{"id":29117,"date":"2015-10-03T10:00:27","date_gmt":"2015-10-03T13:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=29117"},"modified":"2015-10-02T20:16:11","modified_gmt":"2015-10-02T23:16:11","slug":"por-que-o-brasil-massacra-1-milhao-de-animais-por-dia-em-suas-estradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/por-que-o-brasil-massacra-1-milhao-de-animais-por-dia-em-suas-estradas\/","title":{"rendered":"Por que o Brasil massacra 1 milh\u00e3o de animais por dia em suas estradas?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/animais_mortes.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-29118\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/animais_mortes-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/animais_mortes-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/animais_mortes.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>BR-101, norte do Esp\u00edrito Santo, setembro de 2015. Um caminhoneiro sente um cheiro forte e localiza uma anta &#8211; o maior mam\u00edfero terrestre brasileiro &#8211; na margem da pista, em estado avan\u00e7ado de decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cinco meses antes, no mesmo trecho da rodovia, bi\u00f3logos encontraram uma f\u00eamea adulta de harpia, a maior ave de rapina das Am\u00e9ricas, debilitada por fraturas e hematomas. Por ali, restos de retrovisor de caminh\u00e3o. No m\u00eas anterior, a v\u00edtima fora uma on\u00e7a-parda.<\/p>\n<p>As cenas com esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o s\u00e3o um retrato de um filme que n\u00e3o sai de cartaz no Brasil: a matan\u00e7a de animais por atropelamentos em estradas.<\/p>\n<p>Essa \u00e9, de longe, a principal causa de morte de bichos silvestres no pa\u00eds, superando ca\u00e7a ilegal, desmatamento e polui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o 15 animais mortos por segundo, ou 1,3 milh\u00e3o por dia e at\u00e9 475 milh\u00f5es por ano, segundo proje\u00e7\u00e3o do CBEE (Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas), da Universidade Federal de Lavras (MG).<\/p>\n<p>Quem puxa a lista s\u00e3o os pequenos vertebrados, como sapos, cobras e aves de menor porte &#8211; respondem por 90% do massacre, ou 430 milh\u00f5es de bichos. O restante se divide em animais de m\u00e9dio porte (macacos, gamb\u00e1s), com 40 milh\u00f5es, e de grande porte (como antas, lobos e on\u00e7as), com 5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, dizem especialistas, \u00e9 o resultado natural para um pa\u00eds que desconsiderou os bichos ao planejar as rodovias e ainda d\u00e1 os primeiros passos na ado\u00e7\u00e3o de medidas para minimizar os impactos das vias.<\/p>\n<p><strong>Corrida contra o tempo<\/strong><br \/>\n&#8220;Est\u00e1 acontecendo uma desgra\u00e7a total e n\u00e3o temos tempo nem de estudar o que ocorre&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil \u00c1ureo Banhos, professor do departamento de biologia da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Banhos coordena um time que monitora os atropelamentos no trecho de 25 km da BR-101 que corta uma das manchas verdes mais intactas do pa\u00eds. \u00c9 um mosaico de 500 km\u00b2 (ou um ter\u00e7o da cidade de S\u00e3o Paulo) de unidades de conserva\u00e7\u00e3o rasgado pela pista \u00fanica da via.<\/p>\n<p>Um exemplo do alerta do professor: das 70 esp\u00e9cies de morcegos identificadas na regi\u00e3o, 47 j\u00e1 foram atropeladas na estrada &#8211; e uma delas era desconhecida da ci\u00eancia at\u00e9 ent\u00e3o. Ao todo, 165 esp\u00e9cies de diferentes animais perderam a vida por ali (10 anf\u00edbios, 21 r\u00e9pteis, 63 aves e 71 mam\u00edferos) \u2013 s\u00e3o 50 mortes por dia apenas nesse ramo da rodovia, ou 20 mil por ano.<\/p>\n<p>Essa floresta integra as reservas de mata atl\u00e2ntica da Costa do Descobrimento, patrim\u00f4nio natural da humanidade desde 1999. Por ser um raro fragmento cont\u00ednuo de mata, \u00e9 o \u00faltimo ref\u00fagio na regi\u00e3o para v\u00e1rias esp\u00e9cies amea\u00e7adas, como a anta, a on\u00e7a-pintada, o tatu-canastra e a harpia.<\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo Leonardo Mer\u00e7on, do Instituto \u00daltimos Ref\u00fagios, fez um trabalho de registro da Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama, a maior pe\u00e7a do mosaico verde da regi\u00e3o. Impressionado pelos atropelamentos, acabou se engajando nas a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o para a gravidade do problema.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Tamandu\u00e1-bandeira faz travessia por manilha constru\u00edda na origem da BR-101 para escoamento de \u00e1gua (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/1iMlEcL691tcSzCJ01fSUuxNyXk=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/10\/02\/travessia2.jpg\" alt=\"Tamandu\u00e1-bandeira faz travessia por manilha constru\u00edda na origem da BR-101 para escoamento de \u00e1gua (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)\" width=\"640\" height=\"360\" \/><strong>Tamandu\u00e1-bandeira faz travessia por manilha constru\u00edda na origem da BR-101 para escoamento de \u00e1gua (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)<\/strong><\/div>\n<p>&#8220;Voc\u00ea nem precisa de dados para ver o impacto real do problema&#8221;, afirma ele. Um v\u00eddeo do instituto que registrou uma on\u00e7a-parda atropelada na estrada teve mais de 1 milh\u00e3o de visualiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em locais como esse, a perda de um \u00fanico indiv\u00edduo pode ter impacto muito grande sobre a biodiversidade. &#8220;Engenheira&#8221; dos ecossistemas, por dispersar sementes e servir de presa para grandes predadores, a anta, por exemplo, leva 13 meses na gesta\u00e7\u00e3o (com um filhote por vez) e demora dois anos entre as concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um poss\u00edvel caminho para os animais cruzarem para o outro lado da via s\u00e3o os dutos de drenagem de \u00e1gua sob a pista, mas nem sempre \u00e9 simples mudar os h\u00e1bitos dos animais.<\/p>\n<p>Pesquisador da UFES \u00c1ureo Banhos em trabalho para adaptar os dutos de \u00e1gua fluvial para passagem de fauna; ao alto, um morcego passa pela manilha: ao menos 47 esp\u00e9cies desse mam\u00edfero j\u00e1 foram atropeladas na rodovia<\/p>\n<p>&#8220;No parque nacional Banff, no Canad\u00e1, os ursos demoraram oito anos para come\u00e7ar a usar esse tipo de passagem&#8221;, afirma Alex Bager, coordenador do CBEE. No caso da BR-101, apenas 15% dos bichos atropelados usam as manilhas.<\/p>\n<p>Ou seja, talvez seja mais f\u00e1cil mudar os h\u00e1bitos dos motoristas, por meio de a\u00e7\u00f5es como redu\u00e7\u00e3o de velocidade, radares inteligentes que multam pela m\u00e9dia de velocidade (e n\u00e3o em apenas um ponto) e placas de advert\u00eancia.<\/p>\n<p>A Eco-101, concession\u00e1ria respons\u00e1vel pelo trecho da BR-101 em quest\u00e3o, diz que o segmento tem dois radares fixos, velocidade m\u00e1xima de 60 km\/h (especialistas defendem 25 km\/h) e dez placas educativas. Afirma ainda promover a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o e que estuda a &#8220;amplia\u00e7\u00e3o dos dispositivos de seguran\u00e7a para os animais silvestres&#8221;.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Rodovia que une a \u00e1rea urbana de Parauapebas, no Par\u00e1, e a Floresta Nacional de Caraj\u00e1s; pa\u00eds tem mais de 15,5 mil km de estradas cortando unidades de conserva\u00e7\u00e3o  (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/KcIwsnCzfMSpnpkgtQqVpQVMQtw=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/10\/02\/rodovia1.jpg\" alt=\"Rodovia que une a \u00e1rea urbana de Parauapebas, no Par\u00e1, e a Floresta Nacional de Caraj\u00e1s; pa\u00eds tem mais de 15,5 mil km de estradas cortando unidades de conserva\u00e7\u00e3o  (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)\" width=\"640\" height=\"360\" \/><strong>Rodovia que une a \u00e1rea urbana de Parauapebas, no Par\u00e1, e a Floresta Nacional de Caraj\u00e1s; pa\u00eds tem mais de 15,5 mil km de estradas cortando unidades de conserva\u00e7\u00e3o (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)<\/strong><\/div>\n<p><strong>Aus\u00eancia de normas<\/strong><br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o da BR-101 no Esp\u00edrito Santo \u2013 que ainda enfrenta a perspectiva de duplica\u00e7\u00e3o at\u00e9 2025 \u2013 \u00e9 uma amostra aguda de um problema nacional. S\u00e3o mais de 15,5 mil km de estradas atravessando \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pontos cr\u00edticos est\u00e3o por todo o Brasil. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Ecol\u00f3gicas em tr\u00eas trechos de rodovias de Mato Grosso do Sul (1.161 km nas BRs 267, 262 e 163) entre abril de 2013 e mar\u00e7o de 2014, por exemplo, localizou 1.124 carca\u00e7as de 25 esp\u00e9cies diferentes, como cachorro-do-mato (286 mortes), tamandu\u00e1-bandeira (136) e jaguatirica (7).<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 normas nacionais espec\u00edficas para a constru\u00e7\u00e3o de rodovias que cortam reservas naturais. Tudo tramita como um licenciamento ambiental padr\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema vem mobilizando a classe acad\u00eamica no pa\u00eds. Paralelamente a um boom nos estudos em ecologia de estradas, h\u00e1 articula\u00e7\u00f5es institucionais em curso no Congresso e em \u00f3rg\u00e3os ambientais.<\/p>\n<p>Um fruto recente desse debate \u00e9 o PL (Projeto de Lei) 466\/2015, do deputado federal Ricardo Izar (PSD-SP), que busca tornar obrigat\u00f3rias a\u00e7\u00f5es como monitoramento e sinaliza\u00e7\u00e3o em \u00e1reas &#8220;quentes&#8221; de atropelamentos, al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de um cadastro nacional de acidentes com animais silvestres.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Cruz deixada por pesquisadores em local onde harpia foi encontrada morta na BR-101  (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/q37-UezN2PbKis2drNhI7QqqhtI=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/10\/02\/cruz1.jpg\" alt=\"Cruz deixada por pesquisadores em local onde harpia foi encontrada morta na BR-101  (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)\" width=\"640\" height=\"360\" \/><strong>Cruz deixada por pesquisadores em local onde harpia foi encontrada morta na BR-101 (Foto: Joao Marcos Rosa\/BBC)<\/strong><\/div>\n<p>Sobre essa \u00faltima medida, um esfor\u00e7o nesse sentido j\u00e1 partiu da pr\u00f3pria academia, com a cria\u00e7\u00e3o do Sistema Urubu, uma esp\u00e9cie de rede social para compartilhamento e valida\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre atropelamentos de bichos.<\/p>\n<p>No ar h\u00e1 um ano, a iniciativa do CBEE conta com um aplicativo gratuito pelo qual qualquer pessoa pode fotografar e enviar imagens de acidentes com animais. Os registros s\u00e3o enviados para uma base de dados central e s\u00e3o validados por especialistas cadastrados no sistema, tudo online.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o cerca de 15 mil usu\u00e1rios cadastrados e mais de 20 mil fotos enviadas. Para entrar no sistema, cada registro precisa ser validado por cinco especialistas, e ter o consenso de tr\u00eas deles sobre qual \u00e9 a esp\u00e9cie em quest\u00e3o &#8211; s\u00e3o 800 &#8220;validadores&#8221; ativos na rede, cada um especializado numa classe animal.<\/p>\n<p>&#8220;Muitas vezes, as pesquisas sobre o tema no Brasil s\u00e3o muito regionalizadas, restritas ao raio da universidade por falta de recursos. Com o sistema poderemos criar um mapa de \u00e1reas cr\u00edticas de atropelamentos no pa\u00eds e us\u00e1-lo como pol\u00edtica p\u00fablica de conserva\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Alex Bager, do CBEE.<\/p>\n<p>Diante da perspectiva da fase mais explosiva de constru\u00e7\u00e3o de estradas na hist\u00f3ria, com pelo menos 25 milh\u00f5es de km de novas rodovias no mundo at\u00e9 2050, especialistas defendem que essas interven\u00e7\u00f5es passem, cada vez mais, por estudos de custo-benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Seria um modo de evitar a prolifera\u00e7\u00e3o de vias em regi\u00f5es de alto valor ambiental mas potencial agr\u00edcola apenas modesto, como a bacia Amaz\u00f4nica. &#8220;Construir estradas \u00e9 abrir uma caixa de Pandora de problemas ambientais, e ainda estamos na pr\u00e9-hist\u00f3ria da mitiga\u00e7\u00e3o de impactos&#8221;, afirma Banhos.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" title=\"Jabuti-tinga, esp\u00e9cie amea\u00e7ada, se arrisca na tentativa de atravessar a BR-101; perspectiva de 25 milh\u00f5es de km de novas rodovias no mundo at\u00e9 2050 exige a\u00e7\u00e3o urgente, afirmam especialistas (Foto: Leonardo Mercon\/BBC)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/HGIIlIBIp38BoSAS8_IsoPQobLg=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/10\/02\/animais2.jpg\" alt=\"Jabuti-tinga, esp\u00e9cie amea\u00e7ada, se arrisca na tentativa de atravessar a BR-101; perspectiva de 25 milh\u00f5es de km de novas rodovias no mundo at\u00e9 2050 exige a\u00e7\u00e3o urgente, afirmam especialistas (Foto: Leonardo Mercon\/BBC)\" width=\"640\" height=\"360\" \/><strong>Jabuti-tinga, esp\u00e9cie amea\u00e7ada, se arrisca na tentativa de atravessar a BR-101; perspectiva de 25 milh\u00f5es de km de novas rodovias no mundo at\u00e9 2050 exige a\u00e7\u00e3o urgente, afirmam especialistas (Foto: Leonardo Mercon\/BBC)<\/strong><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BR-101, norte do Esp\u00edrito Santo, setembro de 2015. 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