{"id":22822,"date":"2015-06-13T21:49:53","date_gmt":"2015-06-13T21:49:53","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=22822"},"modified":"2015-06-13T21:50:57","modified_gmt":"2015-06-13T21:50:57","slug":"fernando-pessoa-o-poeta-insatisfeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/fernando-pessoa-o-poeta-insatisfeito\/","title":{"rendered":"Fernando Pessoa: o poeta insatisfeito"},"content":{"rendered":"<h4>No ano em que se completam oito d\u00e9cadas da morte dele, sua obra continua inabal\u00e1vel, sincera e irrequieta como nunca<\/h4>\n<div class=\"complementoTop\"><\/div>\n<div class=\"clearFix\"><\/div>\n<div class=\"fotoMateria right\"><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.revistaecologico.com.br\/esite\/kcfinder\/upload\/images\/Fernando-Pessoa-credito-reproducao.jpg\" alt=\"Fernando Pessoa: \" width=\"637\" height=\"648\" \/>Fernando Pessoa: &#8220;Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais \u00e9 nada&#8221;<\/div>\n<p>Era 13 de junho de 1888 quando Portugal ganhou um de seus filhos mais ilustres. Nascia em Lisboa <strong>Fernando Pessoa<\/strong>, o poeta da insatisfa\u00e7\u00e3o humana, que duvidava da pr\u00f3pria realidade e que achava a exist\u00eancia algo absurdo. Ao rever parte de sua obra para essa homenagem, lembrei-me do quanto ler suas poesias me deixava&#8230; inquieto.<\/p>\n<p>Os textos de Fernando Pessoa t\u00eam esse poder: levam-nos a questionar o que sentimos e pensamos. \u00c9 como viver em uma realidade irreal. Tudo parece ser t\u00e3o genu\u00edno, t\u00e3o verdadeiro, que parece fingimento. Que me desculpe Shakespeare, mas \u00e9 lendo a obra do poeta portugu\u00eas que a m\u00e1xima \u201cser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o\u201d parece ganhar mais sentido.<\/p>\n<p>Fernando Pessoa lia o mundo exterior pelas p\u00e1ginas de sua ecologia interior. Falava de natureza com uma simplicidade sincera, sem rodeios. Em suas palavras, renovava os mitos que criava para si e aqueles que eram do mundo. Para ele, a vida \u00e9 o presente, e os instantes s\u00e3o tantos que o fizeram perder a pr\u00f3pria identidade. \u201cN\u00e3o sei quantas almas tenho. Cada momento, mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi, nem me achei. De tanto ser, s\u00f3 tenho alma. Quem tem alma n\u00e3o tem calma. Quem v\u00ea \u00e9 s\u00f3 o que v\u00ea. Quem sente, n\u00e3o \u00e9 quem \u00e9\u201d, disse ele em um dos seus poemas mais famosos.<\/p>\n<p>Pessoa \u00e9 universal, ir\u00f4nico, sincero e, assim, inventou a pr\u00f3pria arte. Escreveu seu primeiro poema aos 14 anos e sua personalidade n\u00e3o cabia em si. Por isso, criou heter\u00f4nimos com biografias pr\u00f3prias \u2013 como Ricardo Reis, \u00c1lvaro de Campos e Alberto Caeiro, mostrando as suas diferentes formas de ser e estar no mundo. E conseguia transform\u00e1-las em versos.<\/p>\n<p>Um ano antes de sua morte (faleceu v\u00edtima de cirrose hep\u00e1tica aos 47 anos, em 1935), o \u201cpoeta fingidor\u201d entregou-se novamente a escrever quadras populares, em que resgatava um estilo mais simples de ver as coisas. Em sua \u00faltima linha escrita, afirmou n\u00e3o saber o que o amanh\u00e3 traria. Uma pena n\u00e3o ter sobrevivido para ver que, pouco tempo mais tarde, o mundo descobriria que a sua verdade tamb\u00e9m trazia os questionamentos que todos n\u00f3s carregamos. Confira:<\/p>\n<p><strong>Verdade<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cO p\u00fablico n\u00e3o quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Alma \/ Esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cTodo estado de alma \u00e9 uma paisagem. Uma tristeza \u00e9 um lago morto dentro de n\u00f3s.\u00a0 Assim, tendo n\u00f3s, ao mesmo tempo, consci\u00eancia do exterior e do nosso esp\u00edrito, e sendo nosso esp\u00edrito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consci\u00eancia de duas paisagens.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cTudo vale a pena se a alma n\u00e3o \u00e9 pequena.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Vento<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201c\u00c0s vezes ou\u00e7o passar o vento; e s\u00f3 de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Criar<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cQuero para mim o esp\u00edrito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: viver n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio; o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 criar.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Sentir <\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cSentir \u00e9 criar. Sentir \u00e9 pensar sem ideias, e por isso sentir \u00e9 compreender, visto que o universo n\u00e3o tem ideias.\u201d<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.revistaecologico.com.br\/esite\/kcfinder\/upload\/images\/frase-Fernando-Pessoa.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"389\" \/><\/p>\n<p><em>\u201cSe escrevo o que sinto \u00e9 porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso n\u00e3o tem import\u00e2ncia, pois nada tem import\u00e2ncia.<br \/>\nFa\u00e7o paisagens com o que sinto.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Ser poeta<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o tenho ambi\u00e7\u00f5es nem desejos. Ser poeta n\u00e3o \u00e9 uma ambi\u00e7\u00e3o minha. \u00c9 a minha maneira de estar sozinho.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Lucidez<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cVer muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente. Por isso, pouco sentiam. Da\u00ed a sua perfeita execu\u00e7\u00e3o da obra de arte.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Arte<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA arte \u00e9 a autoexpress\u00e3o lutando para ser absoluta.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA ci\u00eancia descreve as coisas como s\u00e3o; a arte, como s\u00e3o sentidas.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Escrever<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cEscrever \u00e9 esquecer. A literatura \u00e9 a maneira mais agrad\u00e1vel de ignorar a vida. A m\u00fasica embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dan\u00e7a e a arte de representar) entret\u00eam. A primeira, por\u00e9m, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, n\u00e3o se afastam da vida &#8211; umas porque usam de f\u00f3rmulas vis\u00edveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.\u201d <\/em><\/p>\n<p><strong>Saudosismo<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cO meu passado \u00e9 tudo quanto n\u00e3o consegui ser. Nem as sensa\u00e7\u00f5es de momentos idos me s\u00e3o saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, h\u00e1 um virar de p\u00e1gina e a hist\u00f3ria continua, mas n\u00e3o o texto.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Campo<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cO campo \u00e9 onde n\u00e3o estamos. Ali, s\u00f3 ali, h\u00e1 sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em><strong><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.revistaecologico.com.br\/esite\/kcfinder\/upload\/images\/frase-Fernando-Pessoa-2.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"1159\" \/><\/strong>Imagem: Raymond Wiggins<\/em><\/p>\n<p><strong>Desprezo<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cDespreza tudo, mas de modo que o desprezar te n\u00e3o incomode. N\u00e3o te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre est\u00e1 nisso.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Ren\u00fancia<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA ren\u00fancia \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o querer \u00e9 poder.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Liberdade<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA liberdade \u00e9 a possibilidade do isolamento. Se te \u00e9 imposs\u00edvel viver s\u00f3, nasceste escravo.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Sonho<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cMatar o sonho \u00e9 matarmo-nos. \u00c9 mutilar a nossa alma. O sonho \u00e9 o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Passado<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cAntes o voo da ave, que passa e n\u00e3o deixa rasto, que a passagem do animal, que fica lembrada no ch\u00e3o. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 e por isso de nada serve, mostra que j\u00e1 esteve, o que n\u00e3o serve para nada. A recorda\u00e7\u00e3o \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, porque a natureza de ontem n\u00e3o \u00e9 natureza. O que foi n\u00e3o \u00e9 nada, e lembrar \u00e9 n\u00e3o ver. Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pastor<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cEu nunca guardei rebanhos, mas \u00e9 como se os guardasse. Minha alma \u00e9 como um pastor, conhece o vento e o sol e anda pela m\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es a seguir e a olhar. Toda a paz da natureza sem gente vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um p\u00f4r de sol para a nossa imagina\u00e7\u00e3o, quando esfria no fundo da plan\u00edcie e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Tristeza<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA minha tristeza \u00e9 sossego porque \u00e9 natural e justa. E \u00e9 o que deve estar na alma quando j\u00e1 pensa que existe e as m\u00e3os colhem flores sem ela dar por isso.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Adeus<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 talvez o \u00faltimo dia da minha vida. Saudei o Sol, levantando a m\u00e3o direita, mas n\u00e3o o saudei, dizendo-lhe adeus. Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cSe depois de eu morrer quiserem escrever a minha biografia, n\u00e3o h\u00e1 nada mais simples. Tenho s\u00f3 duas datas: a de minha nascen\u00e7a e a de minha morte. Entre uma e outra, todos os dias s\u00e3o meus.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Travessia<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 o tempo da travessia: e, se n\u00e3o ousarmos faz\u00ea-la, teremos ficado, para sempre, \u00e0 margem de n\u00f3s mesmos.\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Desapego<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cDesapegar-se \u00e9 renovar votos de esperan\u00e7a de si mesmo, \u00e9 dar-se uma nova oportunidade de construir uma nova hist\u00f3ria melhor. Liberte-se de tudo aquilo que n\u00e3o tem te feito bem, daquilo que j\u00e1 n\u00e3o tem nenhum valor, e siga, siga novos rumos, desvende novos mundos. A vida n\u00e3o espera. O tempo n\u00e3o perdoa. E a esperan\u00e7a, \u00e9 sempre a \u00faltima a lhe deixar. Ent\u00e3o, recomece, desapegue-se! Ser livre n\u00e3o tem pre\u00e7o!\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Fonte: Revista Ecol\u00f3gico &#8211; Luciano Lopes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ano em que se completam oito d\u00e9cadas da morte dele, sua obra continua inabal\u00e1vel,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"No ano em que se completam oito d\u00e9cadas da morte dele, sua obra continua inabal\u00e1vel,","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22822"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22822"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22822\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}