{"id":28509,"date":"2015-09-21T12:00:10","date_gmt":"2015-09-21T15:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=28509"},"modified":"2015-09-20T20:48:58","modified_gmt":"2015-09-20T23:48:58","slug":"descoberta-abre-o-debate-sobre-o-que-diferenciou-humanos-de-primatas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/descoberta-abre-o-debate-sobre-o-que-diferenciou-humanos-de-primatas\/","title":{"rendered":"Descoberta abre o debate sobre o que diferenciou  humanos de primatas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-28511\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A descoberta na \u00c1frica do Sul de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/09\/09\/ciencia\/1441800892_046663.html\">uma nova esp\u00e9cie de homin\u00eddeo, o<\/a> <em>Homo naledi<\/em>, que mostra caracter\u00edsticas muito primitivas (as m\u00e3os, o tamanho do c\u00e9rebro), mas tamb\u00e9m muito evolu\u00eddas (os dentes, os p\u00e9s), voltou a colocar sobre a mesa o debate em torno de uma quest\u00e3o crucial que parece uma obviedade, mas sobre a qual os cientistas debatem desde Darwin sem encontrar uma resposta \u00fanica: o que nos transforma em humanos? O que nos diferencia dos outros primatas? \u201cAs caracter\u00edsticas mescladas desses restos pr\u00e9-hist\u00f3ricos representam um desafio para a teoria mais aceita sobre a origem de nossa esp\u00e9cie, segundo a qual o bipedismo foi a causa do desenvolvimento da tecnologia, a mudan\u00e7a de dieta e uma intelig\u00eancia maior\u201d, <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2015\/09\/15\/opinion\/who-apes-whom.html?_r=0\">escreveu essa semana no <em>The New York Times<\/em><\/a>\u00a0o c\u00e9lebre primatologista Frans de Waal, da Universidade Emory de Atlanta.<\/p>\n<p>Bill Gates fez a pergunta <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/BillGates\/videos\/10152939711226961\/\">\u201cO que nos transforma em humanos?\u201d em sua p\u00e1gina do Facebook<\/a> e recebeu 1.500 respostas, a grande maioria delas diferente. O que parece \u00f3bvio, que os seres humanos s\u00e3o diferentes das outras esp\u00e9cies, nunca encontrou uma resposta un\u00e2nime e novas d\u00favidas aparecem \u00e0 medida que novos f\u00f3sseis s\u00e3o descobertos. O neurocientista franc\u00eas Thierry Chaminade, especialista na evolu\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro humano, explica que a \u201cevid\u00eancia fenomenol\u00f3gica\u201d se imp\u00f5e \u201cj\u00e1 que a observa\u00e7\u00e3o de nossa cultura e nossa hist\u00f3ria nos leva necessariamente \u00e0 conclus\u00e3o de que, ainda que continuemos sendo um animal, somos diferentes do resto\u201d. Essa resposta, entretanto, deixa aberta a pergunta fundamental: certo, somos diferentes, mas por que?<\/p>\n<p>Chaminade acredita que o homem \u00e9 \u201co resultado de um salto evolutivo que lhe deu vantagens psicol\u00f3gicas \u2013 capacidade de aprender e transmitir o conhecimento atrav\u00e9s da cultura \u2013 que explica o fato de sermos \u00fanicos\u201d. Uma <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/earth\/bespoke\/story\/20150311-the-15-tweaks-that-made-us-human\/index.html\">reportagem recente da rede de televis\u00e3o brit\u00e2nica BBC<\/a> tra\u00e7a uma lista de 15 muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas desde que come\u00e7amos a nos separar dos macacos h\u00e1 sete milh\u00f5es de anos, como o gene RNF213, que aumenta o tamanho da car\u00f3tida que leva sangue ao c\u00e9rebro; o FOXP2, que permite a linguagem completa; o AMY1, que produz uma enzima na saliva que permite digerir o amido (e, portanto, permite a agricultura em torno da qual foram criadas as sociedades nas quais vivemos agora).<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe um fator \u00fanico que nos transforma em humanos\u201d, afirma de Harvard o paleont\u00f3logo Daniel Lieberman, diretor do Departamento de Biologia Evolutiva da universidade norte-americana, uma opini\u00e3o que reflete a teoria aceita pela maioria dos especialistas: n\u00e3o existiu uma varinha m\u00e1gica que nos transformou no que somos; foi na verdade uma s\u00e9rie de golpes de sorte evolutivos. \u201cMuitos fatores que foram mudando ao longo da evolu\u00e7\u00e3o humana nos ajudaram a sermos humanos: ser b\u00edpedes, ter um c\u00e9rebro maior, construir e utilizar ferramentas, a linguagem, a cultura, elevados n\u00edveis de coopera\u00e7\u00e3o, a capacidade de nos movimentar por longas dist\u00e2ncias\u201d, prossegue.<\/p>\n<p>Uma a uma, a maioria dessas qualidades pode ser encontrada, ainda que em vers\u00f5es mais simples, em outras esp\u00e9cies (e n\u00e3o somente de primatas); o conjunto delas, n\u00e3o. De fato, ao longo da hist\u00f3ria da paleontologia muitas certezas foram mudando, n\u00e3o somente por conta da descoberta de f\u00f3sseis, como tamb\u00e9m por avan\u00e7os no estudo do comportamento dos s\u00edmios. Raymond Dart, autor da primeira <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/12\/03\/ciencia\/1417621678_095833.html\">teoria de que o homem vinha da \u00c1frica<\/a>, acreditava que era a viol\u00eancia a nos fazer humanos. Stanley Kubrick estampou essa teoria em uma das cenas mais famosas de 2001: <em>Uma Odisseia no Espa\u00e7o<\/em>. Estudos mostram, entretanto, que os chimpanz\u00e9s fazem algo muito parecido com nossa guerra.<\/p>\n<p>Os primeiros homin\u00eddeos sobre os quais existe a certeza de que caminharam erguidos foram os Australopitecos, que viveram h\u00e1 quatro milh\u00f5es de anos na \u00c1frica. Fazem parte de nosso tronco, mas est\u00e3o muito distantes de n\u00f3s. Eles, por sua vez, evolu\u00edram ao <em>Homo habilis<\/em> (por volta de 1,8 milh\u00e3o de anos), o primeiro primata da esp\u00e9cie Homo que acabaria se transformando no <em>Homo sapiens<\/em> (200.000 anos), n\u00f3s. Josep Call, primatologista da Universidade de St. Andrews e diretor do Wolfgang K\u00f6hler Primate Research Center do Instituto Max Planck, na Alemanha, explica que Louis Leakey, um dos pais da paleoantropologia e o descobridor dos primeiros f\u00f3sseis de <em>Homo habilis<\/em> na Tanz\u00e2nia, \u201ccriou o g\u00eanero Homo para indicar que era um homin\u00eddeo que utilizava instrumentos, mas \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o que oscila porque os chimpanz\u00e9s tamb\u00e9m utilizam instrumentos\u201d. Ainda que o pr\u00f3prio Call lance o contra-argumento: \u201c\u00c9 verdade que utilizam pedras para descascar nozes, mas n\u00e3o as modificam, n\u00e3o t\u00eam ind\u00fastria l\u00edtica\u201d. Mas a diferen\u00e7a est\u00e1 na nuance, no fato em si.<\/p>\n<p>O professor da Universidade de Jerusal\u00e9m Yuval Noah Harari, autor do livro sobra a evolu\u00e7\u00e3o humana <em>De Animais a Deuses<\/em>, que se transformou em um <em>best-seller<\/em> internacional pela simplicidade e brilhantismo com os quais enfrenta a pergunta de quem somos n\u00f3s, busca a resposta fora de nosso pr\u00f3prio corpo: \u201c\u00c9 \u00f3bvio que possu\u00edmos peculiaridades, al\u00e9m da linguagem, como a empatia, a crueldade e a viol\u00eancia extrema, mas as compartilhamos com outras esp\u00e9cies\u201d, explica Harari por e-mail. \u201cOs seres humanos somos especiais em nossa habilidade \u00fanica para cooperar de maneira flex\u00edvel em grandes n\u00fameros. Muitas outras esp\u00e9cies, das abelhas aos chimpanz\u00e9s, cooperam; mas somente os membros da esp\u00e9cie Homo cooperam de maneira flex\u00edvel com um n\u00famero indefinido de estranhos\u201d.<\/p>\n<p>Para outros pensadores e divulgadores como Bill Bryson a evid\u00eancia de que, ap\u00f3s <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/04\/21\/sociedad\/1398104706_813193.html\">v\u00e1rias levas de homin\u00eddeos que sa\u00edram da \u00c1frica<\/a>, somente os Homo sapiens colonizaram territ\u00f3rios viajando por mar aberto (como a Austr\u00e1lia) transforma a sede de aventura e explora\u00e7\u00e3o em nossa caracter\u00edstica definidora. O famoso \u201cporque estava l\u00e1\u201d de Mallory para explicar sua primeira subida ao Everest seria a chave de nossa esp\u00e9cie. Harari segue um caminho semelhante, tamb\u00e9m intang\u00edvel. \u201cO que faz com que os Sapiens cooperem dessa maneira? Nossa imagina\u00e7\u00e3o. Podemos cooperar com estranhos porque podemos inventar hist\u00f3rias sobre coisas que existem somente em nossa imagina\u00e7\u00e3o \u2013 deuses, na\u00e7\u00f5es, dinheiro \u2013 e lev\u00e1-las a milh\u00f5es de pessoas. Nenhum chimpanz\u00e9 acreditaria em um c\u00e9u cheio de bananas por toda a eternidade. Somente n\u00f3s podemos acreditar em algo assim. E por isso dominamos o mundo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quando n\u00e3o est\u00e1vamos sozinhos<\/strong><\/p>\n<p>O fato do Homo sapiens ser o \u00fanico Homo sobre a Terra \u00e9 bastante extraordin\u00e1rio porque \u00e9 assim h\u00e1 pouqu\u00edssimo tempo. At\u00e9 12.000 anos atr\u00e1s (nada em termos evolutivos) viveu o Homem das Flores, um homin\u00eddeo muito pequeno (um metro) que ficou isolado em uma ilha da Indon\u00e9sia e que alguns cientistas consideram uma esp\u00e9cie. Mas houve um longo per\u00edodo (dezenas de milhares de anos) durante o qual o Homo sapiens dividiu n\u00e3o s\u00f3 o planeta, mas os mesmos territ\u00f3rios nos quais vivia com os neandertais (que se extinguiram por volta de 30.000 anos atr\u00e1s por motivos ainda discutidos), o Homo erectus (que se extinguiu h\u00e1 50.000 anos ap\u00f3s passar 1,7 milh\u00f5es de anos sobre a Terra) e os denisovanos (descobertos h\u00e1 pouco tempo na Sib\u00e9ria, dos quais foram encontrados escassos f\u00f3sseis, ainda que se saiba que seu genoma est\u00e1 presente, por exemplo, nos abor\u00edgenes australianos. Um dos filmes mais famosos sobre a pr\u00e9-hist\u00f3ria, A Guerra do Fogo, para o qual o grande escritor Antony Burguess inventou as l\u00ednguas e o primatologista Desmond Morris, autor de O Macaco Nu, a comunica\u00e7\u00e3o gestual, fala precisamente sobre esse momento, quando o homem n\u00e3o estava sozinho.<\/p>\n<p>Antonio Rosas, autor do livro Primeiros Homin\u00eddeos, diretor de paleoantropologia do Museu Nacional de Ci\u00eancias Naturais e especialista em neandertais, afirma sobre essa conviv\u00eancia (que acabou com o desaparecimento de todas as demais esp\u00e9cies com exce\u00e7\u00e3o da nossa): \u201cNos faz menos \u00fanicos, sem d\u00favida. Cop\u00e9rnico nos retirou do centro do universo e a paleoantropologia nos coloca no contexto de que no planeta existiram diferentes humanidades. Precisamos relativizar e aprender a pensar o que significa ser humano porque existem vari\u00e1veis. \u00c9 um caminho que ainda precisamos explorar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A descoberta na \u00c1frica do Sul de uma nova esp\u00e9cie de homin\u00eddeo, o Homo naledi,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":28511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/humanos_primatas.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A descoberta na \u00c1frica do Sul de uma nova esp\u00e9cie de homin\u00eddeo, o Homo naledi,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28509"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28509"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28509\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}