{"id":2196,"date":"2014-06-30T14:00:40","date_gmt":"2014-06-30T14:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=2196"},"modified":"2014-06-30T13:16:43","modified_gmt":"2014-06-30T13:16:43","slug":"a-ecologia-economica-como-alternativa-as-desigualdades-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-ecologia-economica-como-alternativa-as-desigualdades-sociais\/","title":{"rendered":"A ecologia econ\u00f4mica como alternativa \u00e0s desigualdades sociais"},"content":{"rendered":"<p><small style=\"font-size: 10px; font-family: Tahoma, Geneva, sans-serif;\"><i><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-2197\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>Por Patricia Fachin e Ricardo Machado*<\/i><\/small><\/p>\n<p><em>\u201cAs desigualdades de rendimentos e de patrim\u00f4nio, mas tamb\u00e9m de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, aos direitos, \u00e0 internet, s\u00e3o fen\u00f4menos extremamente graves, pois s\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e0 prosperidade econ\u00f4mica\u201d, adverte o economista Ga\u00ebl Giraud.<\/em><\/p>\n<p>\u201cA ecologia econ\u00f4mica parece estar atualmente numa via mais promissora. Ela n\u00e3o \u00e9 nem marxista, nem neoliberal. O seu objeto \u00e9 a realidade de um planeta que n\u00f3s estamos em vias de destruir. E n\u00e3o temos outro. A maior parte dos economistas dos dias de hoje j\u00e1 compreendeu que a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 insepar\u00e1vel de uma transi\u00e7\u00e3o social\u201d, sustenta o professor doutor Ga\u00ebl Giraud em entrevista por e-mail \u00e0 IHU On-Line.<br \/>\nPara o economista, os mais ricos, independentemente dos pa\u00edses, s\u00e3o os que mais poluem o planeta, causando, portanto, a destrui\u00e7\u00e3o do clima e da biodiversidade, o que resulta em um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o. \u201cA mis\u00e9ria afunda os mais pobres num inferno e a ultrarriqueza isola os mais ricos num gueto separado do resto da humanidade, em p\u00e2nico de perderem o seu conforto, incapazes de participar de um projeto hist\u00f3rico e pol\u00edtico que ultrapasse as dimens\u00f5es que s\u00e3o pr\u00f3ximas da sua vida de luxo. Praticar a justi\u00e7a \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente das v\u00edtimas como tamb\u00e9m dos carrascos\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do pesquisador, o principal entrave aos avan\u00e7os em termos de igualdade \u00e9 a vontade pol\u00edtica. \u201cUm economista do Fundo Monet\u00e1rio Internacional \u2013 FMI, Michael Kumhof, mostrou recentemente que uma reforma ser\u00e1 bastante ben\u00e9fica para todo o mundo \u2014 menos, talvez, para os banqueiros. As solu\u00e7\u00f5es existem. O que falta \u00e9 a vontade pol\u00edtica\u201d, destaca. \u201cEssa falta se deve ao fato de que grande parte dos pol\u00edticos nos governos, na Europa, nos Estados Unidos, no Jap\u00e3o, prov\u00e9m de classes favorecidas, que n\u00e3o t\u00eam interesse na reforma financeira de modo a reduzir as desigualdades e assegurar a prosperidade de todos\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Ao olhar para o futuro, Ga\u00ebl Giraud sugere ser necess\u00e1rio que os pa\u00edses ricos ponham em pr\u00e1tica uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. \u201cA passagem de uma economia essencialmente fundada sobre as energias f\u00f3sseis (g\u00e1s, carv\u00e3o, petr\u00f3leo) para outros tipos de energia: as renov\u00e1veis e\/ou nucleares. Sem estas, tenho receio de que, nos anos pr\u00f3ximos, a fratura social mais importante ser\u00e1 aquela que vai separar as popula\u00e7\u00f5es com acesso \u00e0 energia das que n\u00e3o t\u00eam acesso. N\u00e3o excluo a possibilidade de uma terr\u00edvel regress\u00e3o social: qualquer coisa como um retrocesso \u00e0 Idade M\u00e9dia. Sem contar com as m\u00faltiplas guerras que j\u00e1 come\u00e7amos (nomeadamente no M\u00e9dio Oriente) para garantir o acesso aos recursos energ\u00e9ticos\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Ga\u00ebl Giraud igualmente analisa o livro Capital in the Twenty-First Century\u201d [O capital no s\u00e9culo XXI] de Thomas Piketty. Segundo ele, o livro \u201cn\u00e3o tem teoria econ\u00f4mica. Ou mais especificamente: a teoria subjacente \u00e9 a da escola neocl\u00e1ssica norte-americana mais conservadora. Em particular, o conjunto das ideias repousa sobre aquela fic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existiria algo como \u201co\u201d capital\u201d.<\/p>\n<p>Ga\u00ebl Giraud, padre jesu\u00edta, economista franc\u00eas, diretor de pesquisa do CNRS, membro do Centro de Economia da Sorbonne e da Escola de Economia de Paris e professor associado na ESCP-Europe. Faz parte do conselho cient\u00edfico do Laborat\u00f3rio sobre Regula\u00e7\u00e3o Financeira e do Observat\u00f3rio Europeu Finance Watch. Al\u00e9m disso, leciona no Centre S\u00e8vres, em Paris, e \u00e9 membro do conselho cient\u00edfico da Funda\u00e7\u00e3o Nicolas Hulot para a Natureza e o Homem. O trabalho de Ga\u00ebl Giraud pode ser visto em seu s\u00edtio na internet www.gaelgiraud.net.<\/p>\n<p>Confira a entrevista:<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que o senhor entende por desigualdades e como fundamenta esse conceito?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> Na atualidade, uma pequena centena de pessoas no mundo possui uma riqueza equivalente \u00e0 metade da humanidade. Possivelmente, nunca t\u00ednhamos esperado tal n\u00edvel de desigualdade no planeta. As desigualdades de rendimentos e de patrim\u00f4nio, mas tamb\u00e9m de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, aos direitos, \u00e0 internet, s\u00e3o fen\u00f4menos extremamente graves, pois s\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e0 prosperidade econ\u00f4mica. N\u00e3o somente para os mais pobres \u2014 \u00e9 evidente \u2014, mas tamb\u00e9m para os mais ricos. De fato, aumentar indefinidamente a riqueza de uma por\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos n\u00e3o facilita, de todo, o crescimento: a tese de que a opul\u00eancia dos ricos ser\u00e1 ben\u00e9fica para todos \u00e9 uma impostura intelectual. O aumento da desigualdade penaliza mesmo os mais ricos na sua vida e na sua pr\u00f3pria sa\u00fade. \u00c9 o que mostra, por exemplo, uma excelente obra de Pickett et Wilkinson, The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better (London: UK Hardback edition, 2009). Tamb\u00e9m \u00e9 preciso considerar que os mais ricos s\u00e3o aqueles que mais poluem o planeta. Sejam chineses, norte-americanos ou brasileiros, s\u00e3o eles que carregam a mais forte responsabilidade da destrui\u00e7\u00e3o do clima e da biodiversidade. Enfim, o aumento das desigualdades provoca a desumaniza\u00e7\u00e3o: a mis\u00e9ria afunda os mais pobres num inferno e a ultrarriqueza isola os mais ricos num gueto separado do resto da humanidade, em p\u00e2nico de perderem o seu conforto, incapazes de participar de um projeto hist\u00f3rico e pol\u00edtico que ultrapasse as dimens\u00f5es que s\u00e3o pr\u00f3ximas da sua vida de luxo. Praticar a justi\u00e7a \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente das v\u00edtimas como tamb\u00e9m dos carrascos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Gael.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-115614 size-full\" title=\"A ecologia econ\u00f4mica como alternativa \u00e0s desigualdades\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Gael.jpg\" alt=\"Gael A ecologia econ\u00f4mica como alternativa \u00e0s desigualdades\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A discuss\u00e3o acerca da maneira de enfrentar as desigualdades sociais, a partir de uma perspectiva econ\u00f4mica, deve considerar a acumula\u00e7\u00e3o financeira e o funcionamento do mercado financeiro de modo geral e n\u00e3o mais o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> De fato, a desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, iniciada nos anos 1980, tem a responsabilidade essencial da explos\u00e3o das desigualdades nestes \u00faltimos 30 anos. Os Trinta Gloriosos (1945-1975) na Europa e nos Estados Unidos mostraram que \u00e9 poss\u00edvel ter uma prosperidade de massa, em um contexto capitalista, com pouca desigualdade. Isso sup\u00f5e que os mercados financeiros jogam um papel m\u00ednimo na nossa economia. \u00c9 completamente falso pretender que os mercados financeiros sejam eficientes. Sabe-se, em economia, depois dos anos 80 que, mesmo estando repletos de senhores hiper-racionais, os mercados financeiros geriram de maneira bastante ineficaz o risco e o capital. Na verdadeira vida, os mercados financeiros servem essencialmente para captar a renda produzida pelo trabalho dos cidad\u00e3os, monopolizados por uma min\u00fascula minoria de jogadores: quando estes ganham as suas apostas, retiram os benef\u00edcios privados e, quando perdem, \u00e9 o contribuinte quem tem de pagar as d\u00edvidas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que o senhor tem evidenciado em suas pesquisas sobre a crise financeira desde 2008 e as desigualdades sociais no mesmo per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> A bolha subprime foi tolerada pelas autoridades econ\u00f4micas e monet\u00e1rias dos Estados Unidos, entre 2001 e 2007, na esperan\u00e7a de permitir a um grande n\u00famero de fam\u00edlias norte-americanas pobres se tornarem propriet\u00e1rias das suas casas. H\u00e1 menos propriet\u00e1rios nos Estados Unidos em 2008 que em 2001. Tentar manter o mercado imobili\u00e1rio pela d\u00edvida privada \u00e9 uma fal\u00eancia completa. Na Europa, uma grande parte dessa d\u00edvida privada tornou-se insolvente e afundou numerosos bancos. Muitos acabaram por ser salvos ou nacionalizados pelos Estados, que, de um dia para o outro, viram a sua d\u00edvida p\u00fablica rebentar. Ora, as classes m\u00e9dias europeias pagam em geral mais impostos que os mais ricos. S\u00e3o, ent\u00e3o, as classes m\u00e9dias que v\u00e3o pagar a fatura da crise financeira. As desigualdades continuam, assim, a aumentar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor d\u00e1 a entender que os bancos s\u00e3o, hoje, os grandes vil\u00f5es da atual situa\u00e7\u00e3o social e os respons\u00e1veis pela crise. Como mudar esse cen\u00e1rio? O que \u00e9 poss\u00edvel fazer para frear essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> Sim, o setor banc\u00e1rio, na Europa, nos Estados Unidos, no Jap\u00e3o, adquiriu um poder de perturba\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel. Alguns bancos t\u00eam um balan\u00e7o que pesa mais que o Produto Interno Bruto \u2013 PIB de um Estado desenvolvido. Al\u00e9m disso, a desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira volta a dar-lhes um poder consider\u00e1vel. Est\u00e1 claro que \u00e9 poss\u00edvel mudar tudo isso. J\u00e1 expliquei em diversas obras como isso pode ser poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Grosso modo, no meu ponto de vista, \u00e9 necess\u00e1rio cortar os bancos mistos em dois, ou seja, voltar a colocar o Glass Steagall Act que nos permitiu desfrutar, nos anos 1960, um per\u00edodo de serenidade, sem uma maior crise banc\u00e1ria. Depois, \u00e9 preciso colocar o Banco Central sob o controle de um poder pol\u00edtico democr\u00e1tico. Atualmente, a independ\u00eancia do Banco Central \u00e9 um eufemismo para dissimular o fato de que ele obedece unicamente aos desejos do setor banc\u00e1rio privado. Enfim, h\u00e1 que retirar dos bancos privados o direito de criar a moeda: \u00e9 o famoso \u201cplano de Chicago\u201d que tinha sido proposto pelos grandes economistas norte-americanos nos anos 1930. Um economista do Fundo Monet\u00e1rio Internacional \u2013 FMI, Michael Kumhof, mostrou recentemente que uma reforma ser\u00e1 bastante ben\u00e9fica para todo o mundo \u2014 menos, talvez, para os banqueiros. As solu\u00e7\u00f5es existem. O que falta \u00e9 a vontade pol\u00edtica. Essa falta se deve ao fato de que grande parte dos pol\u00edticos nos governos, na Europa, nos Estados Unidos, no Jap\u00e3o, prov\u00e9m de classes favorecidas, que n\u00e3o t\u00eam interesse na reforma financeira de modo a reduzir as desigualdades e assegurar a prosperidade de todos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais as raz\u00f5es da fal\u00eancia do estado de bem-estar social na Europa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> H\u00e1 imensas raz\u00f5es para esta fal\u00eancia. Espero que n\u00e3o seja definitiva. Uma das raz\u00f5es \u00e9 a invers\u00e3o do projeto pol\u00edtico europeu em uma m\u00e1quina de destrui\u00e7\u00e3o do Estado-Provid\u00eancia. A Europa tornou-se, h\u00e1 vinte anos, a Europa dos financeiros: estes destruir\u00e3o o nosso continente at\u00e9 que os pol\u00edticos deem um \u201cmurro na mesa\u201d.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Os que defendem uma proposta neoliberal argumentam que se trata de um modelo que garante a liberdade. Os que argumentam que \u00e9 preciso maior interfer\u00eancia do Estado sustentam que \u00e9 necess\u00e1rio mais igualdade. Esses conceitos e essas vis\u00f5es s\u00e3o suficientes para entender a complexidade que se vive hoje? H\u00e1 uma terceira via?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> Parece-me que o debate tradicional \u201cliberdade versus igualdade\u201d j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a melhor maneira de compreender o nosso mundo. Na realidade, o neoliberalismo destr\u00f3i as nossas liberdades. \u00c9 uma economia essencialmente fundada sobre a d\u00edvida, e tal j\u00e1 vem desde 5000 anos atr\u00e1s, como muito bem demonstrou David Graeber. Quando se tem muitas d\u00edvidas, acaba-se por se tornar escravo (no sentido literal e figurado) do credor. Se queremos sair do servilismo, temos de sair do neoliberalismo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O per\u00edodo recente parece demonstrar que o neoliberalismo gera crises, inclusive a crise financeira, pela falta de controle do mercado, mas, por outro lado, o Estado parece n\u00e3o dar conta nem de garantir um estado de bem-estar social para a popula\u00e7\u00e3o, nem de exercer uma pol\u00edtica de gestor do mercado. Qual \u00e9 sua proposta para diminuir as desigualdades sociais e garantir acesso a bens b\u00e1sicos, tendo em vista esse cen\u00e1rio e a fal\u00eancia das propostas das esquerdas em todo o mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> Penso que \u00e9 necess\u00e1rio ter em considera\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia vital da energia e das mat\u00e9rias naturais (nomeadamente os minerais) nas nossas economias. A maior parte dos economistas negligencia completamente este ponto. Ora, os recursos naturais n\u00e3o s\u00e3o extens\u00edveis ao infinito. E as \u00faltimas not\u00edcias do GIEC no Painel Intergovernamental das Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas \u2013 IPCC referentes ao clima s\u00e3o literalmente catastr\u00f3ficas. Ent\u00e3o, \u00e9 extremamente importante, se queremos garantir um m\u00ednimo vital para todos, em que o conjunto dos pa\u00edses ricos (onde se inclui o Brasil) ponham em pr\u00e1tica, de modo volunt\u00e1rio, a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica: a passagem de uma economia essencialmente fundada sobre as energias f\u00f3sseis (g\u00e1s, carv\u00e3o, petr\u00f3leo) para outros tipos de energia: as renov\u00e1veis e\/ou nucleares. Sem estas, tenho receio de que, nos anos pr\u00f3ximos, a fratura social mais importante ser\u00e1 aquela que vai separar as popula\u00e7\u00f5es com acesso \u00e0 energia das que n\u00e3o t\u00eam acesso. N\u00e3o excluo a possibilidade de uma terr\u00edvel regress\u00e3o social: qualquer coisa como um retrocesso \u00e0 Idade M\u00e9dia. Sem contar com as m\u00faltiplas guerras que j\u00e1 come\u00e7amos (nomeadamente no M\u00e9dio Oriente) para garantir o acesso aos recursos energ\u00e9ticos. A social-democracia ocidental n\u00e3o compreendeu ainda a import\u00e2ncia da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. As ind\u00fastrias do mundo inteiro, elas, sim, compreenderam muito bem e esperam com impaci\u00eancia que os pol\u00edticos saiam da sua fascina\u00e7\u00e3o pelas finan\u00e7as e desbloqueiem finalmente as solu\u00e7\u00f5es de financiamento para come\u00e7arem a transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Recentemente, ao falar da crise da esquerda na Fran\u00e7a, o senhor mencionou a cria\u00e7\u00e3o do Partido Nouvelle Donne como uma possibilidade promissora. Por quais raz\u00f5es? A esquerda ainda tem algo a oferecer para as discuss\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais? Aqui no Brasil h\u00e1 uma expectativa em rela\u00e7\u00e3o aos movimentos que surgem sem lideran\u00e7as no sentido de propor algo novo, mas na Europa j\u00e1 h\u00e1 sinais de que movimentos como esse tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiram mudan\u00e7as e avan\u00e7os, a exemplo do 15M. O que fazer?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> O exemplo dos \u201cIndignados\u201d na Espanha parece-me revelador. Os espanh\u00f3is sa\u00edram \u00e0 rua aos milh\u00f5es, durante meses e meses. No imediato, de forma estrita, n\u00e3o deu nada no plano pol\u00edtico, e at\u00e9 foi o Partido Popular que acabou por ser eleito, mesmo quando este partido, no tempo de Aznar, no princ\u00edpio dos anos 2000, foi altamente respons\u00e1vel pela entrada da Espanha na bolha subprime. A raz\u00e3o da fal\u00eancia de um movimento social assim de multid\u00f5es na Espanha \u00e9 a incapacidade da classe pol\u00edtica espanhola em articular a indigna\u00e7\u00e3o social com um verdadeiro programa pol\u00edtico. A social-democracia tornou-se neoliberal e, de pronto, deixou de pensar. Atualmente, os partidos socialistas europeus t\u00eam um eletroencefalograma plano. \u00c9 por isso que a cria\u00e7\u00e3o do partido Nouvelle Donne me parece uma excelente not\u00edcia: a\u00ed est\u00e1 um partido de centro-esquerda que formula um verdadeiro diagn\u00f3stico sobre a situa\u00e7\u00e3o atual, que quer regulamentar as finan\u00e7as, reduzir as desigualdades (pelo imposto sobre o cr\u00e9dito e sobre o capital), lan\u00e7ar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em que consiste o Tratado de Livre Com\u00e9rcio em negocia\u00e7\u00e3o entre a Uni\u00e3o Europeia e os Estados Unidos, e como o senhor o avalia tendo em vista o atual cen\u00e1rio pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social do mundo, ou seja, este momento de crise?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> O Tratado transatl\u00e2ntico \u00e9 uma cat\u00e1strofe, aumentada pela soberania pol\u00edtica dos Estados da linha do Atl\u00e2ntico Norte. De fato, este Tratado de livre-troca vai autorizar uma empresa norte-americana ou europeia a processar um pa\u00eds, levando-o a adotar as leis que est\u00e3o de acordo com os interesses da empresa. O tribunal ad hoc que regulamentar\u00e1 o lit\u00edgio apenas se apoiar\u00e1 no direito comercial internacional e no tratado. De modo particular, at\u00e9 mesmo a constitui\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds n\u00e3o entrar\u00e1 em linha de considera\u00e7\u00e3o. Se assinarmos um tratado assim, \u00e9 o fim do Estado na Europa. Os verdadeiros governantes ser\u00e3o os donos das empresas. Eu penso que, se assinarmos um tratado assim, a rea\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ser\u00e1 id\u00eantica \u00e0 da popula\u00e7\u00e3o dos anos trinta. Acabar\u00e3o por eleger os ditadores neofascistas para lhes salvar da ditadura das multinacionais. Tudo isso \u00e9 bastante perigoso.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor leu o livro do economista Thomas Piketty, O Capital do S\u00e9culo 21 (Capital in the Twenty-First Century)? O livro tem recebido cr\u00edticas positivas e negativas. Do ponto de vista econ\u00f4mico, quais s\u00e3o as propostas do livro, seus erros e acertos, inclusive no que se refere \u00e0 an\u00e1lise das implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas na atual conjuntura das desigualdades sociais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> O principal interesse do livro de Piketty \u00e9 o de colocar na dianteira o esc\u00e2ndalo da explos\u00e3o das desigualdades nos Estados Unidos e na Europa. Ele n\u00e3o \u00e9, evidentemente, o primeiro a faz\u00ea-lo: Galbraith j\u00e1 o tinha feito nos anos 1990. A dificuldade est\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o e no tratamento dos dados, ambos com falta de rigor, como foi recentemente sublinhado por diversos colegas e mesmo alguns estudantes. Mas essa falta de rigor n\u00e3o p\u00f5e em causa a conclus\u00e3o fundamental, que \u00e9 verificada por numerosos outros trabalhos, mais rigorosos, em que todos iluminam as desigualdades de forma impressionante.<\/p>\n<p>A outra dificuldade do livro, no meu ponto de vista, \u00e9 ainda mais grave: n\u00e3o tem teoria econ\u00f4mica. Ou mais especificamente: a teoria subjacente \u00e9 a da escola neocl\u00e1ssica norte-americana mais conservadora. Em particular, o conjunto das ideias repousa sobre aquela fic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existiria algo como \u201co\u201d capital.<\/p>\n<p>Marx, tal como outros economistas conservadores, fez o mesmo erro: \u201co capital? Isso n\u00e3o existe\u201d. Se \u00e9 assim, ningu\u00e9m poder\u00e1, por exemplo, definir o seu rendimento. O que existe s\u00e3o as m\u00e1quinas, as infraestruturas, a energia, os recursos naturais, os ativos financeiros, a moeda\u2026 Cada qual com uma l\u00f3gica pr\u00f3pria. Perpetuar a ilus\u00e3o de que se pode emaranhar todas essas realidades numa categoria \u00fanica \u00e9 manter a economia numa imensa confus\u00e3o. O paradoxo est\u00e1 presente quando se constata, por exemplo, que na teoria de Piketty a moeda n\u00e3o existe\u2026 Para um livro que passa 900 p\u00e1ginas falando de capital, \u00e9 bastante estranho, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito, ent\u00e3o, de todo, que o livro de Piketty renovar\u00e1 a pesquisa econ\u00f4mica. No entanto, o partido democrata dos Estados Unidos parece ter decidido torn\u00e1-lo a sua nova b\u00edblia. O sucesso de livraria da obra sugere que, possivelmente, seja uma boa estrat\u00e9gia, que poder\u00e1 permitir que se reinstale no debate p\u00fablico norte-americano a quest\u00e3o das desigualdades. Infelizmente, tanto do lado das propostas pol\u00edticas como do lado da an\u00e1lise, o livro \u00e9 igualmente pobre: Piketty contenta-se em propor um imposto mundial sobre o capital, quando ele sabe muito bem que nunca ver\u00e1 o dia que isso aconte\u00e7a, ou em todo o caso, n\u00e3o acontecer\u00e1 antes de bastante tempo passar. Al\u00e9m disso, tenho um forte receio de que a maior parte das pessoas que compraram o livro n\u00e3o o ler\u00e3o\u2026 Ent\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 nesse livro que se encontrar\u00e1 o meio de sa\u00edda da paralisia intelectual da social-democracia ocidental.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Entre as escolas econ\u00f4micas existentes, alguma d\u00e1 conta de propor solu\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ga\u00ebl Giraud &#8211;<\/strong> A ecologia econ\u00f4mica parece estar atualmente numa via mais promissora. Ela n\u00e3o \u00e9 nem marxista, nem neoliberal. O seu objeto \u00e9 a realidade de um planeta que n\u00f3s estamos em vias de destruir. E n\u00e3o temos outro. A maior parte dos economistas dos dias de hoje j\u00e1 compreendeu que a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 insepar\u00e1vel de uma transi\u00e7\u00e3o social: em particular, n\u00e3o chegaremos a iniciar esta transi\u00e7\u00e3o de forma eficaz enquanto uma minoria muito pequena continue a monopolizar o essencial da riqueza e dela servir-se para destruir o ambiente e esgotar os nossos recursos.<\/p>\n<p><em>* <strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Paulo Duarte.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Patricia Fachin e Ricardo Machado* \u201cAs desigualdades de rendimentos e de patrim\u00f4nio, mas tamb\u00e9m<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",150,96,false],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",300,192,false],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/ecologia_economica.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":1,"uagb_excerpt":"Por Patricia Fachin e Ricardo Machado* \u201cAs desigualdades de rendimentos e de patrim\u00f4nio, mas tamb\u00e9m","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2196"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2196\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}