{"id":20723,"date":"2015-05-09T11:42:04","date_gmt":"2015-05-09T11:42:04","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=20723"},"modified":"2015-05-09T11:42:04","modified_gmt":"2015-05-09T11:42:04","slug":"um-pouco-de-realismo-sobre-o-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/um-pouco-de-realismo-sobre-o-clima\/","title":{"rendered":"Um pouco de realismo sobre o clima"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-193355\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/geden_oliver_presse_klausschnitt.jpg\" alt=\"geden_oliver_presse_klausschnitt\" width=\"340\" height=\"452\" \/>Por Claudio Angelo, do OC<\/p>\n<p>Pesquisador alem\u00e3o diz na revista Nature que \u00e9 tarde demais para a meta de 2 graus, que proposta de emiss\u00f5es negativas \u00e9 \u201cfic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d e que academia precisa parar de ajustar premissas ao otimismo dos pol\u00edticos<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico alem\u00e3o Oliver Geden n\u00e3o parece muito interessado em fazer amizades no governo. Enquanto v\u00e1rios de seus colegas acad\u00eamicos e pol\u00edticos do mundo inteiro v\u00eam transmitindo a mensagem de que ainda \u00e9 poss\u00edvel evitar o caos clim\u00e1tico se os l\u00edderes tomarem as decis\u00f5es certas na confer\u00eancia de Paris, Geden grita que o rei est\u00e1 nu: para ele, o objetivo de estabilizar o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius j\u00e1 n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado. E, ao insistir no contr\u00e1rio, os cientistas est\u00e3o ajudando a acobertar o fracasso dos governantes em cortar emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Num artigo publicado on-line na edi\u00e7\u00e3o de hoje da revista cient\u00edfica Nature, Geden diz que seus colegas cientistas e economistas do clima precisam \u201cmanter a integridade\u201d e recusar-se a emprestar suas credenciais para governos que querem dourar a p\u00edlula do que pode ser alcan\u00e7ado pelas negocia\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, que serviu em dois governos de seu pa\u00eds e hoje trabalha no Instituto Alem\u00e3o de Assuntos Internacionais e Seguran\u00e7a, existe hoje uma esp\u00e9cie de conluio entre acad\u00eamicos e pol\u00edticos para defender o \u201cmantra dos 2 graus Celsius\u201d, que ele diz ser \u201cuma bobagem\u201d. Para Geden, o fato de as emiss\u00f5es mundiais de gases-estufa terem crescido 40% desde 1990, ano em que deveriam ter come\u00e7ado a cair, torna imposs\u00edvel a estabiliza\u00e7\u00e3o no prazo necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 15 anos as pessoas est\u00e3o dizendo \u2018o tempo est\u00e1 se esgotando, mas n\u00f3s ainda podemos conseguir se agirmos agora\u2019. Olha, 25 ap\u00f3s 1990, per\u00edodo em que as emiss\u00f5es aumentaram 40%, algo deve estar errado com essa afirma\u00e7\u00e3o. Por que o tempo ainda n\u00e3o acabou, j\u00e1 que o mundo n\u00e3o agiu?\u201d \u2013 questiona.<\/p>\n<p>Para tucanar o fracasso, por assim dizer, foi criada a figura das \u201cemiss\u00f5es negativas\u201d: todos sabem que o novo regime clim\u00e1tico internacional, a ser acordado em Paris, \u00e9 incapaz de produzir um corte de emiss\u00f5es que leve aos 2 graus, mas seria poss\u00edvel chegar l\u00e1 retirando ativamente carbono da atmosfera. A t\u00e9cnica mais conhecida para isso \u00e9 o chamado BECCS, uma combina\u00e7\u00e3o de bioenergia com a captura de carbono de termel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>O problema, diz Geden, \u00e9 que emiss\u00f5es negativas s\u00e3o \u201cfic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d: \u201cA quantidade de terras necess\u00e1rias somente para plantar toda a biomassa \u00e9 de 500 milh\u00f5es de hectares at\u00e9 o fim do s\u00e9culo. Isso equivale a uma vez e meia o territ\u00f3rio da \u00cdndia\u201d, afirma. \u201cEu diria que isso \u00e9 politicamente invi\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>O texto tem causado pol\u00eamica antes mesmo da publica\u00e7\u00e3o, e deve receber, segundo o autor, \u201cuma onda de refuta\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Alguns cientistas, por\u00e9m, est\u00e3o agradecendo a Geden por tirar o esqueleto do arm\u00e1rio. \u201cO coment\u00e1rio injeta uma dose saud\u00e1vel de realismo no discurso sobre a interface entre pol\u00edtica e ci\u00eancia\u201d, diz o meteorologista Jochen Marotzke, conterr\u00e2neo de Geden do Instituto Max Planck e membro do IPCC, o painel do clima da ONU. \u201cN\u00f3s, cientistas, precisamos nos manter firmes ao lado das melhores an\u00e1lises poss\u00edveis e comunic\u00e1-las aos formuladores de pol\u00edticas, mesmo que elas n\u00e3o sejam bem-vindas.\u201d<\/p>\n<p>Leia a seguir a entrevista que Geden concedeu ao OC, de seu escrit\u00f3rio em Berlim:<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>O acordo de Paris parece um mecanismo \u00e0 prova de falhas: todo mundo sabe que n\u00e3o vai ser poss\u00edvel chegar aos 2oC, mas tudo bem, porque Paris \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o. Qual \u00e9 o problema dessa vis\u00e3o?<\/p>\n<p>Eu acho que n\u00f3s aprendemos muito desde Copenhague, ent\u00e3o teremos um acordo multilateral este ano. Ocorre que todas as INDCs ser\u00e3o volunt\u00e1rias. Se fizermos uma avalia\u00e7\u00e3o, veremos que h\u00e1 um buraco imenso entre o que elas prometem e o que \u00e9 necess\u00e1rio, e v\u00e1rios think tanks e ONGs v\u00eam falando de mecanismos de aumento de ambi\u00e7\u00e3o. Eu duvido muito que isso funcione.<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o tentando emplacar essa hist\u00f3ria de que ainda d\u00e1 para chegar aos 2 graus. Eu realmente n\u00e3o acredito nisso. Porque, se voc\u00ea falar s\u00e9rio, ningu\u00e9m sabe se o mundo vai ficar abaixo de 2 graus, porque h\u00e1 muitas variabilidades naturais e muita incerteza. N\u00f3s nunca saberemos at\u00e9 chegarmos l\u00e1. Mas voc\u00ea pode falar sobre o espa\u00e7o de carbono equivalente aos 2 graus calculado pelos pesquisadores do IPCC. N\u00f3s nunca conseguiremos ficar abaixo desse espa\u00e7o de carbono [1 trilh\u00e3o de toneladas, metade j\u00e1 emitida; estima-se que a outra metade v\u00e1 ser emitida nos pr\u00f3ximos 25 anos] e foi por isso que os economistas inventaram o conceito as emiss\u00f5es negativas. Eles inventaram uma d\u00edvida de carbono que possa ser paga mais tarde. Isso \u00e9 uma premissa question\u00e1vel, e essa d\u00edvida est\u00e1 crescendo. N\u00f3s dever\u00edamos ao menos estar falando nisso.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o d\u00e1 para ultrapassar o or\u00e7amento e depois sustentar emiss\u00f5es negativas?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou contra a ideia b\u00e1sica, mas essa quantidade de emiss\u00f5es negativas calculada nos modelos de mitiga\u00e7\u00e3o tem crescido nos \u00faltimos anos, porque as emiss\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o diminuindo no mundo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea olhar as letras mi\u00fadas de v\u00e1rios artigos cient\u00edficos sobre emiss\u00f5es negativas, e isso nunca est\u00e1 na capa dos artigos, a quantidade de terras necess\u00e1rias somente para plantar toda a biomassa \u2013 a tecnologia mais popular de emiss\u00f5es negativas no momento \u00e9 a bioenergia combinada com captura e armazenamento de carbono \u2013 \u00e9 de 500 milh\u00f5es de hectares at\u00e9 o fim do s\u00e9culo. Isso equivale a uma vez e meia o territ\u00f3rio da \u00cdndia. Eu diria que isso \u00e9 politicamente invi\u00e1vel. \u00c9 um tipo de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos deveriam discutir e levar realmente a s\u00e9rio as consequ\u00eancias disso. Porque, se dissermos sim \u00e0 meta de 2 graus e considerarmos que ela pode ser atingida, estaremos dizendo sim a 500 milh\u00f5es de hectares de biomassa somente para essa finalidade. E obviamente ningu\u00e9m vai fazer isso.<\/p>\n<p>O sr. diz que o \u201cmantra dos 2 graus Celsius \u00e9 bobagem\u201d. \u00c9 bobagem porque n\u00f3s n\u00e3o vamos atingi-lo ou porque a cifra \u00e9, ela pr\u00f3pria, question\u00e1vel?<\/p>\n<p>O que eu acho bobagem \u00e9 que h\u00e1 15 anos as pessoas est\u00e3o dizendo \u201co tempo est\u00e1 se esgotando, mas n\u00f3s ainda podemos conseguir se agirmos agora\u201d. Olha, 25 ap\u00f3s 1990, per\u00edodo em que as emiss\u00f5es aumentaram 40%, algo deve estar errado com essa afirma\u00e7\u00e3o. Por que o tempo ainda n\u00e3o acabou, j\u00e1 que o mundo n\u00e3o agiu? Claro que houve a\u00e7\u00f5es, mas as emiss\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o diminuindo. Ent\u00e3o, se apegar a essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 uma bobagem. \u00c9 claro que as emiss\u00f5es precisam cair: elas j\u00e1 deveriam ter ca\u00eddo h\u00e1 v\u00e1rios anos. Quando dizem que n\u00f3s ainda podemos conseguir, para colocar as coisas de um jeito delicado, os cientistas est\u00e3o acobertando a ina\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o da Terra, que saiu h\u00e1 alguns dias, afirma precisamente isso: ainda d\u00e1 tempo, 2015 \u00e9 o ano do vai ou racha.<\/p>\n<p>Desde a Rio-92 n\u00f3s j\u00e1 foram 23 anos de \u201cvai ou racha\u201d. O \u201cvai\u201d ningu\u00e9m nunca viu, mas o \u201cracha\u201d todos vimos. Sempre dizem \u201cesta \u00e9 a \u00faltima chance\u201d, e nada acontece. E no ano seguinte eles v\u00eam de novo e dizem, \u201cesta \u00e9 a \u00faltima chance, o mundo est\u00e1 numa encruzilhada\u201d \u2013 h\u00e1 v\u00e1rias met\u00e1foras que eles usam \u2013, mas nada acontece. Ent\u00e3o o que eu estou pedindo, pelo menos do lado dos conselheiros cient\u00edficos, \u00e9 coer\u00eancia: se 2015 \u00e9 o ano do \u201cvai ou racha\u201d, o que eles v\u00e3o dizer em 2016 se n\u00e3o tiver nenhum \u201cvai\u201d, se os pol\u00edticos n\u00e3o entregarem a parte do \u201cvai\u201d?<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que muitos cientistas se sentem desconfort\u00e1veis com o processo. H\u00e1 um mercado do lado pol\u00edtico, uma demanda por cen\u00e1rios positivos, e muitos dos que trabalham com modelos econ\u00f4micos calculando emiss\u00f5es negativas dizem que n\u00e3o acreditam que isso v\u00e1 acontecer ou que seja vi\u00e1vel. Eles acham d\u00fabio, mas n\u00e3o querem se posicionar dizendo, \u201ctem uma chamada p\u00fablica para um estudo sobre emiss\u00f5es negativas. N\u00f3s n\u00e3o vamos disputar, porque n\u00e3o acreditamos em emiss\u00f5es negativas\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mercado para estudos que digam, \u201colha, \u00e9 tarde demais, os governos falharam\u201d. Voc\u00ea pode, obviamente, discutir onde est\u00e1 a linha. Mas os conselheiros cient\u00edficos precisam tra\u00e7ar essa linha em algum momento e dizer, \u201cn\u00f3s n\u00e3o vamos mais trabalhar com emiss\u00f5es negativas e vamos parar de fazer suposi\u00e7\u00f5es cada vez mais otimistas sobre a capacidade da economia global de se descarbonizar\u201d.<\/p>\n<p>O sr. diz em seu artigo na Nature que as premissas dos modelos econ\u00f4micos ficam mudando tanto que n\u00e3o d\u00e1 mais para falar em formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas baseada em evid\u00eancia, mas sim em formula\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias baseada em pol\u00edticas. Como assim?<\/p>\n<p>No AR4 [Quarto Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o do IPCC] eles diziam que o pico global de emiss\u00f5es tinha de ser em 2015. Agora est\u00e3o dizendo que \u00e9 em algum momento antes de 2030. Eles deveriam explicar por que s\u00e3o mais otimistas agora do que eram sete anos atr\u00e1s. O p\u00fablico deveria responsabilizar esses cientistas, faz\u00ea-los explicar por que eles acham que isso vai acontecer.<\/p>\n<p>Mesmo que voc\u00ea assuma que h\u00e1 inconsist\u00eancias no mundo da formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, e sempre h\u00e1, eu gostaria de ver consist\u00eancia na comunidade cient\u00edfica. Eu sei que soa rude dizer que os conselheiros cient\u00edficos precisam manter a integridade, mas \u00e9 preciso chamar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Mas o otimismo n\u00e3o pode ter um fundamento no mundo real? Ningu\u00e9m poderia prever, por exemplo, que os pre\u00e7os da energia solar cairiam t\u00e3o mais r\u00e1pido do que as previs\u00f5es e que as renov\u00e1veis se expandiriam tanto.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que voc\u00ea n\u00e3o sabe como a tecnologia vai evoluir, mas eu acho que vimos exemplos positivos de renov\u00e1veis, no setor el\u00e9trico, por exemplo. Acontece que, se voc\u00ea olhar para a fatia de energias de baixo carbono na matriz mundial, a porcentagem n\u00e3o mudou muito nos \u00faltimos 15 anos, porque a quantidade de energia usada tem crescido. Ent\u00e3o, se n\u00f3s quisermos chegar a perto de zero, temos de descarbonizar n\u00e3o apenas o setor el\u00e9trico, mas tamb\u00e9m os transportes, onde n\u00e3o h\u00e1 muita coisa acontecendo.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o por causa dos biocombust\u00edveis, mas isso tamb\u00e9m \u00e9 contestado por causa das emiss\u00f5es do ciclo de vida. N\u00e3o h\u00e1 muito acontecendo no setor de constru\u00e7\u00e3o, nem mesmo nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Talvez possamos ter um debate honesto sobre isso e talvez eu me conven\u00e7a e mude minha posi\u00e7\u00e3o, mas muitos economistas do clima evitam a quest\u00e3o ou a discuss\u00e3o do que significam emiss\u00f5es negativas. Eles evitam discutir isso com o p\u00fablico e com os pol\u00edticos. Muitos modeladores dizem que \u00e9 loucura o que est\u00e3o fazendo com as emiss\u00f5es negativas, como expandiram or\u00e7amento de carbono global.<\/p>\n<p>\u00c9 como se criassem um carbono zumbi: s\u00e3o emiss\u00f5es que j\u00e1 foram descontadas, mas que ainda caminham entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>De certa forma. Ironicamente, este \u00e9 um conceito que os pol\u00edticos entendem bem: voc\u00ea tem um or\u00e7amento e dentro dele cria a possibilidade de uma d\u00edvida. Ent\u00e3o n\u00f3s esperamos que essa d\u00edvida v\u00e1 ser paga, e voc\u00ea n\u00e3o pode nem questionar a factibilidade pol\u00edtica dessa premissa. Eu suspeito que todos os anos os pol\u00edticos viriam com um estratagema diferente para rolar essa d\u00edvida.<\/p>\n<p>Por outro lado, o sr. n\u00e3o acha que essa abordagem otimista \u00e9 necess\u00e1ria para manter a bola rolando e o setor privado engajado?<\/p>\n<p>Sim, na ess\u00eancia eu concordo com esse argumento. Se voc\u00ea tem uma narrativa pol\u00edtica e quer que essa narrativa funcione dizendo que h\u00e1 sacrif\u00edcios agora, mas no final das contas ser\u00e1 para o bem maior, ent\u00e3o ao longo dessa trajet\u00f3ria voc\u00ea precisa criar sucessos. \u00c9 preciso haver uma hist\u00f3ria positiva.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, se voc\u00ea cria metas irreais \u2013 e eu diria que 2 graus \u00e9 uma meta irreal \u2013 voc\u00ea cria um problema, porque botar nas contas algo que n\u00e3o d\u00e1 mais para realizar fere a sua narrativa.<\/p>\n<p>E \u00e9 neste ponto que n\u00f3s estamos agora: os formuladores de pol\u00edticas e os cientistas temem que essa narrativa positiva v\u00e1 ser destru\u00edda, mas o problema \u00e9 que, se voc\u00ea cria uma narrativa na pol\u00edtica clim\u00e1tica que \u00e9 \u201cou\/ou\u201d, quer dizer, ou n\u00f3s fazemos isso para ficar abaixo de 2 graus ou ser\u00e1 uma cat\u00e1strofe\u2026 \u00e9 bastante at\u00edpico no mundo da pol\u00edtica ter uma meta \u201cou\/ou\u201d. Voc\u00ea fala mais de progresso relativo.<\/p>\n<p>Eu acho que n\u00f3s estamos numa armadilha agora, com todo esse foco em ficar ou n\u00e3o abaixo de 2 graus. Mesmo os cientistas est\u00e3o dizendo, n\u00e3o vamos ficar abaixo de 2 graus, mas, se fizermos isso e aquilo, ainda podemos limitar o aumento inicial a 2,5 graus e depois desenvolver solu\u00e7\u00f5es para voltar a 2 graus mais tarde, isso tamb\u00e9m poderia funcionar, muitas hist\u00f3rias em pol\u00edticas p\u00fablicas funcionam assim, mas no discurso da pol\u00edtica de clima a meta de 2 graus, para muita gente no mundo industrializado, tornou-se sacrossanta. E, claro, voc\u00ea ainda tem o discurso do 1,5 grau, que o IPCC acha, embora n\u00e3o diga abertamente, que \u00e9 completamente irreal.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, nem poderia haver, porque desde 1990 as emiss\u00f5es cresceram 40%. N\u00e3o podemos esperar nenhuma sa\u00edda f\u00e1cil, e eu acho que a miss\u00e3o dos conselheiros cient\u00edficos governamentais \u00e9 explicar suas premissas, mesmo que essas premissas sejam contestadas politicamente.<\/p>\n<p>O sr. certamente n\u00e3o far\u00e1 amigos no governo com esse artigo.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos o maior think tank de pol\u00edtica externa da Europa, e somos completamente financiados pelo governo. E eu trabalhei em dois minist\u00e9rios do governo alem\u00e3o. Eles me conhecem, mas enquanto instituto n\u00e3o \u00e9 nossa tarefa encobrir a ina\u00e7\u00e3o do governo. Ent\u00e3o, se eles se irritam, que fiquem irritados. N\u00e3o dependemos de editais, n\u00e3o submetemos propostas para editais, e podemos nos dar ao luxo de n\u00e3o faz\u00ea-lo. Muitos cientistas n\u00e3o podem, porque eles precisam organizar o fluxo de caixa de seus institutos todo ano, ent\u00e3o fica imposs\u00edvel para eles irritar o governo. Muitos cientistas e institutos gostam disso que eu estou fazendo, porque eles acham que n\u00f3s precisamos ter um debate mais honesto.<\/p>\n<p>* Publicado originalmente no site Observat\u00f3rio do Clima.<\/p>\n<p>Fonte: Observat\u00f3rio do Clima\/ #Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Claudio Angelo, do OC Pesquisador alem\u00e3o diz na revista Nature que \u00e9 tarde demais<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Claudio Angelo, do OC Pesquisador alem\u00e3o diz na revista Nature que \u00e9 tarde demais","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20723"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20723\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}