{"id":29786,"date":"2015-10-14T09:00:44","date_gmt":"2015-10-14T12:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=29786"},"modified":"2015-10-13T21:14:07","modified_gmt":"2015-10-14T00:14:07","slug":"muitos-rios-do-arquipelago-do-marajo-ja-nao-tem-mais-peixes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/muitos-rios-do-arquipelago-do-marajo-ja-nao-tem-mais-peixes\/","title":{"rendered":"Muitos rios do arquip\u00e9lago do Maraj\u00f3 j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais peixes"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-29787\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por Dal Marcondes*<\/p>\n<p>O Maraj\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 para peixe. <i>As matas perderam suas \u00e1rvores nobres e os bichos est\u00e3o cada vez mais raros. Sobrou o a\u00e7a\u00ed, que se tornou a salva\u00e7\u00e3o da lavoura.<\/i><\/p>\n<p>No horizonte, mais \u00e1gua do que os olhos alcan\u00e7am. O barco que sai de Bel\u00e9m se aproxima da maior ilha fluvial do mundo e onde des\u00e1gua, de um lado o rio Amazonas, que atravessa a maior floresta tropical do planeta e com for\u00e7a empurra a \u00e1gua do mar por quil\u00f4metros. Do lado leste v\u00eam as \u00e1guas do Tocantins e centenas de seus afluentes. O arquip\u00e9lago do Maraj\u00f3, com suas 19 cidades, carrega o t\u00edtulo de regi\u00e3o mais pobre do Par\u00e1. De longe, o imagin\u00e1rio das pessoas pode acreditar que o cen\u00e1rio \u00e9 parte de um para\u00edso id\u00edlico. A imagem n\u00e3o poderia ser mais falsa.<\/p>\n<p>Semanas atr\u00e1s uma equipe de pesquisadores do Instituto Peabiru, ONG que atua com desenvolvimento local no Par\u00e1, atravessou a ba\u00eda do Marapat\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o ao munic\u00edpio de Curralinho. Oito horas em um barco \u00a0onde as pessoas viajam em redes. De passagem pela cidade de 30 mil pessoas, metade na zona rural, d\u00e1 para notar os resultados da improbidade administrativa pela qual foram condenados dois ex-prefeitos, al\u00e9m do descaso em rela\u00e7\u00e3o ao Conselho Tutelar da Inf\u00e2ncia, que levou o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Par\u00e1 a agir contra o atual prefeito. Em abril, a Justi\u00e7a Estadual afastou o prefeito Jos\u00e9 Leonaldo dos Santos Arruda, que tamb\u00e9m teve seus direitos pol\u00edticos ca\u00e7ados por cinco anos.<\/p>\n<p>O primeiro ind\u00edcio de problemas com a biodiversidade local aparece em uma cuia de tacac\u00e1, comida t\u00edpica do Par\u00e1, um caldo com goma de tapioca, folhas de jamb\u00fa e camar\u00e3o. No primeiro gole vem um camar\u00e3o t\u00e3o pequeno que cabe sobre uma unha. Logo depois vem um camar\u00e3o \u201covado\u201d, carregando no ventre ovas que dariam origem a centenas de novos crust\u00e1ceos. As provas de uma pesca descomprometida com o amanh\u00e3. Os camar\u00f5es foram capturados durante o per\u00edodo de defeso, quando os pescadores recebem uma bolsa do Governo Federal para garantir sua subsist\u00eancia enquanto os peixes e crust\u00e1ceos se reproduzem.<\/p>\n<p>A equipe segue em um barco menor em dire\u00e7\u00e3o ao rio Canaticu, pequeno para os padr\u00f5es da Amaz\u00f4nia, mas que despeja cerca de 50 vezes o volume do rio Tiet\u00ea em sua foz. \u00a0Quase 20 comunidades se abrigam em suas margens, casas, em sua maioria de madeira, constru\u00eddas sobre palafitas e com o barco como \u00fanico meio de transporte. A mata verde \u00e9 exuberante e o rio \u00e9 uma promessa de muita vida. Mais uma vez um grande engano. Nas matas n\u00e3o tem mais madeira nobre, n\u00e3o tem mais bicho, nas \u00e1guas, n\u00e3o tem mais peixe, n\u00e3o tem mais camar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que os pesquisadores est\u00e3o l\u00e1, para conversar, entender o que aconteceu e tentar ajudar a construir algum tipo de solu\u00e7\u00e3o. Vicente de Paula Ferreira de Oliveira, morador antigo, conta que o fim dos peixes come\u00e7ou com a \u201cmalhadeira\u201d, uma rede de malha fina que os ribeirinhos esticam de margem a margem nos rios e igarap\u00e9s do Maraj\u00f3. Mais de 20 anos de pesca predat\u00f3ria, capturando peixes que subiam o rio para desovar na piracema, praticamente acabaram com a presen\u00e7a de grandes peixes como o Tucunar\u00e9 e o Pirarucu nos rios da regi\u00e3o. No prato do ribeirinho reina o frango congelado, que atravessa meio mundo para chegar naquelas barrancas.<\/p>\n<p>A principal renda na regi\u00e3o vem do a\u00e7a\u00ed, a coqueluche como suco ou sorvete nas cidades do Sul. Mas ele tamb\u00e9m quase acabou. O palmito das palmeiras de a\u00e7a\u00ed atraiu f\u00e1bricas que o cortavam e envasavam, mas n\u00e3o plantavam uma muda sequer. No fim, foi apenas um curto ciclo e explora\u00e7\u00e3o que deixou a regi\u00e3o ainda mais pobre. O crescimento dos mercados de a\u00e7a\u00ed fora do Par\u00e1 deu um novo f\u00f4lego para os ribeirinhos, que conseguiram replantar os a\u00e7aizeiros e come\u00e7ar uma nova e rent\u00e1vel atividade econ\u00f4mica. No entanto, Jo\u00e3o Meirelles, diretor do Instituto Peabir\u00fa, aponta para o risco que a coleta do a\u00e7a\u00ed representa para as crian\u00e7as. \u201cBoa parte do a\u00e7a\u00ed que chega ao mercado \u00e9 coletado por crian\u00e7as, com muitos acidentes\u201d, diz Meirelles. Segundo ele, a maior parte do a\u00e7a\u00ed consumido em todo o Brasil vem do Maraj\u00f3.<\/p>\n<p>Nas matas da regi\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o tem mais bichos. Raimundo Ferreira, de 77 anos, fala de um tempo em que havia de tudo no Maraj\u00f3: \u201cjabuti, jacar\u00e9, veados, ca\u00e7a farta\u201d, diz. Mas tudo o que se mexe no mato \u00e9 morto, os moradores est\u00e3o acostumados a comer ca\u00e7a. Os pesquisadores do Peabir\u00fa apostam na constru\u00e7\u00e3o de um acordo de pesca volunt\u00e1rio que d\u00ea alguma folga para a recupera\u00e7\u00e3o dos estoques pesqueiros. \u201cN\u00e3o adianta querer resolver esse desastre pela for\u00e7a\u201d, diz Meirelles, que acredita no di\u00e1logo e aponta a impossibilidade de onipresen\u00e7a do Estado.<\/p>\n<p><strong><em>* Dal Marcondes <\/em><\/strong><em>\u00e9 jornalista, diretor da Envolverde e especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dal Marcondes* O Maraj\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 para peixe. As matas perderam suas \u00e1rvores nobres<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":29787,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/marajo.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Dal Marcondes* O Maraj\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 para peixe. As matas perderam suas \u00e1rvores nobres","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29786"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29786"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29786\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29787"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29786"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29786"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}