{"id":29144,"date":"2015-10-02T21:23:29","date_gmt":"2015-10-03T00:23:29","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=29144"},"modified":"2015-10-02T21:23:29","modified_gmt":"2015-10-03T00:23:29","slug":"entrevista-especial-com-fernando-spilki","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-fernando-spilki\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Fernando Spilki"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"contentheading\">A contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e a dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as de prolifera\u00e7\u00e3o h\u00eddrica<\/h2>\n<p><strong>\u201cAinda coletamos ao redor de 50% do esgoto dom\u00e9stico que produzimos nas cidades (no ambiente rural a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave) e tratamos menos de 30% disso antes de lan\u00e7ar aos rios esses dejetos\u201d, comenta o virologista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i61.tinypic.com\/ak905f.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto:\u00a0bibocaambiental.blogspot.com.br<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u201cAs causas da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/536953-casos-de-contaminacao-da-agua-sao-mais-comuns-do-que-se-conhece-entrevista-especial-com-ricardo-hirata\" target=\"_blank\"><strong>contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<\/strong><\/a> no Brasil est\u00e3o intrinsecamente ligadas a um processo de r\u00e1pida e expressiva expans\u00e3o dos centros urbanos, especialmente na segunda metade do s\u00e9culo XX\u201d, diz <strong>Fernando Spilki<\/strong> \u00e0<strong> IHU On-Line<\/strong>, em entrevista concedida por e-mail.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, a <strong>expans\u00e3o urbana<\/strong> foi feita sem planejamento e os corpos d\u2019\u00e1gua foram \u201cconsiderados meros receptores e canais de escoamento de res\u00edduos dom\u00e9sticos e industriais. Era forte a ideia (e ainda \u00e9) da m\u00e1xima de que a \u2018dilui\u00e7\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o\u2019, quanto maior ou mais caudaloso um corpo h\u00eddrico, mais contamina\u00e7\u00e3o se poderia jogar nele. O ir\u00f4nico \u00e9 que justamente desses mananciais \u00e9 que adv\u00e9m a maior parte da \u00e1gua destinada ao consumo nas grandes cidades\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, <strong>Spilki<\/strong> comenta que al\u00e9m da falta de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/544132-meta-de-universalizacao-do-saneamento-basico-esta-ameacada-entrevista-especial-com-edison-carlos\" target=\"_blank\"><strong>tratamento do esgoto<\/strong><\/a>, as \u00e1guas contaminadas s\u00e3o um potencial para o desenvolvimento de uma s\u00e9rie de v\u00edrus causadores de doen\u00e7as. \u201cH\u00e1 uma gama de <strong>doen\u00e7as<\/strong> de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica (especialmente diarreias e hepatites) e de doen\u00e7as indiretamente relacionadas ao manejo da \u00e1gua (Dengue, Chikungunya, Zika, Febre Amarela) das quais ainda n\u00e3o nos livramos, ou pelo contr\u00e1rio, que rec\u00e9m chegaram e j\u00e1 com grande impacto em sa\u00fade p\u00fablica. Temos que mirar sim o futuro, mas sem esquecer que temos uma situa\u00e7\u00e3o no Brasil que mescla doen\u00e7as de uma popula\u00e7\u00e3o desenvolvida e mais idosa com outras t\u00edpicas dos pa\u00edses em desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki<\/strong> \u00e9 graduado em Medicina Veterin\u00e1ria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8211; UFRGS, com mestrado em Ci\u00eancias Veterin\u00e1rias pela UFRGS, na \u00e1rea de Virologia Animal, e doutorado em Gen\u00e9tica e Biologia Molecular, \u00e1rea de Microbiologia, pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente leciona na Universidade Feevale.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i60.tinypic.com\/rk3qcw.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto: cidadeverde.com<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as causas da contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas brasileiras? A \u00e1gua de todas as regi\u00f5es brasileiras est\u00e1 contaminada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> As causas da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542981-universalizacao-do-acesso-ao-saneamento-basico-no-brasil-pode-reduzir-ate-68-do-atraso-escolar\" target=\"_blank\"><strong>contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<\/strong><\/a> no Brasil est\u00e3o intrinsecamente ligadas a um processo de r\u00e1pida e expressiva <strong>expans\u00e3o dos centros urbanos<\/strong>, especialmente na segunda metade do s\u00e9culo XX. Essa expans\u00e3o se deu de forma fragmentada, sem planejamento adequado. Justamente por isso, pela falta de planejamento, e por uma \u00f3ptica que j\u00e1 podia ser considerada anacr\u00f4nica mesmo para a \u00e9poca, os corpos d&#8217;\u00e1gua foram em muitos momentos considerados meros receptores e canais de escoamento de res\u00edduos dom\u00e9sticos e industriais. Era forte a ideia (e ainda \u00e9) da m\u00e1xima de que a &#8220;dilui\u00e7\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o&#8221;, quanto maior ou mais caudaloso um corpo h\u00eddrico, mais contamina\u00e7\u00e3o se poderia jogar nele. O ir\u00f4nico \u00e9 que justamente desses mananciais \u00e9 que adv\u00e9m a maior parte da \u00e1gua destinada ao <strong>consumo<\/strong> nas grandes cidades.<\/p>\n<p>Outros determinantes hist\u00f3ricos importantes foram a concep\u00e7\u00e3o dos militares de que governo e desenvolvimento estavam ligados a grandes obras de <strong>distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pot\u00e1vel<\/strong>, sem considerar a necess\u00e1ria expans\u00e3o na outra via de <strong>coleta e tratamento de esgoto<\/strong> e o foco do crescimento baseado na ind\u00fastria e na revolu\u00e7\u00e3o verde, em muitos casos a qualquer custo do ponto de vista ambiental. De alguns destes males n\u00e3o estamos livres at\u00e9 hoje, mesmo passadas d\u00e9cadas do processo de <strong>redemocratiza\u00e7\u00e3o<\/strong>. Ainda coletamos ao redor de 50% do esgoto dom\u00e9stico que produzimos nas cidades (no ambiente rural a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave) e tratamos menos de 30% disso antes de lan\u00e7ar aos rios esses dejetos. Ainda que esfor\u00e7os tenham sido feitos pelas ind\u00fastrias, muito em virtude da evolu\u00e7\u00e3o dos <strong>processos de fiscaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>, em todo o Brasil ainda s\u00e3o notificados em grande n\u00famero problemas relacionados ao descarte inadequado de efluentes industriais. E ainda h\u00e1 a quest\u00e3o dos dejetos de produ\u00e7\u00e3o animal e agr\u00edcola, que n\u00e3o s\u00e3o de modo algum negligenci\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 segunda quest\u00e3o, os dados da <strong>Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas &#8211; ANA<\/strong> e de in\u00fameros pesquisadores mostram que lamentavelmente em todas as regi\u00f5es pode-se sim observar problemas quanto \u00e0 <strong>qualidade da \u00e1gua<\/strong>. Alguns problemas como a eutrofiza\u00e7\u00e3o (crescimento de algas que afeta a viabilidade dos corpos h\u00eddricos em sustentar a vida), a contamina\u00e7\u00e3o por diferentes microrganismos e poluentes qu\u00edmicos podem ser notadas em diversas regi\u00f5es, praticamente onde quer que se busque.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que a an\u00e1lise microbiol\u00f3gica da Ba\u00eda de Guanabara revela sobre a qualidade da \u00e1gua da Ba\u00eda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> Essa an\u00e1lise que conduzimos junto \u00e0 ag\u00eancia de not\u00edcias <strong>Associated Press<\/strong> n\u00e3o revela algo desconhecido, os problemas de qualidade da \u00e1gua no contexto da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/546856-baia-de-guanabara-um-caso-de-saude-publica\" target=\"_blank\"><strong>Ba\u00eda da Guanabara<\/strong><\/a> s\u00e3o descritos de longa data, mas infelizmente parece que sempre temos de avisar sobre quest\u00f5es que v\u00e3o sendo deixadas de lado. A pr\u00f3pria presen\u00e7a de v\u00edrus causadores de doen\u00e7as de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica na <strong>Lagoa Rodrigo de Freitas<\/strong> e nas praias mais frequentadas tem antecedentes. A <strong>Fiocruz<\/strong> produziu, num passado recente, excelentes estudos sobre o mesmo tema. Aquela situa\u00e7\u00e3o nada mais \u00e9 que o resultado dessas quest\u00f5es de um <strong>processo de cresciment<\/strong>o dos grandes centros urbanos n\u00e3o acoplados a um plano de desenvolvimento que contemplasse a quest\u00e3o do esgoto dom\u00e9stico. S\u00e3o hoje em torno de 13 milh\u00f5es de pessoas que vivem naquele entorno, com um sistema de<strong> tratamento de esgoto<\/strong> muito aqu\u00e9m do ideal.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o exclusiva do Rio de Janeiro, est\u00e1 em todo o Brasil, mas \u00e9 emblem\u00e1tico, pois trata-se de um cart\u00e3o postal maravilhoso do pa\u00eds, com um povo alegre e hospitaleiro como poucos, da\u00ed o impacto que teve esse estudo, claro que associado \u00e0 <strong>quest\u00e3o ol\u00edmpica<\/strong>.<\/p>\n<p>O que esperamos \u00e9 que toda essa pol\u00eamica gerada tenha reflexos para depois e al\u00e9m da <strong>Olimp\u00edada<\/strong>: que se repense o <strong>manejo do esgoto<\/strong> dom\u00e9stico naquele ambiente e que seja de fato beneficiada a popula\u00e7\u00e3o residente no Rio de Janeiro. E tomara que toda essa discuss\u00e3o sirva tamb\u00e9m de alerta no resto do Brasil. Outra quest\u00e3o relevante \u00e9 de trazer \u00e0 tona a quest\u00e3o de par\u00e2metros e medidas mais adequados ao s\u00e9culo XXI para monitoramento da seguran\u00e7a e qualidade da \u00e1gua.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cEsses pat\u00f3genos de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica podem causar conjuntivites, hepatites, doen\u00e7as respirat\u00f3rias e mesmo doen\u00e7as ainda mais graves\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as principais doen\u00e7as associadas \u00e0 \u00e1gua contaminada e como essa quest\u00e3o \u00e9 vista em termos de sa\u00fade p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> Quando pensamos em <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/522766-vigilancia-ambiental-e-a-prevencao-a-saude-entrevista-especial-com-jader-da-cruz-cardoso\" target=\"_blank\">doen\u00e7as<\/a> de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica<\/strong>, o foco est\u00e1 principalmente relacionado \u00e0s gastroenterites (v\u00f4mito e diarreia). Essas doen\u00e7as s\u00e3o uma das principais causas de atendimento de crian\u00e7as nos servi\u00e7os de sa\u00fade dos pa\u00edses em desenvolvimento, s\u00e3o especialmente importantes nessa faixa et\u00e1ria, bem como em idosos e imunossuprimidos e, para piorar o quadro, muitas vezes os adultos saud\u00e1veis transmitem esses agentes aos corpos d&#8217;\u00e1gua pelos dejetos sem apresentar qualquer sintoma, o que permite a perpetua\u00e7\u00e3o desse ciclo onde o sistema de saneamento b\u00e1sico for ineficiente. Nesse \u00e2mbito, diferentes microrganismos est\u00e3o envolvidos com diarreia, mas os v\u00edrus sem d\u00favida t\u00eam grande import\u00e2ncia, em parte por que n\u00e3o s\u00e3o monitorados e os atuais indicadores de qualidade microbiol\u00f3gica da \u00e1gua (coliformes fecais) n\u00e3o s\u00e3o capazes de apontar sua presen\u00e7a. Um copo d&#8217;\u00e1gua livre de coliformes fecais pode conter v\u00edrus, ou mesmo outras bact\u00e9rias e protozo\u00e1rios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das gastroenterites, esses pat\u00f3genos de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica podem causar conjuntivites, hepatites, doen\u00e7as respirat\u00f3rias e mesmo doen\u00e7as ainda mais graves.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que s\u00e3o os v\u00edrus ent\u00e9ricos e como se d\u00e1 a prolifera\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o deles pela \u00e1gua?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> S\u00e3o <strong>v\u00edrus<\/strong> com uma caracter\u00edstica estrutural peculiar (aus\u00eancia de envelope lip\u00eddico) que os torna muito resistentes no ambiente, desse modo evolu\u00edram para essa via de transmiss\u00e3o fecal-oral e por se multiplicarem nas c\u00e9lulas do trato digestivo, chamados ent\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Um indiv\u00edduo sadio ou doente pode excretar bilh\u00f5es de part\u00edculas desses v\u00edrus em uma defeca\u00e7\u00e3o. Sem o devido<strong> <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/539663-apenas-20-da-agua-residual-e-tratada-alerta-onu\" target=\"_blank\">tratamento do esgoto<\/a><\/strong>, mesmo que uma parte desses v\u00edrus seja destru\u00edda no caminho at\u00e9 os corpos h\u00eddricos, sobraram milh\u00f5es de part\u00edculas virais capazes de contaminar a \u00e1gua e causar infec\u00e7\u00f5es em outros indiv\u00edduos. Imagine isso replicado para milh\u00f5es de pessoas em uma bacia hidrogr\u00e1fica.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em que consiste sua pesquisa sobre a detec\u00e7\u00e3o de v\u00edrus da Hepatite E em amostras de \u00e1gua? Quais s\u00e3o as principais constata\u00e7\u00f5es da pesquisa at\u00e9 o momento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> A <strong>hepatite E<\/strong> \u00e9 causada por um desses v\u00edrus ent\u00e9ricos. \u00c9 uma doen\u00e7a muito especial, pois expressa bem algo contempor\u00e2neo em sa\u00fade: a necessidade de entender o <strong>processo de sa\u00fade<\/strong> como algo \u00fanico, n\u00e3o podemos mais dissociar em muitos casos a sa\u00fade humana, animal e ambiental. Esse v\u00edrus da hepatite E causa infec\u00e7\u00f5es assintom\u00e1ticas em su\u00ednos, pode ser transmitido aos seres humanos pela \u00e1gua contaminada pelos dejetos desses animais ou mesmo alimentos de origem su\u00edna n\u00e3o devidamente cozidos. Em pessoas pode causar desde infec\u00e7\u00f5es subcl\u00ednicas (sem nenhum sinal vis\u00edvel) at\u00e9 <strong>hepatites graves<\/strong>. \u00c9 uma doen\u00e7a emergente em n\u00edvel mundial. Na nossa <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/529849-rio-dos-sinos-um-dos-dez-rios-mais-poluidos-do-brasil-entrevista-especial-com-arno-kayser\" target=\"_blank\"><strong>Bacia dos Sinos<\/strong><\/a> ainda n\u00e3o detectamos o v\u00edrus na \u00e1gua, mas em outras regi\u00f5es do <strong>Rio Grande do Sul<\/strong>, onde h\u00e1 maior presen\u00e7a de atividade suin\u00edcola, detectamos o v\u00edrus de forma muito frequente em amostras de dejetos su\u00ednos e de efluentes de suinocultura.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Uma das suas pesquisas investigou quais doen\u00e7as foram possivelmente transmitidas pela \u00e1gua na regi\u00e3o da Bacia Hidrogr\u00e1fica do Rio dos Sinos. Quais s\u00e3o as conclus\u00f5es da pesquisa? Que doen\u00e7as est\u00e3o associadas \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do Rio dos Sinos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> Fizemos um enorme esfor\u00e7o de pesquisa em conjunto com a <strong>CORSAN<\/strong>, onde monitoramos durante 24 meses para v\u00edrus e centenas de outros par\u00e2metros a \u00e1gua captada pela companhia no <strong>Sinos<\/strong> e afluentes para tratamento. Ao mesmo tempo acompanhamos os atendimentos notificados pelos \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade para doen\u00e7as de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica na nossa regi\u00e3o. Pudemos observar que h\u00e1 um forte impacto da <strong>falta de tratamento<\/strong> adequado do esgoto na qualidade da \u00e1gua nessa bacia hidrogr\u00e1fica e que as doen\u00e7as de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica sofrem varia\u00e7\u00e3o ao longo do tempo conforme o ciclo hidrol\u00f3gico (mais ou menos chuva por exemplo), o que j\u00e1 foi observado em outros locais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as principais dificuldades ou problemas dos sistemas de tratamento biol\u00f3gico de esgoto dom\u00e9stico e \u00e1gua para consumo no sentido de tratar a \u00e1gua e torn\u00e1-la pot\u00e1vel e livre de v\u00edrus, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> Em primeiro lugar, antes de discutirmos a efici\u00eancia dos processos, devemos elevar de forma expressiva os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/544211-mais-de-2-bilhoes-de-pessoas-nao-tem-saneamento-basico\" target=\"_blank\">\u00edndices<\/a> de tratamento de esgoto instalados. Tomemos em conta que na bacia hidrogr\u00e1fica do<strong> Rio dos Sinos<\/strong> ainda convivemos com uma taxa de tratamento de esgoto dom\u00e9stico \u00ednfima, da ordem de 4,5% de tudo que \u00e9 produzido. Em um segundo momento, deveremos sim lidar com a ado\u00e7\u00e3o de tecnologias que levem a uma efetiva degrada\u00e7\u00e3o de microrganismos mais resistentes, tais como v\u00edrus e protozo\u00e1rios, pois as esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1gua e esgoto convencionais usualmente n\u00e3o d\u00e3o conta desta tarefa. Todo o sistema atual est\u00e1 baseado na resist\u00eancia dos coliformes fecais aos <strong>processos de desinfec\u00e7\u00e3o<\/strong>, que infelizmente \u00e9 muito mais baixa que a desses pat\u00f3genos emergentes. Desse modo, o que \u00e9 eficaz para os coliformes pode ser in\u00f3cuo para esses outros agentes. Da\u00ed a necessidade de desenvolvermos novas solu\u00e7\u00f5es para degrada\u00e7\u00e3o e remo\u00e7\u00e3o desses agentes em esgoto e \u00e1gua, sem perder a no\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 a necessidade de essas <strong>novas tecnologias<\/strong> terem um custo baixo e serem de ado\u00e7\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cNa bacia hidrogr\u00e1fica do Rio dos Sinos ainda convivemos com uma taxa de tratamento de esgoto dom\u00e9stico \u00ednfima, da ordem de 4,5% de tudo que \u00e9 produzido\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por outro lado, quais s\u00e3o as dificuldades do sistema de sa\u00fade brasileiro no que se refere ao tratamento de doen\u00e7as causadas pela \u00e1gua contaminada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> Isso \u00e9 de fato preocupante. H\u00e1 todo um sistema de trabalho baseado na ideia de uma <strong>nova configura\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o<\/strong>, de seu envelhecimento e do aumento da frequ\u00eancia de doen\u00e7as cr\u00f4nicas e um maior preparo dos sistemas de ensino, pesquisa e mesmo de atendimento para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es. Isso est\u00e1 sem d\u00favida correto, mas n\u00e3o podemos esquecer que n\u00e3o vencemos no Brasil a etapa de controlar e tratar as doen\u00e7as transmiss\u00edveis. H\u00e1 uma gama de<strong> doen\u00e7as<\/strong> de veicula\u00e7\u00e3o h\u00eddrica (especialmente diarreias e hepatites) e de doen\u00e7as indiretamente relacionadas ao manejo da \u00e1gua (Dengue, Chikungunya, Zika, Febre Amarela) das quais ainda n\u00e3o nos livramos, ou pelo contr\u00e1rio, que rec\u00e9m chegaram e j\u00e1 com grande<strong> impacto<\/strong> em sa\u00fade p\u00fablica. Temos que mirar sim o futuro, mas sem esquecer que temos uma situa\u00e7\u00e3o no Brasil que mescla doen\u00e7as de uma popula\u00e7\u00e3o desenvolvida e mais idosa com outras t\u00edpicas dos pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Os padr\u00f5es estipulados para a qualidade da \u00e1gua, pela resolu\u00e7\u00e3o CONAMA 274 de 29 de novembro de 2000, s\u00e3o adequados ou precisariam ser revistos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Spilki &#8211;<\/strong> Esta e outras portarias e regulamenta\u00e7\u00f5es, incluindo a<strong> Portaria MS N\u00ba 2914 de 2011<\/strong>, que versa sobre a \u00e1gua pot\u00e1vel, ainda foram formuladas sob uma \u00f3ptica de restri\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e or\u00e7ament\u00e1rias para a ado\u00e7\u00e3o de marcadores mais fidedignos de seguran\u00e7a para a sa\u00fade dos consumidores e do ambiente. Essas normativas est\u00e3o mais adequadas \u00e0s necessidades e capacidades instaladas de \u00f3rg\u00e3os reguladores e das pr\u00f3prias concession\u00e1rias de produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e tratamento de esgoto. N\u00e3o s\u00f3 no <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/528663-contaminantes-emergentes-na-agua-a-cada-ano-temos-mais-de-mil-novas-substancias-sendo-introduzidas-no-nosso-dia-a-dia-entrevista-especial-com-wilson-jardim\" target=\"_blank\">caso de v\u00edrus<\/a>, mas tamb\u00e9m para outros microrganismos, poluentes org\u00e2nicos emergentes e outros par\u00e2metros notavelmente importantes hoje, a ado\u00e7\u00e3o foi em muitos casos negligenciada, seja em virtude de custos, dificuldade na <strong>implanta\u00e7\u00e3o de protocolos<\/strong> ou mesmo inabilidade ou morosidade dos sistemas de vigil\u00e2ncia e produ\u00e7\u00e3o em renovar suas abordagens.<\/p>\n<p>Considero grande parte desse pensamento anacr\u00f4nico; grande parte dessas metodologias especialmente de <strong>monitoramento<\/strong> teve custo muito reduzido nessa \u00faltima d\u00e9cada e h\u00e1 hoje muito mais pessoal treinado para execu\u00e7\u00e3o dessas an\u00e1lises. H\u00e1 sim que haver uma revis\u00e3o constante desses par\u00e2metros. Da parte da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, uma preocupa\u00e7\u00e3o que devemos ter \u00e9 buscar inova\u00e7\u00e3o no sentido de desenvolver protocolos mais simples, robustos e baratos, seja para monitoramento ou tratamento dessas novas amea\u00e7as presentes na \u00e1gua. S\u00f3 assim lograremos um conjunto de par\u00e2metros de qualidade da produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e tratamento de esgoto que esteja de fato<strong> focado<\/strong> nas pessoas e nos ecossistemas e n\u00e3o apenas nas limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas ou or\u00e7ament\u00e1rias dos entes envolvidos.<\/p>\n<p><em>Por Patricia Fachin<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <strong>IHU On-Line<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e a dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as de prolifera\u00e7\u00e3o h\u00eddrica \u201cAinda coletamos ao<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e a dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as de prolifera\u00e7\u00e3o h\u00eddrica \u201cAinda coletamos ao","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29144"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29144"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29144\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}