{"id":19876,"date":"2015-04-24T10:00:20","date_gmt":"2015-04-24T10:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=19876"},"modified":"2015-04-24T20:23:16","modified_gmt":"2015-04-24T20:23:16","slug":"projeto-transforma-cadaveres-em-adubo-na-carolina-do-norte-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/projeto-transforma-cadaveres-em-adubo-na-carolina-do-norte-nos-eua\/","title":{"rendered":"Projeto transforma cad\u00e1veres em adubo na Carolina do Norte, nos EUA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-19878\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>O corpo da senhorinha de 78 anos, com os cabelos grisalhos caindo sobre os ombros enrijecidos, foi trazido para um campo na Universidade de Western Carolina ainda vestido com o roup\u00e3o azul do hospital e suas meias esverdeadas. Ela foi colocada no ch\u00e3o sobre uma cama de lascas de madeira e, logo em seguida, mais peda\u00e7os de madeira foram colocados sobre a mulher. Se tudo seguir conforme o planejado, seu corpo ir\u00e1 se transformar em adubo.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um novo passo para o movimento que prop\u00f5e enterros naturais. Mesmo que um n\u00famero crescente de pessoas opte por ser enterrada em caix\u00f5es mais simples ou biodegrad\u00e1veis, os cemit\u00e9rios urbanos continuam cada vez mais superlotados. Para as pessoas com consci\u00eancia ambiental, a crema\u00e7\u00e3o \u00e9 uma escolha problem\u00e1tica, j\u00e1 que o processo libera gases do efeito estufa.<\/p>\n<p>Armada com uma importante bolsa de estudos ambientais, Katrina Spade, uma arquiteta de 37 anos que vive em Seattle, prop\u00f4s uma alternativa: um lugar onde possa ser feita a compostagem dos corpos humanos.<\/p>\n<p>A ideia tem atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o de ambientalistas e cientistas. A mulher que foi colocada sobre a cama de lascas de madeira \u00e9 o primeiro passo na tentativa de descobrir como isso pode ser feito.<\/p>\n<p>&#8220;Quando falamos em compostagem, as pessoas pensam em cascas de banana e p\u00f3 de caf\u00e9, mas nossos corpos tamb\u00e9m t\u00eam nutrientes. E se pud\u00e9ssemos alimentar novas vidas depois que morr\u00eassemos?&#8221;, disse Katrina.<\/p>\n<p>Os cientistas concordam que os corpos humanos podem ser compostados. In\u00fameras fazendas nos EUA, incluindo pelo menos um ter\u00e7o das fazendas leiteiras do estado de Washington, compostam os corpos do gado que morre. Em alguns estados, os departamentos de estradas e rodagem compostam os corpos de animais mortos nas vias.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho certeza absoluta de que isso pode funcionar&#8221;, afirmou Lynne Carpenter-Boggs, cientista de Solo na Universidade do Estado de Washington que faz parte do conselho do Projeto Morte Urbana, a ONG fundada por Katrina.<\/p>\n<p>O processo \u00e9 surpreendentemente simples: basta colocar materiais ricos em nitrog\u00eanio, tais como animais mortos, dentro de um monte de material rico em carbono, como madeira ou serragem, acrescentando umidade ou um pouco a mais de nitrog\u00eanio e fazendo outros ajustes conforme a necessidade. A atividade microbial vai cuidar do resto.<\/p>\n<p>As bact\u00e9rias liberam enzimas que quebram o tecido em componentes como amino\u00e1cidos e, por fim, as mol\u00e9culas ricas em nitrog\u00eanio se unem \u00e0s ricas em carbono, criando uma subst\u00e2ncia similar \u00e0 terra.<\/p>\n<p>As temperaturas chegam a passar dos 60 graus cent\u00edgrados e o calor ajuda a matar pat\u00f3genos comuns. Se o processo for feito corretamente, n\u00e3o h\u00e1 cheiro desagrad\u00e1vel. Os ossos tamb\u00e9m s\u00e3o compostados, embora demorem mais que os tecidos moles.<\/p>\n<p>Katrina criou um edif\u00edcio para compostagem humana cujo objetivo \u00e9 unir a efici\u00eancia desse processo biol\u00f3gico com o ritual e o simbolismo esperado pelos entes queridos. Cada espa\u00e7o do &#8220;Projeto Morte Urbana&#8221; se concentra em torno de uma c\u00e2mara funer\u00e1ria de tr\u00eas andares que ela chama de &#8220;o centro&#8221;. Os entes queridos podem levar o morto enrolado em um tecido atrav\u00e9s de uma rampa circular at\u00e9 o topo.<\/p>\n<p>Ali, durante uma cerim\u00f4nia de &#8220;descanso final&#8221;, os enlutados colocam o corpo dentro da c\u00e2mara funer\u00e1ria, que pode conter at\u00e9 30 corpos de cada vez. Ao longo das semanas seguintes, os corpos v\u00e3o descendo pelo centro at\u00e9 que o primeiro est\u00e1gio da compostagem chegue ao final. No segundo est\u00e1gio, o material seria separado, junto com quaisquer ossos que tenham sobrado, e o composto seria curado.<\/p>\n<p>Katrina estima que cada corpo, combinado com os materiais necess\u00e1rios, como cavacos de madeira e serragem, produziria cerca de um metro c\u00fabico de composto.<\/p>\n<p>Semanas ou meses mais tarde, os parentes poderiam coletar parte do composto para utilizar conforme desejem, talvez como adubo para o jardim ou para plantar uma \u00e1rvore. Katrina prev\u00ea que o restante iria para parques e florestas da regi\u00e3o. A compostagem de cada corpo custaria em torno de US$2.500, uma pequena parcela dos custos com enterros comuns, ela estima.<\/p>\n<p>Ela espera poder construir o primeiro local de compostagem em Seattle, desenvolvendo um padr\u00e3o para que outras comunidades possam projetar seus espa\u00e7os. &#8220;Como bibliotecas&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Katrina, que \u00e9 muito sorridente, est\u00e1 longe de ter um aspecto f\u00fanebre; ela \u00e9 uma pessoa cheia de energia e as vezes percebe que precisa falar mais devagar. Ela estudou Agricultura Sustent\u00e1vel antes de se formar em Arquitetura. A ideia da compostagem se baseou nos &#8220;troncos-enfermaria&#8221;, \u00e1rvores ca\u00eddas na floresta que ajudam na forma\u00e7\u00e3o de novas formas de vida \u00e0 medida que apodrecem.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos benef\u00edcios ambientais da compostagem humana, ela acredita que tamb\u00e9m exista um benef\u00edcio espiritual: conectar a morte ao ciclo da natureza ajuda as pessoas a encararem a pr\u00f3pria mortalidade, trazendo conforto aos familiares e amigos.<\/p>\n<p>Os enterros convencionais est\u00e3o longe de ser naturais. Os cad\u00e1veres s\u00e3o embalsamados com l\u00edquidos que cont\u00eam formol, uma subst\u00e2ncia que pode causar c\u00e2ncer. Eles s\u00e3o enterrados em caix\u00f5es feitos de madeira e metal e colocados em uma cripta feita de concreto.<\/p>\n<p>Embora sejam comuns nos EUA, as tradi\u00e7\u00f5es funer\u00e1rias s\u00e3o relativamente novas e come\u00e7aram durante a Guerra Civil, quando as fam\u00edlias do norte queriam recuperar os corpos de seus parentes mortos no sul.<\/p>\n<p>&#8220;O engenho norte-americano&#8221;, de acordo com Gary Laderman, professor da Universidade Emory especializado em Hist\u00f3ria da Morte nos EUA, &#8220;fez o embalsamamento se tornar tradi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Os rituais de morte podem passar do repugnante ao normal em muito pouco tempo, de acordo com James Olson, diretor funer\u00e1rio em Wisconsin al\u00e9m de chefe do grupo de funerais ecol\u00f3gicos da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Diretores Funer\u00e1rios dos EUA.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 a crema\u00e7\u00e3o. &#8220;Se eu dissesse h\u00e1 50 anos que n\u00f3s queimar\u00edamos seus entes queridos a mais de 1000 graus, pulverizando seus esqueletos em uma m\u00e1quina e devolvendo o que sobrasse dos ossos mo\u00eddos&#8221;, afirmou, &#8220;voc\u00ea teria ficado com nojo&#8221;.<\/p>\n<p>Ele v\u00ea o conceito de Katrina como uma alternativa &#8220;maravilhosa&#8221;.<\/p>\n<p>Contudo, antes de tudo ela e seus apoiadores no Projeto Morte Urbana precisam encarar uma s\u00e9rie de obst\u00e1culos. Sem falar no nojo.<\/p>\n<p>Muitos americanos veem a ideia da compostagem de corpos humanos com muita repulsa; como uma contraven\u00e7\u00e3o \u00e0s normas culturais e religiosas. Um cr\u00edtico no site da Morte Urbana comentou: &#8220;Isso S\u00d3 PODE ser piada. Se n\u00e3o for, s\u00f3 existe uma palavra para descrever o que voc\u00eas est\u00e3o fazendo: DOENTIO&#8221;.<\/p>\n<p>Outra pessoa escreveu: &#8220;Uma pilha de corpos \u00e9 o que chamamos de &#8216;vala comum&#8217;. Parem j\u00e1 com isso&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ainda existem barreiras legais. As leis estaduais variam: nos \u00faltimos anos, muitos lugares legalizaram a hidr\u00f3lise alcalina, tamb\u00e9m conhecida por crema\u00e7\u00e3o por \u00e1gua, por meio da qual os corpos s\u00e3o dissolvidos em uma mistura quente de \u00e1gua e lix\u00edvia. Mas em muitos outros estados, os corpos precisam ser enterrados, cremados ou doados para a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe como a compostagem humana deve ser utilizada. Determinados pat\u00f3genos, como os pri\u00f5es ligados \u00e0 doen\u00e7a da vaca louca, podem sobreviver \u00e0 compostagem e animais que morreram em decorr\u00eancia de determinadas doen\u00e7as n\u00e3o podem ser compostados.<\/p>\n<p>Alguns especialistas recomendam que o produto da compostagem do gado n\u00e3o seja espalhado em campos onde frutas e vegetais s\u00e3o produzidos para o consumo humano.<\/p>\n<p>Assim como no caso da crema\u00e7\u00e3o, a contamina\u00e7\u00e3o por metais pesados ainda preocupa; \u00e9 poss\u00edvel que as obtura\u00e7\u00f5es tivessem de ser retiradas dos dentes. &#8220;Ainda precisamos conversar muito com a comunidade m\u00e9dica e o departamento de sa\u00fade&#8221;, afirmou Lynne Carpenter-Boggs.<\/p>\n<p>Contudo, Katrina n\u00e3o pretende parar.<\/p>\n<p>Recentemente, ela e Cheryl Johnston, antrop\u00f3loga forense da Universidade de Western Carolina, voltaram \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de pesquisa na universidade. Doze corpos est\u00e3o se decompondo a c\u00e9u aberto, servido de laborat\u00f3rio para que os estudantes de Ci\u00eancia Forense possam aprender a analisar os restos mortais. Em um dos lados estava o corpo da senhora de 78 anos, que havia sido doado pela fam\u00edlia e estava h\u00e1 tr\u00eas semanas em uma cama de lascas de madeira.<\/p>\n<p>Depois de tirar parte da madeira, eles expuseram a mand\u00edbula e parte do peito da mulher. A temperatura do monte era de apenas 10 graus.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda n\u00e3o aconteceu muita coisa&#8221;, afirmou Cheryl.<\/p>\n<p>Katrina tentou n\u00e3o ficar triste. &#8220;N\u00e3o estou surpresa. Quer dizer, eu estaria pulando de alegria se o term\u00f4metro marcasse 50 graus.&#8221;<\/p>\n<p>Em uma liga\u00e7\u00e3o na manh\u00e3 seguinte, Lynne, a cientista de solos, sugeriu o acr\u00e9scimo de materiais ricos em nitrog\u00eanio para acelerar a compostagem.<\/p>\n<p>No caso do gado, o estrume seria ideal, afirmou, mas isso n\u00e3o seria apropriado para os humanos. Ao inv\u00e9s disso, ela recomendou o uso de alfafa.<\/p>\n<p>Katrina sorriu. &#8220;Quem n\u00e3o gostaria de ser enterrado com alfafa?&#8221;, perguntou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O corpo da senhorinha de 78 anos, com os cabelos grisalhos caindo sobre os ombros<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19878,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/ossada.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O corpo da senhorinha de 78 anos, com os cabelos grisalhos caindo sobre os ombros","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19876"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19876\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19878"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}