{"id":30567,"date":"2015-10-27T15:00:05","date_gmt":"2015-10-27T18:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=30567"},"modified":"2015-10-26T21:27:19","modified_gmt":"2015-10-27T00:27:19","slug":"o-desperdicio-de-comida-e-os-guardioes-de-sementes-sistema-que-merece-mais-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-desperdicio-de-comida-e-os-guardioes-de-sementes-sistema-que-merece-mais-cuidado\/","title":{"rendered":"O desperd\u00edcio de comida e os guardi\u00f5es de sementes: sistema que merece mais cuidado"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-30570\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O tipo de assunto que \u201cn\u00e3o se encerra\u201d \u00e9 o desperd\u00edcio de alimentos no Brasil e no mundo. Volta e meia algu\u00e9m relembra, lan\u00e7a uma pesquisa nova ou um fato o faz voltar a ser debatido. O \u00faltimo dado, <a href=\"https:\/\/www.fao.org.br\/\">publicado no site da FAO<\/a> (organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura), diz que o Brasil \u00e9 considerado um dos dez que mais desperdi\u00e7am comida em todo o mundo, com cerca de 30% da produ\u00e7\u00e3o praticamente jogados fora na fase p\u00f3s-colheita. Aqui vale lembrar tamb\u00e9m que o brasileiro gera em torno de um quilo de lixo por dia e 58% desse total s\u00e3o alimentos.<\/p>\n<p>Na semana passada, nas redes sociais apareceu uma not\u00edcia de janeiro deste ano contando que agricultores capixabas haviam jogado 20 mil caixas de tomate numa estrada. A reportagem quase justificava a iniciativa, dizendo que \u201cos trabalhadores rurais abriram m\u00e3o de vender o produto devido \u00e0 grande queda do pre\u00e7o da fruta\u201d.<\/p>\n<p>Para in\u00edcio de conversa, argumentam os representantes de organiza\u00e7\u00f5es que tentam p\u00f4r o tema na ordem do dia, alimentos n\u00e3o deveriam estar no mercado de a\u00e7\u00f5es. Para muitos, este \u00e9 um pensamento rom\u00e2ntico, j\u00e1 que estamos inextricavelmente imersos na concep\u00e7\u00e3o moderna da economia que considera normal ver os pre\u00e7os dos gr\u00e3os subirem ou descerem no embalo das transa\u00e7\u00f5es financeiras de cada dia.<\/p>\n<p>Mas gr\u00e3os e sementes deveriam fugir \u00e0 regra do sistema econ\u00f4mico global, acreditam aqueles que t\u00eam uma vis\u00e3o diferenciada do mercado. Produzido pela <a href=\"http:\/\/www.navdanya.org\/\">rede indiana Navdanya<\/a> de guardi\u00f5es de sementes e produtores org\u00e2nicos espalhados por 18 estados na \u00cdndia, o v\u00eddeo \u201cSemente viva\u201d (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KKanFBrlhrs\">veja aqui<\/a>) traz um olhar cr\u00edtico ao sistema de venda em massa de sementes e agrot\u00f3xicos pelas ind\u00fastrias transnacionais de alimentos. Vale a pena assistir e refletir.<\/p>\n<p>Bija Didi, uma das agricultoras indianas, guardi\u00e3 de sementes, entrevistada pela equipe que fez o document\u00e1rio, conta como \u00e9 o sistema do Banco de Sementes, que a criadora da rede Navdanya, Vandana Shiva, tem defendido mundo afora como \u00fanica possibilidade de realmente se acabar com a fome:<\/p>\n<p>\u201cEu amo dar sementes para as pessoas e receber sementes dos outros, ter novas sementes para plantar em casa. Eu sempre digo: guarde dias para doar sementes e dias para ganhar sementes\u201d, diz Bija Didi.<\/p>\n<p>H\u00e1 um qu\u00ea de singeleza nessas palavras e na maneira pela qual os guardi\u00f5es v\u00e3o tratando as sementes. As cenas s\u00e3o lindas. \u00c0s vezes, elas precisam ser tiradas uma a uma. S\u00e3o descascadas, debulhadas, v\u00e3o para um enorme pano limpo e colorido que cobre o ch\u00e3o. Depois, s\u00e3o postas dentro vidros com r\u00f3tulos, tudo muito organizado e tratado de maneira especialmente cuidadosa, quase como se fossem pedras preciosas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 para menos. Ali est\u00e3o, afinal, o ant\u00eddoto para as mais de 800 milh\u00f5es de pessoas que ainda passam fome num mundo onde, n\u00e3o custa lembrar, as 85 pessoas mais ricas viram sua fortuna coletiva crescer US$ 668 milh\u00f5es ao dia entre 2013 e 2014, o que corresponde a quase meio milh\u00e3o de d\u00f3lares por minuto (os dados s\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o mundial Oxfam \u2013 <a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/internacional\/noticia\/2014-10\/crise-financeira-dobrou-o-numero-de-bilionarios-no-mundo-diz-oxfam\">veja aqui<\/a>) .<\/p>\n<p>Essa desigualdade n\u00e3o passa ao largo dos guardi\u00f5es, que t\u00eam dedicado suas vidas para salvar sementes que cultivam com a sabedoria tradicional transmitida ao longo dos s\u00e9culos. Eles contam com a biodiversidade, com os polinizadores, e recusam-se a usar defensivos agr\u00edcolas. Mas basta um olhar para o lado e vem a constata\u00e7\u00e3o, anunciada por um dos agricultores &#8211; que semeia gr\u00e3os sem agrot\u00f3xicos &#8211; no document\u00e1rio: \u201cVendedor de pesticidas dirige um carro de quadro rodas e eu n\u00e3o tenho sequer uma bicicleta\u201d.<\/p>\n<p>\u201cThe Living seed\u201d \u00e9 um dos document\u00e1rios que est\u00e1 sendo realizado para a s\u00e9rie \u201cThe Living Farms\u201d, que pretende mostrar que \u00e9 poss\u00edvel pensar num outro modelo de comercializar alimentos que n\u00e3o seja o atual. O filme faz s\u00e9rias cr\u00edticas \u00e0s sementes geneticamente modificadas, que estariam criando um sistema de monocultura e varrendo a biodiversidade, al\u00e9m de causar danos \u00e0 sa\u00fade de quem as come. O sistema empregado pelas corpora\u00e7\u00f5es, que emprestam dinheiro para que os agricultores possam adquirir as sementes, os pesticidas e pagam a eles um valor considerado injusto tamb\u00e9m \u00e9 denunciado.<\/p>\n<p>\u201cCom a padroniza\u00e7\u00e3o de sementes e o incentivo \u00e0 monocultura, 93% das variedades de sementes de alimentos j\u00e1 foram perdidas\u201d, diz a voz in of no filme.<\/p>\n<p>No artigo \u201cDo pensamento global ao pensamento local\u201d, escrito pelo economista Gustavo Esteva e pelo professor Madhu Suri Prakash para o livro \u201cThe Post-Development Reader\u201d (Ed. Zed Books), essa quest\u00e3o se traduz assim: \u201cComo enfrentar as cinco companhias Golias que controlam 85% do com\u00e9rcio mundial de gr\u00e3os e quase metade da sua produ\u00e7\u00e3o\u201d. Para os autores, qualquer mudan\u00e7a neste setor vai ter que esperar para sempre enquanto o desafio das grandes for criar consumidores transnacionais que possam dar conta de sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No relat\u00f3rio \u201cPor tr\u00e1s das marcas\u201d, lan\u00e7ado em 2013 pela Oxfam, a organiza\u00e7\u00e3o registra tamb\u00e9m a consolida\u00e7\u00e3o do mercado de alimentos e aponta o resultado imediato disso: fragiliza\u00e7\u00e3o de pequenos produtores. No c\u00f4mputo geral, esses profissionais s\u00e3o 80% da popula\u00e7\u00e3o global considerada cronicamente faminta, diz o estudo. O paradoxo dos paradoxos.<\/p>\n<p>\u201cEstima-se que cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial subsiste gra\u00e7as \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de 404 milh\u00f5es de propriedades com menos de dois hectares. Como a maioria desses agricultores tamb\u00e9m \u00e9 for\u00e7ada a comprar parte de sua alimenta\u00e7\u00e3o, quando os pre\u00e7os dos alimentos sobem, muitas vezes suas fam\u00edlias s\u00e3o obrigadas a optar entre se alimentar, educar seus filhos ou manter tratamentos de sa\u00fade essenciais\u201d, diz o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Agindo localmente<\/strong><br \/>\nCentenas de pequenos grupos est\u00e3o realizando, mundialmente, uma forma de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos que n\u00e3o se obriga a produzir em grande escala. Esta seria a resist\u00eancia \u00e0s grandes Golias, acreditam Gustavo Esteva e Madhu Suri Prakash. Entre elas, o artigo dos dois cita a Community Supported Agriculture (CSA) que pensa e age localmente (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/natureza\/blog\/nova-etica-social\/post\/%20https:\/www.biodynamics.com\/content\/community-supported-agriculture-introduction-csa\">veja aqui<\/a>) . A base do projeto, que j\u00e1 existe em muitos lugares do mundo, \u00e9 estabelecer uma conex\u00e3o direta entre o produtor de alimentos e o consumidor de alimentos sem que seja preciso uma rede de supermercados a intermedi\u00e1-los. D\u00e1 mais trabalho, mas tem dado certo.<\/p>\n<p>A ideia CSA come\u00e7ou nos Estados Unidos em meados dos anos 80 e em 2012 j\u00e1 existiam mais de seis mil s\u00f3 naquele pa\u00eds. H\u00e1 uma extensa lista de livros e DVDs que contam hist\u00f3rias bem sucedidas de fazendeiros que decidiram romper a in\u00e9rcia e pensar num modelo diferente de tocar sua propriedade. Entre eles, o j\u00e1 famoso \u201cThe Real Dirty on Farmer John\u201d, de 2006.<\/p>\n<p>\u201cCuidando de seu pr\u00f3prio local de plantar alimento, fazendeiros membros do CSA v\u00e3o aprendendo devagar a superar o paradigma de \u2018comedores industriais\u2019, ou seja, aqueles que s\u00e3o educados para esquecer o dano que as multinacionais provocam quando destroem pequenas fam\u00edlias de agricultores ao redor do mundo\u201d, dizem os autores do artigo.<\/p>\n<p>Vale lembrar que no processamento e na distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, tarefas atribu\u00eddas \u00e0s empresas de alimentos, tamb\u00e9m h\u00e1 desperd\u00edcio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tipo de assunto que \u201cn\u00e3o se encerra\u201d \u00e9 o desperd\u00edcio de alimentos no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":30570,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/alimentos.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O tipo de assunto que \u201cn\u00e3o se encerra\u201d \u00e9 o desperd\u00edcio de alimentos no Brasil","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30567"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30567"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30567\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30570"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}