{"id":28768,"date":"2015-09-26T08:29:05","date_gmt":"2015-09-26T11:29:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=28768"},"modified":"2015-09-26T08:29:05","modified_gmt":"2015-09-26T11:29:05","slug":"entrevista-especial-com-larissa-mies-bombardi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-larissa-mies-bombardi\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Larissa Mies Bombardi"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"contentheading\">Intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico: \u201cOs n\u00fameros s\u00e3o suficientemente alarmantes\u201d<\/h2>\n<p><strong>\u201cEm 2005 o consumo m\u00e9dio de agrot\u00f3xicos era da ordem de 5 kg\/hectare e, em 2011, passou a ser de 11 kg\/hectare. Ou seja, em menos de uma d\u00e9cada dobramos a quantidade de agrot\u00f3xicos utilizada no pa\u00eds\u201d, informa a pesquisadora.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i58.tinypic.com\/eqw5yv.gif\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto:\u00a0ideiaweb.org<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Em sete anos, 2.181 casos de crian\u00e7as e adolescentes <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/546671-mais-de-2-mil-criancas-e-adolescentes-sofreram-intoxicacao-por-agrotoxicos-no-brasil-nos-ultimos-sete-anos\" target=\"_blank\"><strong>intoxicados por agrot\u00f3xicos<\/strong><\/a> foram notificados junto ao <strong>Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong>, informa <strong>Larissa Mies Bombardi<\/strong>, em entrevista concedida \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong> por e-mail. Segundo a pesquisadora, que analisou esses dados em sua pesquisa de p\u00f3s-doutorado, \u201cnos estados do <strong>Centro-Sul<\/strong> do pa\u00eds, as crian\u00e7as entre 1 e 4 anos respondem por mais de 30% dos casos. Em <strong>Mato Grosso e Minas Gerais<\/strong>, por exemplo, esta faixa et\u00e1ria (de 1 a 4 anos) responde por mais de 40% dos casos de intoxica\u00e7\u00e3o neste intervalo de 0 a 14 anos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Larissa<\/strong> conta que desde que iniciou suas investiga\u00e7\u00f5es sobre os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/546026-estudos-epidemiologicos-apontam-relacao-entre-consumo-de-agrotoxicos-e-cancer-entrevista-especial-com-karen-friedrich\" target=\"_blank\">impactos<\/a> do uso de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds, tem percebido que \u201cde 20 a 25% das intoxica\u00e7\u00f5es notificadas, ano ap\u00f3s ano, diziam respeito a crian\u00e7as e jovens, com idade de 0 a 19 anos\u201d. Do total das intoxica\u00e7\u00f5es analisadas por ela, grande parte, explica, refere-se a \u201cmotivos acidentais (primeiro lugar no tipo de circunst\u00e2ncia que envolveu a intoxica\u00e7\u00e3o para a faixa et\u00e1ria de 0 a 14 anos).<\/p>\n<p>Entretanto, um dado muito assustador \u00e9 que o segundo motivo no n\u00famero de<strong> intoxica\u00e7\u00f5es notificadas<\/strong> para a faixa et\u00e1ria mencionada \u00e9 o de <strong>suic\u00eddio<\/strong>, que se concentra entre adolescentes de 10 a 14 anos. Neste per\u00edodo, mais de 300 adolescentes entre 10 e 14 anos fizeram tentativa de suic\u00eddio atrav\u00e9s da ingest\u00e3o de agrot\u00f3xicos de uso agr\u00edcola\u201d. Para ela, esses dados demonstram que \u201cestamos diante de uma forma de viol\u00eancia silenciosa ou de uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542336-dossie-abrasco-o-grito-contra-o-silencio-opressivo-do-agronegocio-entrevista-especial-com-fernando-carneiro\" target=\"_blank\">epidemia silenciosa<\/a> provocada pelo modelo agr\u00edcola que o pa\u00eds vem adotando\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, <strong>Larissa<\/strong> comenta os efeitos das <strong>intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos<\/strong> entre adultos e crian\u00e7as e esclarece, especificamente, as implica\u00e7\u00f5es do Ingrediente Ativo<strong> Acefato<\/strong>, o quinto em n\u00famero de vendas no Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/529482-qditadura-selou-alianca-entre-latifundio-e-burguesia-industrialq-afirma-professora-%20\" target=\"_blank\"><strong>Larissa Mies Bombardi<\/strong><\/a> \u00e9 graduada em Geografia pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP, onde tamb\u00e9m cursou o mestrado e o doutorado. Atualmente \u00e9 professora no Departamento de Geografia da USP.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i57.tinypic.com\/29djlao.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto: youtube.com<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; Em que consiste seu estudo, o qual evidenciou que entre 2007 e 2014 foram notificadas 2.150 intoxica\u00e7\u00f5es somente na faixa et\u00e1ria entre 0 e 14 anos de idade, em todo o pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Este estudo refere-se ao desenvolvimento de meu P\u00f3s-Doutorado, que tem por tem\u00e1tica a quest\u00e3o do uso de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542273-o-alarmante-uso-de-agrotoxicos-no-brasil-atinge-70-dos-alimentos\" target=\"_blank\"><strong>agrot\u00f3xicos no Brasil<\/strong><\/a> e seus impactos.<\/p>\n<p>Durante o desenvolvimento dos mapeamentos que venho fazendo, passou a me chamar a aten\u00e7\u00e3o a quantidade de<strong> intoxica\u00e7\u00f5es<\/strong> entre crian\u00e7as e jovens. Praticamente de 20 a 25% das intoxica\u00e7\u00f5es notificadas, ano ap\u00f3s ano, diziam respeito a crian\u00e7as e jovens, com idade de 0 a 19 anos. Assim, fui focando os mapas em faixas et\u00e1rias ainda inferiores e pude constatar que neste per\u00edodo (2007 a 2014) houve 2.181 crian\u00e7as e adolescentes com intoxica\u00e7\u00f5es notificadas junto ao<strong> Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong>, com idade entre 0 e 14 anos. E, destas, nos estados do <strong>Centro-Sul<\/strong> do pa\u00eds, as crian\u00e7as entre 1 e 4 anos respondem por mais de 30% dos casos. Em <strong>Mato Grosso e Minas Gerais<\/strong>, por exemplo, esta faixa et\u00e1ria (de 1 a 4 anos) responde por mais de 40% dos casos de intoxica\u00e7\u00e3o neste intervalo de 0 a 14 anos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Esses casos de intoxica\u00e7\u00e3o ocorreram e ocorrem com mais frequ\u00eancia por quais raz\u00f5es? Pelo consumo de alimentos contaminados, por ingest\u00e3o de agrot\u00f3xicos acidentalmente, pelo contato das crian\u00e7as com as planta\u00e7\u00f5es? As intoxica\u00e7\u00f5es foram mais frequentes em crian\u00e7as que residem no campo ou na cidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Deste total, uma grande parte das intoxica\u00e7\u00f5es notificadas referem-se a motivos acidentais (primeiro lugar no tipo de circunst\u00e2ncia que envolveu a intoxica\u00e7\u00e3o para a faixa et\u00e1ria de 0 a 14 anos). Entretanto, um dado muito assustador \u00e9 que o segundo motivo no n\u00famero de intoxica\u00e7\u00f5es notificadas para a faixa et\u00e1ria mencionada \u00e9 o de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/541430-pesquisador-da-fiocruz-fala-sobre-suicidio-como-problema-de-saude-publica\" target=\"_blank\"><strong>suic\u00eddio<\/strong><\/a>, que se concentra entre adolescentes de 10 a 14 anos. Neste per\u00edodo, mais de 300 adolescentes entre 10 e 14 anos fizeram tentativa de suic\u00eddio atrav\u00e9s da ingest\u00e3o de <strong>agrot\u00f3xicos de uso agr\u00edcola<\/strong>.<\/p>\n<p>Outra informa\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que a maior parte das <strong>crian\u00e7as e adolescentes<\/strong> intoxicados tem a zona urbana como resid\u00eancia. Este fato, sem d\u00favida, est\u00e1 relacionado \u00e0 enorme subnotifica\u00e7\u00e3o dos casos de intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xico de uso agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Se atentarmos para os tipos de circunst\u00e2ncia e focarmos naquela denominada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade como \u201cacidental\u201d, verificaremos que esta tem preval\u00eancia na zona urbana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rural, o que leva \u00e0 hip\u00f3tese de que as crian\u00e7as intoxicadas na <strong>zona rural<\/strong> est\u00e3o envolvidas no universo do trabalho diretamente ou n\u00e3o, ou seja, pode ser que a pr\u00f3pria crian\u00e7a trabalhe efetivamente ou que acompanhe os pais em suas jornadas de trabalho.<\/p>\n<p>Outro dado alarmante refere-se \u00e0 intoxica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da ingest\u00e3o de alimentos. No total, neste per\u00edodo, foram 54 crian\u00e7as intoxicadas por agrot\u00f3xico de uso agr\u00edcola atrav\u00e9s do consumo de alimentos, dentre elas tr\u00eas beb\u00eas de menos de um ano. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 zona de resid\u00eancia, 32 deste total habitam a zona urbana e 22 a zona rural.<\/p>\n<p>Este n\u00famero nos d\u00e1 uma m\u00e9dia de quatro crian\u00e7as intoxicadas com agrot\u00f3xico de uso agr\u00edcola por ano atrav\u00e9s do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-arquivadas\/34841-a-alimentacao-dos-brasileiros-esta-cada-vez-mais-envenenada\" target=\"_blank\"><strong>consumo de alimentos<\/strong><\/a>. Penso que estes dados traduzem a gravidade da quest\u00e3o do uso de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cEstes dados traduzem a gravidade da quest\u00e3o do uso de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como analisa esse dado de mais de 2.150 intoxica\u00e7\u00f5es registradas entre crian\u00e7as dessa faixa et\u00e1ria? Que efeitos essas intoxica\u00e7\u00f5es causam nas crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Os efeitos de <strong>intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos<\/strong> sobre crian\u00e7as s\u00e3o sempre mais nefastos do que sobre os adultos, por dois motivos b\u00e1sicos:<\/p>\n<p>1. As crian\u00e7as s\u00e3o organismos em crescimento e em forma\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>2. O peso corp\u00f3reo das crian\u00e7as \u00e9 menor do que o dos adultos, o que significa que a mesma quantidade de ingrediente ativo da intoxica\u00e7\u00e3o (ingerido, inalado, ou por contato etc.) pode ter seu efeito ampliado.<\/p>\n<p>Como exemplo, vale indicar a <strong>Nota T\u00e9cnica da Anvisa<\/strong> sobre o Ingrediente Ativo \u201c<strong>Acefato<\/strong>\u201d, o quinto em n\u00famero de vendas no Brasil, em seu processo de avalia\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cOutro quadro neurol\u00f3gico grave, desencadeado por exposi\u00e7\u00f5es aos OPs (Organo-fosforados, que \u00e9 o caso do Acefato), foi identificado mais recentemente, e passou a ser conhecido como \u2018s\u00edndrome intermedi\u00e1ria\u2019. A <strong>S\u00edndrome Intermedi\u00e1ria &#8211; SI<\/strong> caracteriza-se pela acentuada fraqueza dos m\u00fasculos respirat\u00f3rios e diminui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a dos m\u00fasculos do pesco\u00e7o e das extremidades proximais dos membros. Esses sintomas aparecem algumas horas ap\u00f3s o in\u00edcio dos sintomas de hiperestimula\u00e7\u00e3o colin\u00e9rgica (intoxica\u00e7\u00e3o aguda). O comprometimento respirat\u00f3rio na SI, se n\u00e3o houver pronto atendimento em hospitais equipados com aparelhos de respira\u00e7\u00e3o assistida, pode levar \u00e0 morte. (&#8230;) Outra quest\u00e3o preocupante \u00e9 o fato de estudos experimentais sugerirem que crian\u00e7as (organismos ainda em desenvolvimento) possam ser mais vulner\u00e1veis aos efeitos de OPs. H\u00e1 ind\u00edcios claros de que a exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de animais em fase de desenvolvimento a baixas doses de OPs pode afetar adversamente o crescimento e a matura\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Entretanto, em que pese o teor da avalia\u00e7\u00e3o deste Ingrediente Ativo, Acefato, em <strong>Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o<\/strong> de 04\/10\/2013, verifica-se que a decis\u00e3o foi por manter a autoriza\u00e7\u00e3o do Acefato nas culturas de amendoim, algod\u00e3o, batata, br\u00f3colis, citros, couve, couve-flor, feij\u00e3o, mel\u00e3o, repolho, soja e tomate para fins industriais, com a diferen\u00e7a que, a partir de ent\u00e3o, este ingrediente ativo passou a ser exclusivamente de aplica\u00e7\u00e3o por meio de equipamentos mecanizados.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Outro dado demonstra que ocorrem em m\u00e9dia 5.600 intoxica\u00e7\u00f5es por ano. Como interpreta esse dado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Estes n\u00fameros j\u00e1 revelam um quadro grav\u00edssimo. Cheguei a eles a partir do banco de dados da <strong>Fiocruz<\/strong>, mapeando as intoxica\u00e7\u00f5es durante um per\u00edodo de 11 anos (1999 a 2009). Considerando este n\u00famero de <strong>intoxica\u00e7\u00f5es notificadas<\/strong>, 5.600 por ano, significa que tivemos 62.000 intoxica\u00e7\u00f5es no per\u00edodo, ou 15 intoxica\u00e7\u00f5es por dia, ou uma a cada 90 minutos.<\/p>\n<p>Estes n\u00fameros por si s\u00f3 j\u00e1 s\u00e3o suficientemente alarmantes, entretanto a pr\u00f3pria Fiocruz estima que, para cada intoxica\u00e7\u00e3o notificada, tenhamos 50 outras n\u00e3o notificadas.<\/p>\n<p>Isto significa que estamos diante de uma forma de viol\u00eancia silenciosa ou de uma epidemia silenciosa provocada pelo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/538780-a-opcao-do-pais-pelo-agronegocio-faz-o-brasileiro-consumir-52-litros-de-agrotoxicos-por-ano-entrevista-especial-com-fran-paula\" target=\"_blank\"><strong>modelo agr\u00edcola<\/strong><\/a> que o pa\u00eds vem adotando.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por quais raz\u00f5es as notifica\u00e7\u00f5es de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos ainda s\u00e3o pouco notificadas no servi\u00e7o de sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Por algumas raz\u00f5es, dentre elas, destacam-se: acesso distante e dif\u00edcil dos camponeses e trabalhadores rurais em rela\u00e7\u00e3o aos centros de sa\u00fade, falta de preparo dos profissionais de sa\u00fade para lidar com os quadros de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico e, tamb\u00e9m, uma pr\u00e1tica da popula\u00e7\u00e3o em n\u00e3o buscar o servi\u00e7o de sa\u00fade em quadros de intoxica\u00e7\u00e3o \u201cleve\u201d, mas que, no entanto, levam a problemas cr\u00f4nicos de sa\u00fade \u2014 tal pr\u00e1tica \u00e9 perpetrada por mensagens subliminares que fazem supor a baixa toxicidade dos agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cA agricultura agroecol\u00f3gica, por exemplo, pode ser t\u00e3o ou mais produtiva que a agricultura convencional\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como se d\u00e1 a intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico no uso agr\u00edcola? Quais s\u00e3o os casos mais recorrentes que tem registrado em suas pesquisas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Segundo a classifica\u00e7\u00e3o da <strong>Anvisa<\/strong> sobre as circunst\u00e2ncias que levaram \u00e0s intoxica\u00e7\u00f5es notificadas para o per\u00edodo de 2007 a 2014, o maior n\u00famero de notifica\u00e7\u00f5es est\u00e1 relacionado \u00e0 tentativa de suic\u00eddio, em segundo lugar a fatos acidentais, em terceiro lugar ao uso habitual e, em quarto lugar, a intoxica\u00e7\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p>Estes dados s\u00e3o gerais, para o pa\u00eds todo, com especificidades regionais e estaduais. Entretanto, a <strong>tentativa de suic\u00eddio<\/strong> ocupa mais de 40% do total das intoxica\u00e7\u00f5es notificadas. S\u00f3 no ano de 2013 foram 1.796 tentativas de suic\u00eddio com agrot\u00f3xicos de uso agr\u00edcola notificadas. Isto significa que, a cada dia, praticamente cinco pessoas no pa\u00eds tentaram suic\u00eddio com <strong>ingest\u00e3o de agrot\u00f3xicos<\/strong>.<\/p>\n<p>O entendimento da envergadura destes n\u00fameros nos leva a pelo menos duas explica\u00e7\u00f5es: a primeira \u00e9 que o n\u00famero de subnotifica\u00e7\u00f5es em geral \u00e9 t\u00e3o grande, que estes casos de tentativa de suic\u00eddio (devido \u00e0 gravidade e toda a quest\u00e3o formal\/jur\u00eddica que eles envolvem) tomam uma propor\u00e7\u00e3o gigantesca no universo de notifica\u00e7\u00f5es. A segunda \u00e9 que h\u00e1 uma conex\u00e3o clara (em estudos realizados no Brasil e no exterior) entre a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/537115-estudo-mostra-que-exposicao-a-agrotoxicos-pode-causar-disturbios-reprodutivos\" target=\"_blank\"><strong>exposi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica<\/strong><\/a> a alguns tipos de agrot\u00f3xicos e neuropatias decorrentes desta exposi\u00e7\u00e3o, que podem levar o campon\u00eas ou o trabalhador rural \u00e0 tentativa de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>De toda forma, observa-se, pelo restante dos dados mencionados anteriormente (excetuando-se o n\u00famero de tentativas de suic\u00eddio), que a <strong>quest\u00e3o laboral<\/strong> est\u00e1 no centro das intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos de uso agr\u00edcola.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os casos mais problem\u00e1ticos do uso de agrot\u00f3xicos na agricultura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Entendo que o que h\u00e1 de muito problem\u00e1tico \u00e9 o fato de termos um <strong>modelo agr\u00edcola<\/strong> que privilegia a exporta\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o de agrocombust\u00edveis, em detrimento de um <strong>projeto de soberania alimentar<\/strong>. Desta forma, vamos acompanhando ano ap\u00f3s ano a diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de arroz e feij\u00e3o, por exemplo, que respectivamente ocupavam 3,2 e 4,3 milh\u00f5es de hectares em 2002 e passaram a ocupar 2,8 e 3,7 milh\u00f5es de hectares em 2011. Por outro lado, vemos um aumento vertiginoso da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os (particularmente milho e soja) e cana-de-a\u00e7\u00facar. A soja partiu de 16,4 milh\u00f5es de hectares em 2002 para 22,7 milh\u00f5es de hectares em 2011, e a cana, neste mesmo per\u00edodo, de 5,2 milh\u00f5es de hectares para 11 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p>Se observarmos o <strong>uso de agrot\u00f3xicos<\/strong> por cultivo (valores referentes \u00e0s vendas de agrot\u00f3xicos), podemos verificar que em 2009 a soja ocupava o primeiro lugar com 47%, o milho em segundo lugar com 11,4% e a cana em terceiro lugar com 8,2%.<\/p>\n<p>Deve-se ressaltar ainda que, com a libera\u00e7\u00e3o das <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542370-transgenicos-enquanto-o-mundo-recusa-o-brasil-aprova-entrevista-especial-com-joao-dagoberto-dos-santos\" target=\"_blank\"><strong>sementes transg\u00eanicas OGMs<\/strong><\/a> (Organismos Geneticamente Modificados), que em boa parte dos casos trata-se de sementes tolerantes ao <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/545120-uso-de-glifosato-pode-causar-riscos-a-saude-indica-parecer-tecnico-de-pesquisadores-da-ufsc\" target=\"_blank\"><strong>Glifosato<\/strong><\/a> (o Ingrediente Ativo mais vendido no Brasil), vivenciamos um aumento muito significativo do uso de agrot\u00f3xicos. Em 2005 o consumo m\u00e9dio de agrot\u00f3xicos era da ordem de 5 kg\/hectare e, em 2011, passou a ser de 11 kg\/hectare. Ou seja, em menos de uma d\u00e9cada dobramos a quantidade de agrot\u00f3xicos utilizada no pa\u00eds.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cEstamos diante de dois modelos que &#8216;aparentemente&#8217; dizem respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos:\u00a0um deles em que realmente se trata de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, e outro em que se trata da produ\u00e7\u00e3o de commodities e energia\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel desenvolver uma agricultura sem o uso de agrot\u00f3xicos? Quais as vantagens e desvantagens desse tipo de agricultura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Larissa Mies Bombardi &#8211;<\/strong> Sim, \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel desenvolver agricultura sem o uso de agrot\u00f3xicos, afinal, a humanidade chegou at\u00e9 os anos 50 do s\u00e9culo passado sem este tipo de uso. A justificativa para o uso massivo de <strong>agrot\u00f3xicos<\/strong> na agricultura, desde o final da <strong>II Guerra Mundial<\/strong>, tem sido de que esta \u00e9 a resposta para o problema da fome no mundo: a produtividade resolver\u00e1 a fome. Entretanto, passado mais de meio s\u00e9culo, um ter\u00e7o da humanidade permanece na mis\u00e9ria, muito embora a <strong>produ\u00e7\u00e3o de alimentos<\/strong> tenha aumentado exponencialmente. O problema da fome \u00e9 uma quest\u00e3o de <strong>acesso \u00e0 terra<\/strong> e <strong>distribui\u00e7\u00e3o de renda<\/strong>, como j\u00e1 apontara<strong> Josu\u00e9 de Castro<\/strong> na d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo passado. O que est\u00e1 em quest\u00e3o, portanto, \u00e9 aquilo em que o alimento se tornou. O alimento tem se tornado uma mercadoria como outra qualquer para ser comercializada nas Bolsas de Mercadorias e Futuros e, tamb\u00e9m, tem se transformado em energia.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/543721-a-agroecologia-como-modelo-ideal-de-producao-de-alimentos\" target=\"_blank\"><strong>agricultura agroecol\u00f3gica<\/strong><\/a>, por exemplo, pode ser t\u00e3o ou mais produtiva que a agricultura convencional. Entretanto, esta demanda bastante trabalho humano, em virtude de um manejo frequente que est\u00e1 relacionado \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o dos cultivos aos aspectos da natureza, entre outros fatores, al\u00e9m de envolver o bem-estar dos camponeses que a praticam. O fato de este tipo de agricultura demandar intenso <strong>trabalho humano<\/strong> torna-a invi\u00e1vel do ponto de vista de um empreendimento capitalista, ou seja, aquele que se mant\u00e9m atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado.<\/p>\n<p>Assim, estamos diante de dois modelos que \u201caparentemente\u201d dizem respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos: um deles em que realmente se trata de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, e outro em que se trata da produ\u00e7\u00e3o de commodities e energia.<\/p>\n<p><em>Por Patricia Fachin<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <strong>IHU On-Line<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico: \u201cOs n\u00fameros s\u00e3o suficientemente alarmantes\u201d \u201cEm 2005 o consumo m\u00e9dio de agrot\u00f3xicos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico: \u201cOs n\u00fameros s\u00e3o suficientemente alarmantes\u201d \u201cEm 2005 o consumo m\u00e9dio de agrot\u00f3xicos","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28768"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28768\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}