{"id":25954,"date":"2015-08-07T14:00:23","date_gmt":"2015-08-07T17:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=25954"},"modified":"2015-08-06T21:06:08","modified_gmt":"2015-08-07T00:06:08","slug":"queijo-feito-do-soro-do-leite-e-especie-de-patrimonio-alimentar-da-corsega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/queijo-feito-do-soro-do-leite-e-especie-de-patrimonio-alimentar-da-corsega\/","title":{"rendered":"Queijo feito do soro do leite \u00e9 esp\u00e9cie de patrim\u00f4nio alimentar da C\u00f3rsega"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/queijo_corsega.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-25959\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/queijo_corsega-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/queijo_corsega-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/queijo_corsega.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Dizer que a C\u00f3rsega \u00e9 uma montanha no mar n\u00e3o \u00e9 for\u00e7a de express\u00e3o. Quase 70% do territ\u00f3rio ficam nas alturas. Dirigir pelo interior da ilha \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o atr\u00e1s da outra. Mas \u00e9 bom n\u00e3o pisar no acelerador.<\/p>\n<p>Uma coisa que impressiona muito s\u00e3o as estradas. Especialmente as de montanha. Estreitinhas, cheias de curva e sempre cruzando abismos. E elas n\u00e3o t\u00eam qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o na lateral. Quer dizer, o motorista tem que ter muito cuidado. Basta um descuido para viagem terminar em acidente.<\/p>\n<p>Por isso, vamos sem pressa. At\u00e9 porque o caminho tem cada surpresa. Al\u00e9m da beleza deslumbrante, uma ponte ainda faz m\u00fasica. A aberturas, no canto da ponte, s\u00e3o como se fossem foles de uma gaita de boca. Quando o vento passa, a ponte come\u00e7a a produzir um tipo de som.<\/p>\n<p>S\u00e3o estradas assim que levam para o interior da ilha, at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da C\u00f3rsega e seus vilarejos cenogr\u00e1ficos. \u00c9 impressionante como eles ficam debru\u00e7ados nas encostas de montanhas e vales, como que desafiando a gravidade. Vistos de longe s\u00e3o muito parecidos uns com os outros, com casinhas que lembram blocos de brinquedo e quase todas da mesma cor. E olha que a C\u00f3rsega tem 365 povoados da mesma forma. Todos erguidos com a solidez do granito. Com ruas estreitas e tortuosas. E de casas simples, austeras, porque ela sempre foi uma ilha de pastores.<\/p>\n<p><strong>Cria\u00e7\u00e3o de cabras e ovelhas s\u00e3o a base da economia<\/strong><\/p>\n<p>Uma tradi\u00e7\u00e3o milenar que Cyrille, Bapti e o filho dele, Jean Daniel, mant\u00eam viva. Eles s\u00e3o produtores de queijo e t\u00eam um rebanho de 250 cabras. E todo santo dia os bichos t\u00eam que subir a montanha para comer. Os pastores v\u00e3o atr\u00e1s. Dez quil\u00f4metros seguindo as cabras. A beleza do lugar n\u00e3o torna a rotina menos dura.<\/p>\n<p>Uma constru\u00e7\u00e3o t\u00edpica das montanhas da C\u00f3rsega se chama pagliaghju. \u00c9 uma casinha de pedras empilhadas. Especialmente no inverno, o pagliaghju serve para guardar a comida das cabras e abrigar os pastores do frio.<\/p>\n<p>As casas de pastores espalhadas pela ilha lembram que a cria\u00e7\u00e3o de cabras e ovelhas sempre esteve na base da economia da C\u00f3rsega. Por l\u00e1 tudo ainda \u00e9 muito r\u00fastico e artesanal. Ao mesmo tempo, o trabalho \u00e9 familiar e caloroso. Cada cabra \u00e9 conhecida pelo nome. E se a m\u00e3e demora para voltar da montanha, o cabritinho ganha leite na mamadeira.<\/p>\n<p>Cyrille passou cinco anos fora da C\u00f3rsega. Encontrou o caminho de volta seguindo os passos da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNa nossa casa, n\u00f3s temos liberdade, paz e qualidade de vida. Isso \u00e9 magn\u00edfico! N\u00e3o h\u00e1 lugar mais lindo\u201d, afirma o produtor de queijo Cyrille Provent.<\/p>\n<p>Sim, os corsos t\u00eam um orgulho danado da terra deles, de sua identidade cultural e tamb\u00e9m do estilo de vida ligado \u00e0 natureza. Ah, e o vilarejo onde moram \u00e9 como se fosse o centro do mundo.<\/p>\n<p>Bapti e Jean Daniel s\u00e3o de Olmeta di Capocorso, apenas 100 habitantes. Eles nos revelam um pouco mais da alma corsa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de cuidar das cabras, pai e filho adoram ca\u00e7ar. A ca\u00e7a ao sanglier, uma esp\u00e9cie de porco selvagem, tem ra\u00edzes profundas na vida desse povo.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu for ca\u00e7ar, ele vem comigo. Quando saio para pescar, ele est\u00e1 comigo. Ele sempre est\u00e1 ao meu lado&#8221;, diz o pastor Jean Baptiste Guerrini.<\/p>\n<p>&#8220;Para mim \u00e9 uma paix\u00e3o, n\u00e3o sei, estar com meu pai \u00e9 o que eu mais amo\u201d, conta Jean Daniel Guerrini.<\/p>\n<p>Depois, provamos a hospitalidade corsa. O Bati convidou a equipe do Globo Rep\u00f3rter para casa dele, para experimentar o queijo de cabra que ele produz e tamb\u00e9m salames corsos t\u00edpicos.<\/p>\n<p>Queijo, salame, p\u00e3o, vinho, um bom papo e uma bela surpresa! Bapti e o filho cantam o canto polif\u00f4nico. Can\u00e7\u00f5es de pastores passadas oralmente de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o h\u00e1 muitos s\u00e9culos na C\u00f3rsega. Jean Daniel aprendeu com o pai e um dia vai ensinar para os filhos.<\/p>\n<p><strong>Maior feira de queijos da C\u00f3rsega<\/strong><\/p>\n<p>A maior feira de queijos da C\u00f3rsega tem um clima barulhento e animado. E muitas, muitas tenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A equipe do Globo Rep\u00f3rter degustou queijos corsos. O primeiro \u00e9 um queijo de cabra chamado venachense. Ele tem um sabor bem marcante, mas bem saboroso. Bom. O segundo \u00e9 de ovelha, sartinisu, mais suave. O terceiro \u00e9 marcante, mais forte: o bastelicacciu. E o quarto e \u00faltimo: chevre, de cabra tamb\u00e9m. Forte, muito forte. Marcante demais. Para quem n\u00e3o est\u00e1 acostumado, n\u00e3o \u00e9 queijo para iniciante, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas se tem um queijo que os corsos cultuam, esse \u00e9 o brocciu. A rever\u00eancia \u00e9 tanta que tem at\u00e9 apresenta\u00e7\u00e3o na feira. O brocciu \u00e9 uma esp\u00e9cie de patrim\u00f4nio alimentar da C\u00f3rsega. Ele \u00e9 um queijo \u00fanico. Ele n\u00e3o \u00e9 feito do leite e sim do soro que sobra da fabrica\u00e7\u00e3o de outros queijos. Os franceses chamam o soro de petit lait, o pequeno leite.<\/p>\n<p>E \u00e9 preciso muita paci\u00eancia e cuidado para acertar o ponto. No fim, o mestre queijeiro ganha aplausos. Est\u00e1 quente, mas quente ou n\u00e3o, a gente vai soprar um pouquinho e provar o brocciu. Tem um sabor delicado que lembra o da ricota. \u00c9 delicioso.<\/p>\n<p><strong>Planta\u00e7\u00f5es de castanheiras como alternativa econ\u00f4mica<\/strong><\/p>\n<p>O destino agora \u00e9 a bel\u00edssima regi\u00e3o da Castagniccia. O nome vem das castanheiras plantadas aqui h\u00e1 muito tempo. Montanha acima, na ca\u00e7amba de uma 4&#215;4 para conhecer um dos patrim\u00f4nios da C\u00f3rsega que s\u00e3o as florestas de castanhas. Nosso anfitri\u00e3o \u00e9 o Stephane, uma figura\u00e7a. Ele disse para chamar o jumento a gente faz tal som, para a chamar as vacas um outro, para o porco um outro ainda e para a chamar minha mulher. Isso vai dar problema em casa.<\/p>\n<p>Bom, a gente n\u00e3o viu nenhuma castanha. Stephane explicou que safra j\u00e1 havia sido colhida e que as \u00e1rvores agora s\u00f3 v\u00e3o ter frutos no fim do ano. Ele produz farinha de castanha. E, como muitos outros corsos, agora est\u00e1 recuperando antigos castanhais.<\/p>\n<p>Quando os genoveses chegaram l\u00e1, h\u00e1 mais de 700 anos, eles obrigaram as fam\u00edlias corsas a plantar castanheiras. Foi uma forma de encontrar alternativa econ\u00f4mica para a ilha e evitar a fome da popula\u00e7\u00e3o. Pela grossura do tronco, esta castanheira deve ser daquele tempo. E os genoveses estavam certos. A farinha de castanha garantiu o sustento dos corsos por s\u00e9culos.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas s\u00f3 comiam polenta de castanha. Todos os dias&#8221;, conta Stephane Guerrine.<\/p>\n<p>Foi assim at\u00e9 a Segunda Guerra Mundial, quando boa parte da popula\u00e7\u00e3o da ilha precisou fugir. As florestas ficaram abandonadas por d\u00e9cadas, lembra Stephane. Agora, junto com a recupera\u00e7\u00e3o dos castanhais vieram novas ideias para a cozinha corsa.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s come\u00e7amos a desenvolver uma arte culin\u00e1ria com a castanha. N\u00f3s fazemos cerveja de castanha e, de um tempo pra c\u00e1, uma grande variedade de bolos e doces&#8221;, diz Stephane Guerrine.<\/p>\n<p>L\u00e1, at\u00e9 a dieta dos porcos \u00e9 \u00e0 base de castanhas. O que d\u00e1 um sabor \u00fanico para a carne. E ao longo do tempo, os corsos se especializaram em fazer coisas deliciosas com ela. A arte tem nome: charcuteria. Lombo, copa, salame e a pe\u00e7a mais nobre: o presunto.<\/p>\n<p>Pascal flori \u00e9 um dos charcutiers mais conhecidos da ilha. Ele ajudou a modernizar a t\u00e9cnica sem abrir m\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEsta \u00e9 uma etapa chave para a produ\u00e7\u00e3o, porque a fuma\u00e7a da lenha de castanheira d\u00e1 ao presunto um aroma sem igual\u201d, explica o charcutier Pascal Flori.<\/p>\n<p>\u00c9 a sete metros de profundidade, em uma esp\u00e9cie de caverna, que o presunto \u00e9 maturado. Cada pe\u00e7a vai ficar l\u00e1 de dois a quatro anos at\u00e9 estar pronta para o consumo. Os produtores acreditam que \u00e9 este contato com a terra, com o solo da ilha, que d\u00e1 ao presunto um sabor todo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O aroma e a umidade mostram quando as pe\u00e7as est\u00e3o no ponto certo. Flori usa um osso de cavalo, que \u00e9 poroso, para ter certeza. Um quilo da iguaria custa quase R$ 300.<\/p>\n<p>Bom, e agora a melhor parte: o presunto corso. Eles chamam de p\u00e9talas, de t\u00e3o fininho que \u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer que a C\u00f3rsega \u00e9 uma montanha no mar n\u00e3o \u00e9 for\u00e7a de express\u00e3o. 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