{"id":19254,"date":"2015-04-12T13:59:05","date_gmt":"2015-04-12T13:59:05","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=19254"},"modified":"2015-04-12T13:59:05","modified_gmt":"2015-04-12T13:59:05","slug":"entrevista-especial-com-sergio-margulis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/entrevista-especial-com-sergio-margulis\/","title":{"rendered":"Entrevista especial com Sergio Margulis"},"content":{"rendered":"<p><strong><img class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/i57.tinypic.com\/fteu6h.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" \/>Crise anunciada: Matriz energ\u00e9tica brasileira n\u00e3o prev\u00ea poss\u00edvel mudan\u00e7a no ciclo hidrol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Patricia Fachin<\/em><\/p>\n<p>\u201cO grande problema da mudan\u00e7a do clima \u00e9 que se tem um corte gradual mas significativo nos regimes hidrol\u00f3gicos de chuva, de temperatura, e eventos extremos. O que estamos vendo no Brasil hoje \u00e9 apenas um aviso pr\u00e9vio do que est\u00e1 por vir, considerando a seca em S\u00e3o Paulo e no Nordeste, as enchentes na Amaz\u00f4nia\u201d, alerta o ex-secret\u00e1rio de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia \u2013 SAE.<\/p>\n<p>\u201cHoje o Brasil \u00e9 altamente dependente da energia hidrel\u00e9trica, mas nos pr\u00f3ximos anos os reservat\u00f3rios de \u00e1gua estar\u00e3o vulner\u00e1veis aos novos regimes hidrol\u00f3gicos e isso vai gerar um impacto sobre o potencial hidr\u00e1ulico\u201d, adverte Sergio Margulis, ex-secret\u00e1rio de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia \u2013 SAE.<\/p>\n<p>Margulis era um dos respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o do estudo \u201cBrasil 2040: Cen\u00e1rios e Alternativas de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 Mudan\u00e7a do Clima\u201d, que pretende verificar quais ser\u00e3o os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sobre o ciclo hidrol\u00f3gico nos pr\u00f3ximos 100 anos, a fim de pensar estrat\u00e9gias para lidar com os problemas futuros.<\/p>\n<p>O estudo \u201cBrasil 2040: Cen\u00e1rios e Alternativas de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 Mudan\u00e7a do Clima\u201d ganhou notoriedade na m\u00eddia nas \u00faltimas semanas ap\u00f3s a demiss\u00e3o da equipe t\u00e9cnica que estava realizando a pesquisa, ap\u00f3s a aposentadoria de Margulis e o in\u00edcio da gest\u00e3o de Mangabeira Unger \u00e0 frente da SAE.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone \u00e0 IHU On-Line, Margulis explica que, ap\u00f3s as demiss\u00f5es dos t\u00e9cnicos envolvidos com o estudo, a continuidade do projeto \u00e9 uma inc\u00f3gnita. \u201cCom a nossa sa\u00edda, fico me perguntando que uso ir\u00e3o fazer desse estudo. Como ir\u00e3o conclu\u00ed-lo e depois como ser\u00e1 aproveitado? Ele ser\u00e1 usado mesmo pelo Plano Nacional?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>Segundo ele, os resultados do estudo at\u00e9 o momento indicam que \u201cas not\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o animadoras\u201d, porque sinalizam que \u201cde maneira geral haver\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o significativa na disponibilidade h\u00eddrica\u201d nos pr\u00f3ximos anos. \u201cIsso vai depender da bacia, porque as bacias do Sul ter\u00e3o maiores vaz\u00f5es, enquanto as bacias do Norte, Nordeste e Centro-Oeste ter\u00e3o redu\u00e7\u00f5es significativas. Os impactos ser\u00e3o diferenciados, os quais n\u00e3o se compensam num certo sentido. Ent\u00e3o, n\u00e3o vai adiantar chover mais no Sul e achar que ser\u00e1 poss\u00edvel gerar mais energia no Sul compensando o Norte e o Nordeste, que ter\u00e3o menos energia. Isso significa que a longo prazo haver\u00e1 um risco de diminui\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica\u201d, explica.<\/p>\n<p>Margulis critica ainda os investimentos que o Estado brasileiro tem feito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s constru\u00e7\u00f5es das hidrel\u00e9tricas de Jirau e Santo Ant\u00f4nio, no complexo do Rio Madeira. \u201cEssas hidrel\u00e9tricas provavelmente n\u00e3o ter\u00e3o o potencial para o qual foram projetadas. Realmente \u00e9 o caso de se pensar o redimensionamento dessas usinas ou pensar uma nova estrat\u00e9gia. O pessoal respons\u00e1vel pela energia tem que sentar com o pessoal que \u00e9 respons\u00e1vel pelos estudos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, porque as novas usinas n\u00e3o est\u00e3o sendo projetadas para durar 10 anos. Elas s\u00e3o feitas para durar pelo menos 50 anos, mas em 50 anos o ciclo hidrol\u00f3gico certamente n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma sobre isso. Esse \u00e9 realmente um problema muito significativo\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Sergio Margulis \u00e9 doutor em Economia Ambiental pelo Imperial College London, Inglaterra. Foi economista do Banco Mundial e secret\u00e1rio de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia \u2013 SAE.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong> <img class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/i59.tinypic.com\/mvtdgl.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" \/>IHU On-Line &#8211; Em que contexto surgiu a iniciativa de realizar o estudo \u201cBrasil 2040: Cen\u00e1rios e Alternativas de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 Mudan\u00e7a do Clima\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> Eu fui convidado para ser Secret\u00e1rio de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia \u2013 SAE, pelo ministro Marcelo Neri, que me chamou para dar andamento \u00e0 agenda de sustentabilidade, que estava meio ac\u00e9fala. Dos temas mais importantes, achei que a quest\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a do clima era cr\u00edtica, porque a parte de mitiga\u00e7\u00e3o j\u00e1 vem sendo estudada com mais intensidade no Brasil.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente sin\u00f4nima de desenvolvimento, quer dizer, de crescimento, de desafios do desenvolvimento de maneira geral, na medida em que o clima ir\u00e1 afetar todos os setores, todas as regi\u00f5es. Ent\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o intrinsicamente ligada \u00e0 quest\u00e3o do desenvolvimento. \u00c9 um assunto de m\u00e9dio e longo prazo que tem que ser tratado em um n\u00edvel de planejamento estrat\u00e9gico. Essa foi a concep\u00e7\u00e3o e a justificativa original para realizar o estudo.<\/p>\n<p>O estudo tinha como objetivo abordar o problema do ponto de vista econ\u00f4mico. Eu j\u00e1 tinha uma experi\u00eancia de trabalhar com estas quest\u00f5es, com modelos econ\u00f4micos bem mais pesados, ambiciosos, modelos que envolvem muitos setores, e a proposta era essa. O projeto sempre foi ambicioso, envolvendo oito das melhores institui\u00e7\u00f5es de pesquisa do pa\u00eds e a ideia era ter uma orquestra\u00e7\u00e3o para que a SAE coordenasse todos os estudos e formulasse uma proposta que idealmente alimentaria o Plano Nacional de Adapta\u00e7\u00e3o. Esse Plano Nacional de Adapta\u00e7\u00e3o, que a presidente pediu que fosse completo at\u00e9 a Confer\u00eancia de Paris, passou a ser desenvolvido por um grupo de trabalho interministerial liderado pelos Minist\u00e9rios do Meio Ambiente e da Ci\u00eancia e Tecnologia. A nossa ideia sempre foi a de subsidiar do ponto de vista mais t\u00e9cnico a elabora\u00e7\u00e3o do plano.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quando o Plano ser\u00e1 conclu\u00eddo? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> O Plano deve ser entregue em outubro. Ele vem sendo elaborado, mas sempre careceu de uma an\u00e1lise t\u00e9cnica mais substantiva e esse tem sido o problema. O principal estudo que estava sendo feito para subsidiar este Plano era o \u201cBrasil 2040\u201d, que tinha a concep\u00e7\u00e3o de alimentar um Plano Nacional. O Plano ainda n\u00e3o est\u00e1 pronto e estamos aguardando para ver como ser\u00e1 conclu\u00eddo, mas gostaria de deixar claro que se trata de dois movimentos paralelos: um \u00e9 o Plano em si, \u00e9 o documento oficial, que envolve todos os minist\u00e9rios, tem portaria criando grupo de trabalho, etc. e d\u00e1 atribui\u00e7\u00e3o ao Minist\u00e9rio do Meio Ambiente para ser respons\u00e1vel junto com o Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia e Tecnologia; outra coisa \u00e9 o estudo \u201cBrasil 2040\u201d, que foi uma iniciativa espont\u00e2nea da SAE e que dever\u00e1 ser abra\u00e7ada pelo Grupo Interministerial. Mas agora, com a nossa sa\u00edda, fico me perguntando que uso ir\u00e3o fazer desse estudo. Como ir\u00e3o conclu\u00ed-lo e depois como ser\u00e1 aproveitado? Ele ser\u00e1 usado mesmo pelo Plano Nacional? Isso \u00e9 uma inc\u00f3gnita. Mais ainda o papel da SAE.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A partir do estudo, que informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 se t\u00eam sobre como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas v\u00e3o afetar o regime de chuvas e o regime hidrol\u00f3gico? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> Para realizar um estudo desses, o primeiro passo \u00e9 entender o que deve acontecer em termos dos cen\u00e1rios clim\u00e1ticos, como vai se comportar o clima no final do s\u00e9culo; 2100 \u00e9 o horizonte de planejamento desses modelos clim\u00e1ticos. Ent\u00e3o se projeta at\u00e9 2100 o que poder\u00e1 acontecer. Quem faz esse tipo de proje\u00e7\u00e3o s\u00e3o os profissionais de meteorologia e de clima atrav\u00e9s dos chamados modelos clim\u00e1ticos globais. Esses modelos s\u00e3o muito, muito sofisticados e envolvem uma quantidade de vari\u00e1veis enorme. Poucas pessoas em n\u00edvel mundial s\u00e3o capazes de desenvolver esses modelos e de entender realmente o que se passa.<\/p>\n<p>Existem mais ou menos uns 33 modelos clim\u00e1ticos globais a n\u00edvel mundial. As proje\u00e7\u00f5es desses modelos indicam um aquecimento global, um aquecimento da Terra, mas eles n\u00e3o convergem em termos da precipita\u00e7\u00e3o. Os modelos s\u00e3o bastante d\u00edspares sobre onde vai chover mais, onde vai chover menos, e isso \u00e9 o que introduz uma grande incerteza no entendimento do problema. Para entender o que poder\u00e1 acontecer no Brasil at\u00e9 2100, \u00e9 preciso pegar a maior gama poss\u00edvel de modelos, ou seja, abrir o leque de modelos analisados. Isso foi feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais &#8211; INPE e estes resultados j\u00e1 s\u00e3o p\u00fablicos. O INPE s\u00f3 trabalhava, at\u00e9 ent\u00e3o, com um modelo clim\u00e1tico global e passou a trabalhar com tr\u00eas modelos.<\/p>\n<p>O segundo movimento do estudo \u00e9 entender o que acontece com os recursos h\u00eddricos, porque eles dependem integralmente da pluviosidade, do regime de chuvas. Entender o impacto sobre as vaz\u00f5es e disponibilidade de recursos h\u00eddricos \u00e9 cr\u00edtico porque em sequ\u00eancia os setores econ\u00f4micos \u2013 abastecimento urbano, agricultura, infraestrutura, energia, regi\u00f5es costeiras &#8211; s\u00e3o afetados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Ent\u00e3o esse \u00e9 o segundo movimento e ele praticamente j\u00e1 foi conclu\u00eddo pela Universidade Federal do Cear\u00e1 &#8211; UFC, que em janeiro deste ano fez a apresenta\u00e7\u00e3o dos resultados preliminares.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais as implica\u00e7\u00f5es dessas mudan\u00e7as para a gera\u00e7\u00e3o de energia a partir de fontes hidrel\u00e9tricas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> Hoje o Brasil \u00e9 altamente dependente da energia hidrel\u00e9trica, mas nos pr\u00f3ximos anos os reservat\u00f3rios de \u00e1gua estar\u00e3o vulner\u00e1veis aos novos regimes hidrol\u00f3gicos e isso vai gerar um impacto sobre o potencial hidr\u00e1ulico. As not\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o animadoras: de maneira geral haver\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o significativa na disponibilidade h\u00eddrica. Mas isso vai depender da bacia, porque as bacias do Sul ter\u00e3o maiores vaz\u00f5es, enquanto as bacias do Norte, Nordeste e Centro-Oeste ter\u00e3o redu\u00e7\u00f5es significativas. Os impactos ser\u00e3o diferenciados, os quais n\u00e3o se compensam num certo sentido. Ent\u00e3o, n\u00e3o vai adiantar chover mais no Sul e achar que ser\u00e1 poss\u00edvel gerar mais energia no Sul compensando o Norte e o Nordeste, que ter\u00e3o menos energia. Isso significa que a longo prazo haver\u00e1 um risco de diminui\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>Hoje o Brasil est\u00e1 investindo nas usinas hidrel\u00e9tricas da Amaz\u00f4nia, como Jirau, Santo Ant\u00f4nio, e essas hidrel\u00e9tricas provavelmente n\u00e3o ter\u00e3o o potencial para o qual foram projetadas. Realmente \u00e9 o caso de se pensar o redimensionamento dessas usinas ou pensar uma nova estrat\u00e9gia. O pessoal respons\u00e1vel pela energia tem que sentar com o pessoal que \u00e9 respons\u00e1vel pelos estudos sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, porque as novas usinas n\u00e3o est\u00e3o sendo projetadas para durar 10 anos. Elas s\u00e3o feitas para durar pelo menos 50 anos, mas em 50 anos o ciclo hidrol\u00f3gico certamente n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma sobre isso. Esse \u00e9 realmente um problema muito significativo.<\/p>\n<p>Nosso trabalho era mostrar para o setor de energia que n\u00f3s estamos diante de um problema energ\u00e9tico muito grande, sobre o qual a hora de planejamento \u00e9 agora, ainda que o problema pare\u00e7a ser de longo prazo. N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o do futuro, porque os investimentos est\u00e3o sendo feitos agora. Mas o estudo que est\u00e1vamos realizando n\u00e3o \u00e9 mais considerado importante para o governo, ou pela SAE.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Considerando os resultados do estudo, que sugest\u00f5es podem ser propostas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o e o funcionamento das hidrel\u00e9tricas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que tem de ser repensada, porque a quest\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 saber se as s\u00e9ries hidrol\u00f3gicas do Brasil continuar\u00e3o estacion\u00e1rias. As s\u00e9ries registradas nos \u00faltimos 100 anos continuar\u00e3o valendo, ou nos pr\u00f3ximos 50 anos as s\u00e9ries hidrol\u00f3gicas ser\u00e3o outras? O grande problema da mudan\u00e7a do clima \u00e9 que se tem um corte gradual mas significativo nos regimes hidrol\u00f3gicos de chuva, de temperatura e eventos extremos. O que estamos vendo no Brasil, hoje, \u00e9 apenas um aviso pr\u00e9vio do que est\u00e1 por vir, considerando a seca em S\u00e3o Paulo e no Nordeste, as enchentes na Amaz\u00f4nia. Temos evid\u00eancias mais do que o suficiente e tudo corrobora para mostrar que estamos vivenciando apenas os primeiros sintomas de uma crise. A melhor coisa que se pode fazer \u00e9 se utilizar da ci\u00eancia e, a partir dela, tomar as decis\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A partir do estudo, que metas o Brasil deveria apresentar na COP-21, em Paris?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> As quest\u00f5es que estou mostrando s\u00e3o quest\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o, ou seja, s\u00e3o do Brasil para dentro. Aos EUA, \u00e0 Coreia do Sul, ao Paquist\u00e3o, ao Uruguai pouco importa o que o Brasil est\u00e1 fazendo internamente para se preparar para as mudan\u00e7as do clima. Isso \u00e9 problema do Brasil: se o Brasil for esperto, ele se antecipa, se o Brasil for bobo, ele espera acontecer para ver o que faz.<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es s\u00e3o absolutamente estrat\u00e9gicas para o desenvolvimento do Brasil, para o potencial de crescimento, para o potencial econ\u00f4mico do pa\u00eds. Essa discuss\u00e3o tem a ver com a COP de Paris na medida em que, agora, a quest\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o come\u00e7a a entrar na pauta das discuss\u00f5es, e o Brasil tem mantido a posi\u00e7\u00e3o firme de que adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 parte do problema clim\u00e1tico global.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses t\u00eam que conjuntamente trabalhar para minimizar as emiss\u00f5es. Isso \u00e9 um senso comum que interessa a todos, a\u00ed sim, o que o Brasil faz interessa ao Paquist\u00e3o, aos Estados Unidos, ao Uruguai; e ao mesmo tempo ao Brasil interessa saber o que eles est\u00e3o fazendo, ou seja, \u00e9 um esfor\u00e7o comum, conjunto, todo mundo tem que estar no mesmo barco. Mas adapta\u00e7\u00e3o agora faz parte do acordo global, porque os esfor\u00e7os de mitiga\u00e7\u00e3o conjunta ditar\u00e3o as necessidades de adapta\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>IHU On-line &#8211; Fica evidente que se o pa\u00eds n\u00e3o possui uma mudan\u00e7a estrat\u00e9gica, n\u00e3o est\u00e1 preocupado com as quest\u00f5es internas, as quest\u00f5es globais tamb\u00e9m ficar\u00e3o de lado? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> \u00c9 um bom indicador: se o pr\u00f3prio dever de casa para as coisas que s\u00f3 interessam ao Brasil n\u00e3o recebem a devida aten\u00e7\u00e3o, imagina a aten\u00e7\u00e3o que o Brasil pode dar \u00e0s quest\u00f5es na qual ele \u00e9 um parceiro internacional, mas a\u00ed s\u00e3o dedu\u00e7\u00f5es. \u00c9 um processo pol\u00edtico complicado, as pessoas entenderem essas coisas talvez n\u00e3o seja t\u00e3o simples, mas a quest\u00e3o \u00e9 esta que voc\u00ea falou.<\/p>\n<p><strong>IHU On-line &#8211; Al\u00e9m da mudan\u00e7a do ciclo hidrol\u00f3gico, quais os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas previstos pelo estudo? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> S\u00e3o os eventos extremos de toda a natureza em rela\u00e7\u00e3o ao clima. Haver\u00e1 ondas de calor, enchentes e secas nunca antes vistas e algumas varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que s\u00e3o menos \u00f3bvias e que s\u00e3o muito s\u00e9rias. Por exemplo, durante o ciclo da agricultura h\u00e1 certo per\u00edodo de seca. Esses dias de falta de chuva t\u00eam um limite: a planta suporta uns 10 ou 12 dias, passando disso, ela simplesmente n\u00e3o germina, sendo poss\u00edvel que haja quebra total de safra apenas porque ao inv\u00e9s de n\u00e3o chover 12 dias, n\u00e3o choveram 16 dias.<\/p>\n<p>H\u00e1 varia\u00e7\u00f5es menores de alguns par\u00e2metros clim\u00e1ticos que t\u00eam grandes consequ\u00eancias na infraestrutura tamb\u00e9m. As estradas, por exemplo, s\u00e3o preparadas para suportar certa varia\u00e7\u00e3o de temperatura, certa incid\u00eancia de chuvas, etc., e quando se come\u00e7a a brincar com a varia\u00e7\u00e3o dessas vari\u00e1veis, as estradas n\u00e3o est\u00e3o preparadas, elas come\u00e7am a n\u00e3o aguentar. Isso \u00e9 uma quest\u00e3o de engenharia b\u00e1sica e haver\u00e1 problemas por causa disso. Outro ponto importante \u00e9 que nas regi\u00f5es costeiras, inevitavelmente e irreversivelmente, os n\u00edveis do mar aumentar\u00e3o por conta do degelo, ocasionando ressacas de intensidade maior, ou seja, o regime de mar\u00e9s vai mudar e isso n\u00e3o \u00e9 pouco significativo.<\/p>\n<p>Conforme o cen\u00e1rio, dever\u00e3o ocorrer mudan\u00e7as significativas no regime de mar\u00e9s e do movimento do mar na costa, e isso implica mudan\u00e7as na infraestrutura costeira; por exemplo, o c\u00f3digo de constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios na costa ter\u00e1 que mudar, os pr\u00e9dios n\u00e3o v\u00e3o estar em cima de uma zona costeira igual a que era no passado.<\/p>\n<p>O porto de Rotterdam na Holanda, que \u00e9 o porto mais importante do mundo, j\u00e1 est\u00e1 constru\u00eddo a cinco metros de altura do n\u00edvel m\u00e9dio do mar local, ou seja, eles j\u00e1 est\u00e3o totalmente preparados para as varia\u00e7\u00f5es de n\u00edvel do mar, e aqui no Brasil nem se fala nesse assunto. Ele n\u00e3o existe em nenhum lugar do planejamento de governo, mas a Secretaria de Portos e demais minist\u00e9rios de infraestrutura se interessaram muito pelo estudo.<\/p>\n<p>Os problemas n\u00e3o s\u00e3o pouco significativos: alguns v\u00e3o dando avisos pr\u00e9vios e outros ser\u00e3o sempre uma surpresa, uma surpresa atr\u00e1s da outra. Infelizmente a ci\u00eancia n\u00e3o pode ainda precisar exatamente que dia, que hora e onde acontecer\u00e1 o pr\u00f3ximo evento extremo. Mas n\u00e3o tenha a menor d\u00favida, a ci\u00eancia s\u00f3 demonstra isso: vai acontecer, est\u00e1 acontecendo, estamos tendo sinais preliminares e seria bom aprender que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tende a melhorar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-line &#8211; Como voc\u00ea recebeu a not\u00edcia da demiss\u00e3o de profissionais ligados \u00e0 Secretaria de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel? Qual foi a causa da demiss\u00e3o de parte do quadro t\u00e9cnico da Secretaria de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, do qual o senhor fazia parte? Qual o impacto dessas demiss\u00f5es para a conclus\u00e3o do estudo Brasil 2040 e para pensar as estrat\u00e9gias do pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sergio Margulis \u2013<\/strong> Eu me aposentei do servi\u00e7o p\u00fablico. Eu ainda era secret\u00e1rio quando houve a troca de ministros e comuniquei ao ministro Roberto Mangabeira Unger que iria me aposentar. Avisei que estava \u00e0s ordens para passar informa\u00e7\u00f5es sobre o estudo que est\u00e1vamos realizando. Mas o ministro Roberto Mangabeira Unger nunca nos procurou, deixando claro que este assunto n\u00e3o era estrat\u00e9gico para a SAE, que n\u00e3o era importante e tentou frear completamente o estudo.<\/p>\n<p>A primeira coisa que fez foi demitir toda a equipe sem ter feito nenhuma consulta a qualquer uma das pessoas envolvidas no processo. Demitiu da forma menos profissional e \u00e9tica poss\u00edvel, e esse \u00e9 um sinal claro de que esta quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais priorit\u00e1ria. Se fosse priorit\u00e1ria teriam o m\u00ednimo interesse em conversar com as pessoas, saber o que se fez, qual a import\u00e2ncia do estudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos a menor ideia do que eles est\u00e3o pensando. Como h\u00e1 muitas institui\u00e7\u00f5es importantes e capacidade t\u00e9cnica alt\u00edssima envolvidas nesse estudo, o caso ficou conhecido, as pessoas manifestaram sua repugn\u00e2ncia e rep\u00fadio \u00e0 atitude.<\/p>\n<p>Mas tudo bem, cada nova administra\u00e7\u00e3o define suas prioridades e pronto. Mas, agora, fico pensando se esse estudo que custou uma fortuna vai parar no meio do caminho e ter uma prioriza\u00e7\u00e3o descontinuada. \u00c9 preciso falar com o Ministro para saber o que a nova equipe est\u00e1 pensando. A \u00fanica coisa que posso falar \u00e9 que eles mandaram cinco pessoas embora, demitiram sem conversar e n\u00e3o pediram, jamais, nenhuma conversa conosco para se inteirar do estudo, para saber qual era o encaminhamento.<br \/>\nFonte: IHU On-Line<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crise anunciada: Matriz energ\u00e9tica brasileira n\u00e3o prev\u00ea poss\u00edvel mudan\u00e7a no ciclo hidrol\u00f3gico Por Patricia Fachin<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Crise anunciada: Matriz energ\u00e9tica brasileira n\u00e3o prev\u00ea poss\u00edvel mudan\u00e7a no ciclo hidrol\u00f3gico Por Patricia Fachin","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19254"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19254\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}