{"id":21963,"date":"2015-05-30T13:00:59","date_gmt":"2015-05-30T13:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=21963"},"modified":"2015-05-30T13:00:59","modified_gmt":"2015-05-30T13:00:59","slug":"crise-hidrica-uma-fatalidade-climatica-ou-ela-foi-construida-entrevista-especial-com-humberto-miranda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/crise-hidrica-uma-fatalidade-climatica-ou-ela-foi-construida-entrevista-especial-com-humberto-miranda\/","title":{"rendered":"Crise h\u00eddrica. Uma fatalidade clim\u00e1tica ou ela foi constru\u00edda? Entrevista especial com Humberto Miranda"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cSe considerarmos o mesmo n\u00edvel de \u2018exporta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u2019 hoje, para uma popula\u00e7\u00e3o de 200 milh\u00f5es de habitantes, estar\u00edamos exportando 560 litros de \u00e1gua\/ano por habitante\u201d, diz o economista.<\/strong><\/p>\n<table border=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/itambe.projetosredirect.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/grandes_metropoles.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Foto: <a href=\"http:\/\/itambe.projetosredirect.com.br\">http:\/\/itambe.projetosredirect.com.br<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A partir da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/539705-crise-hidrica-como-sobreviver-e-aprender-com-ela-entrevista-especial-com-pedro-telles\" target=\"_blank\">crise h\u00eddrica<\/a> que j\u00e1 afeta alguns estados brasileiros, devem ser feitas as seguintes quest\u00f5es: \u201cPor que chegamos a esse ponto? A quem interessa a crise da \u00e1gua? \u00c9 uma fatalidade clim\u00e1tica ou ela foi constru\u00edda?\u201d, sugere <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542149-para-pesquisador-da-unicamp-dependencia-da-pauta-exportadora-de-commodities-faz-pais-exportar-agua\" target=\"_blank\"><strong>Humberto Miranda<\/strong><\/a> em entrevista concedida \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong> por e-mail.<\/p>\n<p>Ele lembra que embora a agricultura tenha demandado um uso expressivo de \u00e1gua com a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio, a \u201cchamada \u2018crise h\u00eddrica\u2019, por seu turno, tem mais a ver com o urbano: ind\u00fastria e urbaniza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com ele, o consumo de \u00e1gua industrial e o uso dom\u00e9stico apresentam uma situa\u00e7\u00e3o mais complexa, porque est\u00e3o relacionados \u201c\u00e0s formas de produ\u00e7\u00e3o intensivas em recursos naturais (desperdi\u00e7am\/degradam) ou \u00e0s caracter\u00edsticas espec\u00edficas de um segmento em franco crescimento, como o de bebidas alco\u00f3licas e n\u00e3o alco\u00f3licas\u201d. Para fabricar apenas um litro de bebida, por exemplo, s\u00e3o gastos entre 1,5 e 3 litros de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Contudo, pontua, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/540779-area-urbana-exposta-a-inundacao-triplicara-ate-2030-diz-estudo\" target=\"_blank\">expans\u00e3o urbana<\/a> \u00e9 o ponto \u201cmais grave de todos\u201d quando se analisam as causas do desperd\u00edcio de \u00e1gua. \u201cA quest\u00e3o central est\u00e1 no ritmo de crescimento das manchas urbanas. Esse \u00e9 um dado mais estrutural e que n\u00e3o se resolver\u00e1 t\u00e3o cedo, mas poder\u00e1 ser o calcanhar de Aquiles da crise das \u00e1guas urbanas\u201d, frisa. E acrescenta: \u201cO avan\u00e7o do capital imobili\u00e1rio, atrav\u00e9s da valoriza\u00e7\u00e3o\/especula\u00e7\u00e3o do uso\/ocupa\u00e7\u00e3o dos solos e na disputa pela localiza\u00e7\u00e3o vantajosa contribui vigorosamente para essa expans\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Humberto Miranda<\/strong> \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela Universidade Estadual de Feira de Santana &#8211; UEFS, mestre e doutor pelo Instituto de Economia da Universidade de Campinas &#8211; Unicamp. Atualmente \u00e9 professor da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econ\u00f4mico \u2013 CEDE e desenvolve estudos e pesquisas na \u00e1rea de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, Espa\u00e7o e Meio Ambiente, com \u00eanfase na quest\u00e3o regional e urbana.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista. <\/strong><\/p>\n<table border=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/greenstyle.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/congestionamento-em-sp.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Foto: <a href=\"http:\/\/greenstyle.com.br\">http:\/\/greenstyle.com.br<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como o fato de a economia brasileira ser uma economia que depende da exporta\u00e7\u00e3o de commodities impacta na crise h\u00eddrica que estamos vivendo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Humberto Miranda &#8211;<\/strong> Numa mat\u00e9ria do jornal <strong>O Globo<\/strong> de 11\/09\/2012, intitulada <strong>\u201cBrasil exporta cerca de 112 trilh\u00f5es de litros de \u00e1gua doce por ano\u201d<\/strong>, fez-se uma estimativa aterradora. Se considerarmos o mesmo n\u00edvel de \u201cexporta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u201d hoje, para uma popula\u00e7\u00e3o de 200 milh\u00f5es de habitantes, estar\u00edamos exportando 560 litros de \u00e1gua\/ano por habitante. S\u00f3 que n\u00e3o adianta individualizar o problema. Essa informa\u00e7\u00e3o se refere ao setor agroexportador, mas n\u00e3o sabemos ainda o quanto isso tem afetado ou impactado o abastecimento humano. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de cada um de n\u00f3s reduzirmos o consumo individual, que tem efeito no curto prazo. Isso ajuda at\u00e9 certo ponto, mas os limites s\u00e3o mais dram\u00e1ticos. Trata-se de perguntar: por que chegamos a esse ponto? A quem interessa a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/537204-maior-crise-hidrica-dos-ultimos-100-anos-e-uma-consequencia-das-mudancas-climaticas-entrevista-especial-com-jose-galizia-tundisi\" target=\"_blank\">crise da \u00e1gua<\/a>? \u00c9 uma fatalidade clim\u00e1tica ou ela foi constru\u00edda?<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 o custo para o Brasil da exporta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua via commodities? Qual \u00e9 o impacto econ\u00f4mico desse processo de exporta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Humberto Miranda &#8211;<\/strong> Vamos, em primeiro lugar, separar as coisas. A quest\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/507639-exportacao-de-commodities-continuaremos-vivendo-como-se-nunca-tivessemos-saido-do-seculo-xvi-entrevista-especial-com-marcos-pedlowski\" target=\"_blank\">exporta\u00e7\u00e3o de commodities<\/a> tem a ver com a forma como o Brasil foi resolvendo a vulnerabilidade externa, fragilizado pela falta de crescimento industrial e com s\u00e9rios gargalos na infraestrutura. Dada tal exig\u00eancia exportadora, fomos expandindo o agroneg\u00f3cio. S\u00f3 que as caracter\u00edsticas de nossa agricultura tropical obrigam um elevado gasto de \u00e1gua\/hectare em determinadas culturas que necessitam de irriga\u00e7\u00e3o em larga escala e em mais intervalos de tempo. Uma t\u00e9cnica conservacionista como a do Plantio Direto, utilizada na cultura de gr\u00e3os (soja), em que h\u00e1 maior preocupa\u00e7\u00e3o conservacionista dos solos e das \u00e1guas, foi introduzida muito tempo depois da substitui\u00e7\u00e3o do modelo de moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola subsidiado pelo Estado que vigorou nos anos de 1970 e entrou em crise nos 1980.<\/p>\n<p>Aquele modelo era desperdi\u00e7ador de recursos naturais e incentivava o desmatamento provocando s\u00e9rios processos de eros\u00e3o dos solos. Foi um modelo que intensificou a degrada\u00e7\u00e3o ambiental (polui\u00e7\u00e3o, desmatamentos, perda de solos e \u00e1guas, etc.). Com a crise da d\u00edvida externa e as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 expans\u00e3o do financiamento (e do cr\u00e9dito agr\u00edcola em particular), houve uma redu\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios na agricultura e isso fez com que o custo aumentasse para o empres\u00e1rio rural. A solu\u00e7\u00e3o seria construir um modelo mais conservacionista. Todavia, a preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era necessariamente com os impactos ambientais, mas como a queda dos investimentos e preju\u00edzos ao empres\u00e1rio rural, que viu sua lucratividade cair rapidamente.<\/p>\n<table cellspacing=\"25\" cellpadding=\"25\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, por exemplo, seria hoje um problema ou uma solu\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>P\u00f3s-1990, com a ascens\u00e3o da chamada \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2680&amp;secao=300\" target=\"_blank\">agricultura verde<\/a>\u201d, os agricultores foram convertendo seus sistemas de produ\u00e7\u00e3o. O apelo conservacionista \u00e9 funcional ao novo modelo de agricultura quanto \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do uso de defensivos (\u201cvenenos\u201d) nas lavouras, mas n\u00e3o perdeu suas caracter\u00edsticas centrais de ser concentrador de terra, degradador de recursos naturais e promotor de rela\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias ou de baixa qualifica\u00e7\u00e3o\/remunera\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a quest\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 apenas porque a \u00e1gua \u00e9 utilizada para produzir soja ou para matar a sede do gado ou como um insumo, etc., mas porque ela \u00e9 disputada por grupos econ\u00f4micos (agroindustriais) poderosos e desperdi\u00e7ada por falta de controle p\u00fablico.<\/p>\n<p>O mercado olha para o produto e n\u00e3o para o manejo dos solos e das \u00e1guas. Por exemplo, a soja org\u00e2nica no Brasil \u00e9 certificada e valorizada no mercado internacional, mas as t\u00e9cnicas de manejo ainda prejudicam o solo (revolvem o solo com mais frequ\u00eancia e h\u00e1 maior perda superficial dos solos que no Plantio Direto). No caso da cria\u00e7\u00e3o de animais, estimulada pelo poder dos grandes frigor\u00edficos dos <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/534630-poder-economico-do-agronegocio-deixa-sociedade-refem-de-seus-interesses\" target=\"_blank\">grupos <strong>JBS<\/strong><\/a> (FriBoi) e <strong>Marfrig<\/strong>, muitos c\u00f3rregos est\u00e3o sendo fechados impedindo que as \u00e1guas alimentem os rios. Os rios est\u00e3o sobre perdas de \u00e1gua. Essa \u00e1gua \u00e9 \u201cexportada\u201d nas carnes e nos gr\u00e3os. Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do Centro Oeste hoje, que sofre uma progressiva e acelerada degrada\u00e7\u00e3o em seus recursos naturais. Ningu\u00e9m pergunta: quanto de \u00e1gua se exporta? Ent\u00e3o, a quest\u00e3o \u00e9 anterior \u00e0 crise da \u00e1gua atual. \u00c9 um problema que j\u00e1 existia e que foi agravado nos anos 2000 em diante.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O crescimento r\u00e1pido e desordenado das popula\u00e7\u00f5es urbanas, marcado pelas desigualdades sociais e tamb\u00e9m pela neglig\u00eancia com o meio ambiente, pode agravar a crise h\u00eddrica? De que maneira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Humberto Miranda &#8211;<\/strong> A chamada \u201ccrise h\u00eddrica\u201d, por seu turno, tem mais a ver com o urbano: ind\u00fastria e urbaniza\u00e7\u00e3o (expans\u00e3o urbana). As estimativas, em geral, dizem que o uso dom\u00e9stico, o industrial e o agr\u00edcola da \u00e1gua, respectivamente, s\u00e3o de 10%, 20% e 70%. Tenho chamado aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, no caso da agricultura (e <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/515669-codigo-da-mineracao-qos-resultados-podem-ser-desastrososq-entrevista-especial-com-sergio-sauer\" target=\"_blank\">minera\u00e7\u00e3o<\/a>), esse uso \u00e9 muito concentrado por usu\u00e1rio e o nosso modelo de agricultura irrigada precisa ser totalmente revisto, tanto no que tange \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o ambiental\/recursos h\u00eddricos quanto \u00e0 efici\u00eancia econ\u00f4mica e ao acesso\/uso privilegiados dos grandes demandantes. A transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, por exemplo, seria hoje um problema ou uma solu\u00e7\u00e3o? A meu ver, seria um problema, porque as nascentes do rio no Sudeste (Minas Gerais) foram comprometidas pela falta de chuvas e de manejo inadequado das \u00e1guas.<\/p>\n<p>No caso do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/507955-transposicao-do-rio-sao-francisco-onde-esta-o-tribunal-de-contas-da-uniao-ninguem-se-manifesta-isso-e-um-escandalo-entrevista-especial-com-joao-abner-guimaraes-junior\" target=\"_blank\">consumo de \u00e1gua pela ind\u00fastria<\/a> e do uso dom\u00e9stico (servi\u00e7os de abastecimento), a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa porque est\u00e1 relacionada \u00e0s formas de produ\u00e7\u00e3o intensivas em recursos naturais (desperdi\u00e7am\/degradam) ou \u00e0s caracter\u00edsticas espec\u00edficas de um segmento em franco crescimento, como o de bebidas alco\u00f3licas e n\u00e3o alco\u00f3licas. Para fabricar um 1 litro de bebida n\u00e3o alco\u00f3lica, por exemplo, gastam-se entre 1,5 e 3 litros de \u00e1gua. Gostaria de ver os crit\u00e9rios de efici\u00eancia ambiental e certifica\u00e7\u00e3o sendo aplicados nessa ind\u00fastria, porque elas t\u00eam garantia de atendimento \u00e0 sua demanda firme de \u00e1gua. Existem medidas de car\u00e1ter econ\u00f4mico-ambiental que poderiam perfeitamente ser usadas nesses casos.<\/p>\n<p><strong>Expans\u00e3o urbana e especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>O caso do modo de expans\u00e3o urbana \u00e9 o mais grave de todos. Desperd\u00edcio de \u00e1gua na cidade pelos grandes usu\u00e1rios (grupos econ\u00f4micos e bairros de elite) \u00e9 algo comum: <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/522158-e-tem-gente-que-lava-calcada-com-mangueira\" target=\"_blank\">lavagem de cal\u00e7adas <\/a>e de autom\u00f3veis com \u00e1gua pot\u00e1vel deve ser tratado como crime ambiental. S\u00e3o segmentos das classes m\u00e9dias sem compromisso ambiental que cometem esses atos, s\u00e3o empresas sem no\u00e7\u00e3o do valor dos recursos h\u00eddricos, que precisam ser multadas para mudar de comportamento. O uso humano\/residencial da \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 respeitado. Quando a Sabesp diminui a press\u00e3o da \u00e1gua, penaliza a popula\u00e7\u00e3o pobre em benef\u00edcio dos usu\u00e1rios mais abastados ou com recursos para ir \u00e0 justi\u00e7a cobrar o que \u00e9 de direito de todos, mas que est\u00e1 sendo individualizado. Por\u00e9m, a quest\u00e3o central, a meu ver, est\u00e1 no ritmo de crescimento das manchas urbanas. Esse \u00e9 um dado mais estrutural e que n\u00e3o se resolver\u00e1 t\u00e3o cedo, mas poder\u00e1 ser o calcanhar de Aquiles da crise das \u00e1guas urbanas.<\/p>\n<table cellspacing=\"25\" cellpadding=\"25\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<\/td>\n<td><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>&#8220;A nossa crise n\u00e3o \u00e9 propriamente de falta d\u2019\u00e1gua, mas do colapso do sistema de abastecimento&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>As cidades de hoje crescem al\u00e9m de seus limites e tornam-se conurbadas rapidamente. Os incentivos ao uso do transporte individual em detrimento do p\u00fablico tamb\u00e9m estimulam essa expans\u00e3o, inclusive porque boa parte da classe m\u00e9dia alta mora em condom\u00ednios fechados, nos limites da cidade ou afastados destes. O avan\u00e7o do capital imobili\u00e1rio, atrav\u00e9s da valoriza\u00e7\u00e3o\/especula\u00e7\u00e3o do uso\/ocupa\u00e7\u00e3o dos solos e na disputa pela localiza\u00e7\u00e3o vantajosa contribui vigorosamente para essa expans\u00e3o. Empresas como <strong>MRV<\/strong> e <strong>Cyrela<\/strong> ganham mais na valoriza\u00e7\u00e3o dos terrenos que nas constru\u00e7\u00f5es em si. O pr\u00e9dio ou a casa constru\u00edda \u00e9 seu custo fixo barateado ao m\u00e1ximo. O terreno sujeito \u00e0 especula\u00e7\u00e3o \u00e9 seu superlucro.<\/p>\n<p>Nesse processo, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 perdendo o direito \u00e0 cidade e o acesso ao abastecimento de \u00e1gua tamb\u00e9m. Deslocada para longe do lugar de trabalho, torna-se ainda mais carente de servi\u00e7os de infraestrutura. Tanto \u00e9 que, proporcionalmente, o ritmo de crescimento da mancha urbana tornou-se mais acelerado que o ritmo de crescimento da popula\u00e7\u00e3o urbana, que continua superconcentrada nas grandes cidades.<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/534216-especulacao-imobiliaria-e-o-crescente-processo-de-favelizacao-das-cidades-brasileiras-entrevista-especial-com-benedito-barbosa\" target=\"_blank\">especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/a> na \u00faltima d\u00e9cada, o espraiamento da cidade puxado pela valoriza\u00e7\u00e3o dos terrenos favorece os impactos aos solos e \u00e0s \u00e1guas. A amplia\u00e7\u00e3o da infraestrutura e dos servi\u00e7os \u00e9 garantida desigualmente. Por isso que a cidade cresce expulsando moradores para perto de mananciais, piorando as condi\u00e7\u00f5es de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua em quantidade e qualidade adequadas. Estima-se que s\u00f3 em S\u00e3o Paulo um milh\u00e3o de pessoas ocupem essas \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente. Culpam os ocupantes, mas n\u00e3o culpam os interesses especulativos que n\u00e3o desocupam pr\u00e9dios vazios nos centros urbanos em flagrante desrespeito \u00e0 fun\u00e7\u00e3o social da propriedade.<\/p>\n<p><strong>Judici\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>O judici\u00e1rio \u00e9 incompetente nessa quest\u00e3o porque privilegia o direito de propriedade em detrimento do que estabelece o <strong>Estatuto da Cidade<\/strong> e a <strong>Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/strong>. Dessa maneira, o crescimento das \u00e1reas de ocupa\u00e7\u00e3o irregular e a dificuldade de ampliar a rede de abastecimento d\u2019\u00e1gua contribuem para o espraiamento da cidade e isso encarece o investimento p\u00fablico e compromete a rede de \u00e1guas que n\u00e3o d\u00e1 conta. H\u00e1 sucateamento, vazamentos, falta de manuten\u00e7\u00e3o, &#8220;gatos&#8221;, etc. As parcerias p\u00fablico-privadas nem sempre d\u00e3o conta da cidade como um todo e privilegiam \u00e1reas com maior retorno econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Por outro lado, nossa rede urbana \u00e9 muito concentrada. Grandes cidades localizadas em \u00e1reas metropolitanas e outras grandes cidades situadas fora do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/535896-reestrutura-das-metropoles-primeiro-os-empreendimentos-depois-a-mobilidade-entrevista-especial-com-paulo-roberto-rodrigues-soares\" target=\"_blank\">espa\u00e7o metropolitano<\/a> tornaram-se um problema. Grosso modo, em cerca de 610 grandes cidades brasileiras est\u00e3o concentrados 130 milh\u00f5es de brasileiros, aproximadamente, sendo que, nas demais, quase cinco mil cidades, concentram-se algo em tono dos 70 milh\u00f5es de brasileiros. A quest\u00e3o do abastecimento de \u00e1gua nas cidades onde as manchas urbanas se expandem num ritmo maior se tornou extremamente grave e a dificuldade de realizar saneamento ambiental (\u00e1gua e esgoto) em cidades dispersas num vasto territ\u00f3rio encontra dificuldades.<\/p>\n<p>A maioria dos munic\u00edpios nem sequer acessa recursos financeiros dispon\u00edveis (verba federal) do fundo de saneamento. Poucos usam o dinheiro. Ademais, apesar de haver uma legisla\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para a gest\u00e3o de \u00e1reas metropolitanas, n\u00e3o se veem iniciativas governamentais para lidar com o problema das \u201c\u00e1guas urbanas\u201d, falta d\u2019\u00e1gua, preserva\u00e7\u00e3o de mananciais ou combate a enchentes de forma efetiva. A cisterna que capta \u00e1gua da chuva foi uma solu\u00e7\u00e3o de suma import\u00e2ncia para as \u00e1reas rurais do Nordeste, mas nenhuma iniciativa apropriada \u00e0s cidades foi proposta. S\u00e3o iniciativas individuais que predominam ao estilo &#8220;salve-se que puder&#8221;. Na verdade, seria preciso criar uma nova <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/532512-falta-de-saneamento-basico-e-os-prejuizos-economicos-ambientais-e-sociais-entrevista-especial-com-rafael-volquid-\" target=\"_blank\">infraestrutura urbana<\/a> para lidar com o problema das \u00e1guas, bem como reduzir a impermeabiliza\u00e7\u00e3o dos solos urbanos, aumentar as \u00e1reas verdes para, ao menos, amenizar a situa\u00e7\u00e3o e, no caso de S\u00e3o Paulo, parar de fazer viadutos nas zonas de vale e realizar a abertura de c\u00f3rregos. S\u00e3o medidas que n\u00e3o exigem novas constru\u00e7\u00f5es, mas que n\u00e3o s\u00e3o feitas. Os governos atendem aos interesses das empreiteiras, mas n\u00e3o dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais as diferen\u00e7as entre crise h\u00eddrica e crise de abastecimento? Em que momento a crise h\u00eddrica pode nos levar a uma crise de saneamento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Humberto Miranda &#8211;<\/strong> O problema desencadeado agora no estado de S\u00e3o Paulo, em especial, \u00e9 mais uma crise de abastecimento do que crise h\u00eddrica. N\u00e3o falta \u00e1gua no Brasil. A idade da pedra, como disse o economista <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/540463-a-alternativa-artigo-de-antonio-delfim-netto\" target=\"_blank\"><strong>Delfim Netto<\/strong><\/a>, n\u00e3o acabou por falta de pedra. A nossa crise n\u00e3o \u00e9 propriamente de falta d\u2019\u00e1gua, mas do colapso do sistema de abastecimento, da m\u00e1 gest\u00e3o e das \u201caventuras h\u00eddricas\u201d da Sabesp, que protegeu seus investidores e n\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o (usu\u00e1rios). A <strong>Sabesp<\/strong> acabou de distribuir dividendos para seus acionistas nos EUA em meio \u00e0 crise. Atribuir o problema a uma fatalidade (estiagem prolongada) \u00e9 uma forma de evitar as explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esta crise \u00e9, a meu ver, eminentemente urbana, porque \u00e9 de abastecimento humano nas \u00e1reas territorialmente mais concentradas de pessoas e que sofrem com o ritmo de crescimento da mancha urbana onde ela ocorre de maneira mais dram\u00e1tica. Se do ponto de vista do desperd\u00edcio ou do gasto, a agricultura e a ind\u00fastria utilizam muito mais \u00e1gua que o consumidor residencial, do ponto de vista urbano a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave e pode levar a conflitos s\u00e9rios porque interesses econ\u00f4micos est\u00e3o sendo privilegiados em detrimento do abastecimento da popula\u00e7\u00e3o, salvo os casos em que a \u00e1gua deve ser garantida prioritariamente, como nos hospitais. Portanto, o problema tem suas implica\u00e7\u00f5es urbanas como as centrais, al\u00e9m do fato de nossa agricultura ser mesmo \u201cexportadora de \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>Fonte: <strong>IHU On-Line<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe considerarmos o mesmo n\u00edvel de \u2018exporta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u2019 hoje, para uma popula\u00e7\u00e3o de 200<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cSe considerarmos o mesmo n\u00edvel de \u2018exporta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u2019 hoje, para uma popula\u00e7\u00e3o de 200","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21963"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21963"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21963\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}