{"id":18496,"date":"2015-03-30T12:00:51","date_gmt":"2015-03-30T12:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=18496"},"modified":"2015-03-29T20:56:30","modified_gmt":"2015-03-29T20:56:30","slug":"peixes-boi-brasileiros-sao-despachados-para-o-caribe-com-passagem-so-de-ida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/peixes-boi-brasileiros-sao-despachados-para-o-caribe-com-passagem-so-de-ida\/","title":{"rendered":"Peixes-boi brasileiros s\u00e3o despachados para o Caribe com passagem s\u00f3 de ida"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-18497\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ganhar uma passagem s\u00f3 de ida para o Caribe pode parecer um pr\u00eamio de loteria. Mas para cinco peixes-boi marinhos do Centro de Mam\u00edferos Aqu\u00e1ticos (CMA), em Itamarac\u00e1, Pernambuco, a realidade \u00e9 outra. Ao inv\u00e9s de uma vit\u00f3ria, a transfer\u00eancia desses animais para o Parque Nacional de Guadalupe &#8211; com passagem marcada para meados de abril &#8211; representa o enorme fracasso da ci\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>Institu\u00eddo em 1998, o CMA \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o do bem-sucedido Projeto Peixe-Boi, que surgiu em 1980 para dar in\u00edcio \u00e0s pesquisas sobre a esp\u00e9cie. Desde 2010, o CMA passa por dificuldades ineg\u00e1veis. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o calamitosa que at\u00e9 mesmo a bi\u00f3loga e coordenadora do CMA, F\u00e1bia Luna, admite ser este um dos motivos para o envio dos animais. &#8220;Precisamos fazer reformas nos recintos, e n\u00e3o temos como fazer isso enquanto os peixes-boi ocupam o espa\u00e7o&#8221;, explica. Do total de 19 animais, al\u00e9m dos cinco previstos para Guadalupe, dois ser\u00e3o transferidos para o Aqu\u00e1rio de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u00c9 inadmiss\u00edvel presumir que o governo federal n\u00e3o poderia ter agido antes, com investimento, para resolver os problemas estruturais. Nesse contexto, o projeto de Guadalupe caiu feito uma luva. Caso d\u00ea certo, a import\u00e2ncia de tirar a esp\u00e9cie da extin\u00e7\u00e3o &#8211; situa\u00e7\u00e3o do peixe-boi marinho naquela regi\u00e3o &#8211; \u00e9 inquestion\u00e1vel. Contudo, os fins n\u00e3o justificam os meios. Com recursos do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, a estrutura conservacionista de Itamarac\u00e1, que abriga as esp\u00e9cies, recebe cerca de 3,5 milh\u00f5es de reais por ano. Dinheiro que sai do bolso de todos os brasileiros. De acordo com a Associa\u00e7\u00e3o de Pesquisas e Preserva\u00e7\u00e3o de Ecossistemas Aqu\u00e1ticos (Aquasis), o custo de um animal por ano chega a 400 000 reais. O governo franc\u00eas come\u00e7ou o planejamento para receber peixes-boi marinhos h\u00e1 vinte anos. Com cerca de 1 milh\u00e3o de euros (muito menos do que custaria no Brasil), finalizou-se a constru\u00e7\u00e3o de tanques e instala\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para abrigar os novos moradores do parque nacional.<\/p>\n<p>No Brasil, o peixe-boi marinho, animal herb\u00edvoro, foi considerado o mam\u00edfero aqu\u00e1tico em maior risco de extin\u00e7\u00e3o, por causa da ca\u00e7a. Hoje ele \u00e9 elencado como &#8220;em perigo&#8221; pela Uni\u00e3o Internacional para Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN), mas s\u00f3 existem duas pesquisas que estimam a sua popula\u00e7\u00e3o. A mais atual indica que s\u00e3o 1 000 indiv\u00edduos, e a anterior indicava 500, em \u00e1reas de observa\u00e7\u00e3o distintas e com uso de metodologias conservacionistas diferentes.<\/p>\n<p>Para calcular o valor econ\u00f4mico do peixe-boi, a Universidade da Fl\u00f3rida, nos Estados Unidos, fez um estudo sobre a sua fun\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e a gera\u00e7\u00e3o de empregos e renda com turismo. No condado de Citrus, na Fl\u00f3rida, um levantamento de 2004 mostrou que os peixes-boi renderam entre 8,7 milh\u00f5es e 9,4 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano. Entre 1994 e 1999, o condado gastou quase 2 milh\u00f5es de d\u00f3lares por semestre a cada ano em tratamento mec\u00e2nico e herbicida de vegeta\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica. Sem os peixes-boi, que naturalmente cumprem com essas fun\u00e7\u00f5es, os gastos dobrariam.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia entre pa\u00edses \u00e9 legal e est\u00e1 prevista na Conven\u00e7\u00e3o sobre o Com\u00e9rcio Internacional de Esp\u00e9cies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extin\u00e7\u00e3o (CITES), tratado internacional do qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio. No caso do peixe-boi marinho, o acordo n\u00e3o pode gerar lucro para o Brasil. Se fosse o caso, existiria a op\u00e7\u00e3o de seguir o exemplo da China, que cobra 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares pelo aluguel de cada panda em zool\u00f3gicos pelo mundo. Mesmo assim, a legalidade caminha ao lado de uma controv\u00e9rsia.<\/p>\n<p>De acordo com o advogado especialista em direito ambiental, Fernando Pinheiro Pedro, o texto do decreto que regulariza a participa\u00e7\u00e3o do Brasil, aprovado em 2000, tem uma falha. &#8220;Cada pa\u00eds deve ter uma autoridade administrativa e outra cient\u00edfica. Aqui, as duas s\u00e3o o IBAMA. N\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo, o que ele decidir vai ficar por isso mesmo&#8221;, explica. Com rela\u00e7\u00e3o ao caso dos peixes-boi, o ICMBio foi designado para analisar o caso. &#8220;O segundo problema \u00e9 que o ICMBio \u00e9 o irm\u00e3o siam\u00eas do IBAMA. Eles t\u00eam capacidade t\u00e9cnica plena, mas o tratado internacional fala em institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no sentido de pesquisa e ensino, o que n\u00e3o \u00e9 o caso de nenhum dos dois. A documenta\u00e7\u00e3o para a transfer\u00eancia est\u00e1 em ordem, o problema \u00e9 o decreto de quinze anos atr\u00e1s&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Especialistas brasileiros se manifestaram e questionaram a medida. Para o diretor-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Mam\u00edferos Aqu\u00e1ticos (FMA), Jo\u00e3o Carlos Gomes Borges, a situa\u00e7\u00e3o da fauna do Brasil n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel para que o pa\u00eds abra m\u00e3o de um exemplar sequer. &#8220;O projeto de Guadalupe pode ser replicado aqui. Existem dificuldades financeiras no CMA, mas n\u00e3o \u00e9 sensato deixar que limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas definam as prioridades. Se vamos suprir a car\u00eancia de um programa de reintrodu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 motivo para que n\u00e3o seja no Brasil, j\u00e1 que as necessidades s\u00e3o semelhantes&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o n\u00e3o se resume a Brasil versus Guadalupe. Os cinco animais n\u00e3o podem ser soltos na natureza, eles j\u00e1 se reproduziram e h\u00e1 irm\u00e3os de futuros filhotes nadando pelo litoral, o que representa um problema gen\u00e9tico caso eles cruzem entre si. Ao mesmo tempo, a subesp\u00e9cie brasileira pode ter diferen\u00e7as gen\u00e9ticas daquela de Guadalupe, impedindo que os animais sobrevivam no ambiente inadequado para eles.<\/p>\n<p>Se permanecessem no Brasil, esses animais podem ficar em tanques de visita\u00e7\u00e3o em locais onde n\u00e3o h\u00e1 contato natural com o peixe-boi e servir para pesquisas sobre a esp\u00e9cie, e tamb\u00e9m como atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica. Se a popula\u00e7\u00e3o tem contato com os animais, cresce o interesse em proteg\u00ea-los. Um exemplo de sucesso \u00e9 o Projeto Tamar, que com o dinheiro de seus centros tur\u00edsticos conseguiu completar 35 anos com a marca de 20 milh\u00f5es de filhotes de tartarugas marinhas soltos no mar.<\/p>\n<p>O mico-le\u00e3o-dourado, amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 70, foi reintroduzido com filhotes de cativeiro que nasceram em zool\u00f3gicos ao redor do mundo, a exemplo do que ser\u00e1 feito em Guadalupe. A diferen\u00e7a \u00e9 que o pequeno primata \u00e9 exclusivo do Brasil, end\u00eamico da Mata Atl\u00e2ntica brasileira no Rio de Janeiro. Na d\u00e9cada de 80 eram 200 animais na natureza, hoje s\u00e3o cerca de 3 200. A ararinha-azul \u00e9 considerada extinta e, nesse m\u00eas, um casal nascido na Alemanha chegou ao Brasil para fazer companhia \u00e0s outras 11 aves que vivem no pa\u00eds. Esses casos fazem pensar se o governo precisa mesmo que o peixe-boi marinho chegue a esse ponto para ter interesse em repatriar a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>No come\u00e7o deste ano, reportagem de VEJA mostrou o caso do <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=1&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0CCQQFjAA&amp;url=http%3A%2F%2Fveja.abril.com.br%2Fnoticia%2Fciencia%2Fo-boto-cor-de-rosa-e-cacado-para-virar-isca-de-peixe%2F&amp;ei=C9wVVcSoO4HfsASu5YDYAQ&amp;usg=AFQjCNFwTjxMLDN6UaA2SCcu3OF9-wsSfg&amp;sig2=61h1zOIRVS3mKGkoUC6Tkw&amp;bvm=bv.89381419,d.cWc\" rel=\"\">boto cor-de-rosa<\/a>, ca\u00e7ado aos milhares por pescadores na Amaz\u00f4nia h\u00e1 anos, sem fiscaliza\u00e7\u00e3o efetiva do governo. Foi somente com o desenvolvimento de um teste gen\u00e9tico, por uma pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que se conseguiu aprovar uma morat\u00f3ria para aprimorar o trabalho que visa coibir a matan\u00e7a. Esses p\u00e9ssimos exemplos de descaso com nossa natureza indicam que o governo brasileiro est\u00e1 abrindo m\u00e3o dos seus animais e deixando \u00e0 merc\u00ea da sorte os centros que supostamente s\u00e3o respons\u00e1veis por garantir a sobreviv\u00eancia das esp\u00e9cies que vivem no pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ganhar uma passagem s\u00f3 de ida para o Caribe pode parecer um pr\u00eamio de loteria.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18497,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/peixe_boi.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Ganhar uma passagem s\u00f3 de ida para o Caribe pode parecer um pr\u00eamio de loteria.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18496"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18496"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18496\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18497"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}