{"id":21077,"date":"2015-05-15T15:00:35","date_gmt":"2015-05-15T15:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=21077"},"modified":"2015-05-15T14:53:25","modified_gmt":"2015-05-15T14:53:25","slug":"monoculturas-e-agrotoxicos-sao-as-causas-do-sumico-das-abelhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/monoculturas-e-agrotoxicos-sao-as-causas-do-sumico-das-abelhas\/","title":{"rendered":"Monoculturas e agrot\u00f3xicos s\u00e3o as causas do sumi\u00e7o das abelhas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-21078\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg 415w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico-300x192.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><\/a>\u201cEstamos olhando s\u00f3 para abelhas sociais, que s\u00e3o criadas em colmeias, que t\u00eam foco na cria\u00e7\u00e3o de mel ou mais recentemente na poliniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estamos olhando para as abelhas nativas da fauna silvestre, que est\u00e3o prestando um servi\u00e7o de poliniza\u00e7\u00e3o para manuten\u00e7\u00e3o dos ecossistemas ou mesmo contribuindo para o aumento de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola\u201d, adverte a bi\u00f3loga Betina Blochtein.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 cedo para relacionar o sumi\u00e7o das abelhas com o cultivo de esp\u00e9cies transg\u00eanicas, mas entre os fatores que explicam esse fen\u00f4meno mundial destacam-se o crescimento das monoculturas e o uso constante de agrot\u00f3xicos. \u201cNesse caso, h\u00e1 perda de habitats, e, havendo perdas na paisagem, acabamos eliminando os locais onde as abelhas normalmente constroem seus ninhos. Muitas vezes elas constroem ninhos em ocos de \u00e1rvores e abelhas sociais constroem tamb\u00e9m ninhos no solo. Assim, no momento em que h\u00e1 grandes plantios de eucalipto, ocorre a perda de \u00e1reas, que gera um impacto forte sobre a biodiversidade como um todo\u201d, explica Betina Blochtein em entrevista concedida \u00e0 IHU On-Line por telefone. A professora pontua ainda que as monoculturas \u201cacabam eliminando a dieta das abelhas ao longo do ano\u201d e geram uma \u201cdieta monofloral\u201d, o que causa car\u00eancia nutricional nos animais.<\/p>\n<p>Segundo ela, os estudos que avaliam os impactos dos agrot\u00f3xicos nas colmeias t\u00eam apontado para a a\u00e7\u00e3o dos neonicotinoides, uma classe de inseticidas sist\u00eamicos derivados da nicotina, \u201cque se espalham na planta, porque s\u00e3o usados na semente e permanecem na planta depois, quando ela cresce e quando as flores se desenvolvem. Esses produtos s\u00e3o detectados at\u00e9 no n\u00e9ctar e no p\u00f3len que as abelhas ir\u00e3o coletar, e acabam trazendo preju\u00edzos\u201d. Ela frisa que os impactos \u00e0s abelhas s\u00e3o \u201cdiretos\u201d, quando ocasionam a morte dos animais, e \u201cindiretos\u201d, quando causam \u201cpreju\u00edzos no sistema imune, na comunica\u00e7\u00e3o ou na organiza\u00e7\u00e3o social das abelhas\u201d.<\/p>\n<p>Entre os novos fatores que t\u00eam afetado as mais de 20 mil esp\u00e9cies nominadas, Betina chama aten\u00e7\u00e3o para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201c\u00c0 medida que as mudan\u00e7as v\u00e3o ocorrendo, a vegeta\u00e7\u00e3o desses ambientes vai mudando e a fauna associada tamb\u00e9m\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Betina Blochtein \u00e9 graduada em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas, mestre em Zoologia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul \u2013 PUCRS e doutora em Biologia pela Universidade de T\u00fcbingen, na Alemanha. \u00c9 diretora do Instituto do Meio Ambiente e professora na Faculdade de Bioci\u00eancias da PUCRS, com atua\u00e7\u00e3o na gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas e no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Zoologia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Betina.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-194371\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Betina.jpg\" alt=\"Foto: eventize.com.br\" width=\"340\" height=\"407\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o os impactos do eucalipto e do eucalipto transg\u00eanico sobre o desenvolvimento de abelhas nativas brasileiras? O que os estudos demonstram sobre a rela\u00e7\u00e3o de eucalipto e abelha?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Betina Blochtein \u2013<\/strong> A pergunta \u00e9 muito adequada porque o eucalipto em si \u00e9 uma planta altamente procurada pelas abelhas. Se examinarmos amostras, por exemplo, de mel, p\u00f3len no mel ou p\u00f3len em colmeias de abelhas, verificamos que geralmente existe um alto percentual de p\u00f3len de eucalipto quando existem \u00e1rvores da esp\u00e9cie nas \u00e1reas de acesso \u00e0s abelhas.<\/p>\n<p>Uma orientanda minha demonstrou o uso de p\u00f3len de eucaliptos por abelhas nativas da esp\u00e9cie melipona \u2013 popularmente conhecida como manduri \u2013 e tamb\u00e9m o uso de p\u00f3len de apis mellifera, abelhas dom\u00e9sticas. A pesquisa demonstrou que em dois locais, em Riozinho e Rolante, no Rio Grande do Sul, onde existem \u00e1reas com maior e menor impacto antr\u00f3pico, onde o eucalipto das duas \u00e1reas \u00e9 em torno de 3% a 4% da cobertura, a representatividade desse p\u00f3len nas colmeias \u00e9 muito elevada.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um evento local que podemos utilizar para ilustrar como os eucaliptos s\u00e3o importantes para as abelhas mesmo em \u00e1reas conservadas. Riozinho \u00e9 um dos hotspots da mata atl\u00e2ntica brasileira, \u00e9 uma das \u00e1reas mais bem conservadas e, no entanto, as pequenas manchas de eucaliptos que existem na paisagem, que representam, por exemplo, de 3% a 4% da cobertura do solo, se repercutem em uma entrada de p\u00f3len bastante elevada. Isso demonstra o quanto os eucaliptos podem ser importantes para as abelhas. Al\u00e9m disso, s\u00e3o plantas que fornecem p\u00f3len e n\u00e9ctar, que s\u00e3o os principais alimentos das abelhas e, portanto, podem ser importantes principalmente em \u00e9pocas de escassez de outras floradas.<\/p>\n<p><strong>Impactos da monocultura<\/strong><\/p>\n<p>Agora, quando falamos em impactos de eucaliptos nas paisagens, tudo depende da escala da qual estamos falando. Se pensarmos em plantio de eucaliptos de larga escala, verificaremos, por exemplo, que se h\u00e1 agricultura em larga escala, existem perdas de ecossistemas. Nesse caso, h\u00e1 perda de habitats, e, havendo perdas na paisagem, acabamos eliminando os locais onde as abelhas normalmente constroem seus ninhos. Muitas vezes elas constroem ninhos em ocos de \u00e1rvores e abelhas sociais constroem tamb\u00e9m ninhos no solo. Assim, no momento em que h\u00e1 grandes plantios de eucalipto, ocorre a perda de \u00e1reas, que gera um impacto forte sobre a biodiversidade como um todo, n\u00e3o s\u00f3 nas abelhas. Da mesma forma, se existe uma \u00e1rea muito grande de eucaliptos, as abelhas remanescentes dessa \u00e1rea, por exemplo, que precisam de alimento ao longo de todo ano, enfrentam problemas de car\u00eancia de alimentos no momento em que os eucaliptos n\u00e3o est\u00e3o florescidos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, uma dieta monofloral \u00e9 uma dieta pobre. Assim como n\u00f3s, os animais precisam de dietas bem diversificadas para se nutrirem adequadamente. Ent\u00e3o, uma dieta monofloral para abelhas de modo geral n\u00e3o \u00e9 positiva. Tanto que os apicultores que colocam, principalmente no Uruguai e na Argentina, as colmeias de abelhas mel\u00edferas para produzir mel de eucaliptos em locais onde temos grandes plantios de eucaliptos e silvicultura em larga escala, geralmente precisam fazer uma complementa\u00e7\u00e3o nutricional para que as abelhas n\u00e3o sofram por causa de car\u00eancias nutricionais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que os estudos demonstram sobre o impacto dos eucaliptos e dos eucaliptos transg\u00eanicos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade do mel? H\u00e1 diferen\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Betina Blochtein \u2013<\/strong> Os nossos estudos sobre esse eucalipto transg\u00eanico que est\u00e1 em quest\u00e3o abrange tr\u00eas esp\u00e9cies: a apis mellifera, que \u00e9 abelha dom\u00e9stica, e duas esp\u00e9cies de abelhas sociais nativas, a Scaptotrigona bipunctata, conhecida popularmente como tubuna, e uma segunda, que tamb\u00e9m \u00e9 muito conhecida pela popula\u00e7\u00e3o em geral, que \u00e9 a tetragonisca angustula, popularmente chamada de jata\u00ed, e que produz um mel bem saboroso, assim como a tubuna.<\/p>\n<p>Fizemos experimentos relacionados ao desenvolvimento dos indiv\u00edduos, a padr\u00f5es de postura da rainha e tamb\u00e9m experimentos relacionados \u00e0 longevidade dessas abelhas. Em todos os experimentos, sem diferen\u00e7a nenhuma, sempre usamos o eucalipto transg\u00eanico comparado com a isol\u00ednea n\u00e3o transg\u00eanica, para comparar um eucalipto com a forma da isol\u00ednea n\u00e3o-GM. Quando fizemos testes de laborat\u00f3rio, n\u00e3o vimos diferen\u00e7a nenhuma nas respostas dos diferentes testes realizados.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 o seguinte: o mel \u00e9 composto, na sua maior parte, de a\u00e7\u00facares de v\u00e1rios tipos, predominantemente glicose e frutose, e a parte do mel que \u00e9 integrada por p\u00f3len \u00e9 bem pequena. Na verdade, a parte do mel que poder\u00edamos chamar de transg\u00eanica seria a parte relativa ao p\u00f3len, porque os transg\u00eanicos se manifestam e aparecem atrav\u00e9s das prote\u00ednas. Nessa condi\u00e7\u00e3o, considerando que o mel \u00e9 predominantemente a\u00e7\u00facar, a parte que teria eventualmente subst\u00e2ncias transg\u00eanicas seriam as prote\u00ednas relacionadas ao p\u00f3len, que est\u00e1 em pequena parte. A via de exposi\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos seria atrav\u00e9s de prote\u00ednas transg\u00eanicas que est\u00e3o relacionadas ao p\u00f3len, n\u00e3o ao n\u00e9ctar, n\u00e3o aos a\u00e7\u00facares.<\/p>\n<p>Mas nesse transg\u00eanico n\u00e3o conseguimos detectar prote\u00ednas transg\u00eanicas. \u00c9 t\u00e3o \u00ednfima a quantidade de prote\u00ednas transg\u00eanicas, que elas n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis de detec\u00e7\u00e3o. Conseguimos detectar que elas est\u00e3o presentes, mas a quantifica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito baixa e, considerando ainda que o mel tem menos de 1% de prote\u00ednas, n\u00e3o podemos precisar mais informa\u00e7\u00f5es sobre os transg\u00eanicos no mel, porque isso varia de amostra para amostra, mas certamente a quantidade de transg\u00eanico no mel \u00e9 bem baixa.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Ent\u00e3o o eucalipto transg\u00eanico n\u00e3o \u00e9 prejudicial \u00e0s abelhas? O impacto se d\u00e1 somente por conta da planta\u00e7\u00e3o em grande escala?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Betina Blochtein \u2013<\/strong> O impacto em rela\u00e7\u00e3o a planta\u00e7\u00f5es de grande escala, seja na agricultura, seja na silvicultura, existe independentemente de as culturas serem transg\u00eanicas ou n\u00e3o. Se usar um milho crioulo em larga escala, o impacto para as abelhas ser\u00e1 igual ao plantio de eucalipto n\u00e3o transg\u00eanico em larga escala ou de eucalipto transg\u00eanico. No caso do eucalipto, porque ele fornece p\u00f3len e n\u00e9ctar para as abelhas, talvez o impacto seja at\u00e9 menor se comparado com outras culturas, como a soja. O impacto est\u00e1 muito mais relacionado \u00e0 quest\u00e3o da escala de agricultura, porque ela \u00e9 claramente mais danosa para as abelhas do que o fato de a cultura ser transg\u00eanica ou n\u00e3o. Ainda \u00e9 dif\u00edcil dizer se os transg\u00eanicos podem ou n\u00e3o trazer algum impacto \u00e0 fauna. Talvez daqui a alguns anos possamos ter alguma resposta mais evidente. Por enquanto, quest\u00f5es que favorecem a perda de habitat e causam impacto sobre a biodiversidade s\u00e3o infinitamente mais danosos para as abelhas.<\/p>\n<p>Nos testes que realizamos, ainda n\u00e3o conseguimos detectar efeito negativo. Agora, se voc\u00ea for para uma \u00e1rea onde existe agricultura em larga escala, seja qual for a cultura, praticamente toda a biodiversidade que havia naquela \u00e1rea foi perdida. A agricultura de larga escala acaba eliminando a dieta das abelhas ao longo do ano. O ideal, nesses casos, como n\u00e3o vivemos mais sem a agricultura, dada a popula\u00e7\u00e3o mundial e a distribui\u00e7\u00e3o das pessoas no mundo, \u00e9 pensar em agricultura sustent\u00e1vel, pensando, por exemplo, em v\u00e1rias pr\u00e1ticas amig\u00e1veis, como a prote\u00e7\u00e3o de \u00c1reas de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente \u2013 APP, o respeito de \u00e1reas de reserva legal e margens de rios. Se tomarmos os cuidados para essas medidas ambientais que a lei j\u00e1 indica e aponta, s\u00f3 isso j\u00e1 seria bastante favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eu temo que \u00e0s vezes nos apegamos a discutir pontos delicados, que s\u00e3o questionados e certamente n\u00e3o podem ser ignorados, como a quest\u00e3o dos transg\u00eanicos, que obviamente devem ser muito estudados e discutidos pela sociedade antes de uma libera\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 fatos que ocorrem diariamente e que causam um impacto enorme, como o desmatamento da Amaz\u00f4nia e a falta de cuidados com as \u00e1reas que s\u00e3o legalmente protegidas. Esses, sim, s\u00e3o impactos que estamos vendo no dia a dia e que talvez sejam mais graves que os transg\u00eanicos, embora n\u00e3o devemos misturar as coisas, porque esses s\u00e3o assuntos diferentes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Hoje, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o mundial com a diminui\u00e7\u00e3o das abelhas em v\u00e1rias partes do mundo. Quais s\u00e3o as evid\u00eancias de que as colmeias s\u00e3o menores hoje e de que a quantidade de abelhas tem diminu\u00eddo? \u00c9 poss\u00edvel saber as raz\u00f5es da diminui\u00e7\u00e3o das abelhas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Betina Blochtein \u2013<\/strong> A perda, a diminui\u00e7\u00e3o e o desaparecimento de polinizadores, em especial das abelhas, de fato, \u00e9 uma not\u00edcia global. Quando falamos de abelha, temos de lembrar que estamos falando de um universo de n\u00e3o menos que 20 mil esp\u00e9cies nominadas. Embora sejam poucas as esp\u00e9cies de import\u00e2ncia comercial mundial, temos de lembrar que o maior servi\u00e7o das abelhas \u00e9 o da poliniza\u00e7\u00e3o, muito mais do que a produ\u00e7\u00e3o de mel.<\/p>\n<p>No mundo inteiro existem muitas situa\u00e7\u00f5es em que as abelhas est\u00e3o diminuindo ou desaparecendo e s\u00e3o v\u00e1rias as situa\u00e7\u00f5es que podemos citar. Por exemplo, se formos olhar na lista vermelha das esp\u00e9cies em extin\u00e7\u00e3o da fauna brasileira, vamos encontrar abelhas na lista, se formos \u00e0 lista do Rio Grande do Sul, tamb\u00e9m vamos encontrar esp\u00e9cies de abelha na lista.<\/p>\n<p>S\u00e3o diferentes fatores que levam \u00e0 extin\u00e7\u00e3o desses grupos que s\u00e3o citados nas listas vermelhas. Essas s\u00e3o esp\u00e9cies sociais que est\u00e3o relacionadas \u00e0 coleta predat\u00f3ria de abelhas, porque no passado, por exemplo, as pessoas retiravam as abelhas das \u00e1rvores para coletar o mel ou para tentar cri\u00e1-las, e acabavam exterminando com as col\u00f4nias. Mais recentemente, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os problemas maiores est\u00e3o relacionados a perdas ou altera\u00e7\u00e3o de habitat. Ent\u00e3o, se as abelhas t\u00eam seus ninhos instalados em \u00e1rvores e ocorre um desmatamento, elas v\u00e3o morrer e ponto. As popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o formadas de um determinado n\u00famero de col\u00f4nias, e na medida em que temos perda de habitat, perda de conectividade de uma popula\u00e7\u00e3o com a outra, perda de fluxo g\u00eanico, as popula\u00e7\u00f5es v\u00e3o ficando isoladas e se enfraquecendo. Nesse sentido, perda ou altera\u00e7\u00e3o grave de habitat \u00e9 o fator n\u00famero um para a perda de abelhas.<\/p>\n<p><strong>Impactos dos agrot\u00f3xicos<\/strong><\/p>\n<p>Depois, os demais fatores est\u00e3o relacionados \u00e0 agricultura de forma mais direta. Hoje se fala, no mundo inteiro, na quest\u00e3o dos inseticidas de modo geral e percebe-se que muitos agrot\u00f3xicos causam preju\u00edzos \u00e0s abelhas, alguns causam mais, outros menos, e outros n\u00e3o t\u00eam tanto impacto aparente. H\u00e1 numerosos trabalhos que falam da a\u00e7\u00e3o dos neonicotinoides, que \u00e9 um grupo de inseticida sist\u00eamico que se espalha na planta, porque s\u00e3o usados na semente e permanecem na planta depois, quando ela cresce e quando as flores se desenvolvem. Esses produtos s\u00e3o detectados at\u00e9 no n\u00e9ctar e no p\u00f3len que as abelhas ir\u00e3o coletar, e acabam trazendo preju\u00edzos.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes os preju\u00edzos podem ser diretos, ocasionando a morte dos indiv\u00edduos, e outras vezes podem resultar em efeitos que n\u00f3s chamamos de subletais, ou seja, n\u00e3o chegam a matar diretamente, mas podem causar outro tipo de preju\u00edzo, como, por exemplo, alguns preju\u00edzos no sistema imune das abelhas, na comunica\u00e7\u00e3o ou na organiza\u00e7\u00e3o social das abelhas e assim por diante.<\/p>\n<p>Outro ponto que precisamos citar \u00e9 a quest\u00e3o de um fen\u00f4meno conhecido como \u201cdesordem de colapso da col\u00f4nia\u201d \u2013 CCD (sigla em ingl\u00eas para colony collapse disorder), que h\u00e1 alguns anos foi detectado nos Estados Unidos e em v\u00e1rias partes do mundo. Trata-se de uma s\u00edndrome do desaparecimento das abelhas, a qual est\u00e1 atribu\u00edda a um fen\u00f4meno considerado multifatorial, ou seja, podem existir v\u00e1rios fatores contribuindo conjuntamente para o desaparecimento das abelhas, como doen\u00e7as, ectoparasitas, como \u00e9 o caso do Varroa, que \u00e9 um \u00e1caro parasita de abelhas, que pode ter v\u00e1rios tipos de v\u00edrus associados e outros microrganismos junto com esse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p><strong>Impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p>Fatores novos tamb\u00e9m s\u00e3o observados nos trabalhos dos \u00faltimos anos, relacionados \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u00c0 medida que as mudan\u00e7as v\u00e3o ocorrendo \u2013 \u00e1reas mais frias v\u00e3o se tornando mais secas, \u00e1reas mais secas v\u00e3o se tornando mais \u00famidas e assim por diante \u2013, a vegeta\u00e7\u00e3o desses ambientes vai mudando e a fauna associada tamb\u00e9m. Essas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que j\u00e1 estamos assistindo acontecer tamb\u00e9m repercute no mundo das abelhas. Assim, temos v\u00e1rios estudos e trabalhos que mostram uma mudan\u00e7a na distribui\u00e7\u00e3o de determinadas esp\u00e9cies de abelhas, as quais provavelmente v\u00e3o reduzindo a \u00e1rea das popula\u00e7\u00f5es. Hoje ainda existem v\u00e1rios estudos com modelagens e simula\u00e7\u00f5es para tentarmos entender o que ir\u00e1 acontecer com as popula\u00e7\u00f5es de abelhas nos pr\u00f3ximos 80 anos, a partir dos acompanhamentos e previs\u00f5es de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que seguem as plataformas do IPCC.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como o uso dos agrot\u00f3xicos que afetam as abelhas \u00e9 discutido no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Betina Blochtein \u2013<\/strong> Existem v\u00e1rios trabalhos sobre isso em n\u00edvel mundial e tamb\u00e9m no Brasil. O que verificamos \u00e9 que esses inseticidas de modo geral t\u00eam uma a\u00e7\u00e3o direta sobre as abelhas, seja na mortalidade ou nos efeitos subletais. Em rela\u00e7\u00e3o aos inseticidas, da mesma forma como n\u00e3o podemos mais viver sem agricultura ou silvicultura, h\u00e1 muitas culturas que s\u00e3o praticamente invi\u00e1veis sem o uso de agrot\u00f3xicos e inseticida. Ent\u00e3o, nesse sentido, temos que ter cuidado para tentar ter pol\u00edticas p\u00fablicas muito claras, fiscaliza\u00e7\u00e3o e controle para, por exemplo, fazermos uso de produtos que sejam menos t\u00f3xicos \u00e0s abelhas e aplicar uma s\u00e9rie de medidas, as quais chamamos de \u201cmedidas de boas pr\u00e1ticas relacionadas aos polinizadores\u201d. Por exemplo, hor\u00e1rios de aplica\u00e7\u00e3o de produtos s\u00e3o fundamentais: se aplicarmos os produtos no final do dia, teremos uma a\u00e7\u00e3o de impacto direto sobre as abelhas muito menor do que se fizermos isso pela manh\u00e3. Outro ponto, tamb\u00e9m bem importante, \u00e9 realmente uma avalia\u00e7\u00e3o detalhada sobre a real necessidade de uso de produtos. Hoje existe ainda uma cultura muito presente, que \u00e9 a cultura da preven\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de usar um inseticida para evitar que aconte\u00e7a um problema relacionado \u00e0 presen\u00e7a desses organismos indesej\u00e1veis.<\/p>\n<p>Cada dia em que temos uma aplica\u00e7\u00e3o de inseticidas, por exemplo, h\u00e1 produtos que repercutem na presen\u00e7a das abelhas por dois ou tr\u00eas dias, ou at\u00e9 mais tempo. Por isso, temos de tentar, ao m\u00e1ximo, reduzir e diminuir o uso desses produtos que t\u00eam um impacto t\u00e3o grande sobre as abelhas. Existem milhares de esp\u00e9cies de abelhas, que muitas vezes n\u00e3o conhecemos nem sabemos o nome, e quando aplicamos esses produtos e temos impacto por perda ou altera\u00e7\u00e3o de habitat ou qualquer outro fen\u00f4meno, estamos olhando s\u00f3 para abelhas sociais, que s\u00e3o criadas em colmeias, que t\u00eam foco na cria\u00e7\u00e3o de mel ou mais recentemente na poliniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estamos olhando para as abelhas nativas da fauna silvestre, que est\u00e3o prestando um servi\u00e7o de poliniza\u00e7\u00e3o para manuten\u00e7\u00e3o dos ecossistemas ou mesmo contribuindo para o aumento de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Temos essa perda e nem calculamos isso. Tenho a impress\u00e3o de que temos que reavaliar alguns procedimentos da agricultura e tentar otimizar o uso dos recursos naturais. No momento em que estamos trazendo preju\u00edzo \u00e0s abelhas, estamos diminuindo a biodiversidade, diminuindo os servi\u00e7os ambientais e, sem d\u00favida, a poliniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Poliniza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Temos, no Rio Grande do Sul e no Brasil, v\u00e1rias culturas que t\u00eam uma depend\u00eancia alta e m\u00e9dia de poliniza\u00e7\u00e3o por abelhas. Ent\u00e3o, por exemplo, sabemos que a ma\u00e7\u00e3 \u2013 que \u00e9 uma das culturas que estudamos em nosso grupo de pesquisas \u2013 depende em 90% da poliniza\u00e7\u00e3o por abelhas; sem abelhas praticamente n\u00e3o tem ma\u00e7\u00e3. A ma\u00e7\u00e3 s\u00f3 vai se desenvolver, ficar com um formato regular, ter um desenvolvimento adequado de peso, tamanho e sabor, se tiver a visita de abelhas. No entanto, a fruticultura no Rio Grande do Sul \u00e9 ancorada no uso de inseticidas. Por isso precisamos tentar fazer arranjos melhores para tentar proteger as abelhas e tentar ter mais servi\u00e7os ambientais e menos custos com o uso de inseticidas.<\/p>\n<p>Acredito que esses temas s\u00e3o muito importantes e j\u00e1 temos suficientes informa\u00e7\u00f5es e subs\u00eddios cient\u00edficos, os quais mostram que temos de ir nessa dire\u00e7\u00e3o, que temos de olhar para a prote\u00e7\u00e3o dos polinizadores e, sem d\u00favida nenhuma, nesse aspecto, temos que voltar talvez ao eucalipto e falar em an\u00e1lise de risco. No meu entender, temos que fazer uma avalia\u00e7\u00e3o do impacto do eucalipto transg\u00eanico para as abelhas.<\/p>\n<p><strong>Impactos da canola<\/strong><\/p>\n<p>Hoje existem v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es relacionados \u00e0 canola, e publicamos um livro destinado aos agricultores e t\u00e9cnicos agr\u00edcolas, exatamente alertando sobre o papel das abelhas na agricultura com foco na canola, que \u00e9 um caso local no Rio Grande do Sul. O estudo nos alerta sobre v\u00e1rios pontos que colocam as abelhas em risco e sobre boas pr\u00e1ticas que podemos adotar para proteger os polinizadores. Da mesma forma que o eucalipto, a canola \u00e9 uma cultura que \u00e9 bastante atrativa \u00e0s abelhas, que traz n\u00e9ctar e p\u00f3len de modo semelhante ao eucalipto, mas as abelhas n\u00e3o podem viver s\u00f3 de uma cultura. A\u00ed a hist\u00f3ria come\u00e7a a se repetir independentemente da cultura.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o de perda de habitat da agricultura em larga escala, junto com o uso de inseticidas, \u00e9 numerosas vezes de maior impacto \u00e0s abelhas, \u00e0 biodiversidade como um todo, do que uma prote\u00edna transg\u00eanica que nem conseguimos detectar e que est\u00e1 em baixa escala. Usamos protocolos internacionais e fizemos testes, fizemos todos nossos trabalhos com \u201ccego e duplo cego\u201d, ou seja, nem sabemos com qual amostra estamos trabalhando na hora de desenvolver os testes. Todo o nosso material \u00e9 codificado para evitar que tenhamos tend\u00eancias.<\/p>\n<p>Quando comecei a trabalhar com esse projeto dos eucaliptos transg\u00eanicos, algu\u00e9m me perguntou: \u201cVoc\u00ea \u00e9 a favor ou contra os transg\u00eanicos?\u201d Eu rapidamente respondi: \u201cEstou do lado das abelhas\u201d. Creio que \u00e9 por a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEstamos olhando s\u00f3 para abelhas sociais, que s\u00e3o criadas em colmeias, que t\u00eam foco na<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21078,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/abelhas_sumico.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\u201cEstamos olhando s\u00f3 para abelhas sociais, que s\u00e3o criadas em colmeias, que t\u00eam foco na","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21077"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21077"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21077\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21078"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}