{"id":28020,"date":"2015-09-12T14:59:05","date_gmt":"2015-09-12T17:59:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=28020"},"modified":"2015-09-12T14:59:05","modified_gmt":"2015-09-12T17:59:05","slug":"com-cerrado-extinto-agua-no-brasil-secara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/com-cerrado-extinto-agua-no-brasil-secara\/","title":{"rendered":"Com Cerrado extinto \u00e1gua no Brasil secar\u00e1"},"content":{"rendered":"<h4>Professor Altair Sales da PUC de Goi\u00e1s, uma das maiores autoridades sobre o tema, diz que destrui\u00e7\u00e3o do bioma \u00e9 irrevers\u00edvel e que isso compromete o abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel em todo o Pa\u00eds<\/h4>\n<p><a class=\"cboxElement\" href=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Entrevista-1.jpg\" rel=\"lightbox[5057]\" data-rel=\"lightbox-gallery-VG2q\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-5061 size-full\" src=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Entrevista-1.jpg?resize=620%2C393\" alt=\"Foto: Fernando Leite\/Jornal Op\u00e7\u00e3o\" width=\"620\" height=\"393\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cO Cerrado est\u00e1 extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservat\u00f3rios de \u00e1gua\u201d, \u00e9 o t\u00edtulo da entrevista com o cientista e pesquisador Altair Sales Barbosa concedida ao jornalista Elder Dias, publicada pelo Jornal Op\u00e7\u00e3o e aponta para a origem da crise da \u00e1gua no Brasil.<\/p>\n<p>Uma ilha ambiental em meio \u00e0 metr\u00f3pole est\u00e1 no Campus 2 da Pon\u00adtif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Goi\u00e1s (PUC Goi\u00e1s). \u00c9 l\u00e1 o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto tur\u00edstico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goi\u00e2nia e um dos projetos do Instituto do Tr\u00f3pico Sub\u00famido (ITS), dirigido pelo professor.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Op\u00e7\u00e3o. Como professor e pesquisador, tem gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia pela Universidade Cat\u00f3lica do Chile e doutorado em Arqueologia Pr\u00e9-hist\u00f3rica pelo Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem viv\u00eancia do conhecimento que conduz.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente pela for\u00e7a da ci\u00eancia que ele d\u00e1 a not\u00edcia que n\u00e3o queria: na pr\u00e1tica o Cerrado j\u00e1 est\u00e1 extinto como bioma. E, como reza o dito popular, not\u00edcia ruim n\u00e3o vem sozinha, antes de recuperar o f\u00f4lego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que j\u00e1 n\u00e3o existe, outra afirma\u00e7\u00e3o produz perplexidade: a devasta\u00e7\u00e3o do Cer\u00adrado vai produzir tamb\u00e9m o desaparecimento dos reservat\u00f3rios de \u00e1gua, localizados no Cerrado, o que j\u00e1 vem ocorrendo \u2014 a crise de a\u00adbastecimento em S\u00e3o Paulo foi s\u00f3 o in\u00edcio do problema. Os sinais dos tempos indicam j\u00e1 o come\u00e7o do per\u00edodo sombrio: \u201cEnquanto se es\u00adt\u00e1 na fartura, voc\u00ea \u00e9 capaz de re\u00adpartir um copo d\u2019\u00e1gua com o ir\u00adm\u00e3o; mas, no dia da pen\u00faria, ningu\u00e9m repartir\u00e1\u201d, sentencia o professor.<\/p>\n<p><strong>\u201cMemorial do Cerrado\u201d \u2013 o nome deste espa\u00e7o de preserva\u00e7\u00e3o criado pelo Sr. aqui no Campus 2 da PUC Goi\u00e1s, \u00e9 uma express\u00e3o pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, \u00e9 algo quase que tristemente prof\u00e9tico. O Cerrado est\u00e1 mesmo em vias de extin\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nPara entender isso \u00e9 preciso primeiramente entender o que \u00e9 o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado \u00e9 o mais antigo. A hist\u00f3ria recente da Terra come\u00e7ou h\u00e1 70 milh\u00f5es de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de ent\u00e3o, o planeta come\u00e7ou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegeta\u00e7\u00e3o, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por\u00adtanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da hist\u00f3ria recente do planeta, principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o as forma\u00e7\u00f5es vegetais. No m\u00ednimo, o Cerrado come\u00e7ou h\u00e1 65 milh\u00f5es de anos e se concretizou h\u00e1 40 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 um tipo de am\u00adbiente em que v\u00e1rios elementos vi\u00advem intimamente interligados uns aos outros. A vegeta\u00e7\u00e3o depende do solo, que \u00e9 oligotr\u00f3fico [com n\u00edvel muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que \u00e9 o tropical sub\u00famido com duas esta\u00e7\u00f5es, uma seca e outra chuvosa. V\u00e1rios outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na forma\u00e7\u00e3o do bioma \u2013 o fogo \u00e9 um elemento extremamente importante porque \u00e9 ele que quebra a dorm\u00eancia da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 um ambiente que de\u00adpen\u00adde de v\u00e1rios elementos. Isso significa que j\u00e1 chegou em seu cl\u00edmax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado n\u00e3o vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso \u00e9 que falamos que o Cerrado \u00e9 uma matriz ambiental que j\u00e1 se encontra em vias de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por que o Sr. \u00e9 t\u00e3o taxativo?<\/strong><br \/>\nUma comunidade vegetal \u00e9 medida n\u00e3o por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e popula\u00e7\u00f5es de plantas. E j\u00e1 n\u00e3o se encontram mais popula\u00e7\u00f5es de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra esp\u00e9cie isolada, mas encontrar essas popula\u00e7\u00f5es \u00e9 algo praticamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupa\u00e7\u00e3o intensiva. Retiraram a gram\u00ednea nativa para a implanta\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas, vindas da \u00c1frica e da Austr\u00e1lia. A introdu\u00e7\u00e3o dessas gram\u00edneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, j\u00e1 modificado, a maioria das plantas n\u00e3o conseguir\u00e1 brotar mais.<\/p>\n<p><a class=\"cboxElement\" title=\"Pasto de brachiaria no Brasil\" href=\"http:\/\/i0.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Pasto-de-Brachiaria-no-Brasil.jpg\" rel=\"lightbox[5057]\" data-rel=\"lightbox-gallery-VG2q\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-7468\" src=\"http:\/\/i0.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Pasto-de-Brachiaria-no-Brasil.jpg?resize=720%2C320\" alt=\"Pasto de brachiaria no brasil\" width=\"639\" height=\"284\" \/><\/a><\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse tudo isso, o Cerrado foi inclu\u00eddo na pol\u00edtica de ex\u00adpans\u00e3o econ\u00f4mica brasileira co\u00admo fronteira de expans\u00e3o. \u00c9 uma \u00e1\u00adrea f\u00e1cil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modifica\u00e7\u00f5es geomorfol\u00f3gicas e com esta\u00e7\u00f5es bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje h\u00e1 para corre\u00e7\u00e3o do solo. \u00c9 poss\u00edvel tirar a acidez do solo utilizando o calc\u00e1rio; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os len\u00e7\u00f3is subterr\u00e2neos e, sem a vegeta\u00e7\u00e3o nativa, a \u00e1gua n\u00e3o pode mais infiltrar na terra.<\/p>\n<p><strong>Onde h\u00e1 pastagens e cultivo, ent\u00e3o, o Cerrado est\u00e1 inviabilizado para sempre, \u00e9 isso?<\/strong><br \/>\nOnde houve modifica\u00e7\u00e3o do solo a vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado n\u00e3o brota mais. O solo do Cerrado \u00e9 oligotr\u00f3fico, carente de nutrientes b\u00e1sicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso \u00e9 bom para outros tipos de planta, mas n\u00e3o para as do Cerrado. Por causa disso, n\u00e3o h\u00e1 mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegeta\u00e7\u00e3o e de solo.<\/p>\n<p>Mas o mais importante de tudo isso \u00e9 que as \u00e1guas que brotam do Cerrado s\u00e3o as mesmas \u00e1guas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. \u00c9 daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aqu\u00edferos. Um aqu\u00edfero tem sua \u00e1rea de recarga e sua \u00e1rea de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de \u00e1rea de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a \u00e1gua das chuvas, que \u00e9 absorvida pela vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado. Essa vegeta\u00e7\u00e3o tem plantas que ficam com um ter\u00e7o de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois ter\u00e7os no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de ra\u00edzes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a \u00e1gua e alimenta o len\u00e7ol fre\u00e1tico, que vai alimentar o len\u00e7ol artesiano, que s\u00e3o os aqu\u00edferos.<\/p>\n<p>Quando se retira a vegeta\u00e7\u00e3o na\u00adtiva dos chapad\u00f5es, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegeta\u00e7\u00e3o introduzida \u2013 por exemplo, a soja ou o al\u00adgo\u00add\u00e3o ou qualquer outro tipo de cul\u00adtura para a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os \u2013 tem uma raiz extremamente superficial. Ent\u00e3o, quando as chuvas caem, a \u00e1gua n\u00e3o infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o n\u00edvel dos len\u00e7\u00f3is vai diminuindo, afetando o n\u00edvel dos aqu\u00edferos, que fica menor a cada ano.<\/p>\n<p><a class=\"cboxElement\" title=\"Fruto do buriti\" href=\"http:\/\/i2.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Buriti_frutos.jpg\" rel=\"lightbox[5057]\" data-rel=\"lightbox-gallery-VG2q\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-7469\" src=\"http:\/\/i2.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Buriti_frutos.jpg?resize=720%2C503\" alt=\"Fruto do buriti\" width=\"640\" height=\"447\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>As plantas do Cerrado s\u00e3o de crescimento muito lento. Quando Pedro \u00c1lvares Cabral chegou ao Brasil, os buritis que vemos hoje estavam nascendo. Eles demoram 500 anos para ter de 25 a 30 metros. Tamb\u00e9m por isso, o dano ao bioma \u00e9 irrevers\u00edvel.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Qual \u00e9 a consequ\u00eancia imediata desse quadro?<\/strong><br \/>\nEm m\u00e9dia, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos s\u00e3o alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, tamb\u00e9m t\u00eam sua vaz\u00e3o diminu\u00edda e n\u00e3o alimentam reservat\u00f3rios e outros rios, de que s\u00e3o afluentes. Assim, o rio que forma a bacia tamb\u00e9m v\u00ea seu volume diminuindo, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as \u00e1guas v\u00e3o desaparecendo da \u00e1rea do Cerrado. A \u00e1gua, ent\u00e3o, \u00e9 outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.<\/p>\n<p>Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque h\u00e1 uma pequena reserva nos aqu\u00edferos. Mas, daqui a cinco anos, n\u00e3o haver\u00e1 mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupa\u00e7\u00e3o desenfreada que o agroneg\u00f3cio imp\u00f4s ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas \u00e1reas de recarga dos aqu\u00edferos e, quando v\u00eam as chuvas, as \u00e1guas n\u00e3o conseguem infiltrar como antes e, como consequ\u00eancia, o n\u00edvel desses aqu\u00edferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, n\u00e3o muito distante, em que n\u00e3o haver\u00e1 mais \u00e1gua para alimentar os rios. Ent\u00e3o, esses rios v\u00e3o desaparecer.<\/p>\n<p>Por isso, falamos que o Cerrado \u00e9 um ambiente em extin\u00e7\u00e3o: n\u00e3o existem mais comunidades vegetais de formas intactas; n\u00e3o existem mais comunidades de animais \u2013 grande parte da fauna j\u00e1 foi extinta ou est\u00e1 em processo de extin\u00e7\u00e3o; os insetos e animais polinizadores j\u00e1 foram, na maioria, extintos tamb\u00e9m; por consequ\u00eancia, as plantas n\u00e3o d\u00e3o mais frutos por n\u00e3o serem polinizadas, o que as leva \u00e0 extin\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Por fim, a \u00e1gua, fator primordial para o equil\u00edbrio de todo esse ecossistema, est\u00e1 em menor quantidade a cada ano.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o desses aqu\u00edferos atualmente?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas grandes aqu\u00edferos na regi\u00e3o do Cerrado: o Bambu\u00ed, que se formou de 1 bilh\u00e3o de anos a 800 milh\u00f5es de anos antes do momento presente; os outros dois s\u00e3o divis\u00f5es do Aqu\u00edfero Guarani, que est\u00e1 associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que come\u00e7ou a se formar h\u00e1 70 milh\u00f5es de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paran\u00e1: a maior parte dos rios de S\u00e3o Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul \u2013 incluindo o Pantanal Mato-Grossense \u2013 e grande parte dos rios de Goi\u00e1s que correm para o Parana\u00edba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aqu\u00edfero Guarani, que j\u00e1 chegou em seu n\u00edvel de base e est\u00e1 alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paran\u00e1 diminuem sua vaz\u00e3o a cada ano que passa.<\/p>\n<p><a class=\"cboxElement\" title=\"Governo paulista diz que 1\u00aa reserva do Cantareira pode zerar em 57 dias\" href=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Governo-paulista-diz-que-1%C2%AA-reserva-do-Cantareira-pode-zerar-em-57-dias-Fotos-P%C3%BAblicas.jpg\" rel=\"lightbox[5057]\" data-rel=\"lightbox-gallery-VG2q\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-7470\" src=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Governo-paulista-diz-que-1%C2%AA-reserva-do-Cantareira-pode-zerar-em-57-dias-Fotos-P%C3%BAblicas.jpg?resize=720%2C515\" alt=\"Governo paulista diz que 1\u00aa reserva do cantareira pode zerar em 57 dias fotos p\u00fablicas\" width=\"640\" height=\"458\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, podemos ter nisso a explica\u00e7\u00e3o para a crise da \u00e1gua em S\u00e3o Paulo?<\/strong><br \/>\nExato. Como medida de urg\u00eancia, j\u00e1 est\u00e3o perfurando o Arenito Bauru \u2013 que \u00e9 mais profundo que o Botucatu, j\u00e1 insuficiente \u2013, tentando retirar pequenas reservas de \u00e1gua para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para que os rios juntem \u00e1gua suficiente para esse reservat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Assim como ocorre no Can\u00adtareira, outros reservat\u00f3rios espalhados pela regi\u00e3o do Cerrado \u2013 Sobradinho, Serra da Mesa e outros \u2013 v\u00e3o passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimenta\u00e7\u00e3o no fundo do lago de um reservat\u00f3rio \u00e9 um processo lento. Os sedimentos v\u00e3o formando argila, que \u00e9 uma rocha imperme\u00e1vel. Ent\u00e3o, a \u00e1gua daquele lago n\u00e3o vai alimentar os aqu\u00edferos. Mesmo tendo muita quantidade de \u00e1gua superficial, ela n\u00e3o consegue penetrar no solo para alimentar os aqu\u00edferos. Se n\u00e3o for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes a\u00e9reas. Isso \u00e9 outro motivo pelo qual os aqu\u00edferos n\u00e3o conseguem recuperar seu n\u00edvel, porque n\u00e3o recebem \u00e1gua.<\/p>\n<p>Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geol\u00f3gica, de milh\u00f5es de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropiza\u00e7\u00e3o [a\u00e7\u00e3o humana no ambiente] multiplicou em muit\u00edssimas vezes esse processo de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sim. At\u00e9 meados dos anos 1950, t\u00ednhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde ent\u00e3o, com a implanta\u00e7\u00e3o de infraestrutura vi\u00e1ria b\u00e1sica, com a constru\u00e7\u00e3o de grandes cidades, como Bras\u00edlia, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroind\u00fastria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, a\u00ed come\u00e7a o processo de finaliza\u00e7\u00e3o desse bioma. Ou seja, o homem sendo respons\u00e1vel pelo fim desse ambiente que \u00e9 precioso para a hist\u00f3ria do planeta Terra.<\/p>\n<p><strong>Em que o Cerrado \u00e9 t\u00e3o precioso?<\/strong><br \/>\nDe todas as formas de vegeta\u00e7\u00e3o que existem, o Cerrado \u00e9 a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do g\u00e1s carb\u00f4nico que est\u00e1 no ar, porque seu solo \u00e9 oligotr\u00f3fico.<\/p>\n<p>Diz-se que o Cerrado \u00e9 o contr\u00e1rio da Amaz\u00f4nia: uma floresta invertida, em confirma\u00e7\u00e3o \u00e0 defini\u00e7\u00e3o que o Sr. deu sobre o fato de dois ter\u00e7os de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destrui\u00e7\u00e3o do Cerrado \u00e9 muito mais s\u00e9ria do que alcan\u00e7a a nossa vis\u00e3o com o avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola. \u00c9 uma devasta\u00e7\u00e3o muito maior, porque tamb\u00e9m ocorre longe dos olhos, subterr\u00e2nea.<\/p>\n<p>Isso faz sentido, porque, na parte subterr\u00e2nea, al\u00e9m do sequestro de carbono est\u00e1 armazenada a \u00e1gua, sem a qual n\u00e3o prospera nenhuma atividade econ\u00f4mica. A Amaz\u00f4nia terminou de ser formada h\u00e1 apenas 3 mil anos, um processo que come\u00e7ou h\u00e1 11 mil anos, com o fim da glacia\u00e7\u00e3o no Hemisf\u00e9rio Norte. A configura\u00e7\u00e3o que tem hoje existe na plenitude s\u00f3 h\u00e1 3 mil anos. A Mata Atl\u00e2ntica tem 7 mil anos. S\u00e3o ambientes que, se degradados, \u00e9 poss\u00edvel recuper\u00e1-los, porque s\u00e3o novos, est\u00e3o em forma\u00e7\u00e3o ainda.<\/p>\n<p>J\u00e1 com o Cerrado isso \u00e9 imposs\u00edvel, porque suas \u00e1rvores j\u00e1 atingiram alto grau de especializa\u00e7\u00e3o. Tanto que o processo de quebra da dorm\u00eancia de determinadas sementes s\u00e3o extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, s\u00f3 pode ter sua dorm\u00eancia quebrada no intestino delgado de um can\u00eddeo nativo do Cerrado \u2013 um lobo guar\u00e1, uma raposa. Como esses animais est\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o, fica cada vez mais dif\u00edcil quebrar a dorm\u00eancia de um araticum, que \u00e9 uma anon\u00e1cea [fam\u00edlia de plantas que inclui tamb\u00e9m a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].<\/p>\n<p>As abelhas europeias e africanas s\u00e3o recentes, foram introduzidas no s\u00e9culo passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na d\u00e9cada de 1950, ainda \u00e9 vivo e atua na Universidade Federal de Uber\u00adl\u00e2ndia (UFU). S\u00e3o boas produtoras de mel, mas n\u00e3o est\u00e3o adaptadas para fazer a poliniza\u00e7\u00e3o das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que n\u00e3o tem ferr\u00e3o e s\u00e3o chamadas de meliponinas \u2013 jata\u00ed, manda\u00e7aia, uru\u00e7u \u2013 eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em fun\u00e7\u00e3o de sua anatomia. Hoje est\u00e3o praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegeta\u00e7\u00f5es ex\u00f3ticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas tamb\u00e9m se mata o inseto nativo, que \u00e9 polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por n\u00e3o terem sido polinizadas.<\/p>\n<p><strong>A flora do Cerrado \u00e9 geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s vivemos em meio \u00e0 mais diversificada flora do planeta. O Cerrado cont\u00e9m a maior biodiversidade flor\u00edstica. Isso n\u00e3o est\u00e1 na Amaz\u00f4nia, nem na Mata Atl\u00e2ntica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. S\u00e3o 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. S\u00f3 as que conhecemos. A cada expedi\u00e7\u00e3o que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas esp\u00e9cies s\u00e3o descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso \u00e9 cerca de 1,5% do total, quase nada em rela\u00e7\u00e3o a esse universo. E s\u00f3 conseguimos fazer mudas de plantas arb\u00f3reas.<\/p>\n<p>Para as demais, que s\u00e3o extremamente importantes para o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico, para o sequestro de carbono e para a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, n\u00e3o temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois \u00faltimos com ra\u00edzes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que est\u00e1 no m\u00e1ximo 40 cent\u00edmetros acima do n\u00edvel do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou at\u00e9 milh\u00f5es de ra\u00edzes grudados naquele tronco. Se tirarmos um peda\u00e7o pequeno dessas ra\u00edzes e levarmos ao microsc\u00f3pio, veremos centenas de rad\u00edculas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que ret\u00e9m a \u00e1gua e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. \u00c9 algo que n\u00e3o se consegue reproduzir em viveiro, porque n\u00e3o h\u00e1 tecnologia. O que conseguimos \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a algumas plantas arb\u00f3reas.<\/p>\n<p>Outro aspecto que indica que o Cerrado j\u00e1 entrou em vias de extin\u00e7\u00e3o \u00e9 que as plantas do Cerrado s\u00e3o de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas \u2013 que existiam em abund\u00e2ncia at\u00e9 pouco tempo \u2013 eram compostas de plantas \u201cnen\u00eas\u201d quando Pedro \u00c1lvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela \u00e9poca e sua planta mais comum, o buriti, est\u00e1 hoje com 25 metros, 30 metros.<\/p>\n<p><strong>\u201cTrag\u00e9dia urbana come\u00e7a com drama no campo\u201d<\/strong><\/p>\n<div id=\"slideshow-wrappergallery8294\" class=\"slideshow-wrapper\">\n<div id=\"fullsizegallery8294\" class=\"slideshow-fullsize\">\n<div id=\"imagegallery8294\" class=\"slideshow-image\"><img loading=\"lazy\" id=\"imagesgallery8294img2\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/IMG_4677.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" \/><\/div>\n<div id=\"informationgallery8294\" class=\"slideshow-information\">\n<h3 class=\"slideshow-info-heading\">Prof. Altair Sales [Foto: Fernando Leite]<\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Mas a tecnologia e a biotecnologia n\u00e3o fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?<\/strong><br \/>\nPara se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que s\u00f3 pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti n\u00e3o vai vingar ali. Mas, mesmo se consegu\u00edssemos plantar \u2013 o que \u00e9 dif\u00edcil, porque n\u00e3o existe mais o solo apropriado \u2013, aquele buriti s\u00f3 atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos s\u00e9culos. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem como tentar dizer que se pode usar t\u00e9cnicas para revitalizar o Cerrado. Isso \u00e9 praticamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, n\u00e3o \u00e9 amig\u00e1vel para o uso da tecnologia conhecida. N\u00e3o tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o d\u00e1 para fazer isso, at\u00e9 porque as plantas do Cerrado convivem com uma por\u00e7\u00e3o de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com esp\u00e9cies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria poss\u00edvel desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laborat\u00f3rio. Mas sem aquele fungo a planta n\u00e3o sobrevive. E com o fungo, mas em laborat\u00f3rio, ela tamb\u00e9m n\u00e3o se desenvolve. Ou seja, \u00e9 algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.<\/p>\n<p><strong>Mesmo que os mais pragm\u00e1ticos menosprezem a import\u00e2ncia de um determinado animal ou uma \u201cplantinha\u201d em rela\u00e7\u00e3o a uma obra portentosa, como uma hidrel\u00e9trica, h\u00e1 algo que est\u00e1 sob amea\u00e7a com o fim do Cerrado, como a \u00e1gua. Isso \u00e9 algo b\u00e1sico para todos. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que o Cerrado \u2013 assim como a caatinga e os pampas \u2013 n\u00e3o s\u00e3o ainda patrim\u00f4nio nacional, ao contr\u00e1rio da Mata Atl\u00e2ntica, o Pantanal e a Amaz\u00f4nia. H\u00e1 uma lei, a PEC 115\/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do ent\u00e3o deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia h\u00e1 quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?<\/strong><br \/>\nNa pr\u00e1tica, n\u00e3o poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado j\u00e1 foi. O bioma j\u00e1 chegou em seu limiar m\u00e1ximo de ocupa\u00e7\u00e3o. Mas o governo brasileiro \u00e9 t\u00e3o maquiav\u00e9lico e inteligente que, para evitar maiores discuss\u00f5es, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado \u2013 embora o primeiro seja um subsistema do segundo \u2013, transformou-o em patrim\u00f4nio nacional e a \u00e1rea do Cerrado j\u00e1 ocupada foi ignorada e inclu\u00edda no plano de desenvolvimento como \u00e1rea de expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, j\u00e1 foi contemplado para n\u00e3o ser protegido.<\/p>\n<p><strong>O que os parques nacionais poderiam agregar em uma pol\u00edtica de subsist\u00eancia do Cerrado?<\/strong><br \/>\nExiste um manejo inadequado dos parques existentes na regi\u00e3o do Cerrado. Esse manejo come\u00e7a com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar inc\u00eandios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural \u00e9 importante para a preserva\u00e7\u00e3o do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado \u00e9 preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a vis\u00e3o do agr\u00f4nomo, o fogo \u00e9 prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotr\u00f3fico, mas, se o fogo \u00e9 eliminado, as condi\u00e7\u00f5es do solo ser\u00e3o alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se d\u00e1 n\u00e3o com a no\u00e7\u00e3o de preserva\u00e7\u00e3o do ambiente, mas dentro da vis\u00e3o da agricultura. Raciocina-se como agr\u00f4nomo, n\u00e3o como bi\u00f3logo.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o nos parques \u00e9 que o entorno dos parques j\u00e1 foi tomado por vegeta\u00e7\u00f5es ex\u00f3ticas. Entre essas vegeta\u00e7\u00f5es existe o brachiaria, que \u00e9 uma gram\u00ednea extremamente invasora que, \u00e0 medida que espalha suas sementes, alcan\u00e7a at\u00e9 as \u00e1reas dos parques, tomando o lugar das gram\u00edneas nativas. No Parque Nacional das Emas j\u00e1 temos gram\u00ednea que n\u00e3o \u00e9 nativa, o que faz com que haja tamb\u00e9m vegeta\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea, de porte maior, tamb\u00e9m n\u00e3o nativa. Os animais, em fun\u00e7\u00e3o do isolamento do parque, n\u00e3o t\u00eam mais contato com \u00e1reas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles c\u00e1lcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que est\u00e1 sem calcifica\u00e7\u00e3o completa, porque falta esse elemento, que \u00e9 obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que s\u00e3o salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente h\u00e1 poucos barreiros nos parques, o que torna mais dif\u00edcil a sobreviv\u00eancia do animal, que acaba entrando em vias de extin\u00e7\u00e3o, o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegeta\u00e7\u00e3o nativa ou da fauna nativa. O que h\u00e1 \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o dos caracteres nativos daquela vegeta\u00e7\u00e3o, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento n\u00e3o trouxe benef\u00edcios. O que poderia funcionar seria se essas \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o estivessem interligadas por meio de corredores de migra\u00e7\u00e3o faun\u00edstica. Isso evitaria uma s\u00e9rie de erros cometidos quando se delimita uma \u00e1rea.<\/p>\n<p><strong>Mas, pelo que o Sr. diz, hoje isso seria imposs\u00edvel.<\/strong><br \/>\nPraticamente imposs\u00edvel, por\u00adque as matas ciliares, que de\u00adve\u00adriam servir como corredores ecol\u00f3gicos, de migra\u00e7\u00e3o, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presen\u00e7a do homem, que \u00e9 um elemento extremamente predat\u00f3rio. Mais que isso: os sistemas agr\u00edcolas implantados chegam, em alguns locais, at\u00e9 a margem de c\u00f3rregos e rios, impedindo, tamb\u00e9m, a exist\u00eancia desses corredores de migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fica, assim, um cen\u00e1rio praticamente invi\u00e1vel. \u00c9 triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados cient\u00edficos, no que observamos. Sou o amante n\u00famero um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milh\u00f5es e milh\u00f5es de anos ainda, mas infelizmente n\u00e3o \u00e9 isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, voc\u00ea observar as nascentes dos grandes rios, ver\u00e1 que elas ou est\u00e3o secando ou est\u00e3o migrando cada vez mais para \u00e1reas mais baixas. Quando isso ocorre, \u00e9 sinal de que o len\u00e7ol que abastece essa nascente est\u00e1 rebaixando.<\/p>\n<p>Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio S\u00e3o Francis\u00adco, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes v\u00e3o descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegar\u00e3o ao n\u00edvel de base do len\u00e7ol que as abastece e desaparecer\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ao mesmo tempo em que o\u00adcor\u00adre esse fen\u00f4meno, temos um au\u00admento r\u00e1pido do consumo de \u00e1gua.<\/strong><br \/>\nH\u00e1 o aumento da popula\u00e7\u00e3o. Mas, al\u00e9m do mais, o Cerrado entrou, nos \u00faltimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorializa\u00e7\u00e3o. O grande capital chegou \u00e0s \u00e1reas do Cerrado e expulsou os posseiros que l\u00e1 moravam, por meio da falsifica\u00e7\u00e3o de documentos, da negociata com cart\u00f3rios e com pol\u00edticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da regi\u00e3o. Isso desestruturou comunidades inteiras.<\/p>\n<p><strong>Isso ainda ocorre em Goi\u00e1s e em diversos lugares?<\/strong><br \/>\nOcorreu e est\u00e1 ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase n\u00e3o h\u00e1 mais cidadezinhas na regi\u00e3o do Cerrado, elas s\u00e3o de m\u00e9dio ou grande porte, porque a popula\u00e7\u00e3o do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas v\u00eam buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de servi\u00e7o. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as \u00e1reas mais perif\u00e9ricas da cidade. V\u00e3o ocupar plan\u00edcies de inunda\u00e7\u00e3o, beiras de c\u00f3rregos, entre outros ambientes desorganizados.<\/p>\n<p>Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, \u00e9 criado e compartilha dessa desorganiza\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorializa\u00e7\u00e3o trabalhamos contra a forma\u00e7\u00e3o de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. N\u00e3o existe plano diretor que d\u00ea conta de acompanhar o desenvolvimento das \u00e1reas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas fam\u00edlias nessas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo \u00e9 o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos il\u00edcitos, mas provocados por uma situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica de limita\u00e7\u00e3o, vivendo em ambientes prec\u00e1rios. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam fam\u00edlias e passam anos ou d\u00e9cadas nesses locais. S\u00f3 que um dia vem um fen\u00f4meno natural qualquer \u2013 como El Ni\u00f1o ou La Ni\u00f1a \u2013 que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Ent\u00e3o, o c\u00f3rrego enche e encontra, em sua \u00e1rea de inunda\u00e7\u00e3o, os barracos daquela popula\u00e7\u00e3o. A\u00ed come\u00e7a a trag\u00e9dia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual est\u00e3o inseridas essas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas espec\u00edficas para \u00f4nibus, corredores para bicicletas, mas ningu\u00e9m toca na ferida: o problema n\u00e3o est\u00e1 ali, mas na desestrutura\u00e7\u00e3o do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas v\u00eam para a cidade, que n\u00e3o consegue absorv\u00ea-las, por mais que se implantem linhas novas, esta\u00e7\u00f5es e biciclet\u00e1rios. O problema est\u00e1 no drama do campo, n\u00e3o na cidade.<\/p>\n<p><strong>Antigamente, se usava a express\u00e3o \u201cfixa\u00e7\u00e3o do homem no campo\u201d. Isso parece que ficou para tr\u00e1s na vis\u00e3o dos governos.<\/strong><br \/>\nDesistiram porque o que manda \u00e9 o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes propriet\u00e1rios, s\u00f3 que estes n\u00e3o t\u00eam grande quantidade de funcion\u00e1rios, t\u00eam uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso n\u00e3o ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.<\/p>\n<p><strong>Uma not\u00edcia grave \u00e9 a extin\u00e7\u00e3o do Cerrado. Outra, t\u00e3o ou mais grave, que \u2013 pelo que o sr. diz \u2013 j\u00e1 pode ser dada, \u00e9 que em pouco tempo n\u00e3o teremos mais \u00e1gua. A crise da \u00e1gua no Brasil \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio?<\/strong><br \/>\nA extin\u00e7\u00e3o do Cerrado envolve tamb\u00e9m a extin\u00e7\u00e3o dos grandes mananciais de \u00e1gua do Brasil, porque as grandes bacias hidrogr\u00e1ficas \u201cbrotam\u201d do Cerrado. O Rio S\u00e3o Francisco \u00e9 uma consequ\u00eancia do Cerrado: ele nasce em \u00e1rea de Cerrado e \u00e9 alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalap\u00e3o (TO) e corre para o S\u00e3o Francisco. Se h\u00e1 a degrada\u00e7\u00e3o do Cerrado, n\u00e3o h\u00e1 rios para alimentar o S\u00e3o Francisco. Voc\u00ea po\u00adde contar no m\u00ednimo dez afluentes por ano desses grandes rios que est\u00e3o desaparecendo.<\/p>\n<p><a class=\"cboxElement\" title=\"Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias do Jornal Op\u00e7\u00e3o: \u201cA prote\u00e7\u00e3o das \u00e1guas tinha de ser quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional\u201d\" href=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/IMG_4665-620x413.jpg\" rel=\"lightbox[5057]\" data-rel=\"lightbox-gallery-VG2q\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-5064\" src=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.revistaecologica.com\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/IMG_4665-620x413.jpg?resize=720%2C480\" alt=\"Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias do Jornal Op\u00e7\u00e3o: \u201cA prote\u00e7\u00e3o das \u00e1guas tinha de ser quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional\u201d\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Como o Sr. analisa a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um ato muito mais pol\u00edtico do que cient\u00edfico. Ela atende muito mais a interesses pol\u00edticos de grandes propriet\u00e1rios do Nordeste na \u00e1rea da Caatinga, no sert\u00e3o nordestino. A transposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quil\u00f4metros e outro, leste, com pouco mais de 600 quil\u00f4metros. A \u00e1gua \u00e9 sugada da barragem de Sobradinho (BA), atrav\u00e9s de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mec\u00e2nica do S\u00e3o Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque est\u00e1 tendo sua \u00e1gua sugada. Seus afluentes, ent\u00e3o, tamb\u00e9m passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de eros\u00e3o.<\/p>\n<p>Consequente\u00admente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposi\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco simplesmente \u00e9 estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem at\u00e9 atender interesses econ\u00f4micos e sociais de maneira ef\u00eamera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.<\/p>\n<p><strong>E ser\u00e1 um processo r\u00e1pido, assim?<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 um processo de d\u00e9cadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Ja\u00f3. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, h\u00e1 s\u00f3 um filete d\u2019\u00e1gua. O n\u00edvel da \u00e1gua do Meia Ponte \u00e9 o mesmo do C\u00f3rrego Botafogo h\u00e1 d\u00e9cadas atr\u00e1s. Este praticamente n\u00e3o existe mais, a n\u00e3o ser por uma nascente muito rica no Jardim Bot\u00e2nico, que ainda o alimenta. Mas ele s\u00f3 parece mesmo exis\u00adtir quando as chuvas o en\u00adchem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.<\/p>\n<p><strong>Goi\u00e2nia foi planejada em fun\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dos cursos d\u2019\u00e1gua. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela \u00e9, ent\u00e3o, o cen\u00e1rio de uma trag\u00e9dia hidrogr\u00e1fica?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o diria que apenas Goi\u00e2nia est\u00e1 realmente dessa forma. Mas foi toda uma pol\u00edtica de ocupa\u00e7\u00e3o do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupa\u00e7\u00e3o desordenada, desde a \u00e9poca da Funda\u00e7\u00e3o Brasil Central, da Expedi\u00e7\u00e3o Roncador\u2013Xingu, depois a constru\u00e7\u00e3o de Goi\u00e2nia e de Bras\u00edlia, a divis\u00e3o de Mato Grosso e a cria\u00e7\u00e3o do Tocan\u00adtins. Isso \u00e9 fruto do capital din\u00e2mico que transforma a realidade. Vem uma urbaniza\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de \u00e1reas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimenta\u00e7\u00e3o, impedindo que as \u00e1guas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econ\u00f4micos no Centro-Oeste do Brasil. E n\u00e3o s\u00f3 aqui, mas nas \u00e1reas que aqui brotam.<\/p>\n<p><strong>O que significa quase toda a \u00e1rea do Brasil, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim, at\u00e9 mesmo a Amaz\u00f4nia. O Rio Amazonas \u00e9 alimentado por tr\u00eas vetores: as \u00e1guas da Cordilheira dos Andes, que \u00e9 um sistema de abastecimento extremamente irregular; as \u00e1guas de sua margem esquerda, principalmente do Solim\u00f5es, que tamb\u00e9m \u00e9 irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias \u2013 ali foi um deserto at\u00e9 bem pouco tempo, chamado Deserto de \u00d3bidos. Ou seja, o Amazonas \u00e9 alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (S\u00e3o Manuel), Xingu, Tapaj\u00f3s, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o S\u00e3o Francisco, j\u00e1 drasticamente afetado; o Amazonas, tamb\u00e9m afetado; e a Bacia do Paran\u00e1, afetada quase da mesma forma que o S\u00e3o Francisco, provavelmente com per\u00edodo de vida muito curto.<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1 um processo t\u00e3o r\u00e1pido assim?<\/strong><br \/>\nUma vez que se inicia tal processo de degrada\u00e7\u00e3o e de diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do n\u00edvel dos len\u00e7\u00f3is, isso \u00e9 irrevers\u00edvel. Em alguns casos duram algumas d\u00e9cadas; em outros, at\u00e9 menos do que isso. Temos exemplos cl\u00e1ssicos no mundo de transposi\u00e7\u00f5es de rios que n\u00e3o deram certo e at\u00e9 secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, h\u00e1 navios ancorados em sal.\u00a0Sua drenagem \u00e9 endorreica, fechada, sem sa\u00edda para o oceano. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, na \u00e2nsia de se tornar autossuficiente na produ\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o, fez a transposi\u00e7\u00e3o dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma d\u00e9cada, as planta\u00e7\u00f5es n\u00e3o vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milh\u00f5es de pessoas, causando doen\u00e7as respirat\u00f3rias graves, incluindo o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Com nossos rios, acontecer\u00e1 o mesmo processo. A diferen\u00e7a \u00e9 que o processo de ocupa\u00e7\u00e3o aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. S\u00e3o 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio s\u00e9culo, se devastou um bioma inteiro. N\u00e3o acabou totalmente porque ainda h\u00e1 um pouco de \u00e1gua. Mas, quando isso acabar, imagine as convuls\u00f5es sociais que ocorrer\u00e3o. Enquanto se est\u00e1 na fartura, voc\u00ea \u00e9 capaz de repartir um copo d\u2019\u00e1gua com o irm\u00e3o; mas, no dia da pen\u00faria, ningu\u00e9m repartir\u00e1. Isso faz parte da natureza do ser humano, que \u00e9 essencialmente ego\u00edsta. Isso est\u00e1 no princ\u00edpio da evolu\u00e7\u00e3o da humanidade. A Igreja Cat\u00f3lica chama isso de \u201cpecado original\u201d, mas nada mais \u00e9 do que o ego\u00edsmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso j\u00e1 levou outros povos e ra\u00e7as \u00e0 extin\u00e7\u00e3o. E pode nos levar tamb\u00e9m \u00e0 extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 bem pouco tempo t\u00ednhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar tamb\u00e9m em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movedi\u00e7o; e outra humanidade, que nada na opul\u00eancia. A quest\u00e3o \u00e9 que, se essa situa\u00e7\u00e3o persistir, brevemente teremos a p\u00f3s e a sub-humanidade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 um cen\u00e1rio doloroso.<\/strong><br \/>\n\u00c9 doloroso, mas s\u00e3o os dados que a ci\u00eancia mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a sa\u00edda esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apare\u00e7am resultados positivos. E nossas universidades n\u00e3o incentivam a pesquisa, o que \u00e9 muito triste, porque essa \u00e9 a ess\u00eancia de uma universidade.<\/p>\n<p><strong>O Sr. v\u00ea, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustent\u00e1vel?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. O que existe \u00e9 muito localizado e incipiente. N\u00e3o tem grande repercuss\u00e3o. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer\u00adrado, que \u00e9 um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu n\u00e3o sei dizer. Um engenheiro ambiental tamb\u00e9m n\u00e3o lhe dar\u00e1 resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque n\u00e3o temos pesquisas sobre isso. Talvez poder\u00edamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.<\/p>\n<p><strong>E a educa\u00e7\u00e3o ocupa que papel nesse contexto sombrio?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s, como educadores, dever\u00edamos pensar mais nisso \u2013 e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se n\u00e3o dermos uma guinada muito violenta n\u00e3o ter\u00e1 como fazer mais nada. \u00c9 preciso haver real mudan\u00e7a de h\u00e1bitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa regi\u00e3o. A \u00e1gua tinha de ser uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional. A vegeta\u00e7\u00e3o nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim tamb\u00e9m, porque deles depende o bem-estar das futuras gera\u00e7\u00f5es. Mas isso s\u00f3 se consegue com investimento muito alto em educa\u00e7\u00e3o, mudando mentalidade de educadores. As escolas t\u00eam de trabalhar a consci\u00eancia e n\u00e3o apenas o conhecimento. Uma coisa \u00e9 conhecer o problema; outra, \u00e9 ter consci\u00eancia do problema. A consci\u00eancia exige um passo a mais. Exige atitude revolucion\u00e1ria e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gera\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o.<\/p>\n<p>O cr\u00e9dito das fotos e do texto v\u00e3o para Fernando Leite e o Jornal Op\u00e7\u00e3o, que assim como n\u00f3s entendem que o conhecimento deve ser de acesso livre para todos.<\/p>\n<p>Fonte: Revista Ecol\u00f3gica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor Altair Sales da PUC de Goi\u00e1s, uma das maiores autoridades sobre o tema, diz<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Professor Altair Sales da PUC de Goi\u00e1s, uma das maiores autoridades sobre o tema, diz","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28020"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28020"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28020\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}