{"id":20054,"date":"2015-04-26T18:05:15","date_gmt":"2015-04-26T18:05:15","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=20054"},"modified":"2015-04-26T18:05:49","modified_gmt":"2015-04-26T18:05:49","slug":"a-cultura-do-capital-e-anti-vida-e-anti-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-cultura-do-capital-e-anti-vida-e-anti-felicidade\/","title":{"rendered":"A cultura do capital \u00e9 anti-vida e anti-felicidade"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"attachment-thumb-slide wp-post-image alignleft\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Boff.jpg\" alt=\"Leonardo Boff\" width=\"245\" height=\"206\" \/>Por Leonardo Boff*<\/p>\n<div class=\"post-content\">\n<p>Onde reside o g\u00eanio do capitalismo? Na exacerba\u00e7\u00e3o do eu at\u00e9 ao m\u00e1ximo poss\u00edvel, do indiv\u00edduo e da autoafirma\u00e7\u00e3o, desdenhando o todo maior, a integra\u00e7\u00e3o na esp\u00e9cie e o n\u00f3s. Desta forma desequilibrou toda a exist\u00eancia humana, pelo excesso de uma das for\u00e7as, ignorando a outra<\/p>\n<p>A demoli\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do capitalismo como modo de produ\u00e7\u00e3o come\u00e7ou com Karl Marx e foi crescendo ao longo de todo o s\u00e9culo XX com o surgimento do socialismo e pela escola de Frankfurt. Para realizar seu prop\u00f3sito maior de acumular riqueza de forma ilimitada, o capitalismo agilizou todas as for\u00e7as produtivas dispon\u00edveis. Mas teve como consequ\u00eancia, desde o in\u00edcio, um alto custo: uma perversa desigualdade social. Em termos \u00e9tico-pol\u00edticos, significa injusti\u00e7a social e produ\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de pobreza.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dec\u00eanios, a sociedade foi se dando conta tamb\u00e9m de que n\u00e3o vigora apenas uma injusti\u00e7a social, mas tamb\u00e9m uma injusti\u00e7a ecol\u00f3gica: devasta\u00e7\u00e3o de inteiros ecossistemas, exaust\u00e3o dos bens naturais, e, no termo, uma crise geral do sistema-vida e do sistema-Terra. As for\u00e7as produtivas se transformaram em for\u00e7as destrutivas. Diretamente, o que se busca mesmo \u00e9 dinheiro. Como advertiu o Papa Francisco em excertos j\u00e1 conhecidos da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica sobre a Ecologia: \u201dno capitalismo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o homem que comanda, mas o dinheiro e o dinheiro vivo. A gan\u00e2ncia \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o\u2026 Um sistema econ\u00f4mico centrado no deus-dinheiro precisa saquear a natureza para sustentar o ritmo fren\u00e9tico de consumo que lhe \u00e9 inerente.\u201d<\/p>\n<p>Agora o capitalismo mostrou sua verdadeira face: temos a ver com um sistema anti-vida humana e anti-vida natural. Ele nos coloca o dilema: ou mudamos ou corremos o risco da nossa pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o e parte da biosfera, como alerta a Carta da Terra.<\/p>\n<p>No entanto, ele persiste como o sistema dominante em toda a Terra sob o nome de macro-economia neoliberal de mercado. Em que reside sua perman\u00eancia e persist\u00eancia? No meu modo de ver, reside na cultura do capital. Isso \u00e9 mais que um modo de produ\u00e7\u00e3o. Enquanto cultura encarna um modo de viver, de pensar, de imaginar, de produzir, de consumir, de se relacionar com a natureza e com os seres humanos, constitu\u00edndo um sistema que consegue continuamente se reproduzir, pouco importa em que cultura vier a se instalar. Ele criou uma mentalidade, uma forma de exercer o poder e um c\u00f3digo \u00e9tico. Como enfatizou F\u00e1bio Konder Comparato num livro quer merece ser estudado A civiliza\u00e7\u00e3o capitalista (Saraiva, 2014): \u201do capitalismo \u00e9 a primeira civiliza\u00e7\u00e3o mundial da hist\u00f3ria\u201d (p.19). O capitalismo orgulhosamente afirma: \u201dn\u00e3o h\u00e1 outra alternativa (TINA= There is no Alternative).\u201d<\/p>\n<p>Vejamos rapidamente algumas se suas caracter\u00edsticas: finalidade da vida: acumular bens materiais; mediante um crescimento ilimitado, produzido pela explora\u00e7\u00e3o sem limites de todos os bens naturais; pela mercantiliza\u00e7\u00e3o de todas as coisas e pela especula\u00e7\u00e3o financeira; tudo feito com o menor investimento poss\u00edvel, visando a obter pela efic\u00e1cia o maior lucro poss\u00edvel dentro do tempo mais curto poss\u00edvel; o motor \u00e9 a concorr\u00eancia turbinada pela propaganda comercial; o beneficiado final \u00e9 o indiv\u00edduo; a promessa \u00e9 a felicidade num contexto de materialismo raso.<\/p>\n<p>Para este prop\u00f3sito se apropria de todo tempo de vida do ser humano, n\u00e3o deixando espa\u00e7o para a gratuidade, a conviv\u00eancia fraternal entre as pessoas e com a natureza, o amor, a solidariedade, a compaix\u00e3o e o simples viver como alegria de viver. Como tais realidades n\u00e3o importam para a cultura do capital, como reconheceu o insuspeito mega-especulador George Soros (A crise do Capitalismo, Campus 1999), porque, embora tenham valor, n\u00e3o tem pre\u00e7o nem d\u00e3o lucro. Mas exatamente s\u00e3o elas que produzem a felicidade poss\u00edvel. Ele destr\u00f3i as condi\u00e7\u00f5es daquilo que se propunha: a felicidade. Assim ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 como anti-vida mas tamb\u00e9m anti-felicidade.<\/p>\n<p>Como se depreende, esses ideais n\u00e3o s\u00e3o propriamente os mais dignos para ef\u00eamera e \u00fanica passagem de nossa vida neste pequeno planeta. O ser humano n\u00e3o possui apenas fome de p\u00e3o e af\u00e3 de riqueza; \u00e9 portador de outras tantas fomes como de comunica\u00e7\u00e3o, de encantamento, de paix\u00e3o amorosa, de beleza e arte e de transcend\u00eancia, entre outras tantas.<\/p>\n<p>Mas por que a cultura do capital se mostra assim t\u00e3o persistente? Sem maiores media\u00e7\u00f5es diria: porque ela realiza uma das dimens\u00f5es essenciais da exist\u00eancia humana, embora a elabore de forma distorcida: a necessidade de autoafirmar-se, de refor\u00e7ar seu eu, caso contr\u00e1rio n\u00e3o subsiste e \u00e9 absorvido pelos outros ou desaparece.<\/p>\n<p>Bi\u00f3logos e mesmo cosm\u00f3logos (citemos apenas um dos maiores deles Brian Swimme) nos ensinam: em todos os seres do universo, especialmente no ser humano, vigoram duas for\u00e7as que coexistem e se tencionam: a vontade do indiv\u00edduo de ser, de persistir e de continuar dentro do processo da vida; para isso tem que se autoafirmar e fortalecer sua identidade, seu \u201ceu\u201d. A outra for\u00e7a \u00e9 da integra\u00e7\u00e3o num todo maior, na esp\u00e9cie, da qual o indiv\u00edduo \u00e9 um representante, constituindo redes e sistemas de rela\u00e7\u00f5es fora das quais ningu\u00e9m subsiste.<\/p>\n<p>A primeira for\u00e7a se constela ao redor do eu e do indiv\u00edduo e origina o individualismo. A segunda se articula ao redor da esp\u00e9cie, do n\u00f3s e d\u00e1 origem ao comunit\u00e1rio e ao societ\u00e1rio. O primeiro est\u00e1 na base do capitalismo, o segundo, do socialismo na sua express\u00e3o melhor.<\/p>\n<p>Onde reside o g\u00eanio do capitalismo? Na exacerba\u00e7\u00e3o do eu at\u00e9 ao m\u00e1ximo poss\u00edvel, do indiv\u00edduo e da autoafirma\u00e7\u00e3o, desdenhando o todo maior, a integra\u00e7\u00e3o na esp\u00e9cie e o n\u00f3s. Desta forma desequilibrou toda a exist\u00eancia humana, pelo excesso de uma das for\u00e7as, ignorando a outra.<\/p>\n<p>Nesse dado natural reside a for\u00e7a de perpetua\u00e7\u00e3o da cultura do capital, pois se funda em algo verdadeiro mas concretizado de forma exacerbadamente unilateral e patol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Como superar esta situa\u00e7\u00e3o secular? Fundamentalmente no resgate do equil\u00edbrio destas duas for\u00e7as naturais que comp\u00f5em a nossa realidade. Talvez seja a democracia sem fim, aquela institui\u00e7\u00e3o que faz jus, simultaneamente, ao indiv\u00edduo (eu) mas inserido dentro de um todo maior (n\u00f3s, a sociedade) do qual \u00e9 parte. Voltaremos ao tema porque n\u00e3o \u00e9 suficiente fazer a cr\u00edtica a esta cultura malvada, como a chamava Paulo Freire; importa contrapor-lhe outro tipo de cultura que cultiva a vida e cria espa\u00e7os para o amor, a coopera\u00e7\u00e3o, a criatividade e a transcend\u00eancia. (Leonardo Boff\/ #Envolverde)<\/p>\n<p><em>* Leonardo Boff \u00e9 fil\u00f3sofo, te\u00f3logo, escritor e comissionado da Carta da Terra.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: Site Leonardo Boff<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Leonardo Boff* Onde reside o g\u00eanio do capitalismo? Na exacerba\u00e7\u00e3o do eu at\u00e9 ao<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Leonardo Boff* Onde reside o g\u00eanio do capitalismo? 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