{"id":24323,"date":"2015-07-11T00:00:57","date_gmt":"2015-07-11T00:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=24323"},"modified":"2015-07-10T19:09:11","modified_gmt":"2015-07-10T19:09:11","slug":"entrevista-especial-com-marcio-astrini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-marcio-astrini\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com M\u00e1rcio Astrini"},"content":{"rendered":"<p>\u201cTemos que ter o cuidado de n\u00e3o acharmos que tudo ir\u00e1 se definir em Paris, mesmo porque a solu\u00e7\u00e3o real se d\u00e1 nas a\u00e7\u00f5es concretas em cada pa\u00eds. L\u00e1 temos a chance de dar um salto fundamental nas negocia\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o iremos resolver todos os problemas\u201d, adverte o coordenador da \u00e1rea de desmatamento do Greenpeace.<\/p>\n<p><img class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/i62.tinypic.com\/2qte7wg.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" \/>O an\u00fancio feito pela presidente Dilma em encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama, de que iria se esfor\u00e7ar para acabar com o desmatamento ilegal nas florestas brasileiras foi \u201cbem estranho\u201d, disse M\u00e1rcio Astrini, na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line, por e-mail.<\/p>\n<p>\u201cAtacar a ilegalidade n\u00e3o passa de dever do cargo\u201d, frisou, lembrando que o desmatamento \u201cainda \u00e9 o maior vetor de emiss\u00f5es\u201d de g\u00e1s carb\u00f4nico no pa\u00eds. \u201cO estranho disso tudo \u00e9 que, como a presidente s\u00f3 tem mais tr\u00eas anos no cargo e a meta de fim da ilegalidade \u00e9 para 2030, ela sentencia que durante sua gest\u00e3o teremos que continuar convivendo com a ilegalidade no setor. \u00c9 um recado muito ruim\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Astrini enfatiza ainda que, embora o Brasil n\u00e3o tenha apresentado suas metas para a COP-21, a \u201cimpress\u00e3o\u201d que se tem \u00e9 a de que \u201co governo j\u00e1 se d\u00e1 por satisfeito com a redu\u00e7\u00e3o do desmatamento dos \u00faltimos anos e vai aguardar o desenrolar das negocia\u00e7\u00f5es para ver se coloca algo novo sobre a mesa\u201d. Segundo ele, apesar de os \u00edndices de desmatamento terem diminu\u00eddo nos \u00faltimos anos, ainda n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para comemorar, porque \u201ch\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada tivemos o segundo pior \u00edndice de floresta perdida da hist\u00f3ria, com 27.700 km2 s\u00f3 na Amaz\u00f4nia. Hoje estamos com uma taxa em torno dos 5.000 km2, isto \u00e9, sa\u00edmos de um patamar absurdo, mas ainda temos um n\u00famero muito grande\u201d.<\/p>\n<p>Para ele, a COP-21, que acontece em Paris no final deste ano, apresenta dois desafios centrais: o primeiro diz respeito \u00e0s metas nacionais que os pa\u00edses prometer\u00e3o cumprir, e o segundo, ao fato de cumpri-las, que \u201c\u00e9 um caso a parte\u201d. Entre os pontos mais dif\u00edceis da negocia\u00e7\u00e3o est\u00e1 o princ\u00edpio das responsabilidades comuns e diferenciadas, que \u00e9 explicado por duas analogias. \u201c\u00c9 como estarmos compartilhando uma mesa em um restaurante onde alguns j\u00e1 jantaram, beberam e est\u00e3o na sobremesa. Outros chegaram mais tarde e ainda est\u00e3o no prato de entrada e alguns sequer se sentaram \u00e0 mesa. Mas a conta chegou neste exato momento e, obviamente, n\u00e3o \u00e9 justo que todos paguem a mesma quantia. H\u00e1 que se fazer uma divis\u00e3o e quem consumiu mais, paga mais. Esta \u00e9 a analogia que se faz quando se discutem nas confer\u00eancias as responsabilidades sobre o problema e, portanto, quem tem mais deveres. Por\u00e9m, por outro lado, tamb\u00e9m h\u00e1 a analogia de que o barco est\u00e1 afundando e, se ficarmos discutindo apenas de quem \u00e9 a culpa dos furos no casco do navio, acabaremos todos no fundo do mar. Achar uma equa\u00e7\u00e3o justa entre estes dois mundos n\u00e3o \u00e9 simples, mas, certamente, quando os compromissos come\u00e7am a aparecer de forma concreta, \u00e9 mais f\u00e1cil de aproximar os lados e chegar a um acordo\u201d, conclui.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/14056-o-que-sera-do-ambiente-brasileiro-entrevista-especial-com-marcio-astrini\" target=\"_blank\"><strong><img class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/i62.tinypic.com\/ehhf8.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/strong><\/a>M\u00e1rcio Astrini \u00e9 coordenador da \u00e1rea de desmatamento do Greenpeace.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong> IHU On-Line \u2013 Em encontro recente, a presidente Dilma e o presidente Obama se comprometeram em intensificar a colabora\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses para combater os desafios ligados \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tanto em n\u00edvel bilateral como no \u00e2mbito da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima &#8211; UNFCCC. Avaliando as declara\u00e7\u00f5es dos presidentes, o senhor afirmou que \u201cn\u00e3o houve acordos concretos nem an\u00fancio de metas que representam algo novo\u201d. Como avalia, ent\u00e3o, os discursos presidenciais acerca do enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas? Por que n\u00e3o surge nada novo por parte dos chefes de Estado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini<\/strong> &#8211; A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 referente ao anunciado pela Presidente Dilma. Nos campos priorit\u00e1rios que devemos nos debru\u00e7ar no Brasil para aumentar nossa contribui\u00e7\u00e3o no combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, n\u00e3o houve nenhuma novidade ou meta anunciada. O anunciado pela presidente foi, ali\u00e1s, bem estranho. Dilma afirmou que iria se esfor\u00e7ar para acabar com a ilegalidade no desmatamento de nossas florestas, tendo como meta o ano de 2030. O desmatamento ainda \u00e9 o nosso maior vetor de emiss\u00f5es. Atacar a ilegalidade n\u00e3o passa de dever do cargo. Portanto, considerando que este e todos os demais governos sempre se empenharam em cumprir a lei, n\u00e3o h\u00e1 nada de novo a ser implementado pelo governo na quest\u00e3o florestal. O estranho disso tudo \u00e9 que, como a presidente s\u00f3 tem mais tr\u00eas anos no cargo e a meta de fim da ilegalidade \u00e9 para 2030, ela sentencia que durante sua gest\u00e3o teremos que continuar convivendo com a ilegalidade no setor. \u00c9 um recado muito ruim.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o foi apresentado nenhum plano novo para as florestas, nenhum indicativo de novas pol\u00edticas. Nada de novo. Ali\u00e1s, nada de novo mesmo, porque acabar com a ilegalidade j\u00e1 havia sido anunciado no Plano de Clima do governo em 2008. Perdemos anualmente mais de 1,1 milh\u00e3o de hectares entre Amaz\u00f4nia e Cerrado. Sem maiores esfor\u00e7os, este desmatamento vai continuar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Ainda sobre o comprometimento ambiental, a presidente disse que o Brasil pretende atingir, at\u00e9 2030, de 28% a 33% na matriz energ\u00e9tica de fontes renov\u00e1veis de energia, reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares de florestas at\u00e9 2030, dar continuidade a pol\u00edticas destinadas a eliminar o desmatamento ilegal e a promessa de um compromisso brasileiro ambicioso de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es para a COP-21. Que sinais o pa\u00eds est\u00e1 dando no sentido de cumprir essas metas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> No setor de energia, segundo maior emissor de gases de efeito estufa do pa\u00eds, esse percentual de 28% \u00e9 o que j\u00e1 existe de renov\u00e1veis na nossa matriz energ\u00e9tica, portanto continuar\u00edamos onde j\u00e1 estamos. Se alcan\u00e7armos o teto do intervalo anunciado, isto \u00e9, 33%, o incremento ser\u00e1 muito t\u00edmido no setor. Lan\u00e7amos um estudo onde demonstramos como conseguir\u00edamos atingir em torno de 45% de renov\u00e1veis at\u00e9 2030. J\u00e1 reflorestar ou recuperar 12 milh\u00f5es de hectares \u00e9 o que j\u00e1 deve ser feito segundo a legisla\u00e7\u00e3o brasileira que, ali\u00e1s, fala em 24 milh\u00f5es de hectares, isto \u00e9, o dobro do anunciado.<\/p>\n<p>Quanto a termos um compromisso ambicioso para a COP-21, n\u00e3o \u00e9 o que tenho ouvido. A impress\u00e3o \u00e9 que o governo j\u00e1 se d\u00e1 por satisfeito com a redu\u00e7\u00e3o do desmatamento dos \u00faltimos anos e vai aguardar o desenrolar das negocia\u00e7\u00f5es para ver se coloca algo novo sobre a mesa. Nesta linha, o pa\u00eds vem perdendo a grande oportunidade de se postar como l\u00edder neste debate e influenciar positivamente o acordo com exemplos concretos. E precisamos fazer isso. Mudan\u00e7a de clima pode significar preju\u00edzos para nosso pa\u00eds em setores fundamentais da economia e, principalmente, efeitos sociais perversos, com aumento de desigualdades.<\/p>\n<p>Quem paga a conta de um mundo mais quente s\u00e3o pa\u00edses que dependem de agricultura como o nosso e que t\u00eam popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o social vulner\u00e1vel. Pequenos agricultores e assentados sofrer\u00e3o mais do que aqueles que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es financeiras para se adaptar, por exemplo. Devemos ser mais agressivos na quest\u00e3o. H\u00e1 duas semanas uma rede de ONGs chamada Observat\u00f3rio do Clima, da qual fazemos parte, lan\u00e7ou uma proposta do que poderia ser esse compromisso brasileiro ambicioso, com metas para cada principal setor emissor da economia. Este plano ainda demonstra como sua implementa\u00e7\u00e3o poderia trazer oportunidades de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda para o pa\u00eds. O governo tem at\u00e9 o final de setembro para enviar \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas o documento oficial de metas. Vamos torcer e cobrar para que seja realmente ambicioso, mas n\u00e3o \u00e9 o que vem sendo sinalizado at\u00e9 agora, prova disso s\u00e3o as pr\u00f3prias declara\u00e7\u00f5es recentes da presidente no encontro com Obama.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel especular em que ir\u00e1 consistir a proposta do Brasil para a COP-21?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> Ainda n\u00e3o. H\u00e1 muitos estudos ainda sendo feitos e outros j\u00e1 finalizados dentro do governo para subsidiar essas decis\u00f5es. Isso \u00e9 uma coisa boa. Gerar informa\u00e7\u00f5es, saber os potenciais e os riscos de cada setor do ponto de vista econ\u00f4mico e social \u00e9 fundamental. Mas sabemos que a decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas baseada na l\u00f3gica, h\u00e1 um componente pol\u00edtico e de estrat\u00e9gia de negocia\u00e7\u00e3o muito grande e que muitas vezes \u00e9 imperativo nestes compromissos. Temos um pouco mais de 60 dias para saber quais ser\u00e3o as propostas do Brasil. Espero que elas n\u00e3o se baseiem no discurso feito pela presidente Dilma nos EUA.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O desmatamento foi considerado, por um tempo, um dos maiores vil\u00f5es no Brasil para a emiss\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico. Depois, noticiou-se que houve uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do desmatamento e nos \u00faltimos tempos j\u00e1 se fala de um aumento dos \u00edndices. Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do desmatamento hoje no pa\u00eds? Qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o do desmatamento na emiss\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico? <\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> Temos que tomar muito cuidado ao analisarmos o decr\u00e9scimo dos \u00edndices de desmatamento para n\u00e3o imaginarmos que, por conta da queda, os n\u00fameros est\u00e3o bons. N\u00e3o est\u00e3o. H\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada tivemos o segundo pior \u00edndice de floresta perdida da hist\u00f3ria, com 27.700 km2 s\u00f3 na Amaz\u00f4nia. Hoje estamos com uma taxa em torno dos 5.000 km2, isto \u00e9, sa\u00edmos de um patamar absurdo, mas ainda temos um n\u00famero muito grande. A redu\u00e7\u00e3o \u00e9 importante e \u00e9 uma vit\u00f3ria de toda a sociedade, mas perder 5.000 km2 por ano significa que ainda estamos acumulando derrotas para as motosserras e, se continuarmos assim, a floresta um dia acaba.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o fica ainda mais inaceit\u00e1vel se considerarmos que, com o que temos hoje de \u00e1reas abertas desmatadas e subutilizadas, poder\u00edamos dobrar nossa produ\u00e7\u00e3o de alimentos sem derrubar mais nenhum hectare de floresta. Portanto, o desmatamento pode e tem que acabar. E se acabar far\u00e1 bem ao pa\u00eds, pois nossas florestas s\u00e3o a melhor garantia que temos de distribui\u00e7\u00e3o de chuvas \u00e0s lavouras e aos estoques de \u00e1gua das cidades. Desmatar faz mal para o futuro. No Cerrado, os \u00edndices s\u00e3o ainda piores.<\/p>\n<p>O desmatamento representa mais de 1\/3 das emiss\u00f5es brasileiras, seguido da \u00e1rea de energia, com 30% (incluindo transportes), e da agropecu\u00e1ria, com 26%. Estes dados s\u00e3o de 2013 e devem ser atualizados em breve.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que vis\u00f5es acerca das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas o Brasil compartilha com os EUA?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> O que h\u00e1 s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es de ambos os lados, mas sem nada de concreto ainda acontecendo. Todos dizem que combater as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 importante e urgente. Se as a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas tivessem equival\u00eancia aos discursos proferidos pelos l\u00edderes de todos os pa\u00edses, j\u00e1 estar\u00edamos com este assunto resolvido. No mundo real, o que se faz \u00e9 bastante diferente do que se fala. Entre Brasil e EUA, uma agenda real conjunta poderia ocorrer, por exemplo, na \u00e1rea de energia, com a expans\u00e3o da fonte solar no Brasil. Seria uma boa agenda comum para ser trabalhada. Gera emprego, diminui a conta de luz das pessoas e nos ajudaria a garantir seguran\u00e7a energ\u00e9tica. \u00c9 positiva do ponto de vista ambiental, econ\u00f4mico e social, mas precisa ganhar corpo e a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. J\u00e1 nos EUA, \u00e9 necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a brusca nos padr\u00f5es de consumo e de uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis atuais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O Brasil tem peso pol\u00edtico nas Confer\u00eancias do Clima? Qual? <\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> Muito peso. O pa\u00eds \u00e9 reconhecido nestas confer\u00eancias pela sua habilidade nas negocia\u00e7\u00f5es, tanto para fazer bons acordos quanto para travar pautas. Nossa diplomacia \u00e9 talentosa. Tamb\u00e9m somos um dos principais emissores mundiais, portanto nossas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o decisivas para a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es. A popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds tamb\u00e9m \u00e9 muito grande e o Brasil \u00e9 um pa\u00eds em desenvolvimento. Juntando estes dois fatores, se n\u00e3o tivermos um plano de crescimento baseado em matriz energ\u00e9tica renov\u00e1vel, por exemplo, nossa curva de emiss\u00f5es pode aumentar muito. Ainda h\u00e1 o fator florestal. Acabar com as emiss\u00f5es de florestas via o fim do desmatamento e us\u00e1-las para remover carbono da atmosfera \u00e9 a forma mais simples e barata para se combater o aquecimento do planeta. E n\u00f3s temos a maior floresta tropical do mundo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m somos um grande produtor de alimentos. Mudan\u00e7as de clima podem p\u00f4r em risco boa parte deste potencial, afetando seriamente produtores, principalmente os mais pobres, comprometendo seriamente a renda dessas pessoas assim como a oferta desses produtos ao mundo. Esses e outros fatores nos fazem estrat\u00e9gicos nessas negocia\u00e7\u00f5es e fazem tamb\u00e9m essas negocia\u00e7\u00f5es serem estrat\u00e9gicas ao futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como a proposta do G-7, de banir o uso de petr\u00f3leo, g\u00e1s natural e carv\u00e3o at\u00e9 2100, deve repercutir na COP-21? O impacto deve ser positivo ou negativo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> O impacto do an\u00fancio pode ser positivo, mas tem um efeito reverso se n\u00e3o for colocado em pr\u00e1tica. Agora eles precisam dizer como e apresentar um plano real para fazerem isso, definindo as etapas, recursos e dando transpar\u00eancia ao acompanhamento das a\u00e7\u00f5es. N\u00f3s vamos pressionar, inclusive, para que este banimento ocorra antes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A China n\u00e3o faz parte do G-7. Qual \u00e9 o peso de o pa\u00eds se opor \u00e0 decis\u00e3o do G-7 de algum modo? Como o an\u00fancio do G-7 recoloca a discuss\u00e3o do princ\u00edpio de responsabilidades compartilhadas, por\u00e9m diferenciadas, que ser\u00e1 feita na COP-21?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> A China tem peso em toda e qualquer decis\u00e3o de clima que possa ocorrer, pois \u00e9 o pa\u00eds que mais emite. Sozinha, \u00e9 respons\u00e1vel por quase \u00bc das emiss\u00f5es globais. Qualquer sucesso nas negocia\u00e7\u00f5es e no combate ao aquecimento do planeta passa pelos chineses darem uma contribui\u00e7\u00e3o ambiciosa no processo.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio das responsabilidades comuns e diferenciadas \u00e9 um ponto sempre dos mais dif\u00edceis nestas negocia\u00e7\u00f5es. \u00c9 como estarmos compartilhando uma mesa em um restaurante onde alguns j\u00e1 jantaram, beberam e est\u00e3o na sobremesa. Outros chegaram mais tarde e ainda est\u00e3o no prato de entrada e alguns sequer se sentaram \u00e0 mesa. Mas a conta chegou neste exato momento e, obviamente, n\u00e3o \u00e9 justo que todos paguem a mesma quantia. H\u00e1 que se fazer uma divis\u00e3o e quem consumiu mais, paga mais. Esta \u00e9 a analogia que se faz quando se discutem nas confer\u00eancias as responsabilidades sobre o problema e, portanto, quem tem mais deveres. Por\u00e9m, por outro lado, tamb\u00e9m h\u00e1 a analogia de que o barco est\u00e1 afundando e, se ficarmos discutindo apenas de quem \u00e9 a culpa dos furos no casco do navio, acabaremos todos no fundo do mar. Achar uma equa\u00e7\u00e3o justa entre estes dois mundos n\u00e3o \u00e9 simples, mas, certamente, quando os compromissos come\u00e7am a aparecer de forma concreta, \u00e9 mais f\u00e1cil de aproximar os lados e chegar a um acordo; portanto, este an\u00fancio ajuda na discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que aspectos s\u00e3o diferentes hoje do que foi \u00e0 \u00e9poca em que se prop\u00f4s Kyoto, tanto em rela\u00e7\u00e3o aos dados acerca das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas quanto acerca da postura dos pa\u00edses no sentido de tomar uma decis\u00e3o de enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> Acredito que as informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas sobre as altera\u00e7\u00f5es do clima, o sentido de urg\u00eancia e a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica s\u00e3o pontos positivos. No ano passado os cientistas cravaram a certeza de que o que est\u00e1 ocorrendo com o planeta \u00e9 devido \u00e0 a\u00e7\u00e3o humana; isto faz diferen\u00e7a. O envolvimento crescente da popula\u00e7\u00e3o e da opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 fundamental, pois s\u00f3 pressionados os l\u00edderes desses mais de 190 pa\u00edses que comp\u00f5em as confer\u00eancias de clima se chegar\u00e1 a um acordo satisfat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Temos agora gestos valios\u00edssimos como a enc\u00edclica do Papa Francisco e estudos que demonstram o quanto o aquecimento do planeta afeta a sa\u00fade das pessoas e desperdi\u00e7a investimentos em pesquisas. S\u00e3o fatores sociais e humanos que contribuem muito no debate. H\u00e1 tamb\u00e9m o infeliz fato de que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o cada vez mais presentes em formas de cat\u00e1strofes naturais ao redor do mundo, castigando principalmente popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 necessitadas, o que deixa o sinal vermelho do aquecimento do planeta ainda mais vis\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais dever\u00e3o ser os pontos mais dif\u00edceis de negocia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> As responsabilidades dos pa\u00edses e, principalmente, chegar a uma quantidade e qualidade suficiente de compromissos para limitar o aquecimento do planeta a 2\u00baC. Este \u00faltimo ponto dificilmente se encerrar\u00e1 em Paris. Neste momento 194 pa\u00edses est\u00e3o escrevendo suas promessas sobre clima. Em Paris, saberemos se estas promessas s\u00e3o suficientes ou n\u00e3o e, caso n\u00e3o sejam, o quanto ainda falta para esta conta fechar. Portanto, esta \u00e9 uma etapa. Chegar ao volume e \u00e0 consist\u00eancia necess\u00e1rios de promessas \u00e9 um desafio. Cumpri-las, ent\u00e3o, \u00e9 um caso a parte.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual deve ser o peso e a relev\u00e2ncia da COP-21 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais Confer\u00eancias do Clima?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> Uma etapa importante, ou das mais importantes. Mas temos que ter o cuidado de n\u00e3o acharmos que tudo ir\u00e1 se definir em Paris, mesmo porque a solu\u00e7\u00e3o real se d\u00e1 nas a\u00e7\u00f5es concretas em cada pa\u00eds. L\u00e1 temos a chance de dar um salto fundamental nas negocia\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o iremos resolver todos os problemas. Se acharmos que tudo ser\u00e1 resolvido em dezembro na Fran\u00e7a, poderemos nos decepcionar e correremos o risco de n\u00e3o nos concentrarmos em construir os avan\u00e7os para caminhar rumo \u00e0 solu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Mas \u00e9 claro que, para isso, alguns desses avan\u00e7os importantes precisam de fato ocorrer em Paris, como estabelecer o compromisso do fim do uso dos combust\u00edveis f\u00f3sseis para 2050, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que cen\u00e1rio est\u00e1 vislumbrando para a COP-21? Diferente das outras Confer\u00eancias do Clima, nesta h\u00e1 mais evid\u00eancias de que os chefes de Estado poder\u00e3o chegar a um acordo global para substituir Kyoto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Astrini &#8211;<\/strong> N\u00e3o se trata apenas de substituir Kyoto, mas de fazer o que precisa ser feito. Vai haver muita cobran\u00e7a sobre os negociadores e chefes de Estado. O governo Franc\u00eas parece muito empenhado em garantir a presen\u00e7a maci\u00e7a de presidentes e primeiros-ministros l\u00e1. Neste m\u00eas de julho os cientistas do painel de clima ir\u00e3o atualizar os dados sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e fazer novas e talvez mais fortes recomenda\u00e7\u00f5es para serem encaminhadas aos pa\u00edses. A imprensa deve fazer uma ampla cobertura. O Papa lan\u00e7ou uma enc\u00edclica sobre meio ambiente, um documento absolutamente fundamental e precioso. As pessoas estar\u00e3o de olho. Temos, portanto, a opini\u00e3o p\u00fablica, a f\u00e9 e a ci\u00eancia cobrando por um acordo. Vamos trabalhar com isso, precisamos pressionar para ter bons resultados. Espero que eles venham.<\/p>\n<p>Fonte: IHU On-Line &#8211; Patr\u00edcia Fachin<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTemos que ter o cuidado de n\u00e3o acharmos que tudo ir\u00e1 se definir em Paris,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cTemos que ter o cuidado de n\u00e3o acharmos que tudo ir\u00e1 se definir em Paris,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24323"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24323\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}