{"id":26058,"date":"2018-08-12T00:00:13","date_gmt":"2018-08-12T03:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=26058"},"modified":"2018-08-12T21:03:29","modified_gmt":"2018-08-13T00:03:29","slug":"um-desafio-permanente-cuidar-de-si-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/um-desafio-permanente-cuidar-de-si-mesmo\/","title":{"rendered":"Um desafio permanente: cuidar de si mesmo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/leonardo_boff.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-3954\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/leonardo_boff.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>Por Leonardo Boff<\/p>\n<p>Ao assumir a categoria \u201ccuidado\u201d na rela\u00e7\u00e3o para com a M\u00e3e Terra e para com todos os seres, o Papa Francisco refor\u00e7ou n\u00e3o s\u00f3 uma virtude mas um verdadeiro paradigma que representa uma alternativa ao paradigma da modernidade que \u00e9 a da vontade de poder \/domina\u00e7\u00e3o que tantos preju\u00edzos trouxe.<\/p>\n<p>Devemos cuidar de tudo, tamb\u00e9m de n\u00f3s mesmos, pois somos o mais pr\u00f3ximo dos pr\u00f3ximos e, ao mesmo tempo, o mais complexo e o mais indecifr\u00e1vel dos seres.<\/p>\n<p>Sabemos quem somos? Para que existimos? Para onde vamos? Refletindo nestas perguntas inadi\u00e1ves vale lembrar a pondera\u00e7\u00e3o de Blaise Pascal (+1662) talvez a mais verdadeira.<\/p>\n<p>Que \u00e9 o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o infinito para onde vai (Pens\u00e9es \u00a7 72).<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o sabemos quem somos. Apenas desconfiamos como diria Guimar\u00e3es Rosa. Na medida em que vamos vivendo e sofrendo, lentamene desvendamos quem somos. Em \u00faltimo termo: express\u00f5es daquela Energia de fundo (Deus ?) que tudo sustenta e tudo dirige.<\/p>\n<p>Junto com aqulo que de fato somos, existe tamb\u00e9m aquilo que potencialmente podemos ser. O potencial pertence tambem ao real, quem sabe, a nossa melhor parte. A partir deste transfundo, cabe elaborarmos\u00a0 chaves de leitura que nos orientam na busca daquilo que\u00a0 queremos e podemos ser.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta busca que o cuidado de si mesmo desempenha uma fun\u00e7\u00e3o decisiva. N\u00e3o se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o pr\u00f3prio eu o que leva, geralmente, a n\u00e3o conhecer-se a si mesmo mas identificar-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, falsa e alienante.<\/p>\n<p>Foi Michel Foucauld com sua minuciosa investiga\u00e7\u00e3o Hermen\u00eautica do sujeito (2004) que tentou resgatar a tradi\u00e7\u00e3o ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos s\u00e1bios do s\u00e9culo II\/III como S\u00eaneca, Marco Aur\u00e9lio, Epicteto e outros. O\u00a0 grande motto era o famoso gh\u00f4ti seaut\u00f3n, conhe\u00e7a-te a ti mesmo. Esse conhecimento n\u00e3o era algo abstrato mas muito concreto como: reconhe\u00e7a-te naquilo que \u00e9s, procure aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tente realizar aquilo que de fato podes.<\/p>\n<p>Neste contexto se abordavam as v\u00e1rias virtudes, t\u00e3o bem discutidas por S\u00f3crates. Ele advertia evitar o pior dos v\u00edcios que para n\u00f3s se tormou comum:a hybris. Hybris \u00e9 o ultrapssar os limites e colocar-se acima dos outros. Talvez o maior impasse da cultura ocidental, da cultura crist\u00e3, especialmente da cultura estadounidense com o seu imaginado Destino Manifesto (o sentir-se o novo povo eleito por Deus) \u00e9 a hybris: o sentimento de superioridade e de excepcionalidade, impondo aos outros nossos valores.<\/p>\n<p>A primeira coisa que importa afirmar \u00e9 que o ser humano \u00e9 um sujeito e n\u00e3o uma coisa. N\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia, constitu\u00edda uma vez por todas mas um n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es sempre ativo que mediante a cadeia das rela\u00e7\u00f5es est\u00e1 continuamente se construindo, como o faz o universo. Todos os seres consoante a nova cosmologia, s\u00e3o portadores\u00a0 de certa subjetividade porque t\u00eam hist\u00f3ria, vivem em intera\u00e7\u00e3o e interdepend\u00eancia de todos com todos, aprendem trocando e acumulando informa\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 um princ\u00edpio cosmol\u00f3gico universal. Mas o ser humano realiza\u00a0 uma modalidade pr\u00f3pria\u00a0 deste princ\u00edpio que \u00e9 o fato de ser um sujeito\u00a0 consciente e reflexo. Ele sabe que sabe e sabe que n\u00e3o sabe e, para sermos completos, n\u00e3o sabe que n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>Este n\u00f3 de rela\u00e7\u00f5es se articula a partir\u00a0 de um Centro ao redor do qual organiza as rela\u00e7\u00f5es com todos os demais. Esse eu profundo nunca est\u00e1 s\u00f3. Sua solid\u00e3o \u00e9 para a comunh\u00e3o. Ele reclama um tu. Melhor, segundo Martin Buber, \u00e9 a partir do tu que o que eu desperta e se forma. Do eu e do tu nasce o n\u00f3s.<\/p>\n<p>O cuidado de si implica, em primeir\u00edssimo lugar, acolher-se a si mesmo, assim como se \u00e9 com suas aptid\u00f5es e seus limites. N\u00e3o com amargura como quem quer modificar a sua situa\u00e7\u00e3o existencial. Mas com jovialidade. Acolher o pr\u00f3prio rosto, cabelos, pernas, seios, sua apar\u00eancia e modo de estar no mundo,\u00a0 em fim seu corpo (Veja Corbin e outros, O corpo, 3 vol. 2008). Quanto mais nos aceitamos menos cl\u00ednicas de cirurgias pl\u00e1sticas existir\u00e3o. Com as caracter\u00edsticas f\u00edsicas que temos, devemos elaborar nosso jeito de ser no mundo.<\/p>\n<p>Nada mais rid\u00edculo que a constru\u00e7\u00e3o artificial de uma beleza moldada em dissson\u00e2ncia com a beleza interior. \u00c9\u00a0 a tentativa v\u00e3 de fazer um \u201cphotoshop\u201d da pr\u00f3pria imagem.<\/p>\n<p>O cuidado de si exige saber combinar as aptid\u00f5es com as motiva\u00e7\u00f5es. N\u00e3o basta termos aptid\u00e3o para a m\u00fasica se n\u00e3o sentimos motiva\u00e7\u00e3o para ser m\u00fasico. Da mesma forma, n\u00e3o nos ajudam as motiva\u00e7\u00f5es para sermos m\u00fasico se n\u00e3o tivermos a aptid\u00e3o para isso. Disperdi\u00e7amos energias e colhemos frustra\u00e7\u00f5es. Ficamos med\u00edocres, o que n\u00e3o\u00a0 engrandece.<\/p>\n<p>Outro componente do cuidado para consigo mesmo \u00e9 saber e aprender a conviver com a dimens\u00e3o de sombra que que acompanha a dimens\u00e3o de luz. Amamos e odiamos. Somos feitos com estas contradi\u00e7\u00f5es. Antropologicamente se diz que somos ao mesmo tempo sapiens e demens, gente de intlig\u00eancia e junto a isso gente de rudeza. Somos o encontro das oposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cuidar de si mesmo \u00e9 poder criar uma s\u00edntese onde as contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se anulam mas o lado luminoso predomina.<\/p>\n<p>Cuidar de si mesmo \u00e9 amar-se, acolher-se, reconhecer sua vulnerabilidade, poder chorar, saber perdoar-se e perdoar e desenvolver a resili\u00eancia que \u00e9 a capacidade de dar a volta por cima e aprender dos erros e contradi\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o escrevemos direito apesar das linhas tortas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Leonardo Boff Ao assumir a categoria \u201ccuidado\u201d na rela\u00e7\u00e3o para com a M\u00e3e Terra<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Leonardo Boff Ao assumir a categoria \u201ccuidado\u201d na rela\u00e7\u00e3o para com a M\u00e3e Terra","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26058"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26058"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26058\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}