{"id":24397,"date":"2015-07-11T18:14:06","date_gmt":"2015-07-11T18:14:06","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=24397"},"modified":"2015-07-11T18:14:06","modified_gmt":"2015-07-11T18:14:06","slug":"incompetencia-e-ganancia-nas-terras-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/incompetencia-e-ganancia-nas-terras-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Incompet\u00eancia e gan\u00e2ncia nas terras da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Amazoniacapashutterstock_214682953.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-197293\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Amazoniacapashutterstock_214682953.jpg\" alt=\"Vista a\u00e9rea da Amaz\u00f4nia Brasileira. Foto: Shutterstock\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Washington Novaes \u2013<\/em><\/p>\n<p>O caderno especial do Jornal O Estado de S. Paulo Favela Amaz\u00f4nia \u2013 um novo retrato da floresta (5\/7), coordenado por Leonencio Nossa \u2013 \u00e9 documento que precisa ser conhecido por todos. \u00c9, ao mesmo tempo, um retrato da devasta\u00e7\u00e3o no bioma amaz\u00f4nico e um libelo sobre os formatos impiedosos da atua\u00e7\u00e3o humana naquela parte do nosso territ\u00f3rio \u2013 e suas consequ\u00eancias dram\u00e1ticas internamente e para o inquietante drama do clima. Que se pode dizer quando se tem diante dos olhos os n\u00fameros \u2013 um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o das grandes e m\u00e9dias cidades vivendo em \u201cterrit\u00f3rios do tr\u00e1fico\u201d, condi\u00e7\u00f5es mais desfavor\u00e1veis que a das favelas do Rio e de S\u00e3o Paulo, m\u00e1fias controlando o programa Bolsa Fam\u00edlia? Onde a biodiversidade \u2013 alto privil\u00e9gio para o Pa\u00eds \u2013 vai sendo perdida em alta velocidade?<\/p>\n<p>A geografia pol\u00edtica deu ao Brasil condi\u00e7\u00e3o excepcional: territ\u00f3rio continental, sol o ano todo, quase 12% de toda a \u00e1gua superficial do planeta, pelo menos 15% da biodiversidade total, possibilidade de matriz energ\u00e9tica limpa e renov\u00e1vel num mundo em crise por causa das emiss\u00f5es de poluentes. Mas vamos desperdi\u00e7ando tudo, por incompet\u00eancia e gan\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 poucas semanas o Brasil prometeu (Estado, 1.\u00ba\/7), em declara\u00e7\u00e3o conjunta com os Estados Unidos, restaurar e reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares de florestas e acabar com o desmatamento ilegal \u201cat\u00e9 2030\u201d; da mesma forma, comprometeu-se a aumentar em 20% as fontes internas de energias renov\u00e1veis, at\u00e9 2030 \u2013 meta que o professor Jos\u00e9 Goldemberg achou \u201cpouco ambiciosa\u201d. O Observat\u00f3rio do Clima (1.\u00ba\/7) considerou insuficientes os objetivos. Quando nada, porque a demanda de energia vai crescer 70% em 15 anos; e as emiss\u00f5es setoriais devem chegar a 800 milh\u00f5es de toneladas de carbono equivalentes em 2030.<\/p>\n<p>V\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es continuam a prever que os n\u00edveis de desmatamento em 2015 devem superar os do per\u00edodo anterior. Ainda assim, o governo federal cortou em 72% os recursos contra o desmatamento na Amaz\u00f4nia, de R$ 6,36 bilh\u00f5es para R$ 1,78 bilh\u00e3o (amazonia.org 1\/4).<\/p>\n<p>Quando se vai para o cap\u00edtulo de projetos de hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia, a inquieta\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode crescer. Dossi\u00ea do Instituto SocioAmbiental (ISA) sobre o projeto da hidrel\u00e9trica de Belo Monte (29\/6) traz uma s\u00edntese de erros e omiss\u00f5es que ali est\u00e3o sendo cometidos; 24 especialistas condenam o que est\u00e1 acontecendo na \u00e1rea \u2013 inclusive desmatamento e explora\u00e7\u00e3o ilegais de madeira, destrui\u00e7\u00e3o das atividades pesqueiras, perda do modo de vida tradicional nas comunidades removidas, perda da biodiversidade nas ilhas formadas no reservat\u00f3rio, amea\u00e7as a comunidades ind\u00edgenas. A mortalidade infantil cresceu 127% entre 2010 e 2012.<\/p>\n<p>Em Altamira j\u00e1 foi feita a demoli\u00e7\u00e3o de 4 mil casas e barracos para abrir espa\u00e7o para o lago; 7,8 mil fam\u00edlias, com 27 mil pessoas, tiveram de ser reassentadas. Ainda assim, n\u00e3o se conseguiu ligar a primeira turbina em fevereiro, como estava previsto \u2013 \u201cparece um cen\u00e1rio de guerra\u201d, dizem os cr\u00edticos.<\/p>\n<p>A cidade, que em 2010 tinha 100 mil habitantes, passou para 150 mil com o projeto da hidrel\u00e9trica (Estado, 28\/6), no valor de R$ 32 bilh\u00f5es, que prometia saneamento b\u00e1sico para 10% da popula\u00e7\u00e3o \u2013 mas n\u00e3o saiu do papel; 2 mil processos est\u00e3o em andamento na \u00e1rea, onde trabalham 24 mil pessoas (40 mil com os empregos indiretos).<\/p>\n<p>Mais complicado ainda parece o destino de outro projeto, em Itaituba: o da usina S\u00e3o Luiz do Tapaj\u00f3s, no valor de R$ 30 bilh\u00f5es, que j\u00e1 nem se sabe se se concretizar\u00e1, dados o envolvimento na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e as conclus\u00f5es de 20 mil p\u00e1ginas de estudos de t\u00e9cnicos ambientais sobre os prov\u00e1veis impactos da planejada \u201cusina plataforma\u201d de 8 mil MW. A Eletrobr\u00e1s nega haver falhas no projeto, mas o pr\u00f3prio presidente da Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica, Maur\u00edcio Tolmasquim, admite que \u201ch\u00e1 riscos\u201d, at\u00e9 porque surgiram problemas complicados com \u00e1reas ind\u00edgenas \u2013 que ele espera resolver com consultas aos grupos que se acham prejudicados, como exige a Justi\u00e7a (amazonia.org 18\/6).<\/p>\n<p>Segundo o Greenpeace (Eco 21, maio 2015), 19% da floresta amaz\u00f4nica foi removido em 19 anos \u2013 o que \u00e9 extremamente grave, porque a Amaz\u00f4nia \u201ctranspira\u201d diariamente para a atmosfera 20 bilh\u00f5es de toneladas de vapor d\u2019\u00e1gua e isso tem influ\u00eancia decisiva no clima e no regime h\u00eddrico de outras regi\u00f5es, principalmente no Centro-Oeste e no Sudeste, por causa dos \u201crios voadores\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, lembra o Instituto Centro de Vida do Cerrado (8\/6) que 46% da \u00e1rea florestal explorada em Mato Grosso num per\u00edodo de ano ocorreu ilegalmente \u2013 139 mil hectares ou 31% mais que no per\u00edodo anterior, afetando tamb\u00e9m \u00e1reas ind\u00edgenas, para retirar 3 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de madeira.<\/p>\n<p>E ainda \u00e9 preciso lembrar que metade do carbono que as \u00e1rvores amaz\u00f4nicas capturam da atmosfera \u00e9 aprisionada por apenas 1% das esp\u00e9cies da floresta, segundo estudo da Universidade de Leeds, no Reino Unido (ambientebrasil, 15\/5). A Amaz\u00f4nia tem 16 mil esp\u00e9cies de \u00e1rvores, mas apenas 182 dominam o processo de captura de gases que afetam o efeito estufa. O bioma responde por 14% do carbono assimilado pela fotoss\u00edntese e abriga 17% de todo o carbono estocado em vegeta\u00e7\u00e3o no planeta.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode deixar de preocupar saber (amazonia.org, julho 2015) que pelo menos 70% das esp\u00e9cies selvagens nas 3.456 ilhas formadas pelo lago da hidrel\u00e9trica de Balbina (2,36 mil km2) \u201cest\u00e3o condenadas \u00e0 extin\u00e7\u00e3o\u201d, segundo estudo da bi\u00f3loga Ma\u00edra Benchimol. E isso ter\u00e1 fortes repercuss\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, reiterar as observa\u00e7\u00f5es do pesquisador Ant\u00f4nio Donato Nobre, do Inpe e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Eco 21, dezembro de 2014): \u201cO grande respons\u00e1vel por manter o clima ameno no cora\u00e7\u00e3o do continente sul-americano \u00e9 a floresta amaz\u00f4nica\u201d. Mas \u201cela est\u00e1 sendo destru\u00edda\u201d, com 726.979 km2 j\u00e1 removidos , chegando a 2.062.914 km2 com o acr\u00e9scimo da degrada\u00e7\u00e3o em outras \u00e1reas.<\/p>\n<p><em>* <strong>Washington Novaes<\/strong> \u00e9 jornalista.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Washington Novaes \u2013 O caderno especial do Jornal O Estado de S. 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