{"id":27179,"date":"2018-02-24T18:41:26","date_gmt":"2018-02-24T21:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=27179"},"modified":"2018-02-25T14:31:01","modified_gmt":"2018-02-25T17:31:01","slug":"lixo-e-impactos-ambientais-urbanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/lixo-e-impactos-ambientais-urbanos\/","title":{"rendered":"Lixo e Impactos Ambientais Urbanos"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-QWrmMm_5UMk\/VWO_0q15WCI\/AAAAAAAARvg\/qRbNu3Aa1PY\/s400\/Lixo%2Be%2BImpactos%2BAmbientais%2BUrbanos.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"263\" border=\"0\" \/>Ao longo dos \u00faltimos anos, proporcionalmente ao crescimento da consci\u00eancia ambiental e dos impactos do nosso estilo de vida de consumo e descarte, tamb\u00e9m cresceram os alertas sobre nossos impactos sobre o oceano.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o das cidades e a crescente amplia\u00e7\u00e3o das \u00e1reas urbanas t\u00eam contribu\u00eddo para o crescimento de impactos ambientais negativos. No ambiente urbano, determinados aspectos culturais como o consumo de produtos industrializados e a necessidade da \u00e1gua como recurso natural vital \u00e0 vida, influenciam como se apresenta o ambiente. Os costumes e h\u00e1bitos no uso da \u00e1gua e a produ\u00e7\u00e3o de res\u00edduos pelo exacerbado consumo de bens materiais s\u00e3o respons\u00e1veis por parte das altera\u00e7\u00f5es e impactos ambientais.<\/p>\n<p>Altera\u00e7\u00f5es ambientais f\u00edsicas e biol\u00f3gicas ao longo do tempo modificam a paisagem e comprometem ecossistemas. Para Fernandez (2004) as altera\u00e7\u00f5es ambientais ocorrem por inumer\u00e1veis causas, muitas denominadas naturais e outras oriundas de interven\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas, consideradas n\u00e3o naturais. \u00c9 fato que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico contempor\u00e2neo e as culturas das comunidades t\u00eam contribu\u00eddo para que essas altera\u00e7\u00f5es no e do ambiente se intensifiquem, especialmente no ambiente urbano.<\/p>\n<p>Atualmente a maior parte das pessoas habita ambientes urbanos. Dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) (2004) indicam que no Brasil mais de 80% das pessoas s\u00e3o moradores urbanos. Odum (1988) considera que a acelerada urbaniza\u00e7\u00e3o e crescimento das cidades, especialmente a partir de meados do s\u00e9culo XX promoveram mudan\u00e7as fision\u00f4micas no Planeta, mais do que qualquer outra atividade humana.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel observamos que determinados impactos ambientais est\u00e3o se acirrando, motivado entre outras coisas pelo crescimento populacional mundial. Ricklefs (1996) e Fernandez (2004) registraram uma proje\u00e7\u00e3o de mais de 6 bilh\u00f5es de seres humanos na Terra para 2006. Estimativas publicadas pelo IBGE (2006) em maio de 2006 indicavam que a popula\u00e7\u00e3o mundial era de 6,8 bilh\u00f5es de pessoas. Destes, segundo Fernandez (2004, p. 177) aproximadamente 5 bilh\u00f5es vivem nos pa\u00edses pobres, com sua maioria em um crescente quadro de pobreza e mis\u00e9ria, especialmente nos arredores das cidades.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o do Brasil apresenta a mesma tend\u00eancia mundial de ocupa\u00e7\u00e3o ambiental, ou seja, opta pelo ecossistema urbano como lar. Ott (2004, p. 17) considera que a transforma\u00e7\u00e3o do Brasil de pa\u00eds rural para urbano ocorreu segundo um processo predat\u00f3rio em ess\u00eancia, com acentuada exclus\u00e3o social de classes da popula\u00e7\u00e3o menos privilegiada que por n\u00e3o terem condi\u00e7\u00f5es de aquisi\u00e7\u00e3o de terrenos em \u00e1reas urbanas estruturadas ocupam<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] em sua maioria, terrenos que deveriam ser protegidos para preserva\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, encostas, fundos de vale entre outros\u201d.<\/p>\n<p>O morador urbano, independentemente de classe social, anseia viver em um ambiente saud\u00e1vel que apresente as melhores condi\u00e7\u00f5es para vida, ou seja, que favore\u00e7a a qualidade de vida: ar puro, desprovido de polui\u00e7\u00e3o, \u00e1gua pura em abund\u00e2ncia entre outras caracter\u00edsticas tidas como essenciais.<\/p>\n<p>Entretanto, observar um ambiente urbano implica em perceber que o uso, as cren\u00e7as e h\u00e1bitos do morador citadino t\u00eam promovido altera\u00e7\u00f5es ambientais e impactos significativos no ecossistema urbano. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 compreendida como crise e sugere uma reforma ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de vinte anos Viola (1987, p. 129) sugere que a reforma urbana ecol\u00f3gica aponte para uma cidade mais democr\u00e1tica, mais humana e respir\u00e1vel: a cidade do ser humano. N\u00e3o \u00e9 apenas a cidade onde os alugu\u00e9is e transportes sejam mais acess\u00edveis, na qual cada fam\u00edlia tenha direito a um terreno, mas tamb\u00e9m um ambiente urbano mais arborizado, mais silencioso e alegre, menos verticalizado, menos agressivo e com menores \u00edndices de polui\u00e7\u00e3o do ar.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201creforma ecol\u00f3gica\u201d que Viola (1987) usa para reivindicar um ambiente urbano melhor, sugere, de imediato, que tal ambiente est\u00e1 aqu\u00e9m de uma cidade ideal como prop\u00f4s Tuan (1980).<\/p>\n<p>No Brasil, acreditamos que tal \u201creforma\u201d seja urgente, especialmente no ambiente urbano pelos percept\u00edveis impactos ambientais negativos. O lixo urbano, muitas vezes, \u00e9 respons\u00e1vel pelos impactos ambientais que mencionamos.\u00a0 Neste artigo, apresentamos considera\u00e7\u00f5es a respeito do lixo e de fragmentos do ambiente urbano que sofrem impactos negativos pela disposi\u00e7\u00e3o inadequada desses res\u00edduos. Apresentamos tamb\u00e9m a percep\u00e7\u00e3o a respeito do lixo de um grupo de atores sociais de uma pequena cidade da regi\u00e3o Oeste do Paran\u00e1, Brasil, que foram investigados.<\/p>\n<p>O Consumo de Bens Materiais e o Lixo:<\/p>\n<p>A cultura de um povo ou comunidade caracteriza a forma de uso do ambiente, os costumes e os h\u00e1bitos de consumo de produtos industrializados e da \u00e1gua. No ambiente urbano tais costumes e h\u00e1bitos implicam na produ\u00e7\u00e3o exacerbada de lixo e a forma com que esses res\u00edduos s\u00e3o tratados ou dispostos no ambiente, gerando intensas agress\u00f5es aos fragmentos do contexto urbano, al\u00e9m de afetar regi\u00f5es n\u00e3o urbanas.<\/p>\n<p>O consumo cotidiano de produtos industrializados \u00e9 respons\u00e1vel pela cont\u00ednua produ\u00e7\u00e3o de lixo. A produ\u00e7\u00e3o de lixo nas cidades \u00e9 de tal intensidade que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceber uma cidade sem considerar a problem\u00e1tica gerada pelos res\u00edduos s\u00f3lidos, desde a etapa da gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o final. Nas cidades brasileiras, geralmente esses res\u00edduos s\u00e3o destinados a c\u00e9u aberto (IBGE, 2006).<\/p>\n<p>Lixo \u00e9 uma palavra latina (lix) que significa cinza, vinculada \u00e0s cinzas dos fog\u00f5es. Segundo Ferreira (1999), lixo \u00e9 \u201caquilo que se varre da casa, do jardim, da rua e se joga fora; entulho. Tudo o que n\u00e3o presta e se joga fora. Sujidade, sujeira, imund\u00edcie. Coisa ou coisas in\u00fateis, velhas, sem valor\u201d. Jardim e Wells (1995, p. 23) definem lixo como:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] os restos das atividades humanas, considerados pelos geradores como in\u00fateis, indesej\u00e1veis, ou descart\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, o lixo dom\u00e9stico no Brasil, segundo Jardim e Wells (1995) \u00e9 composto por: 65% de mat\u00e9ria org\u00e2nica; 25% de papel; 4% de metal; 3% de vidro e 3% de pl\u00e1stico. Apesar de atender a legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de cada munic\u00edpio, o lixo comercial at\u00e9 50 kg ou litros e o domiciliar s\u00e3o de responsabilidade das prefeituras, enquanto os demais s\u00e3o de responsabilidade do pr\u00f3prio gerador.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel a gera\u00e7\u00e3o de lixo nas cidades devido \u00e0 cultura do consumo. Segundo o IBGE, em 2006, o Brasil \u00e9 constitu\u00eddo por 5.507 munic\u00edpios e na \u00faltima Pesquisa Nacional de Saneamento B\u00e1sico, realizada no ano de 2000 pelo IBGE, foi registrado que somente 33% (1.814) dos 5.475 munic\u00edpios daquele ano coletavam a totalidade dos res\u00edduos domiciliares gerados nas resid\u00eancias urbanas de seus territ\u00f3rios. Os dados dessa pesquisa revelaram que diariamente o Brasil gerava 228.413 toneladas di\u00e1rias de res\u00edduos s\u00f3lidos. Isso implica numa produ\u00e7\u00e3o de 1,2 kg\/habitante (IBGE, 2006). A problem\u00e1tica ambiental gerada pelo lixo \u00e9 de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o e a maior parte das cidades brasileiras apresenta um servi\u00e7o de coleta que n\u00e3o prev\u00ea a segrega\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos na fonte (IBGE, 2006).<\/p>\n<p>Nessas cidades \u00e9 comum observarmos h\u00e1bitos de disposi\u00e7\u00e3o final inadequados de lixo. Materiais sem utilidade se amontoam indiscriminada e desordenadamente, muitas vezes em locais indevidos como lotes baldios, margens de estradas, fundos de vale e margens de lagos e rios.<\/p>\n<p>A Disposi\u00e7\u00e3o Final do Lixo:<br \/>\nH\u00e1bitos Urbanos Vis\u00edveis:<\/p>\n<p>Entre os impactos ambientais negativos que podem ser originados a partir do lixo urbano produzido est\u00e3o os efeitos decorrentes da pr\u00e1tica de disposi\u00e7\u00e3o inadequada de res\u00edduos s\u00f3lidos em fundos de vale, \u00e0s margens de ruas ou cursos d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Essas pr\u00e1ticas habituais podem provocar, entre outras coisas, contamina\u00e7\u00e3o de corpos d\u2019\u00e1gua, assoreamento, enchentes, prolifera\u00e7\u00e3o de vetores transmissores de doen\u00e7as, tais como c\u00e3es, gatos, ratos, baratas, moscas, vermes, entre outros. Some-se a isso a polui\u00e7\u00e3o visual, mau cheiro e contamina\u00e7\u00e3o do ambiente.<\/p>\n<p>A viv\u00eancia cotidiana muitas vezes mascara circunst\u00e2ncias vis\u00edveis, mas n\u00e3o percept\u00edveis. Mesmo contemplando casos de agress\u00f5es ao ambiente, os h\u00e1bitos cotidianos concorrem para que o morador urbano n\u00e3o reflita sobre as consequ\u00eancias de tais h\u00e1bitos, mesmo quando possui informa\u00e7\u00f5es a esse respeito.<\/p>\n<p>Considerando o pressuposto de que os seres humanos s\u00e3o essencialmente ambientais e, como tais, tendem a subjetivamente perceber o ambiente por meio de signos que engendram a imagem ambiental,<\/p>\n<p>como se processa a percep\u00e7\u00e3o ambiental? Para Ferrara (1999, p. 153) percep\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 \u201c[&#8230;] informa\u00e7\u00e3o na mesma medida em que informa\u00e7\u00e3o gera informa\u00e7\u00e3o: usos e h\u00e1bitos s\u00e3o signos do lugar informado que s\u00f3 se revela na medida em que \u00e9 submetido a uma opera\u00e7\u00e3o que exp\u00f5e a l\u00f3gica da sua linguagem. A essa opera\u00e7\u00e3o d\u00e1-se o nome de percep\u00e7\u00e3o ambiental\u201d.<\/p>\n<p>Mucelin e Bellini (2006) enfatizam que no contexto urbano as condi\u00e7\u00f5es apresentadas pelo ambiente \u201c[&#8230;] s\u00e3o influenciadas, entre outros fatores, pela percep\u00e7\u00e3o de seus moradores, que estimulam e engendram a imagem ambiental determinando a forma\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as e h\u00e1bitos que conformam o uso\u201d.<\/p>\n<p>As atividades cotidianas condicionam o morador urbano a observar determinados fragmentos do ambiente e n\u00e3o perceber situa\u00e7\u00f5es com graves impactos ambientais conden\u00e1veis. Casos de agress\u00f5es ambientais como polui\u00e7\u00e3o visual e disposi\u00e7\u00e3o inadequada de lixo refletem h\u00e1bitos cotidianos em que o observador \u00e9 compelido a conceber tais situa\u00e7\u00f5es como \u201cnormais\u201d. Andar pela cidade e contemplar os fragmentos habituais \u2013 regi\u00f5es do ambiente urbano que comp\u00f5em esse ecossistema \u2013 permite observar paisagem que retrata h\u00e1bitos edificados temporal e culturalmente.<\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o vis\u00edveis e se apresentam no mosaico de possibilidades da cena urbana. No entanto, nem sempre tais circunst\u00e2ncias s\u00e3o percebidas e o morador local, pela viv\u00eancia cotidiana habitual, n\u00e3o reflete sobre o contexto onde vive. A disponibilidade de \u00e1gua facilita ou contribui para o desenvolvimento urbano, que leva em conta os recursos h\u00eddricos para a edifica\u00e7\u00e3o das cidades.<\/p>\n<p>No ambiente urbano \u00e9 fundamental o abastecimento de \u00e1gua e o tratamento de esgotos e \u00e1guas pluviais. Por isso, as cidades, geralmente, s\u00e3o fundadas pr\u00f3ximas ou sobre o leito de rios por raz\u00f5es \u00f3bvias: facilidade na obten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. Nas cidades do Brasil \u00e9 percept\u00edvel um padr\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios junto a leitos de rios. Suas margens, entretanto, deveriam ser preservadas com a manuten\u00e7\u00e3o da mata ciliar ou de galeria. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel observar que na maioria dos casos, o rio \u00e9 usado como local de disposi\u00e7\u00e3o final de lixo, um h\u00e1bito cultural existente e conden\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a cidade se expande, frequentemente, ocorrem impactos com o aumento da produ\u00e7\u00e3o de sedimentos pelas altera\u00e7\u00f5es ambientais das superf\u00edcies e produ\u00e7\u00e3o de res\u00edduos s\u00f3lidos; deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade da \u00e1gua pelo uso nas atividades cotidianas, e lan\u00e7amento de lixo, esgoto e \u00e1guas pluviais nos corpos receptores.<\/p>\n<p>Pela rela\u00e7\u00e3o habitual humana com o ambiente, com h\u00e1bitos comumente observ\u00e1veis no cen\u00e1rio urbano, \u00e9 que Odum (1988) e Rickefs (1996) consideram a cidade uma das maiores fontes de agress\u00e3o ambiental, embora a polui\u00e7\u00e3o dos mananciais na \u00e1rea urbana ocorra de v\u00e1rias outras maneiras. Constituem fontes poluidoras os esgotos dom\u00e9sticos, comerciais e industriais e a destina\u00e7\u00e3o inadequada de res\u00edduos s\u00f3lidos em fundos de vale, margens de rios e monturos.<\/p>\n<p>O manancial h\u00eddrico \u00e9 importante na defini\u00e7\u00e3o do ambiente para a constru\u00e7\u00e3o da cidade. Inevitavelmente, o desenvolvimento urbano tende a contaminar o ambiente com despejo de esgotos cloacais e pluviais. Os rios s\u00e3o utilizados como corpos receptores de efluentes e ainda, o lixo, que inadequadamente tamb\u00e9m \u00e9 depositado nas margens e leito.<\/p>\n<p>A disponibilidade de \u00e1gua facilita ou contribui para o desenvolvimento urbano, que leva em conta os recursos h\u00eddricos para a edifica\u00e7\u00e3o das cidades. No ambiente urbano \u00e9 fundamental o abastecimento de \u00e1gua e o tratamento de esgotos e \u00e1guas pluviais. O uso da \u00e1gua na cidade, tipicamente, tem um ciclo caracter\u00edstico de impacto ambiental negativo.<\/p>\n<p>A \u00e1gua \u00e9 coletada de uma fonte local (rio, lago ou len\u00e7ol fre\u00e1tico), \u00e9 tratada, utilizada e retorna para um corpo coletor. Nesse retorno s\u00f3 excepcionalmente ela conserva as mesmas caracter\u00edsticas de quando foi captada. Ocorrem altera\u00e7\u00f5es nas composi\u00e7\u00f5es de sais, mat\u00e9ria org\u00e2nica, temperatura e outros res\u00edduos poluidores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m destes impactos, em rela\u00e7\u00e3o aos recursos h\u00eddricos, ainda existem aqueles causados pela deficiente infra-estrutura urbana: obstru\u00e7\u00e3o de escoamentos por constru\u00e7\u00f5es irregulares, obstru\u00e7\u00e3o de rios por res\u00edduos, projetos e obras de drenagem inadequadas. A polui\u00e7\u00e3o dos mananciais na \u00e1rea urbana ocorre de v\u00e1rias maneiras. No contexto urbano, outro fragmento do ambiente utilizado para a disposi\u00e7\u00e3o final inadequada de lixo s\u00e3o os lotes baldios e as margens de ruas e estradas.<\/p>\n<p>A viv\u00eancia cotidiana nos estimula pragmaticamente \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o mental de id\u00e9ias das coisas que percebemos. Objetos e fatos observados e percebidos for\u00e7am a constru\u00e7\u00e3o por associa\u00e7\u00f5es de id\u00e9ias que estimulam a media\u00e7\u00e3o, orientando as a\u00e7\u00f5es e determinando as condutas, modo de a\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse processo din\u00e2mico, dial\u00f3gico e interativo que desenvolvemos as cren\u00e7as respons\u00e1veis pelos h\u00e1bitos, que edificam o nosso modo de viver. Muitas vezes estes h\u00e1bitos s\u00e3o conden\u00e1veis, como por exemplo, a disposi\u00e7\u00e3o inadequada do lixo.<\/p>\n<p>Nos monturos e mesmo nas ruas da cidade \u00e9 comum a presen\u00e7a de grupos de catadores de res\u00edduos s\u00f3lidos recicl\u00e1veis que, geralmente munidos de um carrinho, encontram na separa\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o desses res\u00edduos, um meio de sua sobreviv\u00eancia. Essa atividade, com raras exce\u00e7\u00f5es, ocorre em condi\u00e7\u00f5es subumanas, pelos riscos que o lixo representa para a sa\u00fade e pelas condi\u00e7\u00f5es de materiais e de equipamentos dispon\u00edveis nessa atividade. Muitas agress\u00f5es ambientais no espa\u00e7o urbano s\u00e3o percept\u00edveis, enquanto outras n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o evidentes, mesmo que intensas. Tuan (1980, p. 1)<\/p>\n<p>entende que o valor da percep\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental quando se busca solu\u00e7\u00e3o de determinadas agress\u00f5es ambientais: \u201c[&#8230;] percep\u00e7\u00e3o, atitudes e valores \u2013 preparam-nos primeiramente, a compreender n\u00f3s mesmos. Sem a auto-compreens\u00e3o n\u00e3o podemos esperar por solu\u00e7\u00f5es duradouras para os problemas ambientais que, fundamentalmente, s\u00e3o problemas humanos\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-i-RB394_VY0\/VWO_8ta7ymI\/AAAAAAAARvo\/82nr2D4gMfo\/s400\/Lixo%2Be%2BImpactos%2BAmbientais%2BUrbanos%2B1.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"420\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Divulgados nesta semana, dados referentes a 2011 revelam que 58,1% do lixo no pa\u00eds s\u00e3o descartados incorretamente. Em Minas Gerais o \u00edndice \u00e9 de 35,9%, superior aos registrados em S\u00e3o Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paran\u00e1 e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Acerca da Percep\u00e7\u00e3o Ambiental:<\/p>\n<p>Percep\u00e7\u00e3o \u00e9 uma palavra de origem latina &#8211; perceptione &#8211; que pode ser entendida como tomada de consci\u00eancia de forma n\u00edtida a respeito de qualquer objeto ou circunst\u00e2ncia. A circunst\u00e2ncia em quest\u00e3o diz respeito a fen\u00f4menos vivenciados. Para Ferreira (1999) a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o mental e consciente a respeito de determinado objeto ou fato, quer clarificando, distinguindo ou privilegiado alguns de seus aspectos, quer ao associ\u00e1-la a outros objetos ou contexto.<\/p>\n<p>A respeito da percep\u00e7\u00e3o, Locke (2001, p. 79) considerou-a como \u201c[&#8230;] a primeira faculdade da mente usada por nossas id\u00e9ias, consiste assim, na primeira e na mais simples id\u00e9ia que temos da reflex\u00e3o, por alguns denominada pensamento [&#8230;] apenas a reflex\u00e3o pode nos dar id\u00e9ias do que \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o\u201d<br \/>\nDel Rio (1999, p. 3) define a percep\u00e7\u00e3o como:<\/p>\n<p>[&#8230;] um processo mental de intera\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o meio ambiente que se d\u00e1 atrav\u00e9s de mecanismos perceptivos propriamente ditos e principalmente, cognitivos. Os primeiros s\u00e3o dirigidos pelos est\u00edmulos externos, captados atrav\u00e9s dos cinco sentidos [&#8230;].<\/p>\n<p>Os segundos s\u00e3o aqueles que compreendem a contribui\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia, admitindo-se que a mente n\u00e3o funciona apenas a partir dos sentidos e nem recebe essas sensa\u00e7\u00f5es passivamente. Tuan (1980) afirma que o mundo \u00e9 percebido pelos humanos pelo uso de todos os seus sentidos. Assim, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de leitura de mundo, na qual os sentidos perceptivos regem a produ\u00e7\u00e3o cognitiva de cada um. Sobre essa leitura de mundo, via imagens, Kanashiro (2003, p. 160) prop\u00f5e que elas:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] seriam tipos de estruturas ou de esquemas imaginativos que incorporariam certos tipos \u2018ideais\u2019 e um determinado conhecimento de como o mundo \u2018real\u2019 funciona\u201d [grifos do autor].<\/p>\n<p>A leitura perceptiva do ambiente urbano, tanto individual quanto coletiva, \u00e9 produzida nas inter-rela\u00e7\u00f5es fenomenol\u00f3gicas habituais entre o morador e o ambiente. O julgamento perceptivo do ambiente ocorre pela semiose dos signos locais experienciados, estabelecidos a partir dos constituintes do ambiente e est\u00e1 intrinsecamente vinculado \u00e0s cren\u00e7as e h\u00e1bitos vigentes.<\/p>\n<p>A abrang\u00eancia e o car\u00e1ter inef\u00e1vel dos estudos de percep\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 tal que concordamos com Tuan (1980, p. 2) quando menciona o fato de que o cientista e o te\u00f3rico tendem a descuidar da subjetividade e diversidade humana, dada sua complexidade. Por isso:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] numa vis\u00e3o mais ampla, sabemos que as atitudes e cren\u00e7as n\u00e3o podem ser exclu\u00eddas nem mesmo da abordagem pr\u00e1tica, pois \u00e9 pr\u00e1tico reconhecer as paix\u00f5es humanas em qualquer c\u00e1lculo ambiental\u201d (Ibid., p. 2).<\/p>\n<p>A viv\u00eancia cotidiana molda padr\u00f5es comportamentais habituais. Neste sentido, o morador urbano tem, na maioria das vezes, situa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias vivenciadas de forma repetitiva, o que produz uma esp\u00e9cie de m\u00e1scara destas situa\u00e7\u00f5es no contexto. Isso forma uma imagem perceptiva em dois vieses: de um lado o ambiente urbano leg\u00edvel e percept\u00edvel vivenciado; de outro, situa\u00e7\u00f5es e locais impercept\u00edveis, ocultos ao julgamento perceptivo.<\/p>\n<p>Apresentamos a seguir parte da percep\u00e7\u00e3o a respeito do lixo, que foi obtida por meio de estudo com 88 profissionais, moradores urbanos investigados em 2006, da cidade de Medianeira, Oeste do Paran\u00e1, Brasil. Nossa investiga\u00e7\u00e3o perceptiva do ambiente urbano de Medianeira foi desenvolvida com profissionais de 11 atividades distintas e atuantes na cidade. Investigamos quatro homens e quatro mulheres que atuavam como: funcion\u00e1rios do com\u00e9rcio, comerciantes do centro, dentistas, m\u00e9dicos, comerciantes de bairros, professores universit\u00e1rios, professores de ensino m\u00e9dio, universit\u00e1rios, pol\u00edticos, donos de casa do centro e donos de casa de bairro.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o ocorreu na atividade de donos de casa, tanto do centro como de bairros, pois conseguimos entrevistar apenas dois homens. Isso \u00e9 um indicativo de que a mulher ainda, muitas vezes, assume o trabalho dom\u00e9stico na cidade, geralmente, com dupla jornada, ou seja, trabalha fora e em casa. As informa\u00e7\u00f5es perceptivas foram obtidas por meio de entrevistas semi-estruturadas e as informa\u00e7\u00f5es sistematizadas pelo m\u00e9todo de an\u00e1lise de conte\u00fado.<\/p>\n<p>A Percep\u00e7\u00e3o do Lixo:<br \/>\nSegundo Atores Sociais de Medianeira:<\/p>\n<p>O lixo, quando n\u00e3o tratado adequadamente, pode ser respons\u00e1vel por impactos ambientais graves ao ambiente. Em nossa pesquisa questionamos o que a palavra lixo significava para os atores pesquisados.<\/p>\n<p>Obviamente n\u00e3o busc\u00e1vamos uma defini\u00e7\u00e3o formal, mas sim como os atores participantes percebiam ou entendiam o lixo. Registramos dois n\u00facleos s\u00edgnicos perceptivos. De um lado, alguns atores listavam objetos que constitu\u00edam o lixo e, de outro, a maior parte procurava formular uma defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O lixo era percebido pela maioria como algo que n\u00e3o tinha mais utilidade, uma sobra de material descart\u00e1vel, aquilo que as pessoas desejavam jogar fora, geralmente, vinculado \u00e0 sujeira, imund\u00edcie, sujidade e ao mau cheiro. N\u00e3o obstante, o lixo tamb\u00e9m foi percebido e considerado como um conjunto de materiais com valor econ\u00f4mico agregado.<\/p>\n<p>Observamos que, ao pronunciar a palavra lixo, a maior parte dos atores deixava transparecer, pela express\u00e3o do rosto, sentimento de rep\u00fadio, reprova\u00e7\u00e3o e, geralmente, vinculava-o a coisas ruins. Portanto, o lixo era percebido como um signo ruim. Uma dona de casa de bairro mencionou: \u201cLixo \u00e9 um desrespeito \u00e0 natureza!\u201d.<\/p>\n<p>Indagamos aos atores sobre se produziam lixo. Todos disseram produzir. Entre os 88 entrevistados, apenas um propriet\u00e1rio do com\u00e9rcio do centro e uma dentista afirmaram que a quantidade produzida em suas resid\u00eancias \u00e9 pequena.<\/p>\n<p>Questionamos acerca da quantidade di\u00e1ria de lixo produzida em suas resid\u00eancias. As respostas eram dadas com hesita\u00e7\u00e3o, evidenciando que eles n\u00e3o tinham certeza. Conv\u00e9m mencionar que as m\u00e9dias apresentadas s\u00e3o valores da produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de lixo, por resid\u00eancias, que os atores afirmaram produzir.<\/p>\n<p>Pareceu-nos que registrar ou controlar a quantidade de lixo produzida era uma novidade. O estranhamento e d\u00favidas que esta quest\u00e3o gerou nos atores sociais de Medianeira indicam que n\u00e3o h\u00e1 h\u00e1bitos de mensura\u00e7\u00e3o. Apenas seis entrevistados (7%) n\u00e3o sabiam ou n\u00e3o opinaram a respeito dessa quantidade. Entre os 82 atores que indicaram a quantidade produzida, a menor foi mencionada por um professor universit\u00e1rio &#8211; 0,25kg, ator que morava sozinho. A maior foi indicada como 20 kg di\u00e1rios por resid\u00eancia.<\/p>\n<p>Entrevistados M\u00e9dia Percebida da Produ\u00e7\u00e3o de Lixo por Resid\u00eancias: (kg\/dia)<\/p>\n<p>Propriet\u00e1rio do com\u00e9rcio do centro 3,19<br \/>\nPropriet\u00e1rio do com\u00e9rcio de bairro 7,19<br \/>\nProfessor universit\u00e1rio 3,09<br \/>\nProfessor ensino m\u00e9dio 3,71<br \/>\nAluno universit\u00e1rio 3,42<br \/>\nTrabalhador do com\u00e9rcio 4,75<br \/>\nPol\u00edticos 3,57<br \/>\nM\u00e9dicos 2,19<br \/>\nDentistas 4,94<br \/>\nDono de casa do centro 7,07<br \/>\nDono de casa de bairro 4,44<\/p>\n<p>Apesar da ampla variabilidade de situa\u00e7\u00f5es, como o n\u00famero de membros em cada fam\u00edlia e os valores da produ\u00e7\u00e3o de lixo ser percebidos e n\u00e3o mensurados, a m\u00e9dia geral da produ\u00e7\u00e3o foi de 4,32 kg por fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia dos membros das fam\u00edlias investigadas foi de 3,36 pessoas. Portanto, temos uma m\u00e9dia de produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria per capita de lixo percebido de 1,28kg. Essa m\u00e9dia se aproxima da m\u00e9dia nacional brasileira atual que, segundo o (IBGE 2005), oscila em torno de 1,2kg de lixo por habitante\/dia.<\/p>\n<p>Nos di\u00e1logos ficou evidente que os atores n\u00e3o sabiam exatamente quantos quilos de lixo as fam\u00edlias produziam. Suas respostas eram aproximadas e baseadas no manuseio feito em suas resid\u00eancias pelo volume que formavam. Ficou evidente que os atores n\u00e3o tinham convic\u00e7\u00e3o ou mecanismo de controle para informar com maior precis\u00e3o. Acreditamos que n\u00e3o existia a preocupa\u00e7\u00e3o com a quantidade produzida, porque o lixo era coletado e afastado das resid\u00eancias e, portanto, n\u00e3o afetava os membros das fam\u00edlias, de forma direta, obviamente.<\/p>\n<p>O tipo de lixo produzido em maior quantidade nas resid\u00eancias dos entrevistados tamb\u00e9m suscitou incertezas nas respostas. Registramos que o tipo de lixo produzido nas resid\u00eancias era percebido segundo dois grupos mais significativos: o lixo seco, geralmente formado por embalagens de papel, metais, pl\u00e1stico ou vidro, e o lixo org\u00e2nico. Foi indicado ainda o lixo considerado rejeito &#8211; geralmente, lixo de banheiros e fraldas descart\u00e1veis.<\/p>\n<p>A maior parte do atores, 51 (58%), mencionou o lixo seco como o que mais produziam em suas resid\u00eancias. Os demais (37 atores) disseram que era o lixo org\u00e2nico. Agrupamos as respostas dos atores segundo os tipos de lixo: seco e org\u00e2nico.<\/p>\n<p>Quanto ao melhor lugar para a popula\u00e7\u00e3o de uma cidade fazer a disposi\u00e7\u00e3o final, apenas uma dona de casa disse n\u00e3o saber: \u201cOlha Carlos, eu disso a\u00ed n\u00e3o posso falar que eu n\u00e3o conhe\u00e7o onde que eles botam o lixo da\u00ed, n\u00e3o \u00e9? Eu n\u00e3o posso falar nada disso a\u00ed!\u201d.<\/p>\n<p>Os demais, 87 (99%), tinham cren\u00e7as sobre o melhor lugar para a disposi\u00e7\u00e3o final do lixo. Identificamos em suas percep\u00e7\u00f5es cinco grupos s\u00edgnicos perceptivos para tal disposi\u00e7\u00e3o: aterro, lix\u00e3o, buraco, longe da cidade e reciclar.<\/p>\n<p>Registramos que 55 (62,5%) atores acreditavam que o aterro sanit\u00e1rio era o melhor lugar para a disposi\u00e7\u00e3o final e 20 (23%) que o lixo deveria passar por um sistema de tratamento adequado, com o reaproveitamento dos res\u00edduos. Estes dados indicaram que, a maior parte dos atores entrevistados, tem uma percep\u00e7\u00e3o de que o lixo produzido pela cidade deveria ser adequadamente tratado e disposto.<\/p>\n<p>O entendimento perceptivo dos atores quanto ao melhor lugar para fazer a disposi\u00e7\u00e3o final do lixo que uma cidade produz foi variado entre os grupos de profissionais entrevistados.<\/p>\n<p>Questionamos os atores sobre quais os recipientes, habitual e cotidianamente, s\u00e3o utilizados em suas resid\u00eancias para acondicionar o lixo dom\u00e9stico produzido. Todos disseram ter o h\u00e1bito de usar sacolas pl\u00e1sticas para armazenar o lixo, principalmente aquelas fornecidas pelos supermercados e mercearias. Esse h\u00e1bito \u00e9 comum, tanto pelos atores que praticam a coleta domiciliar seletiva, quanto pelos que misturam os res\u00edduos. A maior parte do atores, 52 (59%), disse que em suas resid\u00eancias habitualmente separavam o lixo. Observamos v\u00e1rias formas de separa\u00e7\u00e3o: a mais comum \u00e9 a segrega\u00e7\u00e3o em lixo seco e em res\u00edduos org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Registramos que mesmo nas resid\u00eancias onde o lixo era separado n\u00e3o havia uma destina\u00e7\u00e3o adequada. Geralmente o lixo era recolhido pelo caminh\u00e3o coletor da Prefeitura. No caminh\u00e3o, o lixo era todo misturado e encaminhado ao lix\u00e3o da cidade. O di\u00e1logo de um ator entrevistado ilustra a id\u00e9ia do tratamento dado aos res\u00edduos dom\u00e9sticos:<\/p>\n<p>N\u00f3s colocamos em lixeiros com tampas. N\u00f3s separamos o que \u00e9 org\u00e2nico, digamos assim, em um lixeiro e o que \u00e9 pl\u00e1stico, papel e embalagens. No outro, o que \u00e9 org\u00e2nico e jogamos na horta. O que \u00e9 s\u00f3lido, embalagens, isso vai para o caminh\u00e3o. (Professor universit\u00e1rio).<\/p>\n<p>Os atores disseram que a pr\u00e1tica da coleta domiciliar n\u00e3o seletiva se devia \u00e0 forma com que o lixo era coletado nas resid\u00eancias. Segundo eles, a coleta realizada pelo servi\u00e7o p\u00fablico municipal de Medianeira desestimulava-os, pois mesmo aqueles atores que j\u00e1 haviam iniciado a segrega\u00e7\u00e3o do lixo observaram que quando o lixo era coletado, tudo era misturado. Na fala de um professor universit\u00e1rio encontramos a justificativa:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 separado [&#8230;] Porque na realidade n\u00f3s tentamos separar no in\u00edcio, mas a gente percebia que o caminh\u00e3o joga tudo no mesmo recipiente, ent\u00e3o a gente acabou n\u00e3o separando mais\u201d. Trata-se do mesmo argumento usado por um trabalhador do com\u00e9rcio: \u201cA gente j\u00e1 tentou separar, mas da\u00ed, o lixeiro vem, joga tudo no mesmo lixo. Vai tudo para o mesmo lugar. Da\u00ed n\u00e3o adianta a gente fazer isso\u201d.<\/p>\n<p>Registramos os h\u00e1bitos de segrega\u00e7\u00e3o domiciliar dos res\u00edduos s\u00f3lidos em dois n\u00facleos s\u00edgnicos perceptivos: os atores que separavam o lixo seco do lixo org\u00e2nico e aqueles que n\u00e3o tinham o h\u00e1bito de separa\u00e7\u00e3o. Os h\u00e1bitos dos atores, no que diz respeito ao tratamento do lixo gerado em suas resid\u00eancias, s\u00e3o influenciados, entre outras coisas, pela percep\u00e7\u00e3o que t\u00eam do servi\u00e7o de coleta da cidade. Suas percep\u00e7\u00f5es desse servi\u00e7o p\u00fablico local estimulam as atitudes despreocupadas com a segrega\u00e7\u00e3o. Acerca das atitudes, Tuan (1980, p. 4) lembra que, a forma como agimos frente aos fatos vivenciados,<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] \u00e9 primariamente uma postura cultural, uma posi\u00e7\u00e3o que se toma frente ao mundo. Ela tem maior estabilidade do que a percep\u00e7\u00e3o e \u00e9 formada de uma longa sucess\u00e3o de percep\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, de experi\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>Indagamos aos atores se acreditavam que o lixo poderia causar algum tipo de doen\u00e7a. Sem exce\u00e7\u00e3o, o lixo foi percebido como algo ruim, mal cheiroso, nocivo, associado \u00e0 doen\u00e7a e aos vetores transmissores de doen\u00e7as, especialmente ratos e insetos. Nos argumentos de um trabalhador do com\u00e9rcio, v\u00ea-se a percep\u00e7\u00e3o dos atores sobre a rela\u00e7\u00e3o entre lixo e doen\u00e7as:<\/p>\n<p>\u201cNossa, acho que v\u00e1rias [&#8230;] a leptospirose do rato, acho que em si tamb\u00e9m, uma infec\u00e7\u00e3o intestinal, uma dor de barriga. Bom, eu acho que transmite todos os tipos de doen\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Perguntamos aos entrevistados que cor escolheriam, se pudessem determinar uma que representasse o lixo. Escolhidas as cores investig\u00e1vamos o que representavam. Sistematizamos dois n\u00facleos s\u00edgnicos perceptivos principais enunciados pelos entrevistados: de um lado as cores preta, marrom, cinza e vermelha associadas a algo ruim ou perigoso, e as cores branco, azul, amarelo, verde e rosa associadas a coisas boas.<\/p>\n<p>Segundo Tuan (1980, p. 26): \u201cAs cores, que desempenham um papel importante nas emo\u00e7\u00f5es humanas, podem constituir os primeiros s\u00edmbolos do homem\u201d. Em nossa investiga\u00e7\u00e3o, registramos uma grande variedade de cores escolhidas pelos atores locais para simbolizar o lixo. Por\u00e9m, as cores escuras foram utilizadas para representar o lado ruim do lixo e sua problem\u00e1tica, enquanto as cores claras apontam para o lado bom, o lixo recicl\u00e1vel.<\/p>\n<p>Constatamos que o lixo \u00e9 percebido e associado como algo negativo pela maioria dos atores investigados. Entre os aspectos indicados pelos que associaram o lixo \u00e0s coisas ruins registramos: a sujeira, a polui\u00e7\u00e3o visual, da \u00e1gua, do solo e do ar, a disposi\u00e7\u00e3o inadequada e o mau cheiro.<\/p>\n<p>Nossos resultados se alinham ao que Tuan (1980) prop\u00f5e, ou seja, que todos os povos distinguem entre o preto e o branco associando estas cores \u00e0 escurid\u00e3o e claridade, respectivamente. Tanto a cor preta como a cor branca, possui significados positivos e negativos, dependendo da cultura. Apesar disso, Tuan defende a tese de que o mais se observa \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o do branco \u00e0s coisas positivas e o preto \u00e0s negativas. As cores associadas ao lado ruim do lixo foram maioria.<\/p>\n<p>Registramos com base na percep\u00e7\u00e3o dos atores que as tr\u00eas cores mais lembradas associadas ao lixo foram a preta, a marrom e a vermelha, compondo dois n\u00facleos s\u00edgnicos perceptivos negativos.<\/p>\n<p>Os resultados da nossa investiga\u00e7\u00e3o perceptiva coincidem com que registrou Lynch (1999, p. 48) em seu estudo de percep\u00e7\u00e3o ambiental urbana, ou seja, pessoas se ajustam \u00e0 regi\u00e3o onde habitam e produzem organiza\u00e7\u00e3o e identidade das coisas de seu contexto.<\/p>\n<p>Observamos que os atores sociais expressavam perceptivamente o ambiente a partir da viv\u00eancia, moldando-o, construindo-o e reconstruindo-o na experi\u00eancia cotidiana. E a experi\u00eancia, como disse Peirce, \u00e9 o pr\u00f3prio curso da vida, vinculada intrinsecamente \u00e0s cren\u00e7as e aos h\u00e1bitos institu\u00eddos na cultura do lugar.<\/p>\n<p>Outras Considera\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>O crescimento populacional, a consequente expans\u00e3o territorial urbana e a amplia\u00e7\u00e3o do sistema de produ\u00e7\u00e3o e consumo industrial t\u00eam contribu\u00eddo para agravar as condi\u00e7\u00f5es ambientais, sobretudo do cen\u00e1rio urbano.<\/p>\n<p>No ambiente urbano, determinados impactos ambientais como a polui\u00e7\u00e3o do solo, da \u00e1gua e do ar, ocupa\u00e7\u00e3o desordenada e crescimento de favelas nas periferias, edifica\u00e7\u00e3o de moradias em locais inapropriados ou \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o tais como encostas, margens de rios, mananciais e at\u00e9 regi\u00f5es de mangue precisam ser repensados e novos h\u00e1bitos estimulados.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o humana de ambientes urbanos mais saud\u00e1veis requer do cidad\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o de ser agente principal no processo de intera\u00e7\u00e3o com o meio. O ser humano precisa estimular a percep\u00e7\u00e3o e se compreender como um constituinte da natureza e n\u00e3o como um ser a parte. Esta forma de compreens\u00e3o pressup\u00f5e melhorar as condi\u00e7\u00f5es ambientais, modificando formas de uso e manuten\u00e7\u00e3o do lugar onde habita, pela fixa\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos culturais mais saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Registramos a ocorr\u00eancia de diferentes percep\u00e7\u00f5es entre os atores sociais investigados. A percep\u00e7\u00e3o do ecossistema urbano no que diz respeito aos constituintes ambientais e os impactos negativos &#8211; tanto os percept\u00edveis quanto os impercept\u00edveis &#8211; varia segundo a profiss\u00e3o dos atores sociais e \u00e9 influenciada, principalmente, pelas atividades cotidianas e pelo ambiente onde vivem os atores.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o e tratamento do lixo e o uso da \u00e1gua em Medianeira s\u00e3o intrinsecamente relacionado \u00e0s cren\u00e7as e aos h\u00e1bitos locais institu\u00eddos. Estes determinam o uso no ambiente que, por sua vez, reflete os impactos intensos e grav\u00edssimos para a sa\u00fade humana e o ambiente urbano da cidade. Constatamos que h\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o inadequada de lixo em margens e leito dos rios e ruas, Fundos de Vale e lotes baldios. Tamb\u00e9m registramos a cren\u00e7a local de que o lixo afastado do ambiente urbano n\u00e3o prejudica o morador local, como \u00e9 o caso do lix\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es do lixo em Medianeira s\u00e3o distintamente percebidas, tratadas e valorizadas pelos atores sociais locais. O acesso a um n\u00edvel educacional maior n\u00e3o assegura h\u00e1bitos mais saud\u00e1veis para o ambiente urbano. Registramos que a percep\u00e7\u00e3o ambiental individual se alinha \u00e0s percep\u00e7\u00f5es dos grupos, formando percep\u00e7\u00f5es coletivas que se assemelham. Estas percep\u00e7\u00f5es conformam a imagem ambiental coletiva dos atores.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00f5es de polui\u00e7\u00e3o pela disposi\u00e7\u00e3o inadequada de lixo provocam impactos ambientais negativos em diferentes ecossistemas da cidade como as margens e leito dos rios, margens de ruas e estradas, Fundos de Vale e lotes baldios. Caracterizam as pr\u00e1ticas locais e as formas de uso intensos do ambiente urbano de Medianeira e s\u00e3o determinadas pelos valores culturais, cren\u00e7as e h\u00e1bitos institu\u00eddos. A inadequada utiliza\u00e7\u00e3o dos ambientes urbanos nas cidades do Brasil acena para um comportamento comumente observ\u00e1vel e implicam em danos ambientais graves e inconsequentes.<\/p>\n<p>Encerramos este di\u00e1logo afirmando que a percep\u00e7\u00e3o permeia o conhecimento e que jamais, percep\u00e7\u00e3o e conhecimento podem ser considerados sin\u00f4nimos. A percep\u00e7\u00e3o alimenta o processo de media\u00e7\u00e3o, de julgamento perceptivo, enquanto que o conhecimento \u00e9 um processo epistemol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O homem produz lixo. Por\u00e9m a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, os impactos ambientais passaram a representar s\u00e9rios problemas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-k4HQ-PC4Cfo\/VWPAM6yr26I\/AAAAAAAARvw\/vGggOitOzN4\/s400\/Lixo%2Be%2BImpactos%2BAmbientais%2BUrbanos%2B2.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"421\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, proporcionalmente ao crescimento da consci\u00eancia ambiental e dos impactos do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Ao longo dos \u00faltimos anos, proporcionalmente ao crescimento da consci\u00eancia ambiental e dos impactos do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27179"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27179"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27179\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}