{"id":29937,"date":"2017-10-14T00:00:57","date_gmt":"2017-10-14T03:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=29937"},"modified":"2017-10-14T20:33:10","modified_gmt":"2017-10-14T23:33:10","slug":"nectar-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/nectar-da-vida\/","title":{"rendered":"N\u00e9ctar da vida"},"content":{"rendered":"<p><img class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/www.revistaecologico.com.br\/esite\/kcfinder\/upload\/images\/rosa-credito-josch13-dominiopublico.jpg\" alt=\"Imagem: Josch13\/Dom\u00ednio P\u00fablico\" \/>Ela tem uma estranha mania: n\u00e3o pode receber <strong>rosas vermelhas de presente<\/strong>. Come\u00e7a a co\u00e7ar o corpo todo, fica toda empolada. A l\u00edngua engrossa, as m\u00e3os se agitam. Ela, ent\u00e3o, tira p\u00e9tala por p\u00e9tala, despeda\u00e7a a rosa com fervor, quase em \u00eaxtase, e come uma por uma, como se degustasse um p\u00e3o com manteiga.<\/p>\n<p>A mania de comer rosas come\u00e7ou no dia em que o pai dela morreu. No vel\u00f3rio, para fugir da dor que come\u00e7ava na ponta dos p\u00e9s, subia pelo est\u00f4mago, invadia o cora\u00e7\u00e3o e arrepiava os cabelos, ela fixava os olhos nas corbelhas de rosas, at\u00e9 ver nuvens de p\u00e9talas. Sem olhar para os lados nem para frente, ela se perdia entre o mar de rosas vermelhas e a agonia de ter perdido o pai. Sem entender a \u00e2nsia de voar at\u00e9 as rosas, ela se escondeu atr\u00e1s de uma corbelha e puxou a primeira rosa. Esgueirando-se dos presentes no vel\u00f3rio, ela foi se esconder no banheiro com uma rosa inteira. Sem entender bem, come\u00e7ou a devor\u00e1-la, p\u00e9tala por p\u00e9tala, com uma fome nova, dessas que deixam um buraco no est\u00f4mago e na alma.<\/p>\n<p>Comeu a rosa inteira, num ritual de deixar qualquer um boquiaberto. Farta de rosa, saiu do banheiro plena, perfumada, adocicada, sem aquela ang\u00fastia que adormecia todas as partes do corpo dela. A rosa foi um b\u00e1lsamo, como se depois de devor\u00e1-la tivesse trapaceado a morte e a dor. Conseguiu sobreviver, ent\u00e3o, at\u00e9 o final, com aquela sensa\u00e7\u00e3o de que as rosas queriam dizer algo mais. Seguiu o f\u00e9retro. Viu cada rosa descer sobre a sepultura, em sinal de despedida, de amor, de respeito. Os olhos pingaram de dor, os gritos cortaram o ar, pois n\u00e3o existe nenhum adeus pior do que o da morte.<\/p>\n<p>Dias depois, ela continuava com aquele estranho desejo de comer as rosas que recebia de presente, em anivers\u00e1rios, datas importantes. N\u00e3o importava de onde e de quem viessem as rosas. Ela adorava receb\u00ea-las, em sinal de amor, de comemora\u00e7\u00e3o, de felicita\u00e7\u00f5es, de bem-querer. As rosas s\u00e3o como chocolates, servem de presente quando n\u00e3o se sabe o que oferecer ao outro. N\u00e3o s\u00e3o personalizadas. Parecem ser a melhor op\u00e7\u00e3o para agradar algu\u00e9m que n\u00e3o se conhece.<\/p>\n<p><strong>Uma flor roubada<\/strong> pode dizer mais do que mil palavras. \u00c9 melhor do que cart\u00e3o, \u00e9 como beijo roubado, surpreendente. Quem sabe do outro, se est\u00e1 de dieta ou n\u00e3o, se prefere um convite para jantar no japon\u00eas, se \u00e9 a presen\u00e7a que agrada mais do que o pr\u00f3prio presente, ningu\u00e9m sabe como presentear pessoas que n\u00e3o s\u00e3o \u00edntimas. Vem sempre esse neg\u00f3cio de flor e chocolate, como se todas as mulheres agradassem desses presentes t\u00e3o impessoais.<\/p>\n<p>Mas ela quer dizer que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o come rosas. Passou boa parte da vida devorando p\u00e9talas para espantar a dor de ter perdido o pai, mas hoje s\u00f3 come flor em dias muitos especiais, como o \u201cDia Internacional da Mulher\u201d, em que as flores surgem do nada, s\u00f3 para marcar uma data. A\u00ed, ela pensa, olha para a rosa e tem vontade de devorar uma por uma, para deixar de sentir tanta dor escondida no peito.<\/p>\n<p>A\u00ed, tudo volta. Ela lembra que <strong>a dor \u00e9 vermelha <\/strong>e tem cheiro de flor. Ela sente no corpo toda a dor de ter perdido o pai em meio a tantas rosas. E devora, sem pensar, cada p\u00e9tala, como se pudesse sugar o n\u00e9ctar da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela tem uma estranha mania: n\u00e3o pode receber rosas vermelhas de presente. 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