{"id":23752,"date":"2015-06-30T16:46:26","date_gmt":"2015-06-30T16:46:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=23752"},"modified":"2015-06-30T16:46:26","modified_gmt":"2015-06-30T16:46:26","slug":"como-os-desodorantes-usados-nos-anos-1970-prejudicam-o-ambiente-ainda-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/como-os-desodorantes-usados-nos-anos-1970-prejudicam-o-ambiente-ainda-hoje\/","title":{"rendered":"Como os desodorantes usados nos anos 1970 prejudicam o ambiente ainda hoje"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/desodorante.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-23753\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/desodorante-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/desodorante-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/desodorante.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O fl\u00faor \u00e9 um g\u00e1s que pode causar problemas s\u00e9rios. E tamb\u00e9m \u00e9 usado para fabricar uma s\u00e9rie de outros gases artificiais, alguns dos quais quase deixaram a humanidade exposta a queimaduras por luz ultravioleta &#8211; e ainda hoje contribuem para o aquecimento do planeta.<\/p>\n<p>&#8220;O fl\u00faor \u00e9 o Tiranossauro Rex da tabela peri\u00f3dica&#8221;, diz o professor de Qu\u00edmica Andrea Sella. &#8220;Ele reage espontaneamente com qualquer outro elemento, exceto h\u00e9lio, ne\u00f4nio e arg\u00f4nio.&#8221;<\/p>\n<p>Se voc\u00ea algum dia se deparar com fl\u00faor elementar, puro, ver\u00e1 que ele tem uma apar\u00eancia in\u00f3cua: \u00e9 um g\u00e1s p\u00e1lido, de cor amarela. Mas na verdade ele \u00e9 t\u00e3o perigoso que o departamento onde Sella trabalha, na University College London, em Londres, sequer guarda a subst\u00e2ncia em estoque.<\/p>\n<p>O g\u00e1s tem um cheiro parecido com o do cloro, diz Sella. &#8220;Mas se voc\u00ea cheirar fl\u00faor, saia correndo o mais r\u00e1pido que pode.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Planeta &amp; Clima: Montreal, Kyoto que deu certo<\/strong><\/p>\n<p>Sella tem uma garrafa de um outro material assustador &#8211; o \u00e1cido hidrofluor\u00eddrico. Sua acidez &#8211; ou seja, a reatividade dos \u00edons de hidrog\u00eanio que ele cont\u00e9m &#8211; n\u00e3o \u00e9 na verdade t\u00e3o forte quanto a dos \u00e1cidos hidroclor\u00eddrico e sulf\u00farico.<\/p>\n<p>Ainda assim, trata-se de uma subst\u00e2ncia excepcionalmente nociva, porque os ferozes \u00edons de fl\u00faor podem penetrar no seu corpo profundamente. &#8220;\u00c9 uma queimadura incrivelmente dolorosa, que voc\u00ea n\u00e3o consegue tratar porque o g\u00e1s est\u00e1 l\u00e1 dentro&#8221;, diz Sella.<\/p>\n<p>Uma vez dentro, o fl\u00faor &#8220;engole&#8221; o c\u00e1lcio do corpo, o que pode levar \u00e0 fal\u00eancia card\u00edaca nos casos mais extremos.<\/p>\n<p>A corrosividade do \u00e1cido hidrofluor\u00eddrico tem suas utilidades, por exemplo, no corte de vidro ou na fabrica\u00e7\u00e3o de circuitos de microchip.<\/p>\n<p>Mas esse g\u00e1s nocivo \u00e9 usado principalmente para produzir uma s\u00e9rie de outras subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que, em comum, possuem uma propriedade surpreendente: s\u00e3o incrivelmente n\u00e3o reativas, ou seja, n\u00e3o reagem quimicamente com facilidade.<\/p>\n<p>&#8220;O resultado dessa extrema reatividade do elemento fl\u00faor \u00e9 que seus componente s\u00e3o incrivelmente est\u00e1veis&#8221;, explica Sella. &#8220;Mol\u00e9culas cercadas por fl\u00faor s\u00e3o como uma tartaruga cercada por uma carapa\u00e7a que voc\u00ea n\u00e3o pode quebrar.&#8221;<\/p>\n<p>O Teflon (nome comercial da subst\u00e2ncia politetrafluoretileno), por exemplo, \u00e9 composto por longas cadeias de \u00e1tomos de carbono envoltas em fl\u00faor. Quando o carbono e o fl\u00faor se unem, formam um material particularmente forte e quimicamente impenetr\u00e1vel. Ele n\u00e3o reage ao calor, \u00e0 eletricidade, nem a outros produtos qu\u00edmicos (incluindo \u00e1cidos e solventes). E tamb\u00e9m \u00e9 a subst\u00e2ncia com menor atrito que se conhece. Por tudo isso, \u00e9 ideal para revestir panelas.<\/p>\n<p>A pasta de dente \u00e9 um outro exemplo. Ela cont\u00e9m quantidades min\u00fasculas dos agressivos \u00edons de fl\u00faor. Por\u00e9m, uma vez na sua boca, os \u00edons se combinam ao c\u00e1lcio nos seus dentes para criar uma camada protetora de fluoreto de c\u00e1lcio, bastante resistente.<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 os gases &#8211; os &#8220;gases F&#8221;, como s\u00e3o chamados.<\/p>\n<p>Os mais not\u00f3rios s\u00e3o os clorofluorcarbonetos, ou CFCs &#8211; compostos de fl\u00faor, carbono e cloro &#8211; que, como se descobriu na d\u00e9cada de 1980, estavam destruindo a camada de oz\u00f4nio na atmosfera.<\/p>\n<p>As mol\u00e9culas de CFC s\u00e3o robustas o suficiente para atingir, intactas, as regi\u00f5es superiores da atmosfera. Uma vez l\u00e1, poderosos raios ultravioleta do sol quebram as mol\u00e9culas, liberando o cloro que, por sua vez, come\u00e7a a destruir o oz\u00f4nio \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Como o oz\u00f4nio filtra as ondas mais nocivas de ultravioleta emitidas pelo sol, isso \u00e9 problem\u00e1tico. Caso a libera\u00e7\u00e3o do CFC tivesse continuado, a quantidade de ultravioleta atingindo a superf\u00edcie da Terra teria aumentado at\u00e9 cem vezes, causando queimaduras extremas e c\u00e2ncer de pele.<\/p>\n<p>Os gases CFC come\u00e7aram a ser produzidos em massa porque foram identificados como um refrigerante perfeito &#8211; um fluido que passa rapidamente da forma gasosa para a l\u00edquida e vice-versa, absorvendo e liberando grandes quantidades de calor no processo.<\/p>\n<p>Por causa disso, podiam ser circulados por refrigeradores ou aparelhos de ar condicionado para transferir o calor para fora. Sua r\u00e1pida habilidade de resposta tamb\u00e9m faz com que sejam usados como propelentes em sprays e aeross\u00f3is, como os de desodorantes.<\/p>\n<p>Seu inventor foi o qu\u00edmico americano Thomas Midgley Jr. (1889-1944), homem que teve uma vida um tanto quanto tr\u00e1gica: intoxicou-se com chumbo ap\u00f3s despejar a subst\u00e2ncia em suas pr\u00f3prias m\u00e3os para tentar provar que n\u00e3o era t\u00f3xica. Contraiu poliomielite na meia idade e construiu um mecanismo que o ajudava a sair da cama. No entanto, acabou morrendo asfixiado na engenhoca.<\/p>\n<p>Segundo o qu\u00edmico Ian Shankland, que hoje tenta desenvolver subst\u00e2ncias com propriedades refrigerantes na gigante da ind\u00fastria qu\u00edmica Honeywell, os CFCs inventados por Midgley tiveram consequ\u00eancias s\u00e9rias para o mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Se voltarmos aos anos 1920&#8221;, ele diz, &#8220;refrigerantes eram inflam\u00e1veis, como os hidrocarbonos, t\u00f3xicos, como a am\u00f4nia, ou inflam\u00e1veis e t\u00f3xicos, como o metil cloro. Havia acidentes e pessoas morriam&#8221;.<\/p>\n<p>Os CFCs, no entanto, eram aparentemente inertes, ent\u00e3o Midgley achou que tinha criado uma alternativa &#8220;segura&#8221; &#8211; o que levou \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de aparelhos de ar condicionado em resid\u00eancias, escrit\u00f3rios e autom\u00f3veis.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas se passariam at\u00e9 que os perigosos efeitos dos gases CFC fossem identificados. O mundo reagiu rapidamente com a assinatura, em 1987, de um dos primeiros tratados globais sobre o meio ambiente, o Protocolo de Montreal.<\/p>\n<p>E funcionou. Estudos feitos no ano passado encontraram evid\u00eancias de que a camada de oz\u00f4nio pode ter finalmente se estabilizado &#8211; 25 anos ap\u00f3s o in\u00edcio do processo de suspens\u00e3o do uso de CFCs.<\/p>\n<p>Mas essa foi a boa not\u00edcia. A m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que ainda nos vemos \u00e0s voltas com um outro terr\u00edvel legado desses gases: eles contribuem para o efeito estufa e seu efeito \u00e9 muito mais potente do que o do di\u00f3xido de carbono.<\/p>\n<p>Ainda hoje, respondem por 14% de todo o aquecimento global que resulta de a\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>E um problema adicional \u00e9 que a mesma estabilidade qu\u00edmica que torna os CFCs t\u00e3o &#8220;seguros&#8221; como refrigerantes tamb\u00e9m faz com que sua decomposi\u00e7\u00e3o na atmosfera demore muito tempo. (A camada de oz\u00f4nio estava sendo destru\u00edda por uma propor\u00e7\u00e3o relativamente pequena de mol\u00e9culas que alcan\u00e7aram a atmosfera e ficaram expostas aos raios ultravioleta mais fortes.)<\/p>\n<p>&#8220;Sua pot\u00eancia resulta do fato de que a liga\u00e7\u00e3o entre o carbono e o fl\u00faor \u00e9 a mais forte liga\u00e7\u00e3o \u00fanica entre \u00e1tomos em mol\u00e9culas org\u00e2nicas&#8221;, explica o qu\u00edmico Ian Shankland. &#8220;Essa mesma liga\u00e7\u00e3o de carbono e fl\u00faor absorve a radia\u00e7\u00e3o infravermelha e portanto os CFCs s\u00e3o gases muito potentes do efeito estufa.&#8221;<\/p>\n<p>Por conta disso, a proibi\u00e7\u00e3o no uso de gases CFC tamb\u00e9m teve &#8220;o maior impacto at\u00e9 hoje na atenua\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica&#8221;, segundo Stefan Reimann, que monitora emiss\u00f5es de gases fl\u00faor para a World Meteorological Organization (Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial, WMO na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 v\u00e1rias outras emiss\u00f5es de &#8220;gases F&#8221;. O uso de fluoreto de c\u00e1lcio na fundi\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio, por exemplo, para baixar a temperatura e permitir a extra\u00e7\u00e3o do metal do min\u00e9rio, resulta em emiss\u00f5es de CF4, o tetrafluoreto de carbono.<\/p>\n<p>Suas mol\u00e9culas cont\u00e9m quatro dessas liga\u00e7\u00f5es ultra est\u00e1veis de fl\u00faor com carbono, o que significa que ele dura dezenas de milhares de anos na atmosfera &#8211; e \u00e9 cinco mil vezes mais potente do que o CO2 como g\u00e1s causador do efeito estufa.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o trifluoreto de nitrog\u00eanio, que dura s\u00e9culos e \u00e9 17 mil vezes mais potente do que o CO2 como g\u00e1s causador do efeito estufa. Ele \u00e9 com frequ\u00eancia emitido no processo de gravar silicone &#8211; incluindo, ironicamente, o silicone usado na manufatura de alguns pain\u00e9is solares, supostamente positivos para o meio ambiente.<\/p>\n<p>O pior infrator \u00e9 o hexafluoreto de enxofre &#8211; um g\u00e1s usado para impedir fa\u00edscas el\u00e9tricas em sub esta\u00e7\u00f5es de eletricidade. Ele tem 20 mil vezes mais pot\u00eancia do que o CO2 na produ\u00e7\u00e3o do efeito estufa.<\/p>\n<p>Segundo Stefan Reimann, esses novos gases F &#8211; a maioria deles lan\u00e7ada ap\u00f3s o Protocolo de Montreal ter entrado em vig\u00eancia, em 1989 &#8211; contribuem para entre 1% e 2% do efeito estufa, mas essa contribui\u00e7\u00e3o deve subir para 20% em meados do s\u00e9culo, na medida em que chineses, indianos e africanos comecem a usar ar condicionado &#8211; particularmente em autom\u00f3veis.<\/p>\n<p><strong>Corrida do Ouro<\/strong><\/p>\n<p>Em vez de CFCs, a maioria dos aparelhos de ar condicionado modernos usa um outro refrigerante n\u00e3o inflam\u00e1vel chamado hidrofluorcarbono, ou HFC. Essa linha de refrigerantes foi desenvolvida na d\u00e9cada de 1980 por Ian Shankland e sua equipe na Honeywell.<\/p>\n<p>Eles retiraram o cloro que destru\u00eda a camada de oz\u00f4nio nos CFCs e o substitu\u00edram por hidrog\u00eanio. Segundo Shankland, isso cria um mecanismo que permite que a mol\u00e9cula se degrade mais rapidamente na atmosfera &#8211; ao longo de d\u00e9cadas em vez de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Ainda assim, esses gases s\u00e3o mil vezes mais poderosos como causadores do efeito estufa do que o CO2. E isso \u00e9 particularmente problem\u00e1tico em aparelhos de ar condicionado para autom\u00f3veis porque a vibra\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo faz com que 10% do HFC vaze para a atmosfera anualmente.<\/p>\n<p>Por conta disso, a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 proibindo o uso de HFCs a partir de 2017. E a equipe de Shankland j\u00e1 tem um substituto: os HFOs, ou hidrofluor-olefinas. Segundo Shankland, essa nova gera\u00e7\u00e3o de refrigerantes reage muito r\u00e1pido na atmosfera, desaparecendo em poucas semanas.<\/p>\n<p>Apesar da vida curta e riscos m\u00ednimos para o meio ambiente, os HFOs j\u00e1 causam dores de cabe\u00e7a para seus fabricantes, a Honeywell e sua associada Dupont.<\/p>\n<p>Em 2012, o fabricante alem\u00e3o de carros Daimler disse que, durante testes, um Mercedes que usava o novo refrigerante HFO virou &#8220;uma bola de fogo&#8221;. Mais tarde, a empresa disse que as chamas produziram vapor de HF e tamb\u00e9m uma outra subst\u00e2ncia qu\u00edmica, um g\u00e1s venenoso parecido com o fosg\u00eanio (usado como arma qu\u00edmica na Primeira Guerra Mundial).<\/p>\n<p>Desde o teste, tem havido um bate-boca entre a Honeywell e a Daimler &#8211; a Honeywell acusa a Daimler de ter programado o teste para obter aquele resultado.<\/p>\n<p>Os incentivos comerciais s\u00e3o imensos: os HFOs custam cerca de dez vezes mais do que seus antecessores. Ali\u00e1s, a diferen\u00e7a no pre\u00e7o levantou suspeitas de que a Honeywell e a Dupont teriam feito um acordo para fixar o pre\u00e7o do novo refrigerante, o \u00fanico que atende \u00e0s novas especifica\u00e7\u00f5es europeias. Por conta disso, a UE iniciou uma investiga\u00e7\u00e3o com base em leis antitruste.<\/p>\n<p>Qualquer que seja o resultado da investiga\u00e7\u00e3o, os HFOs j\u00e1 est\u00e3o sendo instalados em milh\u00f5es de carros novos. At\u00e9 agora, nenhum explodiu. E nenhum est\u00e1 emitindo poderosos gases causadores do efeito estufa, o que parece ser uma boa not\u00edcia&#8230;at\u00e9 agora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fl\u00faor \u00e9 um g\u00e1s que pode causar problemas s\u00e9rios. 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