{"id":30333,"date":"2015-10-23T11:07:26","date_gmt":"2015-10-23T14:07:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=30333"},"modified":"2015-10-23T11:07:26","modified_gmt":"2015-10-23T14:07:26","slug":"abelha-mandaguari-sem-ferrao-nativa-do-brasil-cultiva-fungo-para-sobreviver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/abelha-mandaguari-sem-ferrao-nativa-do-brasil-cultiva-fungo-para-sobreviver\/","title":{"rendered":"Abelha mandaguari sem ferr\u00e3o nativa do Brasil cultiva fungo para sobreviver"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-30334\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Pesquisadores descobriram que uma esp\u00e9cie de abelha sem ferr\u00e3o nativa do Brasil \u2013 a mandaguari (<i>Scaptotrigona depilis<\/i>) \u2013 cultiva um fungo, semelhante ao usado durante s\u00e9culos por povos asi\u00e1ticos para conservar alimentos, para sobreviver.<\/p>\n<p>A descoberta foi descrita em um artigo publicado na quinta-feira (22\/10) na edi\u00e7\u00e3o on-line da revista\u00a0<i>Current Biology <\/i>e<i> <\/i>\u00e9<i> r<\/i>esultado de um estudo de doutorado realizado com\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/104894\/a-producao-de-rainha-e-a-multiplicacao-de-colonias-de-abelhas-sem-ferrao\/\" target=\"_blank\">Bolsa da FAPESP<\/a>.\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o primeiro registro de simbiose entre uma esp\u00e9cie de abelha social e um fungo cultivado\u201d, disse Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Amaz\u00f4nia Oriental, em Bel\u00e9m, no Par\u00e1, e primeiro autor do trabalho, \u00e0\u00a0<b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>.<\/p>\n<p>\u201cEmbora j\u00e1 se saiba que existe simbiose entre esp\u00e9cies de formigas e de cupins com fungos cultivados em seus pr\u00f3prios ninhos \u2013 esses microrganismos fornecem aos seus hospedeiros nutrientes e prote\u00e7\u00e3o contra pat\u00f3genos \u2013, em abelhas essa rela\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 desconhecida\u201d, afirmou Menezes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/agencia-novo\/lib\/timthumb.php?src=\/agencia-novo\/Control\/..\/imagens\/noticia\/22113.jpg&amp;w=395\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"286\" \/>O estudo integra o Projeto Tem\u00e1tico &#8220;<b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/1025\/biodiversidade-e-uso-sustentavel-de-polinizadores-com-enfase-em-abelhas-meliponini\/\" target=\"_blank\">Biodiversidade e uso sustent\u00e1vel de polinizadores, com \u00eanfase em abelhas Meliponini<\/a><\/b>&#8220;, coordenado pela professora Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, do\u00a0Instituto Tecnol\u00f3gico Vale Desenvolvimento Sustent\u00e1vel e do Instituto de Bioci\u00eancias da USP.<\/p>\n<p>Os pesquisadores constataram que, ao nascer, as larvas da abelha mandaguari se alimentam de filamentos do fungo do g\u00eanero Monascus (<i>Ascomycotina<\/i>) encontrados em seus pr\u00f3prios ninhos.<\/p>\n<p>Sem esse microrganismo \u2013 que produz diversos metab\u00f3litos secund\u00e1rios com atividade antimicrobiana, antitumoral e imunol\u00f3gica \u2013, poucas larvas de mandaguari sobrevivem, destacam os autores do estudo.<\/p>\n<p>\u201cAinda n\u00e3o sabemos, exatamente, qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o desse fungo para a larva. A possibilidade que achamos mais plaus\u00edvel \u00e9 que o microrganismo ajuda a proteger o alimento da larva de pat\u00f3genos, uma vez que \u00e9 usado por chineses e outros povos asi\u00e1ticos como corante para conservar alimentos\u201d, afirmou Menezes.<\/p>\n<p>O estudo foi noticiado no exterior, em ve\u00edculos como a revista <b><a href=\"http:\/\/www.newsweek.com\/stingless-bees-farm-fungus-feed-young-386206\" target=\"_blank\">Newsweek<\/a><\/b>.<\/p>\n<p><b>Transmitido por gera\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>De acordo com Menezes, o fungo se origina e est\u00e1 presente em uma estrutura, chamada cerume \u2013 composta por uma mistura de cera de abelhas oper\u00e1rias com resinas de plantas \u2013, que as abelhas sem ferr\u00e3o usam como material de constru\u00e7\u00e3o para suas c\u00e9lulas de cria (ninhos).<\/p>\n<p>Ao terminar de construir as c\u00e9lulas de cria, as abelhas oper\u00e1rias enchem o inv\u00f3lucro de um alimento l\u00edquido. Em seguida, a abelha rainha coloca um ovo sobre o alimento e a c\u00e9lula de cria \u00e9 fechada pelas abelhas oper\u00e1rias e aberta somente cerca de tr\u00eas dias depois, quando a larva eclode do ovo.<\/p>\n<p>Nessa fase, o fungo come\u00e7a a emergir a partir do cerume, se prolifera sobre a superf\u00edcie do alimento l\u00edquido e \u00e9 devorado pelas larvas, desaparecendo completamente at\u00e9 o sexto dia de nascimento das abelhas.<\/p>\n<p>\u201cGravamos o comportamento de larvas com tr\u00eas dias de nascimento e observamos que elas cortavam os filamentos dos fungos com a mand\u00edbula e ingeriam o microrganismo\u201d, disse Menezes.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o fungo \u00e9 transmitido a outras gera\u00e7\u00f5es de abelhas mandaguari por meio de cerume \u201ccontaminado\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as larvas deixarem as c\u00e9lulas de cria, as abelhas oper\u00e1rias come\u00e7am a raspar o cerume e reutilizam o material para construir um novo ninho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, quando v\u00e3o construir uma nova colmeia, as abelhas levam o cerume da colmeia-m\u00e3e para a colmeia-filha para construir c\u00e9lulas de cria, transmitindo o fungo de um ninho para o outro, que s\u00f3 come\u00e7a a crescer em contato com o alimento larval depositado pelas abelhas oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m ainda n\u00e3o sabemos se s\u00e3o esporos ou partes dormentes do pr\u00f3prio mic\u00e9lio [<i>hifas emaranhadas, como fios<\/i>] do fungo que est\u00e3o presentes no cerume e transportados de uma c\u00e9lula de cria para outra\u201d, disse Menezes.<\/p>\n<p>O pesquisador observou a mesma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia de fungos para completar o ciclo de nascimento em outras esp\u00e9cies de abelhas sem ferr\u00e3o do g\u00eanero Scaptotrigona e tamb\u00e9m de Tetragona, Melipona e Frieseomelitta.<\/p>\n<p>\u201cEssas descoberta de simbiose entre abelhas e microrganismos parece ser muito mais frequente do que imaginamos e aumenta a preocupa\u00e7\u00e3o sobre o uso de fungicidas na agricultura\u201d, apontou Menezes.<\/p>\n<p>Estudos realizados nos \u00faltimos anos nos Estados Unidos e Europa identificaram que os fungicidas est\u00e3o entre os pesticidas mais encontrados no p\u00f3len das abelhas, indicou.<\/p>\n<p>\u201cA preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos que esses fungicidas podem ter sobre microrganismos ben\u00e9ficos \u00e0s abelhas, como o fungo identificado no ninho de mandaguari. Se esses produtos qu\u00edmicos est\u00e3o presentes no p\u00f3len de abelhas, inevitavelmente chegar\u00e3o at\u00e9 as c\u00e9lulas de cria\u201d, estimou.<\/p>\n<p><b>Descoberta acidental<\/b><\/p>\n<p>O pesquisador fez a descoberta da simbiose entre a mandaguari e o fungo Monascus acidentalmente.<\/p>\n<p>Durante sua pesquisa de doutorado em entomologia na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), campus de Ribeir\u00e3o Preto, realizado com bolsa da FAPESP, Menezes tentou produzir em laborat\u00f3rio rainhas de mandaguari com o intuito de aumentar o n\u00famero de col\u00f4nias dessa esp\u00e9cie polinizadora de diversas culturas para atender \u00e0 demanda dos agricultores.<\/p>\n<p>Para produzir rainhas, o pesquisador suplementou a alimenta\u00e7\u00e3o de larvas f\u00eameas de mandaguari, uma vez que o que determina se uma larva f\u00eamea dessa esp\u00e9cie de abelha sem ferr\u00e3o vai se tornar oper\u00e1ria ou rainha \u00e9 a quantidade de alimentos que ela ingere durante a fase larval\u00a0<i>(leia mais em: <b><a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/pesquisadores_desenvolvem_tecnica_para_criacao_em_massa_de_abelhas_sem_ferrao\/18371\/\" target=\"_blank\">agencia.fapesp.br\/18371<\/a><\/b>)<\/i><\/p>\n<p>Ao manter c\u00e9lulas artificiais com larvas f\u00eameas de mandaguari e com grandes quantidades de alimento em uma c\u00e2mara \u00famida, Menezes percebeu que, ap\u00f3s alguns dias, um fungo branco come\u00e7ou a crescer rapidamente e todas as larvas morriam.<\/p>\n<p>\u201cEm um primeiro momento eu achei que o fungo estava causando alguma doen\u00e7a para as abelhas e tentei extermin\u00e1-lo, ao aplicar produtos qu\u00edmicos, e remov\u00ea-lo mecanicamente, mas nada funcionou\u201d, relembrou Menezes.<\/p>\n<p>Algum tempo depois, contudo, o pesquisador come\u00e7ou a observar o fungo em c\u00e9lulas de crias naturais, crescendo de forma menos intensa. \u201cParecia que algo no ambiente natural das abelhas estava mantendo o fungo sob controle\u201d, disse.<\/p>\n<p>Ao tentar criar as larvas f\u00eameas da abelha em um ambiente menos \u00famido, o pesquisador observou que o fungo cresceu intensamente por alguns dias e depois desapareceu.<\/p>\n<p>Com isso, mais de 90% das abelhas sobreviveram. \u201cSuspeitei que as larvas f\u00eameas estava se alimentando do fungo e dependiam dele para sobreviver\u201d, disse Menezes.<\/p>\n<p>A fim de testar essa hip\u00f3tese, os pesquisadores realizaram experimentos em que criaram em laborat\u00f3rio um grupo de larvas de abelha mandaguari suplementadas s\u00f3 com alimento est\u00e9ril e outro com alimento est\u00e9ril suplementado com filamentos do fungo.<\/p>\n<p>O grupo de larvas de abelha criada com alimento est\u00e9ril suplementado com filamentos do fungo teve um \u00edndice de sobreviv\u00eancia de 76%.<\/p>\n<p>J\u00e1 as que foram criadas nas mesmas condi\u00e7\u00f5es, mas sem o fungo, apenas 8% completaram o ciclo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>\u201cIsso mostra que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia muito forte das abelhas pelo fungo\u201d, afirmou Menezes.<\/p>\n<p>Em contrapartida, para o fungo a vantagem de ser cultivado no ninho dessa esp\u00e9cie de abelha sem ferr\u00e3o \u00e9 garantir sua multiplica\u00e7\u00e3o ao longo de gera\u00e7\u00f5es, ponderou o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cAparentemente, o benef\u00edcio maior dessa simbiose \u00e9 para as abelhas. Mas o fungo tamb\u00e9m depende delas para se reproduzir\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>O artigo <i>A brazilian social bee must cultivate fungus to survive<\/i>\u00a0(doi: 10.1016\/j.cub.2015.09.028), de Menezes e outros, pode ser lido na <i>Current Biology<\/i> em\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.cell.com\/current-biology\/abstract\/S0960-9822%2815%2901108-2\" target=\"_blank\">www.cell.com\/current-biology\/abstract\/S0960-9822(15)01108-2<\/a><\/b>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores descobriram que uma esp\u00e9cie de abelha sem ferr\u00e3o nativa do Brasil \u2013 a mandaguari<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":30334,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/abelhas_sem_ferrao.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Pesquisadores descobriram que uma esp\u00e9cie de abelha sem ferr\u00e3o nativa do Brasil \u2013 a mandaguari","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30333"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30333"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30333\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}