img class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/themes\/anda2012\/images\/colunistas\/sonia-t-felipe.jpg\" alt=\"\" \/>*<strong>S\u00f4nia T. Felipe<\/strong> &#8211; Doutora em Teoria Pol\u00edtica e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz (Alemanha), p\u00f3s-doutorado em Bio\u00e9tica-\u00c9tica Animal (Lisboa), co-fundadora do N\u00facleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Viol\u00eancia (UFSC), ex-volunt\u00e1ria do Centro de Direitos Humanos da Grande Florian\u00f3polis. Membro do Bioethics Institute da Funda\u00e7\u00e3o Luso-americana para o Desenvolvimento, e investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Autora das obras: Por uma quest\u00e3o de princ\u00edpios; \u00c9tica e experimenta\u00e7\u00e3o animal: fundamentos abolicionistas; Galactolatria: mau deleite \u2013 implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Anda<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por S\u00f4nia T. Felipe* Toda compaix\u00e3o por esses animais eu compreendo bem. 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