{"id":24794,"date":"2015-07-18T00:34:38","date_gmt":"2015-07-18T00:34:38","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=24794"},"modified":"2015-07-18T00:34:38","modified_gmt":"2015-07-18T00:34:38","slug":"pegada-hidrica-e-o-uso-consciente-da-agua-nas-metropoles-entrevista-especial-com-vanessa-empinotti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pegada-hidrica-e-o-uso-consciente-da-agua-nas-metropoles-entrevista-especial-com-vanessa-empinotti\/","title":{"rendered":"Pegada h\u00eddrica e o uso consciente da \u00e1gua nas metr\u00f3poles. Entrevista especial com Vanessa Empinotti"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cO manejo e a gest\u00e3o da \u00e1gua nas metr\u00f3poles poderiam assumir uma nova dimens\u00e3o ao proporcionar uma reflex\u00e3o sobre o modelo predominante utilizado hoje para garantir a sua seguran\u00e7a h\u00eddrica e o acesso \u00e0 agua por seus habitantes e atividades econ\u00f4micas\u201d, afirma a engenheira agr\u00f4noma.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i57.tinypic.com\/2h7oymr.jpg\" alt=\"\" width=\"180\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>I<\/em><em>magem: plantevida.com.br<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Al\u00e9m de ser um m\u00e9todo para \u201cidentificar a quantidade de \u00e1gua alocada durante o processo produtivo\u201d, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/534925-a-gestao-dos-recursos-hidricos-num-periodo-de-crise-entrevista-especial-com-pedro-jacobi-\" target=\"_blank\"><strong>pegada h\u00eddrica<\/strong><\/a> pode ser um instrumento importante no sentido de \u201ccontribuir para uma reflex\u00e3o diferente sobre a presen\u00e7a e a utiliza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua no contexto das metr\u00f3poles\u201d, acentua <strong>Vanessa Empinotti<\/strong> na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>. Nesse sentido, pontua, a pegada h\u00eddrica \u201cos auxilia a identificar as diferentes fontes de \u00e1gua utilizadas ou dispon\u00edveis para utiliza\u00e7\u00e3o nas metr\u00f3poles. Hoje em dia, o sistema de abastecimento de \u00e1gua depende de reservat\u00f3rios que s\u00e3o alimentados por rios e consequentemente pela chuva. Entretanto, existem outras fontes que poderiam ser adicionadas a esta <strong>matriz de abastecimento<\/strong>, como a \u00e1gua subterr\u00e2nea e as \u00e1guas provenientes das cisternas que coletam a \u00e1gua da chuva\u201d.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/539705-crise-hidrica-como-sobreviver-e-aprender-com-ela-entrevista-especial-com-pedro-telles\" target=\"_blank\"><strong>crise h\u00eddrica de S\u00e3o Paulo<\/strong><\/a>, exemplifica, demonstra como os recursos locais, a exemplo da \u00e1gua, \u201cs\u00e3o desperdi\u00e7ados devido \u00e0 incapacidade de praticar o<strong> reuso e reciclagem dos recursos h\u00eddricos<\/strong> e de conciliar v\u00e1rias fontes de \u00e1gua para abastecer uma \u00e1rea com alt\u00edssima concentra\u00e7\u00e3o populacional\u201d. No contexto da <strong>metr\u00f3pole<\/strong>, enfatiza, \u00e9 essencial pensar em formas de reuso da \u00e1gua, e \u201co tratamento do esgoto pode se tornar fonte de \u00e1gua para a metr\u00f3pole, diminuindo assim a depend\u00eancia da \u00e1rea pela \u00e1gua localizada fora de seu territ\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/510334-pegada-hidrica-pela-gestao-eficiente-da-agua-entrevista-especial-com-vanessa-empinotti\" target=\"_blank\"><strong>Vanessa Empinotti<\/strong><\/a>\u00a0(foto abaixo) \u00e9 engenheira agr\u00f4noma, graduada pela Universidade Federal do Paran\u00e1 &#8211; UFPR, mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8211; UFRGS e doutora em Ci\u00eancia Ambiental e Geografia pela Universidade do Colorado, EUA. Atualmente cursa o p\u00f3s-doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; USP.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<table align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i62.tinypic.com\/2d6plqb.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto: Jo\u00e3o Vitor Santos &#8211; IHU<\/p>\n<p><\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line \u2013 Do que trata o conceito de \u201cPegada H\u00eddrica\u201d e como podemos compreend\u00ea-lo dentro do contexto das Metr\u00f3poles?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> Enquanto o m\u00e9todo da pegada h\u00eddrica se concentra em identificar a <strong>quantidade de \u00e1gua alocada<\/strong> durante o processo produtivo, o conceito de <strong>\u00e1gua virtual<\/strong> traz aten\u00e7\u00e3o aos fluxos globais de \u00e1gua como consequ\u00eancia da exporta\u00e7\u00e3o de bens ocorrendo hoje no mundo. Estes fluxos ocorrem devido \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de alimentos e do seu impacto sobre a disponibilidade h\u00eddrica dos pa\u00edses compradores e produtores desses produtos. Ou seja, o <strong>pa\u00eds produtor<\/strong> aloca uma quantidade de \u00e1gua \u201cx\u201d na produ\u00e7\u00e3o de um gr\u00e3o, por exemplo. Por outro lado, o pa\u00eds que importa este mesmo gr\u00e3o n\u00e3o precisa alocar a sua \u00e1gua para produzir o mesmo alimento uma vez que ele comprou o alimento. Dessa forma, o pa\u00eds importador economizou a sua \u00e1gua e a utilizou em outras atividades.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 importante observar que n\u00e3o estamos falando do consumo da \u00e1gua ou do seu desaparecimento, e sim de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542216-a-pegada-hidrica-outro-olhar-sobre-consumo-e-gestao-da-agua\" target=\"_blank\"><strong>como a \u00e1gua \u00e9 alocada para a produ\u00e7\u00e3o de bens<\/strong><\/a>. Nesse contexto a Pegada H\u00eddrica se torna o instrumento para quantificar a \u00e1gua alocada durante o processo produtivo, que considera a \u00e1gua proveniente n\u00e3o s\u00f3 de rios, reservat\u00f3rios ou aqu\u00edferos (corpos h\u00eddricos), mas tamb\u00e9m a \u00e1gua proveniente da chuva e, por fim, a quantidade necess\u00e1ria de \u00e1gua para que os \u00edndices de qualidade de \u00e1gua sejam respeitados.<\/p>\n<p>No seu c\u00e1lculo, a <strong>Pegada H\u00eddrica<\/strong> considera a \u00e1gua azul, a \u00e1gua verde e a \u00e1gua cinza. A <strong>\u00e1gua azul<\/strong> corresponde ao consumo de \u00e1gua superficial e subterr\u00e2nea, a <strong>\u00e1gua verde<\/strong> ao consumo de \u00e1gua da chuva armazenada no solo e a <strong>\u00e1gua cinza<\/strong> \u00e0 quantidade de \u00e1gua necess\u00e1ria para diluir ou degradar a polui\u00e7\u00e3o produzida durante o processo produtivo, dessa forma mantendo os n\u00edveis de qualidade de \u00e1gua.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;Estrategicamente pensando, quais as prioridades do uso da \u00e1gua?&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Pegada h\u00eddrica na metr\u00f3pole<\/strong><\/p>\n<p>No contexto da metr\u00f3pole, a pegada h\u00eddrica nos ajuda a entender como a popula\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea n\u00e3o depende apenas da \u00e1gua f\u00edsica presente e dispon\u00edvel no local. Ao consumirmos produtos agr\u00edcolas e industriais produzidos em outras regi\u00f5es, a <strong>\u00e1gua dispon\u00edvel nas metr\u00f3poles<\/strong> \u00e9 principalmente alocada para o abastecimento p\u00fablico e atividades econ\u00f4micas localizadas em seu territ\u00f3rio. As metr\u00f3poles, em geral, n\u00e3o s\u00e3o autossuficientes com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o alimentar ou \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de energia. Tais recursos s\u00e3o produzidos em outros lugares. Assim as metr\u00f3poles s\u00e3o dependentes da importa\u00e7\u00e3o de \u00e1gua virtual que est\u00e1 presente nos produtos produzidos em outras \u00e1reas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pegada h\u00eddrica nos auxilia a identificar as diferentes fontes de \u00e1gua utilizadas ou dispon\u00edveis para utiliza\u00e7\u00e3o nas metr\u00f3poles. Hoje em dia, o sistema de abastecimento de \u00e1gua depende de reservat\u00f3rios que s\u00e3o alimentados por rios e consequentemente pela chuva. Entretanto, existem <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542741-exploracao-de-aquiferos-precisa-se-tornar-mais-sustentavel-dizem-especialistas\" target=\"_blank\">outras fontes<\/a><\/strong> que poderiam ser adicionadas a esta<strong> matriz de abastecimento<\/strong> como a \u00e1gua subterr\u00e2nea e as \u00e1guas provenientes das cisternas que coletam a \u00e1gua da chuva. Dessa maneira, a pegada h\u00eddrica contribui na observa\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o de novas fontes de \u00e1gua e na reflex\u00e3o sobre o <strong>desenvolvimento de sistemas integrados<\/strong> que consideram diferentes fontes de \u00e1gua e sua diferentes utiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por fim, como a <strong>Pegada H\u00eddrica<\/strong> tamb\u00e9m considera a quantidade de \u00e1gua necess\u00e1ria para diluir os efluentes ou poluentes resultantes do processo produtivo, ela traz a quest\u00e3o da \u00e1gua contaminada, como no caso do esgoto, para dentro da discuss\u00e3o. O tratamento do esgoto pode se tornar <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/537186-em-meio-a-crise-hidrica-sao-paulo-usara-agua-de-reuso-esgoto-tratado-no-abastecimento\" target=\"_blank\">fonte de \u00e1gua para a metr\u00f3pole<\/a>, diminuindo assim a depend\u00eancia da \u00e1rea pela \u00e1gua localizada fora de seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Assim, a <strong>pegada h\u00eddrica<\/strong> pode contribuir para uma reflex\u00e3o diferente sobre a presen\u00e7a e a utiliza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua no contexto das metr\u00f3poles, ao possibilitar a identifica\u00e7\u00e3o de fluxos de \u00e1gua reais e virtuais. Neste sentido, o manejo e a gest\u00e3o da \u00e1gua nas metr\u00f3poles poderiam assumir uma nova dimens\u00e3o ao proporcionar uma reflex\u00e3o sobre o modelo predominante utilizado hoje para garantir a sua seguran\u00e7a h\u00eddrica e o acesso \u00e0 agua por seus habitantes e atividades econ\u00f4micas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual tipo de gest\u00e3o o Brasil adota com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua? Qual a import\u00e2ncia da transpar\u00eancia da gest\u00e3o p\u00fablica nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> A transpar\u00eancia pode ocorrer em v\u00e1rios momentos da gest\u00e3o. Se a gest\u00e3o for participativa e descentralizada, como definida pela <strong>Lei das \u00c1guas 9.433<\/strong>, a transpar\u00eancia deveria se concretizar por meio da disponibiliza\u00e7\u00e3o de documentos e informa\u00e7\u00f5es que ir\u00e3o fundamentar o processo de tomada de decis\u00e3o. Ap\u00f3s as decis\u00f5es terem sido tomadas, a transpar\u00eancia pode tamb\u00e9m proporcionar o acompanhamento do andamento das a\u00e7\u00f5es e atividades escolhidas. Por outro lado, a transpar\u00eancia tamb\u00e9m possibilita ao usu\u00e1rio da \u00e1gua acompanhar e monitorar a qualidade da \u00e1gua que ele est\u00e1 recebendo, assim como a sua quantidade, o sistema de distribui\u00e7\u00e3o ou a execu\u00e7\u00e3o do tratamento de esgoto. Assim, \u00e9 importante notar que a <strong>transpar\u00eancia na gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos<\/strong> ocorre em diferentes momentos e tamb\u00e9m tem fun\u00e7\u00f5es distintas. Com isso, a transpar\u00eancia n\u00e3o necessariamente pode levar \u00e0 influ\u00eancia do processo de tomada de decis\u00e3o, mas pode servir como uma ferramenta de monitoramento de a\u00e7\u00f5es propostas. O desdobramento de tais a\u00e7\u00f5es poder\u00e1 fundamentar reinvindica\u00e7\u00f5es pela melhora do acesso \u00e0 \u00e1gua em quantidade e qualidade igual para todos.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;\u00c9 importante pontuar que existe \u00e1gua suficiente no pa\u00eds, a quest\u00e3o agora \u00e9 garantir o seu acesso universal&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma crises h\u00eddricas da Metr\u00f3pole, como no caso de S\u00e3o Paulo, revelam a dimens\u00e3o da problem\u00e1tica do tema em nossas sociedades?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> No caso de <strong>S\u00e3o Paulo<\/strong>, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/535774-crise-da-agua-coloca-a-gestao-de-recursos-hidricos-como-o-problema-do-seculo\" target=\"_blank\"><strong>crise h\u00eddrica<\/strong><\/a> est\u00e1 revelando o papel do governo como principal agente de tomada de decis\u00e3o juntamente com a empresa respons\u00e1vel pelo abastecimento de \u00e1gua. O sistema de gest\u00e3o participativo, baseado em comit\u00eas de bacias e conselhos de recursos h\u00eddricos, n\u00e3o se tornou o espa\u00e7o de tomada de decis\u00e3o, o que \u00e9 preocupante.<\/p>\n<p>Mostra tamb\u00e9m que a busca por \u00e1gua limpa est\u00e1 impulsionando <strong>obras de transposi\u00e7\u00e3o<\/strong> de rios entre bacias e reservat\u00f3rios localizados cada vez mais longe da \u00e1rea da metr\u00f3pole, o que indica uma predile\u00e7\u00e3o por a\u00e7\u00f5es que garantam a oferta de \u00e1gua sobre a redu\u00e7\u00e3o do seu consumo. Por fim, est\u00e1 cada vez mais \u201ccaro\u201d manter rios mortos que se tornaram canais de esgoto a c\u00e9u aberto, que cortam as \u00e1reas urbanas. Ficou claro que, hoje, a \u00e1gua presente nos rios que atravessam a cidade de S\u00e3o Paulo ou a precipita\u00e7\u00e3o que cai na regi\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o as principais fontes de abastecimento de \u00e1gua da metr\u00f3pole. Na verdade, esses recursos locais s\u00e3o desperdi\u00e7ados devido \u00e0 incapacidade de praticar o reuso e reciclagem dos recursos h\u00eddricos e de conciliar v\u00e1rias fontes de \u00e1gua para abastecer uma \u00e1rea com alt\u00edssima concentra\u00e7\u00e3o populacional.<\/p>\n<p>Esta crise evidencia os <strong>limites do modelo de abastecimento<\/strong> presente na metr\u00f3pole, mas at\u00e9 o momento n\u00e3o promoveu o seu ajuste.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma, ao exportar commodities agr\u00edcolas e minerais, se est\u00e1 exportando tamb\u00e9m a riqueza h\u00eddrica do Brasil? Quais as implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas neste processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> Na verdade n\u00e3o se est\u00e1 exportando \u00e1gua, literalmente, quando exportamos commodities ou minerais, o que acontece \u00e9 que estamos alocando uma <strong>quantidade significativa de \u00e1gua<\/strong> para a produ\u00e7\u00e3o de uma commodity agr\u00edcola ou na extra\u00e7\u00e3o de um mineral. Esta \u00e1gua alocada para produ\u00e7\u00e3o naquele momento, n\u00e3o ser\u00e1 utilizada em outros usos. Ent\u00e3o, quando falamos em exporta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua virtual, o que estamos dizendo \u00e9 que o pa\u00eds que produziu a commodity agr\u00edcola alocou a sua \u00e1gua para esta produ\u00e7\u00e3o naquele momento, enquanto o pa\u00eds que importa o alimento utilizou a sua \u00e1gua em outras atividades que n\u00e3o aquela para produzir o alimento importado. Ou seja, o pa\u00eds importador economiza a sua \u00e1gua, uma vez que ele importa o alimento que vem de outro lugar. Dessa forma o pa\u00eds exportador assume as <strong>consequ\u00eancias da utiliza\u00e7\u00e3o<\/strong> da sua \u00e1gua, seja devido \u00e0 polui\u00e7\u00e3o dos corpos h\u00eddricos durante o processo produtivo, seja diminuindo a disponibilidade de \u00e1gua naquele momento.<\/p>\n<p>Com isso, se o pa\u00eds \u00e9 capaz de produzir alimentos, commodities agr\u00edcolas ou extrair minerais e ao mesmo tempo garantir a disponibilidade h\u00eddrica interna, a exporta\u00e7\u00e3o de bens que alocam \u00e1gua na sua produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria um problema. A quest\u00e3o maior \u00e9 pensar sobre as <strong>melhores maneiras<\/strong> de utilizar a \u00e1gua dispon\u00edvel no pa\u00eds. Estrategicamente pensando, quais as prioridades do uso da \u00e1gua? Na nossa<strong> lei<\/strong> (9.433) o<strong> uso priorit\u00e1rio<\/strong> \u00e9 para consumo humano, dessedenta\u00e7\u00e3o animal e produ\u00e7\u00e3o. Atualmente a quest\u00e3o h\u00eddrica no Brasil reflete a falta de execu\u00e7\u00e3o de planos elaborados e discutidos nos espa\u00e7os de negocia\u00e7\u00e3o participativos como previstos pela lei 9.433. O Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses no mundo que \u00e9 capaz de conciliar produ\u00e7\u00e3o de alimentos e gera\u00e7\u00e3o de energia sem sacrificar o abastecimento humano. Se setores da sociedade n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua, n\u00e3o \u00e9 por falta de legisla\u00e7\u00e3o ou planos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o maior \u00e9 refletir sobre a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/538138-abastecimento-humano-de-agua-e-prioritario-mas-e-preciso-pensar-alternativas-para-evitar-a-escassez-dos-recursos-hidricos-entrevista-especial-com-javier-tomasella\" target=\"_blank\"><strong>prioridade do uso da \u00e1gua<\/strong><\/a> e qual a sua estrat\u00e9gia de aloca\u00e7\u00e3o. Se a prioridade \u00e9 o seu acesso democr\u00e1tico, que esse seja o principal mote para orientar as pol\u00edticas p\u00fablicas e programas de governo. \u00c9 importante pontuar que <strong>existe \u00e1gua suficiente<\/strong> no pa\u00eds, a quest\u00e3o agora \u00e9 garantir o seu acesso universal. A produ\u00e7\u00e3o pode conviver com o acesso universal \u00e0 \u00e1gua.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;\u00c9 interessante e triste notar que a agenda ambiental n\u00e3o est\u00e1 nas ruas&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que implica\u00e7\u00f5es pode haver na gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos feitos por empresas de economia mista com a\u00e7\u00f5es no mercado financeiro? Que contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o evidentes nessa din\u00e2mica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> No caso de abastecimento p\u00fablico e analisando o que est\u00e1 ocorrendo em S\u00e3o Paulo hoje, podemos observar que o entendimento predominante \u00e9 que a <strong>distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 um neg\u00f3cio<\/strong>. Em consequ\u00eancia, existe a contradi\u00e7\u00e3o entre pr\u00e1ticas que levem \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do consumo e pr\u00e1ticas que garantam a disponibilidade do recurso, ou seja, de um lado garantir a oferta de \u00e1gua a qualquer custo e do outro promover pr\u00e1ticas de redu\u00e7\u00e3o de demanda. Assim, uma empresa na qual o seu neg\u00f3cio \u00e9 distribuir \u00e1gua, sua principal estrat\u00e9gia ser\u00e1 a de garantir esta oferta por meio da constru\u00e7\u00e3o de reservat\u00f3rios, sistemas de distribui\u00e7\u00e3o, transposi\u00e7\u00e3o de \u00e1guas, dessaliniza\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e tratamento do esgoto.<\/p>\n<p>Por outro lado, quando a \u00e1gua \u00e9 entendida como um direito humano, o objetivo da sua distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 torn\u00e1-la dispon\u00edvel para todos e nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Nesse caso, a distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio ou produto, onde quem tem dinheiro compra, mas sim um direito que deve ser garantido a todos. Assim, n\u00e3o s\u00f3 medidas para garantir a oferta seriam utilizadas, mas tamb\u00e9m para diminuir a demanda, uma vez que o objetivo final \u00e9 garantir que <strong>todos tenham acesso \u00e0 \u00e1gua<\/strong> em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Ou seja, no momento em que a \u00e1gua e sua distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o vistas como neg\u00f3cio, ela seguir\u00e1 as regras de mercado, que nem sempre priorizam a universaliza\u00e7\u00e3o do seu acesso sobre os rendimentos e lucros.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as particularidades do consumo de \u00e1gua no campo, especialmente na agricultura, e na Metr\u00f3pole?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> A \u00e1gua \u00e9 alocada de diferentes maneiras e depende das caracter\u00edsticas de produ\u00e7\u00e3o e da mat\u00e9ria-prima utilizada. No caso dos produtos agr\u00edcolas, a aloca\u00e7\u00e3o de \u00e1gua ser\u00e1 maior do que se comparado a algumas pr\u00e1ticas industriais ou \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Isso porque a agricultura produz alimentos por meio do cultivo de plantas, seres vivos que consomem \u00e1gua durante a sua vida. Dessa forma, quando comparamos as diferentes etapas do processo produtivo, a <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/541028-professor-critica-injustica-hidrica-e-uso-excessivo-da-agua-pela-agricultura\" target=\"_blank\">atividade agr\u00edcola<\/a><\/strong> ter\u00e1 uma pegada h\u00eddrica maior que o processo de beneficiamento dos produtos.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 importante observar que para promover a<strong> redu\u00e7\u00e3o da necessidade h\u00eddrica<\/strong> das plantas, um dos poucos caminhos \u00e9 o melhoramento gen\u00e9tico que leva ao desenvolvimento de plantas que necessitem de menos \u00e1gua para produzir. J\u00e1 a <strong>metr\u00f3pole<\/strong> se caracteriza por ter sua \u00e1gua alocada predominantemente para as atividades de abastecimento p\u00fablico e industriais. Hoje, observamos que, das outorgas de uso da \u00e1gua (licen\u00e7as de uso da \u00e1gua expedidas pelo estado), distribu\u00eddas na bacia hidrogr\u00e1fica do alto Tiet\u00ea, 59% correspondem a licen\u00e7as para abastecimento p\u00fablico e lan\u00e7amento de efluentes dom\u00e9sticos, enquanto 39% correspondem \u00e0 licen\u00e7a para uso da \u00e1gua pela ind\u00fastria local.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;Quest\u00f5es ambientais n\u00e3o s\u00e3o consideradas problemas enquanto as pessoas tiverem poder de compra&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Na sua avalia\u00e7\u00e3o, por que o tema dos recursos h\u00eddricos n\u00e3o faz parte da agenda pol\u00edtica nem do Estado nem da sociedade civil em larga escala? Como avalia a aus\u00eancia do tema nas manifesta\u00e7\u00f5es da Multid\u00e3o em Junho de 2013?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> \u00c9 interessante e triste notar que a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/541150-agenda-ambiental-nao-e-prioridade-do-estado-brasileiro-entrevista-especial-com-carlos-rittl\" target=\"_blank\"><strong>agenda ambiental<\/strong><\/a> n\u00e3o est\u00e1 nas ruas. N\u00e3o s\u00f3 a da \u00e1gua como tamb\u00e9m de nenhuma outra. Quest\u00f5es ambientais n\u00e3o s\u00e3o consideradas problemas enquanto as pessoas tiverem poder de compra. Quem n\u00e3o tem \u00e1gua ou energia \u00e9 aquele que n\u00e3o pode pagar por ela. Ao mesmo tempo as <strong>manifesta\u00e7\u00f5es de 2013<\/strong> indicaram um descompasso entre o aumento da renda, a emerg\u00eancia de uma nova classe m\u00e9dia, a diminui\u00e7\u00e3o da pobreza com as condi\u00e7\u00f5es de infraestrutura e servi\u00e7os presentes no pa\u00eds. A quest\u00e3o n\u00e3o era ambiental nem se preocupava com os n\u00edveis de consumo, mas sim de qualidade de vida, sem reconhecer que uma est\u00e1 ligada \u00e0 outra. A quest\u00e3o ambiental ainda \u00e9 vista como uma bandeira rom\u00e2ntica, enquanto a <strong>perspectiva econ\u00f4mica<\/strong> \u00e9 a que prevalece.<\/p>\n<p>Ainda se d\u00e1 prefer\u00eancia em garantir as necessidades b\u00e1sicas das pessoas, inclusive \u00e1gua, mas sem pensar como isto est\u00e1 relacionado \u00e0 forma como transformamos a natureza. Nesse sentido vamos nos acostumando e aceitando a conviv\u00eancia com passivos ambientais, como os <strong>rios polu\u00eddos<\/strong> que cortam \u00e1reas urbanas, a ponto de essa realidade se tornar normal e aceit\u00e1vel. A refer\u00eancia se tornou um rio sujo, e n\u00e3o o limpo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Frente a tal contexto, estamos diante de que tipos de desafios? Que alternativas se tornam vi\u00e1veis em um cen\u00e1rio social em que aumenta a concentra\u00e7\u00e3o populacional em Metr\u00f3poles que n\u00e3o s\u00e3o sustent\u00e1veis do ponto de vista h\u00eddrico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vanessa Empinotti &#8211;<\/strong> O desafio \u00e9 romper com a maneira que pensamos o <strong>manejo dos recursos h\u00eddricos<\/strong> hoje. A concentra\u00e7\u00e3o populacional \u00e9 uma realidade e o modelo de gest\u00e3o e abastecimento atual n\u00e3o conseguem garantir o acesso \u00e0 \u00e1gua em condi\u00e7\u00f5es de seca. A oportunidade que temos agora \u00e9 de refletir e ajustar. Entretanto, com o aumento da incid\u00eancia de <strong>eventos extremos<\/strong> em per\u00edodos mais curtos, se insistirmos pelo modelo atual teremos uma nova crise em pouco tempo. Talvez, agora, com a intensifica\u00e7\u00e3o e altera\u00e7\u00e3o das din\u00e2micas de precipita\u00e7\u00e3o, seremos obrigados a <strong>repensar as nossas pr\u00e1ticas<\/strong> sob pena de sofrermos cada vez mais.<\/p>\n<p><em>Por Ricardo Machado e Patricia Fachin<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <strong>IHU On-Line<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO manejo e a gest\u00e3o da \u00e1gua nas metr\u00f3poles poderiam assumir uma nova dimens\u00e3o ao<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cO manejo e a gest\u00e3o da \u00e1gua nas metr\u00f3poles poderiam assumir uma nova dimens\u00e3o ao","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24794"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24794\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}