{"id":24056,"date":"2015-07-05T14:54:37","date_gmt":"2015-07-05T14:54:37","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=24056"},"modified":"2015-07-05T14:54:37","modified_gmt":"2015-07-05T14:54:37","slug":"o-planeta-azul-promessas-para-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-planeta-azul-promessas-para-o-futuro\/","title":{"rendered":"O planeta azul: promessas para o futuro"},"content":{"rendered":"<p>Artigo de John Parsons*<\/p>\n<p>O aumento populacional for\u00e7a a busca por atalhos que permitam satisfazer uma popula\u00e7\u00e3o que cresce. Mas, como evitar, nesse processo, o progressivo envenenamento do ar, do mar, do solo?<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.akatu.org.br\/Content\/Akatu\/Arquivos\/image\/Noticias\/serradesaojoseCC.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"420\" \/><br \/>\nFoto: Serra de S\u00e3o Jos\u00e9. em Tiradentes (MG) &#8211; Cr\u00e9dito: S\u00f4nia Rigueira\/Wikimedia Commons<\/p>\n<p>Neste novo mil\u00eanio, entrevemos, com novos telesc\u00f3pios, o come\u00e7o dos tempos nas extremidades do universo; com novos microsc\u00f3pios, penetramos na intimidade das menores bact\u00e9rias e c\u00e9lulas; e com a eletr\u00f4nica, guardamos, processamos e compartilhamos estas informa\u00e7\u00f5es. J\u00e1 entre os pol\u00edticos n\u00e3o se v\u00ea essa mesma evolu\u00e7\u00e3o, pois continuam prometendo honestidade e abund\u00e2ncia sem limites.<\/p>\n<p>Em mais uma elei\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica, em maio deste ano, os candidatos esgrimam com promessas de honestidade, de compet\u00eancia e \u2013 principalmente \u2013 de abund\u00e2ncia, com pouca diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de 1834, dos escritos de Charles Dickens. Mudaram sim os meios de transporte e divulga\u00e7\u00e3o e, desde as d\u00e9cadas de 1970 e 80, aumentou muito a cornuc\u00f3pia de bens considerados nas promessas.<\/p>\n<p>Mas, a natureza das promessas n\u00e3o mudou. Francis Bacon, tr\u00eas s\u00e9culos atr\u00e1s, prop\u00f4s expandir o alcance do homem para al\u00e9m da Terra, ao propor que \u201cn\u00f3s devemos estabelecer e estender o poder e dom\u00ednio da pr\u00f3pria ra\u00e7a humana sobre o Universo\u201d. Ser\u00e1 que Bacon foi prof\u00e9tico em sua proposta? Humberto Eco levantou esta quest\u00e3o no seu livro \u201cO Nome da Rosa\u201d, quase 20 anos depois de Gagarin ver a Terra do espa\u00e7o e onze anos depois de Armstrong pisar na lua.<\/p>\n<p>Ele imaginou uma cena em um Monast\u00e9rio, onde o monge Guilherme de Baskerville estava olhando as janelas da biblioteca pelo lado de fora do pr\u00e9dio. Ele tentava mapear, pelo lado externo, o labirinto dentro do pr\u00e9dio onde ele e seu disc\u00edpulo haviam se perdido na noite anterior. Ao ver a tentativa do mestre, o disc\u00edpulo mostrou surpresa, argumentando que o labirinto era invis\u00edvel pelo lado de fora do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>O mestre replicou: \u201cAssim Deus conhece o mundo, porque o concebeu em sua mente, como se estivesse de fora, antes que fosse criado, enquanto n\u00f3s desconhecemos suas regras porque moramos dentro dele e o encontramos j\u00e1 pronto e feito.\u201d O livro, publicado em 1980, data de uma \u00e9poca em que come\u00e7ava a mudar a nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo. A Terra foi vista do espa\u00e7o, do lado de fora, e se revelava um planeta azul.<\/p>\n<p>No entanto, a sua ocupa\u00e7\u00e3o pela ra\u00e7a humana n\u00e3o mudou e as elei\u00e7\u00f5es modernas apenas confirmam a vis\u00e3o de que, mesmo frente a enormes desastres naturais, o homem continua a seguir a profecia de Bacon continuando a buscar estabelecer e estender o poder e dom\u00ednio da ra\u00e7a humana sobre o planeta.<\/p>\n<p>Basta ver, na reelei\u00e7\u00e3o do Presidente Obama, quando apesar de um imenso desastre natural, decorrente da gigantesca tempestade que assolou New York uma semana antes da elei\u00e7\u00e3o, e da revela\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio Stern que mostrou que custaria muito menos mudar o quadro energ\u00e9tico do que conviver com suas consequ\u00eancias clim\u00e1ticas, o discurso eleitoral se manteve.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o brasileira de 2014 n\u00e3o foi diferente, pois nem clima nem meio ambiente foram assunto central. Da mesma forma como ocorreu na Inglaterra, onde, apesar da visibilidade dada por muitos anos aos resultados do relat\u00f3rio Stern, nada mudou na elei\u00e7\u00e3o de maio de 2015. Dom\u00ednio ou conv\u00edvio ? Eis a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Como exemplo, a agricultura intensiva est\u00e1 baseada no dom\u00ednio: as plantas n\u00e3o s\u00e3o alimentadas pelos microorganismos do solo, mas sim pelos produtos qu\u00edmicos aplicados. A produ\u00e7\u00e3o aumenta a curto prazo, mas o solo deteriora, os alimentos ficam contaminados, e, gradualmente, a depend\u00eancia dos produtos qu\u00edmicos aumenta.<\/p>\n<p>J\u00e1 a pr\u00e1tica agroecol\u00f3gica est\u00e1 baseada no conv\u00edvio: cuida-se do solo em primeiro lugar, pois o solo saud\u00e1vel cuida das plantas e permite uma produ\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, um pouco melhor a cada ano. Assim \u00e9 com o planeta. O aumento populacional for\u00e7a a busca por atalhos que permitam satisfazer uma popula\u00e7\u00e3o que cresce em n\u00famero e nas suas demandas.<\/p>\n<p>Mas, como evitar, nesse processo, o progressivo envenenamento do ar, do mar, do solo? \u00c9 preciso caminhar na dire\u00e7\u00e3o do conv\u00edvio, o que requer uma mudan\u00e7a nas pr\u00e1ticas e nas regras, o que, por sua vez, exige das elei\u00e7\u00f5es uma nova postura em rela\u00e7\u00e3o ao que diz respeito aos cuidados com a vida na Terra, promovendo a substitui\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio pelo conv\u00edvio.<\/p>\n<p>Analisando historicamente, outras mudan\u00e7as na vis\u00e3o sobre o mundo tamb\u00e9m demoraram para entrar no conhecimento geral. Isso foi verdade, por exemplo, quando Copernicus, no s\u00e9culo XVI, prop\u00f4s que a Terra n\u00e3o era o centro do Universo; ou quando Issac Newton fez sua descoberta not\u00e1vel de que as mesmas leis que controlavam os movimentos na Terra regiam tamb\u00e9m os seres celestiais; ou ainda com a revela\u00e7\u00e3o, por Darwin, de que os humanos descendiam dos macacos, o que levou a um grande esc\u00e2ndalo, frente \u00e0 amea\u00e7a, desconfort\u00e1vel para os mais bem sucedidos, de que talvez n\u00e3o fossem mais fortes por favorecimento de Deus.<\/p>\n<p>Tampouco houve grande mudan\u00e7a em 1961, quando Yuri Gagarin viu a Terra do espa\u00e7o e exclamou: \u201cO planeta \u00e9 azul ! \u00c9 maravilhoso !\u201d. A humanidade continuou vivendo na biosfera, em sua c\u00e1psula oxigenada, como se fosse uma cornuc\u00f3pia inesgot\u00e1vel de recursos, uma Nave Espacial a servi\u00e7o de mais uma etapa de seu projeto de \u201cdom\u00ednio do Universo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 quando Anthony Armstrong anunciou seu \u201cgreat leap for mankind\u201d (um grande passo para a humanidade) ao pisar na lua em 1969, o Planeta Azul come\u00e7ou a ter um outro significado, ao menos para alguns cientistas. Um dos cientistas contratados pela NASA, no in\u00edcio de sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a presen\u00e7a de vida em Marte, o Prof. James Lovelock, percebeu a diferen\u00e7a entre a Terra e os demais planetas. Apontou que nosso planeta era o \u00fanico a mostrar, no seu espectro, gases reativos que, juntos, s\u00e3o emitidos e absorvidos em grandes quantidades, enquanto que a atmosfera dos demais planetas \u00e9 neutra, saturada.<\/p>\n<p>&#8220;Em Ages of Gaia&#8221; (Idades de Gaia), de 1988, Lovelock prop\u00f5e uma nova vis\u00e3o para a vida na Terra, apontando que a presen\u00e7a da vida em um planeta \u00e9 muito mais do que um acidente superficial: \u201cDevemos olhar a Terra na nossa imagina\u00e7\u00e3o com outros olhos&#8230;. o canto incessante da vida pode ser detectado por qualquer um que esteja equipado com um receptor, at\u00e9 de fora do sistema solar. A vida de um planeta precisa estar apta para regular seu clima e sua composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o parcial de um planeta n\u00e3o seria suficiente para controlar as for\u00e7as por detr\u00e1s da sua evolu\u00e7\u00e3o f\u00edsica e qu\u00edmica.\u201d Por muito tempo, o pr\u00f3prio Lovelock achou dif\u00edcil acreditar como era poss\u00edvel haver uma regula\u00e7\u00e3o das coisas vivas por elas mesmas em algo t\u00e3o grande como um planeta, de forma a permitir a manuten\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a vida durante bilh\u00f5es de anos. Mas, a realidade \u00e9 que a vida se manteve enquanto aumentou em 30% o calor emitido pela estrela em torno da qual o planeta gira.<\/p>\n<p>Como isso \u00e9 poss\u00edvel? Em 1971, Lovelock come\u00e7ou sua frut\u00edfera colabora\u00e7\u00e3o com a microbiologista Lynn Margulis, que j\u00e1 vinha pesquisando os micro organismos que comp\u00f5e a vida na Terra. Ap\u00f3s quase 20 anos de pesquisas, publicaram suas descobertas em 1988. Como nas situa\u00e7\u00f5es anteriores em que as percep\u00e7\u00f5es no mundo estavam fortemente enraizadas, demorou muito para o mundo se convencer de que o planeta \u00e9 um sistema \u00fanico, uma teia de vida que, atrav\u00e9s de micro organismos, funciona como um ecossistema para se manter vivo.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o em 1992 de seu livro definitivo, com o nome de Gaia, explicado em linguagem acess\u00edvel e muito ilustrado, abriu campo para ainda mais perguntas e tamb\u00e9m para mais pesquisas que, hoje, confirmam e corroboram os conceitos da sua teoria. Assim, ficou clara a necessidade da mudan\u00e7a do paradigma do dom\u00ednio para o do conv\u00edvio. O Planeta Azul \u00e9 sustentado pela sua pr\u00f3pria teia de vida, na qual todos os seres vivos dependem de todos os demais, inclusive a pr\u00f3pria humanidade. Tudo o que nele vive faz parte integral dessa teia. N\u00e3o h\u00e1 ser vivo separado. Tudo o que \u00e9 vivo faz parte de um imenso ecossistema que se auto sustenta.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s estamos, quase que literalmente, em um novo mundo, um lugar muito mais peculiar do que aquele de alguns s\u00e9culos atr\u00e1s, mais dif\u00edcil de entender, sobre o qual \u00e9 mais arriscado especular, e vivo de informa\u00e7\u00e3o&#8230; Parece que n\u00e3o h\u00e1 apenas mais para ser aprendido, existe tudo para se aprender\u201d, escreveu Lewis Thomas, no pref\u00e1cio para \u201cIdades de Gaia \u2013 uma biografia de nossa Terra viva\u201d, de James Lovelock. Querendo ou n\u00e3o, fazemos parte de um ecossistema que dita certas regras para nosso comportamento. \u00c9 hora de incluir estas regras nas promessas eleitorais e nos curr\u00edculos escolares.<\/p>\n<p>*John Parsons \u00e9 ecologista, sediado em Tiradentes, Minas Gerais. Observa\u00e7\u00e3o por Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu: John teve um papel central no tombamento da Serra de S\u00e3o Jos\u00e9 e na recupera\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o da cidade de Tiradentes. Homem de imenso conhecimento e erudi\u00e7\u00e3o, dedica grande parte de seu tempo a conhecer e divulgar, por onde passa e com todos com quem conversa, os princ\u00edpios que regem Gaia. Tem clara sua miss\u00e3o de ecologista, e a pratica em seu cotidiano, no seu modo de viver, de pensar, de refletir, e de influenciar incessantemente, sem descanso, aqueles que o rodeiam. Um verdadeiro mission\u00e1rio trabalhando a favor do respeito a todo tipo de vida no planeta, sempre fascinado com a natureza e inconformado com a falta de compreens\u00e3o das pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s leis que a definem. O mundo seria muito melhor e mais sustent\u00e1vel se tiv\u00e9ssemos mais pessoas com as qualidades e a persist\u00eancia de John Parsons.<\/p>\n<p>Fonte: Instituto Akatu<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de John Parsons* O aumento populacional for\u00e7a a busca por atalhos que permitam satisfazer<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Artigo de John Parsons* O aumento populacional for\u00e7a a busca por atalhos que permitam satisfazer","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24056"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24056"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24056\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}