{"id":21105,"date":"2015-05-15T22:42:15","date_gmt":"2015-05-15T22:42:15","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=21105"},"modified":"2015-05-15T22:42:15","modified_gmt":"2015-05-15T22:42:15","slug":"uso-combinado-de-agrotoxicos-nao-e-avaliado-na-pratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/uso-combinado-de-agrotoxicos-nao-e-avaliado-na-pratica\/","title":{"rendered":"Uso combinado de agrot\u00f3xicos n\u00e3o \u00e9 avaliado na pr\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Karen Friedrich<\/p>\n<p><strong>\u201cTemos notificados quase 100% de casos de intoxica\u00e7\u00e3o aguda, os quais ocorrem logo ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos\u201d, informa a toxicologista.<\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i59.tinypic.com\/a5ew4n.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<div><em>Foto: sinaisdoreino.com.br<\/em><\/div>\n<div><em>\u00a0<\/em><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>A atualiza\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542336-dossie-abrasco-o-grito-contra-o-silencio-opressivo-do-agronegocio-entrevista-especial-com-fernando-carneiro\" target=\"_blank\"><strong>Dossi\u00ea da Abrasco<\/strong><\/a> referente aos alimentos contaminados por agrot\u00f3xicos, n\u00e3o s\u00f3 indica que <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542273-o-alarmante-uso-de-agrotoxicos-no-brasil-atinge-70-dos-alimentos\" target=\"_blank\">70% dos alimentos analisados foram cultivados com o uso de inseticidas<\/a>, como informa que o <strong>glifosato<\/strong>, \u201co agrot\u00f3xico mais usado no Brasil\u201d, n\u00e3o foi analisado nos testes e, portanto, a expectativa \u00e9 de que \u201ca contamina\u00e7\u00e3o seja muito maior\u201d, disse <strong>Karen Friedrich<\/strong>, em entrevista concedida \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong> por telefone.<\/p>\n<p>De acordo com a toxicologista, \u201c\u00e9 poss\u00edvel fazer testes\u201d com o glifosato, inclusive \u201cporque a pr\u00f3pria empresa, quando registra um agrot\u00f3xico, tem a obriga\u00e7\u00e3o de repassar a tecnologia da metodologia para \u00f3rg\u00e3os e laborat\u00f3rios p\u00fablicos que ir\u00e3o fazer essa an\u00e1lise\u201d, explica, ao informar que n\u00e3o sabe por quais raz\u00f5es tais testes n\u00e3o foram realizados pela <strong>Anvisa<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Karen<\/strong> esclarece que os efeitos \u00e0 sa\u00fade, do ponto de vista toxicol\u00f3gico, foram analisados em dois grupos: os agudos e os cr\u00f4nicos. \u201cO agudo \u00e9 aquele que ocorre logo ap\u00f3s uma exposi\u00e7\u00e3o a uma dose alta de agrot\u00f3xico; e o efeito cr\u00f4nico \u00e9 aquele que ocorre em uma exposi\u00e7\u00e3o em doses muito pequenas ao longo da vida\u201d, resume. Segundo ela, embora os herbicidas sejam liberados para a comercializa\u00e7\u00e3o, um dos principais dilemas est\u00e1 relacionado ao fato de que \u201cos agrot\u00f3xicos s\u00e3o testados individualmente, mas, na pr\u00e1tica, <strong>h\u00e1 mistura de agrot\u00f3xicos<\/strong>\u201d. Isso significa dizer, \u201cque um determinado efeito que n\u00e3o se manifestou no teste com um animal de laborat\u00f3rio, a partir de uma \u00fanica mol\u00e9cula, um \u00fanico agrot\u00f3xico, na vida real, onde h\u00e1 misturas e onde um agrot\u00f3xico pode potencializar o dano do outro, causar\u00e1 efeitos na sa\u00fade das pessoas\u201d. Na avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora, isso ocorre por conta de uma \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/539242-fragilidade-da-anvisa-e-o-uso-indiscriminado-de-agrotoxicos-no-brasil-entrevista-especial-com-victor-manoel-pelaez-alvarez\" target=\"_blank\">limita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do registro de agrot\u00f3xicos<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>A outra limita\u00e7\u00e3o que possibilita o uso crescente desses produtos no pa\u00eds \u00e9 \u201cpol\u00edtica\u201d. \u201cAs ag\u00eancias que regulamentam os agrot\u00f3xicos, tanto a <strong>Anvisa<\/strong> como o <strong>Ibama<\/strong>, s\u00e3o ag\u00eancias que t\u00eam um quadro de funcion\u00e1rios muito pequeno. Enquanto nos Estados Unidos, para fazer o mesmo trabalho, h\u00e1 centenas de pessoas, aqui s\u00e3o 20, 30 ou 40, que al\u00e9m de fazerem o registro s\u00e3o respons\u00e1veis tamb\u00e9m por fazer a revis\u00e3o do registro, o que \u00e9 um outro problema no Brasil\u201d, pontua. <strong>Karen<\/strong> informa ainda que em pa\u00edses da Europa e nos EUA, a revis\u00e3o das mol\u00e9culas presentes nos agrot\u00f3xicos \u00e9 feita a cada 10 ou 15 anos, enquanto no Brasil \u201cn\u00e3o existe esse tempo limite. (&#8230;) Uma mol\u00e9cula que est\u00e1 em uso desde a d\u00e9cada de 1950, 1960, ainda hoje \u00e9 utilizada no Brasil, sem ter sido feita uma <strong>revis\u00e3o dos estudos<\/strong> realizados anos atr\u00e1s\u201d, adverte.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/527273-qual-agricultura-nos-queremos-a-polemica-do-24-d-e-a-toxidade-dos-agrotoxicos-entrevista-especial-com-karen-friedrich\" target=\"_blank\"><strong>Karen Friedrich<\/strong><\/a> \u00e9 graduada em Biomedicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (<strong>UNIRIO<\/strong>), mestre e doutora em Sa\u00fade P\u00fablica pela Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica S\u00e9rgio Arouca, <strong>Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz<\/strong>. Atualmente integra o quadro do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Sa\u00fade &#8211; <strong>INCQS<\/strong>, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz e da <strong>UNIRIO<\/strong>, onde leciona. \u00c9 docente permanente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria da Fiocruz. Tamb\u00e9m \u00e9 membro do GT Sa\u00fade e Ambiente da Abrasco.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista. <\/strong><\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"0\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img src=\"http:\/\/i62.tinypic.com\/350q6hf.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><em>Foto: ensp.fiocruz.br<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong> IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os dados mais relevantes e preocupantes do \u201cDossi\u00ea Abrasco \u2014 um alerta sobre o impacto dos agrot\u00f3xicos na sa\u00fade\u201d, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre agrot\u00f3xico e sa\u00fade? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542128-abrasco-lanca-nova-edicao-de-dossie-sobre-agrotoxicos\" target=\"_blank\"><strong>Dossi\u00ea<\/strong><\/a> foi constitu\u00eddo, inicialmente, em tr\u00eas partes, as quais foram publicadas em 2012, e neste ano publicamos uma quarta parte, que \u00e9 uma atualiza\u00e7\u00e3o do que aconteceu de 2012 para c\u00e1. Fizemos uma atualiza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o da <strong>seguran\u00e7a alimentar<\/strong>, por meio dos dados de contamina\u00e7\u00e3o de res\u00edduos de agrot\u00f3xicos em alimentos, e verificamos que o percentual de alimentos que t\u00eam agrot\u00f3xicos \u00e9 bastante elevado. Sabemos que ao menos 70% do que foi analisado tinha agrot\u00f3xico, sendo 30% a 35% deles em n\u00edveis considerados irregulares. Ressaltamos que o <strong>glifosato<\/strong> \u2014 que \u00e9 o agrot\u00f3xico mais usado no Brasil \u2014 n\u00e3o foi analisado pela <strong>Anvisa<\/strong>. Ent\u00e3o, temos a expectativa de que a contamina\u00e7\u00e3o seja muito maior.<\/p>\n<p>Na parte quatro do <strong>Dossi\u00ea<\/strong>, apresentamos ainda alguns relatos de situa\u00e7\u00f5es que aconteceram de l\u00e1 para c\u00e1: h\u00e1 dois casos que s\u00e3o muito graves e emblem\u00e1ticos. Um deles \u00e9 a <strong>pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos sobre uma escola<\/strong> municipal rural em Rio Verde \u2013 GO, que ocorreu em 03-05-2013, h\u00e1 dois anos e, \u00e0 \u00e9poca, 93 pessoas foram intoxicadas, entre alunos, professores, diretor e outros funcion\u00e1rios do col\u00e9gio. Os efeitos da contamina\u00e7\u00e3o foram bastante graves logo ap\u00f3s o acidente e at\u00e9 hoje professores e alunos contaminados ainda manifestam os sintomas dessas intoxica\u00e7\u00f5es. Tivemos not\u00edcias de que eles n\u00e3o est\u00e3o sendo atendidos de modo adequado no servi\u00e7o de sa\u00fade. Com isso, revelamos que a <strong>pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea<\/strong> \u00e9 uma pr\u00e1tica muito amea\u00e7adora \u00e0 vida e ao meio ambiente.<\/p>\n<p>O segundo caso cr\u00edtico que relatamos foi uma <strong>pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos sobre uma aldeia ind\u00edgena<\/strong>, em Mato Grosso. Nessa regi\u00e3o havia quatro casos de suspeita de \u00f3bito de crian\u00e7as ind\u00edgenas por contamina\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/528462-ms-uso-indiscriminado-de-agrotoxicos-e-alvo-de-mpf-e-mpt\" target=\"_blank\">pr\u00e1tica de pulveriza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito disseminada no Brasil<\/a> e \u00e9 algo que condenamos, porque ela tem um limite que deve ser seguido, quer dizer, o avi\u00e3o s\u00f3 pode passar numa \u00e1rea com dist\u00e2ncia de 500 metros de qualquer agrupamento, qualquer local de circula\u00e7\u00e3o de pessoas, como, por exemplo, estradas. Mas, mesmo quando a pulveriza\u00e7\u00e3o obedece a esses limites, existem relatos e estudos cient\u00edficos mostrando que o vento carreia e os agrot\u00f3xicos chegam a agrupamentos humanos. Trata-se, portanto, de uma pr\u00e1tica muito amea\u00e7adora \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Os <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/527717-o-perigo-dos-agrotoxicos\" target=\"_blank\">efeitos<\/a><\/strong> que apontamos no livro s\u00e3o aqueles que est\u00e3o cientificamente comprovados e associados aos agrot\u00f3xicos. Classificamos os efeitos, do ponto de vista toxicol\u00f3gico, em dois grupos: os agudos e os cr\u00f4nicos. O agudo \u00e9 aquele que ocorre logo ap\u00f3s uma exposi\u00e7\u00e3o a uma dose alta de agrot\u00f3xico; e o efeito cr\u00f4nico \u00e9 aquele que ocorre em uma exposi\u00e7\u00e3o em doses muito pequenas ao longo da vida. Ent\u00e3o, estimamos que essa exposi\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos alimentos contaminados e da \u00e1gua contaminada pode, sim, vir a desenvolver efeitos cr\u00f4nicos. H\u00e1 uma s\u00e9rie de <strong>estudos relatados no Dossi\u00ea<\/strong>, estudos com animais de laborat\u00f3rio, estudos realizados com pessoas expostas, mostrando que os agrot\u00f3xicos induzem a altera\u00e7\u00f5es reprodutivas, hormonais e at\u00e9 ao c\u00e2ncer.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por que o glifosato ficou fora dessa an\u00e1lise? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> Acredito que a ag\u00eancia possa dar um depoimento sobre isso. N\u00e3o sei ao certo se foi por causa de alguma quest\u00e3o de metodologia, ou se n\u00e3o tem laborat\u00f3rio capacitado para fazer a an\u00e1lise. De repente vale a pena fazer uma consulta \u00e0 <strong>Anvisa<\/strong> para entender o motivo.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<h2><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/h2>\n<h2>&#8220;H\u00e1 uma s\u00e9rie de estudos mostrando que os agrot\u00f3xicos induzem a altera\u00e7\u00f5es reprodutivas, hormonais e at\u00e9 ao c\u00e2ncer&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Mas voc\u00ea tem conhecimento de alguma justificativa para que os testes com glifosato n\u00e3o tenham sido realizados? Ou n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel realizar testes com glifosato?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> \u00c9 poss\u00edvel fazer testes, porque a pr\u00f3pria empresa, quando registra um agrot\u00f3xico, tem a obriga\u00e7\u00e3o de repassar a tecnologia da metodologia para \u00f3rg\u00e3os e laborat\u00f3rios p\u00fablicos que ir\u00e3o fazer essa an\u00e1lise. Mas n\u00e3o sei se isso \u00e9 cobrado pela <strong>Anvisa<\/strong>, pelo <strong>Minist\u00e9rio da Agricultura<\/strong>, pelo <strong>Ibama<\/strong>, para que essa metodologia seja repassada.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Desses 70% dos alimentos contaminados, segundo a Anvisa, 28% cont\u00eam subst\u00e2ncias n\u00e3o autorizadas. Como esse tema \u00e9 abordado na \u00e1rea da sa\u00fade e da vigil\u00e2ncia? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> De fato essas <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/526020-proibidos-falsificados-e-perigosos\" target=\"_blank\">subst\u00e2ncias n\u00e3o s\u00e3o autorizadas<\/a>. O que acontece \u00e9 que no momento do registro da mol\u00e9cula ou, \u00e0s vezes, depois que o produto entra no mercado, a empresa pede para inserir novas culturas para aquele agrot\u00f3xico. Assim, o uso n\u00e3o autorizado pode se dar por diversas raz\u00f5es: ou porque o agricultor comprou um produto para uma cultura e ir\u00e1 aplicar em outra, ou \u00e0s vezes ele est\u00e1 plantando, mas o vizinho dele pulveriza agrot\u00f3xico por via a\u00e9rea ou tratorizada, e o vento carreia e contamina a cultura dele. Portanto, h\u00e1 diversas raz\u00f5es para esse <strong>uso n\u00e3o autorizado<\/strong>. Entretanto, existem agrot\u00f3xicos que n\u00e3o s\u00e3o autorizados no Brasil e, se eles s\u00e3o utilizados, entram no pa\u00eds por contrabando, pelas fronteiras, de forma il\u00edcita.<\/p>\n<p>Um ponto que refor\u00e7amos muito \u00e9 de que o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/524886-legislacao-ambiental-sobre-agrotoxicos-e-incoerente-entrevista-especial-com-paulo-engel-\" target=\"_blank\"><strong>registro de agrot\u00f3xico no Brasil<\/strong><\/a>, assim como tamb\u00e9m em outros pa\u00edses, tem limita\u00e7\u00f5es na esfera t\u00e9cnica e na esfera pol\u00edtica. Na esfera t\u00e9cnica \u2014 a\u00ed eu posso dizer com muita propriedade \u2014, uma empresa solicita o registro de agrot\u00f3xico atrav\u00e9s da apresenta\u00e7\u00e3o de um dossi\u00ea, com uma s\u00e9rie de resultados de testes realizados com animais de laborat\u00f3rio, juntamente com os resultados desses testes, contando quantos animais morreram, quantos apresentaram efeitos no contato com diferentes doses de agrot\u00f3xicos. A ag\u00eancia, a <strong>Anvisa<\/strong>, que avalia os agrot\u00f3xicos do ponto de vista da sa\u00fade, ir\u00e1 avaliar esses resultados e informar se concorda ou n\u00e3o com os dados apresentados, se os danos apontados no dossi\u00ea enviado pela empresa s\u00e3o ou n\u00e3o aceit\u00e1veis, e se concede o registro ou n\u00e3o. Do mesmo modo, o <strong>Minist\u00e9rio do Meio Ambiente<\/strong> ir\u00e1 fazer avalia\u00e7\u00e3o de acordo com os estudos ambientais.<\/p>\n<p>Quando a empresa apresenta esse dossi\u00ea para obter o registro, todos esses testes foram realizados a partir da utiliza\u00e7\u00e3o de somente uma mol\u00e9cula, a qual a empresa est\u00e1 querendo registrar. Mas, na pr\u00e1tica, n\u00e3o ingerimos s\u00f3 aquele agrot\u00f3xico autorizado, ingerimos uma s\u00e9rie de agrot\u00f3xicos que s\u00e3o usados nos alimentos ou que contaminam a \u00e1gua, usados diretamente ou que s\u00e3o fontes de outras contamina\u00e7\u00f5es. Isso significa dizer que um determinado efeito que n\u00e3o se manifestou no teste com um animal de laborat\u00f3rio, a partir de uma \u00fanica mol\u00e9cula, um \u00fanico agrot\u00f3xico, na vida real, onde h\u00e1 misturas e onde <strong>um agrot\u00f3xico pode potencializar o dano do outro<\/strong>, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/541591-instituto-nacional-de-cancer-ataca-uso-de-agrotoxicos-no-pais\" target=\"_blank\">causar\u00e1 efeitos na sa\u00fade das pessoas<\/a>. Quando tomamos um medicamento, n\u00e3o podemos fazer misturas de medicamentos com \u00e1lcool, com outras subst\u00e2ncias, porque podem ocorrer efeitos danosos, adversos e t\u00f3xicos \u00e0 nossa sa\u00fade, e o mesmo ocorre com o agrot\u00f3xico. Desse modo, essa limita\u00e7\u00e3o \u00e9 uma <strong>limita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do registro de agrot\u00f3xicos<\/strong>: s\u00f3 avaliamos um \u00fanico agrot\u00f3xico por vez, enquanto no campo, na vida real, as pulveriza\u00e7\u00f5es acontecem com misturas de agrot\u00f3xicos. \u00c0s vezes, em uma pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o, um agrot\u00f3xico tem mais de um ingrediente ativo, s\u00f3 que aquela formula\u00e7\u00e3o, ou seja, o produto final, n\u00e3o passa por todos os testes que seriam necess\u00e1rios para investigar um potencial dano reprodutivo, hormonal ou mesmo c\u00e2ncer, somente por alguns testes mais relacionados \u00e0 intoxica\u00e7\u00e3o aguda.<\/p>\n<p>A outra <strong>limita\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica<\/strong>, \u00e9 que as ag\u00eancias que regulamentam os agrot\u00f3xicos, tanto a <strong>Anvisa<\/strong> como o <strong>Ibama<\/strong>, s\u00e3o ag\u00eancias que t\u00eam um quadro de funcion\u00e1rios muito pequeno. Enquanto nos Estados Unidos, para fazer o mesmo trabalho, h\u00e1 centenas de pessoas, aqui s\u00e3o 20, 30 ou 40, que al\u00e9m de fazerem o registro s\u00e3o respons\u00e1veis tamb\u00e9m por fazer a revis\u00e3o do registro, o que \u00e9 um outro problema no Brasil. Enquanto nos <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/527781-brasil-fiscaliza-agrotoxico-so-em-13-alimentos-enquanto-eua-e-europa-analisam-300\" target=\"_blank\">Estados Unidos e na Europa<\/a> a revis\u00e3o do registro de uma mol\u00e9cula deve ser feita a cada 10, 15 anos, no Brasil n\u00e3o existe esse tempo limite. Dessa forma, uma mol\u00e9cula que est\u00e1 em uso desde a d\u00e9cada de 1950, 1960, ainda hoje \u00e9 utilizada no Brasil, sem ter sido feita uma revis\u00e3o dos estudos realizados anos atr\u00e1s. De l\u00e1 para c\u00e1, a pr\u00f3pria ci\u00eancia, a pr\u00f3pria toxicologia avan\u00e7ou muito, alguns testes se tornaram mais r\u00edgidos, mas as mol\u00e9culas n\u00e3o foram retestadas frente a esse novo cen\u00e1rio cient\u00edfico. Ent\u00e3o, o Brasil deveria fazer, como alguns pa\u00edses fazem, essa revis\u00e3o peri\u00f3dica dos agrot\u00f3xicos que est\u00e3o registrados.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/515995-com-a-minha-saida-da-anvisa-o-que-fica-de-mais-relevante-nao-e-a-perda-do-cargo-mas-sim-que-a-saude-pode-ficar-fragilizada\" target=\"_blank\"><strong>Anvisa<\/strong><\/a>, \u00e0s vezes, anuncia que vai fazer essa revis\u00e3o de registro \u2014 que ela chama de <strong>Reavalia\u00e7\u00e3o Toxicol\u00f3gica<\/strong> \u2014 mas, via de regra, quando tenta fazer isso, as empresas entram com mandados de seguran\u00e7a e impedem a revis\u00e3o. Tanto que ag\u00eancia anunciou que iria revisar uma lista pequena de 14 agrot\u00f3xicos em 2008 e at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguiu finaliz\u00e1-la. O n\u00famero limitado de pessoas trabalhando na Ag\u00eancia impede que se fa\u00e7a tanto a revis\u00e3o de registro de forma mais protetora \u00e0 sa\u00fade como a pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o para registrar mol\u00e9culas novas. Essa, inclusive, \u00e9 uma grande cr\u00edtica que a ind\u00fastria faz \u00e0 ag\u00eancia, porque ela demora muito tempo para registrar novas mol\u00e9culas, mas demora justamente porque tem poucas pessoas para fazer esse trabalho.<\/p>\n<table cellspacing=\"5\" cellpadding=\"5\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/h2>\n<h2><\/h2>\n<h2>&#8220;A Anvisa, \u00e0s vezes, anuncia que vai fazer essa revis\u00e3o de registro \u2014 que ela chama de Reavalia\u00e7\u00e3o Toxicol\u00f3gica \u2014 mas, via de regra, quando tenta fazer isso, as empresas entram com mandados de seguran\u00e7a e impedem a revis\u00e3o&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Esse processo de revis\u00e3o que ocorre em outros pa\u00edses contribui em grande parte para que agrot\u00f3xicos liberados no Brasil n\u00e3o sejam aceitos l\u00e1? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> Sim, essa \u00e9 uma das raz\u00f5es. Embora desde 2009 a legisla\u00e7\u00e3o da Europa esteja bem pr\u00f3xima da brasileira. A lei brasileira, desde 1989, apresenta crit\u00e9rios bastante restritos para registros de agrot\u00f3xicos, por isso devemos defende-la. De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o, se uma mol\u00e9cula apresenta um potencial de efeitos reprodutivos, efeitos hormonais, malforma\u00e7\u00e3o fetal ou c\u00e2ncer, ela n\u00e3o deve ser registrada. Isso n\u00e3o ocorre em outros pa\u00edses, como Austr\u00e1lia, Estados Unidos, Canad\u00e1. Se eles identificam esses efeitos, realizam um processo para avaliar a exposi\u00e7\u00e3o e verificar em que quantidade a mol\u00e9cula causa esse efeito. Claro que isso \u00e9 aplicado nesses pa\u00edses, porque eles n\u00e3o t\u00eam todo esse apelo econ\u00f4mico do setor agr\u00edcola. Ent\u00e3o, l\u00e1 o uso de agrot\u00f3xicos \u00e9 muito menor. Al\u00e9m disso, as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas fazem com que eles usem alguns equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, mesmo que saibamos que n\u00e3o sejam totalmente eficazes. Temos muitos estudos, tamb\u00e9m, apontando que um equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual n\u00e3o protege 100% o trabalhador; protege 40%, 60%, \u00e0s vezes at\u00e9 70%.<\/p>\n<p>Considerando essa quest\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o, era para termos muito mais agrot\u00f3xicos proibidos aqui do que em outros pa\u00edses. A Europa, em 2009, passou a inserir esses crit\u00e9rios de registro na sua legisla\u00e7\u00e3o, ou seja, algo que o Brasil j\u00e1 havia feito 20 anos antes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como \u00e9 feito o diagn\u00f3stico de doen\u00e7as provenientes de contamina\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> Isso tamb\u00e9m \u00e9 um problema. Temos notificados quase 100% de casos de <strong>intoxica\u00e7\u00e3o aguda<\/strong>, os quais ocorrem logo ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. Por isso, esse diagn\u00f3stico acaba sendo mais f\u00e1cil, porque a pessoa se sente mal depois de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/529720-trabalho-agrotoxicos-e-morte-no-campo-uma-longa-espera-por-justica-por-claudio-silva\" target=\"_blank\">pulverizar com agrot\u00f3xicos<\/a>, vai ao servi\u00e7o de sa\u00fade e o m\u00e9dico geral pergunta o que aconteceu, o paciente conta e o m\u00e9dico faz o registro. Dessa forma, esses casos s\u00e3o mais f\u00e1ceis de serem identificados, mas ainda assim s\u00e3o subnotificados, ou porque a pessoa ainda n\u00e3o vai ao servi\u00e7o de sa\u00fade, ou \u00e0s vezes ela fica at\u00e9 com medo de contar que estava pulverizando, para n\u00e3o ter um problema no emprego, ou \u00e0s vezes o m\u00e9dico n\u00e3o sabe que tem que notificar, ou ent\u00e3o nem sabe fazer um diagn\u00f3stico; existem muitos profissionais que nem perguntam a profiss\u00e3o da pessoa ao atend\u00ea-la.<\/p>\n<p>Agora, mais ocultos ainda s\u00e3o os casos de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/510381-a-saude-ameacada-pelos-agrotoxicos-\" target=\"_blank\"><strong>intoxica\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica<\/strong><\/a>. Pessoas que moram pr\u00f3ximo de uma regi\u00e3o de lavoura h\u00e1 10, 20 anos, podem desenvolver um tipo de c\u00e2ncer, um tipo de altera\u00e7\u00e3o reprodutiva, \u00e0s vezes infertilidade, aborto e n\u00e3o sabem o porqu\u00ea. Quando v\u00e3o ao m\u00e9dico, como ir\u00e3o atribuir a doen\u00e7a ao agrot\u00f3xico? Como ir\u00e3o relatar que h\u00e1 20 anos recebem exposi\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xico? \u00c9 muito dif\u00edcil fazer essa correla\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do que as pessoas ir\u00e3o relatar. Por outro lado, podemos sofrer esse tipo de intoxica\u00e7\u00e3o a partir da ingest\u00e3o de alimentos contaminados. Desse modo, se n\u00f3s a vida inteira comemos morango, ma\u00e7\u00e3, alimentos industrializados, alimentos de origem animal contaminados com agrot\u00f3xico, como iremos fazer essa correla\u00e7\u00e3o de que um futuro problema de sa\u00fade esteja associado com a nossa alimenta\u00e7\u00e3o? \u00c9 muito dif\u00edcil fazer o diagn\u00f3stico causal. Por isso temos que fazer uma avalia\u00e7\u00e3o de todo um contexto.<\/p>\n<p>Temos v\u00e1rios casos de estudos no pa\u00eds, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, no Cear\u00e1, Pernambuco, onde pessoas t\u00eam se manifestado e pesquisadores t\u00eam encontrado essa correla\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/533908-agrotoxicos-evidencias-cientificas-demonstram-efeitos-nocivos-na-saude\" target=\"_blank\"><strong>maior n\u00famero de casos de c\u00e2ncer<\/strong><\/a> em regi\u00f5es onde a pulveriza\u00e7\u00e3o e a utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos \u00e9 elevada. Apesar disso, uma coisa que falta mesmo, e a\u00ed \u00e9 uma car\u00eancia do servi\u00e7o p\u00fablico, \u00e9 o treinamento dos profissionais da sa\u00fade no sentido de serem possibilitados a fazerem esse diagn\u00f3stico de intoxica\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 importante tanto no meio rural, no campo \u2014 onde o uso \u00e9 mais intenso \u2014 quanto nas cidades.<\/p>\n<p>Hoje estamos vivendo um momento, por exemplo, de casos de <strong>epidemia de dengue<\/strong>, e entre as medidas adotadas est\u00e1 a <strong>pulveriza\u00e7\u00e3o com Malathion<\/strong>, que tamb\u00e9m causa intoxica\u00e7\u00e3o. O mesmo princ\u00edpio ativo do agrot\u00f3xico de uso agr\u00edcola est\u00e1 presente nesses produtos tamb\u00e9m. O inseticida que usamos dentro de casa \u00e9 \u00e0 base de piretroide, o mesmo composto qu\u00edmico utilizado na agricultura. O uso desses dois produtos ocasiona aquele tipo de mistura do qual falei no in\u00edcio. Al\u00e9m da mistura do agrot\u00f3xico no alimento, temos a mistura do inseticida dom\u00e9stico, do inseticida usado nas campanhas de sa\u00fade p\u00fablica, daquilo que \u00e9 usado, \u00e0s vezes, nos animais de estima\u00e7\u00e3o, quer dizer, estamos expostos \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/531537-audiencia-publica-debate-os-impactos-dos-agrotoxicos-na-saude-humana-e-os-procedimentos-para-o-registro\" target=\"_blank\"><strong>multiplicidade de agrot\u00f3xicos<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como \u00e9 feita a vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria e a avalia\u00e7\u00e3o toxicol\u00f3gica dos agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> Tanto o munic\u00edpio quanto o estado e o \u00f3rg\u00e3o federal t\u00eam essa obriga\u00e7\u00e3o. Claro que os munic\u00edpios e os estados t\u00eam uma obriga\u00e7\u00e3o maior, porque t\u00eam maior proximidade com aquelas realidades, mas, por outro lado, sofrem mais press\u00e3o pol\u00edtica local. \u00c0s vezes alguns pol\u00edticos tamb\u00e9m est\u00e3o envolvidos nesses casos, por vezes sao fazendeiros que utilizam e defendem o uso de agrot\u00f3xicos. As tr\u00eas esferas t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de fazer essa vigil\u00e2ncia, de fazer diagn\u00f3stico, preven\u00e7\u00e3o e acompanhamento.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<td>\n<h2><img src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/h2>\n<h2>&#8220;Vemos uma invers\u00e3o do que ocorre no mundo: enquanto o mundo procura se capacitar e produzir produtos com valor agregado, n\u00f3s estamos voltando a nossa economia para o setor prim\u00e1rio&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Considerando os dados do dossi\u00ea da Abrasco, a contamina\u00e7\u00e3o dos alimentos por agrot\u00f3xicos j\u00e1 \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> Sim, e h\u00e1 muitas d\u00e9cadas, infelizmente. O <strong>objetivo do Dossi\u00ea<\/strong> \u00e9 justamente \u201cfazer barulho\u201d com esses dados, porque o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/500481-a-politica-agricola-brasileira-e-o-incentivo-aos-agrotoxicos-entrevista-especial-com-flavia-londres\" target=\"_blank\">incentivo dado ao uso de agrot\u00f3xicos<\/a> na d\u00e9cada de 1970, principalmente no Brasil, de l\u00e1 para c\u00e1, s\u00f3 aumentou. E o incentivo se d\u00e1 tamb\u00e9m, por outro lado, pela quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de commodities agr\u00edcolas. Na verdade vemos uma <strong>invers\u00e3o do que ocorre no mundo<\/strong>: enquanto o mundo procura se capacitar e produzir produtos com valor agregado, n\u00f3s estamos voltando a nossa economia para o setor prim\u00e1rio, reprimarizando a nossa economia, produzindo commodities para exporta\u00e7\u00e3o. Dessa forma, o impacto sobre a sa\u00fade e o meio ambiente ocorre h\u00e1 muitas d\u00e9cadas. Alguns pesquisadores, ao longo desses anos, tentaram divulgar seus estudos, como <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2609&amp;secao=296\" target=\"_blank\"><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro<\/strong><\/a>, por exemplo, que tentou fazer esse alerta nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990. Mas quando os grupos s\u00e3o isolados \u2014 porque esses pesquisadores s\u00e3o isolados \u2014, em geral, s\u00e3o atacados.<\/p>\n<p>Acredito que o <strong>valor do Dossi\u00ea<\/strong> \u00e9 ter reunido pesquisadores renomados da \u00e1rea, ter envolvido tamb\u00e9m pessoas expostas a agrot\u00f3xicos: na parte tr\u00eas do Dossi\u00ea h\u00e1 relatos de pessoas expostas a agrot\u00f3xicos, de popula\u00e7\u00f5es de munic\u00edpios pequenos, que vivem em pequenos s\u00edtios, e elas contam o que est\u00e3o sentindo na pele. O Dossi\u00ea reuniu tanto acad\u00eamicos como movimentos sociais e pessoas expostas. O objetivo do Dossi\u00ea era dar voz a essas pessoas, a esses <strong>efeitos<\/strong>, a esses problemas de sa\u00fade que a popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o tem acesso atrav\u00e9s da grande m\u00eddia.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Muitos dos agrot\u00f3xicos s\u00e3o liberados por conta do seu efeito em sementes transg\u00eanicas. Como avalia esse \u201cprocesso\u201d casado entre agrot\u00f3xico e transg\u00eanico e, mais recentemente, a proposta de retirar o s\u00edmbolo \u201cT\u201d dos alimentos transg\u00eanicos? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Karen Friedrich \u2013<\/strong> Exatamente. Desde 2005 a <strong>libera\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos<\/strong> vem crescendo. Muitas sementes s\u00e3o <strong>resistentes ao glifosato<\/strong>. Isso significa que o agricultor planta a semente e pode usar esse herbicida, porque aquela planta n\u00e3o ir\u00e1 morrer, pois \u00e9 resistente ao glifosato, e todas as outras plantas n\u00e3o desej\u00e1veis \u2014 a chamada erva daninha \u2014 n\u00e3o crescem ali. Ent\u00e3o a planta cresce em uma velocidade maior, porque o objetivo \u00e9 justamente produzir para exportar, aproveitar quando o pre\u00e7o est\u00e1 alto no exterior. H\u00e1 pouco tempo foi aprovada tamb\u00e9m a libera\u00e7\u00e3o da semente resistente ao <strong>herbicida 2,4-D<\/strong>; essa mol\u00e9cula compunha o \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/522528\" target=\"_blank\"><strong>agente laranja<\/strong><\/a>\u201d, que foi usado no Vietn\u00e3. Trata-se de uma mistura de 2,4-D e 2,4,5-T. \u00c9 uma mol\u00e9cula muito t\u00f3xica, sobretudo cronicamente, porque causa altera\u00e7\u00f5es reprodutivas, altera\u00e7\u00f5es hormonais e c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Existem centenas de estudos comprovando isso, mas a <strong>CTNBio<\/strong> acabou de aprovar a <strong>semente resistente ao 2,4-D<\/strong>. A partir dessa decis\u00e3o, certamente o consumo do 2,4-D tamb\u00e9m ir\u00e1 aumentar muito e acreditamos que os \u00edndices de implica\u00e7\u00f5es \u00e0 sa\u00fade ser\u00e3o muito piores no futuro. \u00c9 importante ressaltar a libera\u00e7\u00e3o dessa mol\u00e9cula 2,4-D. Ela tem ainda outro problema: na sua pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o, no processo de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 gerado um contaminante chamado dioxina; esse contaminante \u00e9 considerado a substancia mais t\u00f3xica que o homem j\u00e1 criou, e \u00e9 produzido n\u00e3o intencionalmente, mas faz parte do processo da queima de material com base org\u00e2nica, com base de carbono. Ela foi muito estudada ap\u00f3s um acidente em Seveso, na It\u00e1lia, na d\u00e9cada de 1970, onde muitas pessoas foram intoxicadas e at\u00e9 hoje est\u00e3o sendo acompanhadas por causa de c\u00e2ncer e outras altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A <strong>CTNBio<\/strong> liberou essa semente, embora v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es tenham apresentado estudos apontando que o <strong>herbicida 2,4-D deveria ser proibido no Brasil<\/strong>. Mas CTNBio desconsiderou esses estudos cient\u00edficos, quer dizer, adotou uma atitude anticient\u00edfica.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o, na C\u00e2mara dos Deputados, do projeto de lei que sugere <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542184-camara-aprova-projeto-que-dispensa-simbolo-da-transgenia-em-rotulos-de-produtos\" target=\"_blank\">retirar a obrigatoriedade da <strong>rotulagem do s\u00edmbolo do transg\u00eanico<\/strong> nos alimentos<\/a>, considero que essa medida ir\u00e1 cassar um direito de escolha da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Esse \u00e9 um tema ao qual temos de dar muita evid\u00eancia, pois para que o projeto seja aprovado falta somente aprova\u00e7\u00e3o do Senado e da Presidente Dilma. Mas \u00e9 importante que a popula\u00e7\u00e3o tome conhecimento do que est\u00e1 ocorrendo no Congresso Nacional.<\/p>\n<p><em>Por Patr\u00edcia Fachin<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <strong>IHU On-Line <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Karen Friedrich \u201cTemos notificados quase 100% de casos de intoxica\u00e7\u00e3o aguda, os<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Entrevista especial com Karen Friedrich \u201cTemos notificados quase 100% de casos de intoxica\u00e7\u00e3o aguda, os","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21105"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21105"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21105\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}