{"id":21682,"date":"2015-05-25T12:00:16","date_gmt":"2015-05-25T12:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=21682"},"modified":"2015-05-24T22:58:51","modified_gmt":"2015-05-24T22:58:51","slug":"estudos-reforcam-riscos-da-intoxicacao-de-trabalhadores-ao-benzeno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/estudos-reforcam-riscos-da-intoxicacao-de-trabalhadores-ao-benzeno\/","title":{"rendered":"Estudos refor\u00e7am riscos da intoxica\u00e7\u00e3o de trabalhadores ao benzeno"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-21686\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Foram os 22 dias mais longos e mais curtos da vida de J\u00falia Krappa e dos dois filhos, ent\u00e3o com 4 e 9 anos. Em 14 de setembro de 2004, seu marido, Roberto Krappa, chegou em casa com manchas vermelhas ap\u00f3s passar a noite na refinaria da <a class=\"news\" href=\"http:\/\/extra.globo.com\/noticias\/economia\/petrobras\/\" rel=\"follow\">Petrobras<\/a> em Cubat\u00e3o, S\u00e3o Paulo, onde trabalhou por 11 anos. Naquela manh\u00e3, reclamou de vazamentos nos tanques de combust\u00edveis, queixa que n\u00e3o era rara. Logo, a gengiva come\u00e7ou a sangrar. Nesse momento, Roberto suspeitou que estava contaminado. Ele sabia que lidava com benzeno, subst\u00e2ncia cancer\u00edgena presente nos produtos da empresa.<\/p>\n<p>Durante o dia, o casal percorreu m\u00e9dicos, mas voltou para casa sem resposta. Na manh\u00e3 seguinte, Roberto levou os filhos \u00e0 escola e, horas depois, foi internado, com hemorragias internas e altera\u00e7\u00f5es graves no sangue. A partir da\u00ed, as lembran\u00e7as de J\u00falia s\u00e3o da dificuldade do diagn\u00f3stico, da piora r\u00e1pida dos sintomas, do anivers\u00e1rio de 36 anos dele no hospital, em coma. No dia 5 de outubro, morreu de leucemia promieloc\u00edtica aguda, que, segundo o laudo m\u00e9dico, foi provocado pela exposi\u00e7\u00e3o ao agente.<\/p>\n<p>\u2014 Todos conheciam o risco e usavam equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o parecia um risco real \u2014 conta J\u00falia, que ganhou os processos judiciais at\u00e9 o Supremo Tribunal Federal contra a empresa (embora ainda haja embargos).<\/p>\n<p>Muitos nunca ouviram falar do benzeno, mas convivem com ele diariamente. No passado, foi bastante usado, at\u00e9 em lo\u00e7\u00e3o p\u00f3s-barba. O crescente n\u00famero de estudos demonstrando seus malef\u00edcios foi eliminando-o do conv\u00edvio. A Ag\u00eancia Internacional de Pesquisa em C\u00e2ncer classifica-o como cancer\u00edgeno do grupo 1 (n\u00edvel mais alarmante), e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade diz que a exposi\u00e7\u00e3o a ele \u00e9 \u201cuma preocupa\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria de sa\u00fade p\u00fablica\u201d. Proveniente da destila\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o e do petr\u00f3leo, est\u00e1 nos processos produtivos de ind\u00fastrias petroqu\u00edmica e sider\u00fargica. \u00c9 encontrado na gasolina, na tinta e no pl\u00e1stico; est\u00e1 at\u00e9 no cigarro. Desde a d\u00e9cada de 1980, sindicatos v\u00eam intensificando o alerta do risco sofrido por profissionais de determinadas \u00e1reas das empresas. E recentemente mais um grupo tem ganhado aten\u00e7\u00e3o: os frentistas.<\/p>\n<p>Novos estudos, campanha e leis buscam melhorar a seguran\u00e7a desse pessoal. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul analisaram os efeitos do benzeno em 60 frentistas. Mediram sua concentra\u00e7\u00e3o por exames de sangue e urina e conclu\u00edram que os n\u00edveis estavam dentro dos limites de seguran\u00e7a preconizados internacionalmente. Mesmo assim, eles apresentavam altera\u00e7\u00f5es moleculares indicativas da exposi\u00e7\u00e3o ao benzeno.<\/p>\n<p>\u2014 Mostramos que, quando o agente \u00e9 cancer\u00edgeno, n\u00e3o h\u00e1 limite seguro \u2014 diz a professora Solange Garcia, autora do estudo, publicado na revista \u201cEnvironmental Research\u201d. \u2014 Vimos que eles est\u00e3o, sim, com danos em prote\u00ednas, lip\u00eddios e at\u00e9 no DNA. Se nada for feito, h\u00e1 chances de patologias.<\/p>\n<p>No Brasil, desde 1995, o benzeno n\u00e3o deve ultrapassar 1% da concentra\u00e7\u00e3o de misturas l\u00edquidas (gasolina) e 2,5 partes por milh\u00e3o (ppm) do ar. No organismo humano, o limite \u00e9 menor.<\/p>\n<p><strong>CAMPANHA #PARENOAUTOM\u00c1TICO<\/strong><\/p>\n<p>Os cientistas do Sul integram a campanha #PareNoAutom\u00e1tico, que vem se popularizando, na esteira de leis estaduais que obrigam o frentista a encher o tanque de gasolina sem ultrapassar a trava de seguran\u00e7a. Com isso, ele evita o contato com o qu\u00edmico, inalado ou atrav\u00e9s da pele. No Estado do Rio, a norma vale desde janeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Esses tr\u00eas ou quatro litros a mais no tanque n\u00e3o fazem diferen\u00e7a para o motorista, mas s\u00e3o suficientes para triplicar a exposi\u00e7\u00e3o do frentista \u2014 defende o deputado estadual Carlos Minc (PT), que movimenta a campanha na capital e que comprou outra briga: \u00e9 autor do projeto de lei 2.989\/14, para proibir a comercializa\u00e7\u00e3o de gasolina que contenha benzeno. \u2014 Em 1995, houve pol\u00eamica sobre a lei estadual para retirar o chumbo (cancer\u00edgeno) da gasolina, mas conseguimos aprov\u00e1-la, obrigando a investimentos de US$ 30 milh\u00f5es nas refinarias.<\/p>\n<p>Nem todos os especialistas concordam que essa \u00e9 uma medida vi\u00e1vel. Entre os argumentos, a impossibilidade de extrair o composto ou a necessidade de mudan\u00e7as profundas nas refinarias. Mas um dos que fazem coro \u00e0 proposta \u00e9 o pesquisador do Centro de Estudos da Sa\u00fade do Trabalhador da Fiocruz, Marco Menezes, garantindo que h\u00e1 tecnologia dispon\u00edvel para tal. Ele desenvolve uma pesquisa com 150 frentistas do Rio, dos quais 30% t\u00eam altera\u00e7\u00f5es hematol\u00f3gicas, segundo dados parciais.<\/p>\n<p>\u2014 Entre elas, h\u00e1 a redu\u00e7\u00e3o dos leuc\u00f3citos, um indicativo da exposi\u00e7\u00e3o \u2014 diz Menezes, que pondera: \u2014 Precisamos acompanh\u00e1-los por mais tempo para ver se isto \u00e9 pontual ou cr\u00f4nico. De qualquer forma, s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es importantes e, por isso, agentes de sa\u00fade da fam\u00edlia est\u00e3o acompanhando os frentistas e se empoderando da discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>O presidente do sindicato dos frentistas, Eus\u00e9bio Lu\u00eds, se surpreendeu com os dados da Fiocruz, e diz que frentistas e donos de postos ainda precisam conhecer os riscos. J\u00e1 o presidente do sindicato dos donos de postos de combust\u00edveis, Jo\u00e3o Cursino, garante que empres\u00e1rios e frentistas est\u00e3o cientes.<\/p>\n<p>\u2014 Antes de a lei ser aprovada, houve orienta\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 o consumidor, que pede para passar do autom\u00e1tico e esquece que isto danifica o pr\u00f3prio carro \u2014 afirma Cursino.<\/p>\n<p>No caso dos petroqu\u00edmicos, a discuss\u00e3o vem de duas d\u00e9cadas, mas o tempo foi insuficiente para garantir a seguran\u00e7a do grupo, segundo o auditor fiscal do trabalho Danilo Costa, cujo tema de doutorado da USP foi a exposi\u00e7\u00e3o ao benzeno.<\/p>\n<p>\u2014 Na compara\u00e7\u00e3o com os anos 80, a melhora \u00e9 vis\u00edvel. N\u00e3o tinha \u00e1rvore em Cubat\u00e3o, s\u00f3 fuma\u00e7a. Mas o controle da subst\u00e2ncia \u00e9 prec\u00e1rio, os casos n\u00e3o t\u00eam repercuss\u00e3o, e os que se envolvem ficam comovidos, porque s\u00e3o verdadeiras trag\u00e9dias \u2014 desabafa.<\/p>\n<p><strong>LONGO CAMINHO AT\u00c9 A REPARA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>M\u00e1rcio da Silva, Sebasti\u00e3o Marques, Theodoro Bento e Elias Jos\u00e9 s\u00e3o ex-funcion\u00e1rios da Companhia Sider\u00fargica Nacional (CSN) ou de subsidi\u00e1rias, de Volta Redonda, onde trabalharam nos anos 80 e 90. Todos sofrem de leucopenia e t\u00eam processos contra a CSN. N\u00e3o s\u00f3 pela doen\u00e7a, mas pelo tratamento recebido: \u00e0 \u00e9poca, lembram que pombos conviviam com os trabalhadores e, quando come\u00e7avam a morrer, era sinal de vazamento de benzeno; os primeiros casos de leucopenia eram associados a \u201cdoen\u00e7a de negros\u201d. M\u00e1rcio n\u00e3o entendeu quando passou a fazer exames de sangue a cada duas semanas na empresa, j\u00e1 que antes o procedimento era a cada seis meses. Decidiu pagar por um exame particular e descobriu a leucopenia. Elias, que passou por situa\u00e7\u00e3o parecida, lembra que ainda passou meses num vesti\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Batia ponto de entrada e sa\u00edda, mas n\u00e3o trabalhava. A CSN n\u00e3o queria confirmar no INSS o diagn\u00f3stico e escondia o caso \u2014 denuncia.<\/p>\n<p>As empresas n\u00e3o comentaram os casos especificamente. A Petrobras afirmou, por meio de nota que \u201ctodas as recomenda\u00e7\u00f5es legais e t\u00e9cnicas s\u00e3o observadas, e medidas de mitiga\u00e7\u00e3o da possibilidade de exposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o tomadas\u201d; e a CSN, tamb\u00e9m por nota, diz que mant\u00e9m \u201cuma r\u00edgida pol\u00edtica de seguran\u00e7a do trabalho e cumpre as normas previstas pela legisla\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Condena\u00e7\u00f5es recaem sobre companhias que usam benzeno. Mas h\u00e1 um longo caminho at\u00e9 a repara\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 dificuldade de estabelecer o nexo causal, ou seja, provar que a doen\u00e7a foi causada pela exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 subst\u00e2ncia. Para o Minist\u00e9rio do Trabalho, altera\u00e7\u00f5es sangu\u00edneas ou c\u00e2ncer junto ao hist\u00f3rico de exposi\u00e7\u00e3o ocupacional s\u00e3o suficientes. Mas, s\u00f3 na teoria.<\/p>\n<p>\u2014 Uma quest\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 a sistem\u00e1tica nega\u00e7\u00e3o do nexo causal pelas empresas \u2014 diz Arline Arcuri, pesquisadora do Fundacentro, centro de seguran\u00e7a e sa\u00fade no trabalho ligado ao minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Arline lembra que no <em>boom<\/em> dos anos 80 chegaram a ser identificados mais de 2.500 doentes, mas que, com o endurecimento legal, empresas internalizam o tratamento para evitar o envio de casos ao INSS. Com isso, as estat\u00edsticas s\u00e3o irreais.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 o que chamamos de sil\u00eancio epidemiol\u00f3gico na petroqu\u00edmica e na siderurgia. O adoecimento no trabalho tem um impacto negativo para a empresa, ent\u00e3o elas mascaram, escondem, d\u00e3o desculpas fajutas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram os 22 dias mais longos e mais curtos da vida de J\u00falia Krappa e<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21686,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/viuva_justica.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Foram os 22 dias mais longos e mais curtos da vida de J\u00falia Krappa e","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21682"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21682\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21686"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}