{"id":18036,"date":"2015-03-21T16:09:37","date_gmt":"2015-03-21T16:09:37","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=18036"},"modified":"2015-03-21T16:09:37","modified_gmt":"2015-03-21T16:09:37","slug":"falar-com-e-pelos-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/falar-com-e-pelos-animais\/","title":{"rendered":"Falar com (e pelos) animais"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"caption\" title=\"Foto: [url=http:\/\/pixabay.com\/p-534404\/]Pixabay\/CC0 Public Domain[\/url]\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/mar2015\/02032015-primata-cativeiro.jpg\" alt=\"02032015-primata-cativeiro\" width=\"642\" height=\"428\" \/><\/p>\n<p>Por Adrian Monjeau*<\/p>\n<p>Faz algum tempo, os destinos do mundo eram decididos por umas poucas pessoas: czares, imperadores, reis, papas, caciques, ditadores. Logo a sociedade humana evoluiu at\u00e9 uma fase mais inclusiva, e os povos come\u00e7aram a poder votar por seus governantes e, atrav\u00e9s do exerc\u00edcio democr\u00e1tico, decidir sobre os destinos do mundo. Mas at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, s\u00f3 podia votar uma minoria de homens: mulheres, \u00edndios, negros e um grande etc\u00e9tera majorit\u00e1rio estavam exclu\u00eddos de voz e de voto. Hoje em dia, a partir de uma c\u00f4moda e civilizada vis\u00e3o retrospectiva, vemos estas etapas da hist\u00f3ria como bestiais, injustas, discriminativas. Julgados estes atos a partir de nossas perspectivas \u00e9ticas atuais, refutar\u00edamos estes consensos participativos por serem tendenciosos, por falta de qu\u00f3rum ou de representatividade da maioria dos atores envolvidos. Os condenar\u00edamos como uma brutal demonstra\u00e7\u00e3o da lei do mais forte, indo contra os antigos e vigentes princ\u00edpios de igualdade, fraternidade e liberdade. Mas hoje, dizemos n\u00f3s, a civiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 avan\u00e7ou.<\/p>\n<p>No entanto, apesar destes progressos, faltam, por exemplo, as crian\u00e7as. Claro, dir\u00e3o os senhores importantes, as crian\u00e7as n\u00e3o podem votar porque n\u00e3o alcan\u00e7aram o racioc\u00ednio suficiente. As crian\u00e7as s\u00f3 querem se sentir satisfeitas, ser felizes e amar e ser amadas em um lugar apraz\u00edvel, mas ser\u00e1 que n\u00f3s adultos conseguimos com nosso racioc\u00ednio metas melhores que as das crian\u00e7as no mundo que temos constru\u00eddo e que eles herdar\u00e3o?<\/p>\n<p>Permita-me agora estender essa linha de argumenta\u00e7\u00e3o \u00e0s decis\u00f5es que hoje em dia se tomam sobre o destino do mundo, a respeito da coexist\u00eancia dos humanos com a biodiversidade. As \u00e1reas protegidas s\u00e3o, em um planeta dominado pela economia humana, os \u00faltimos basti\u00f5es onde se podem encontrar vest\u00edgios em bom estado do que uma vez foram biomas cont\u00ednuos. De maneira similar ao processo anterior, as \u00e1reas protegidas passaram por uma fase autorit\u00e1ria de tomada de decis\u00f5es, excluindo as popula\u00e7\u00f5es locais e circundantes de voz e voto. Em uma etapa posterior, que insere no fluxo mais amplo da hist\u00f3ria, boa parte do destino das \u00e1reas protegidas depende hoje do consenso que se possa estabelecer com as popula\u00e7\u00f5es envolvidas. Em um estudo macroecol\u00f3gico, verifiquei que 92% das 1511 \u00e1reas protegidas da Am\u00e9rica do Sul est\u00e3o inseridas em popula\u00e7\u00f5es humanas ou perto delas, de onde se poderia supor que estas \u00e1reas protegidas est\u00e3o influenciadas pela vontade dos humanos de proteg\u00ea-las, us\u00e1-las ou fazer com que o consenso queria fazer com elas. Ent\u00e3o, comparando esta etapa com a descrita anteriormente, \u00e9 uma etapa primitiva, n\u00e3o inclusiva de todos os atores envolvidos.<\/p>\n<p>Como? Est\u00e3o todos! \u2013 diriam os pol\u00edticos \u2013 homens, mulheres, agricultores, \u00edndios, povoadores antigos, usu\u00e1rios, empres\u00e1rios, turistas, pescadores, ca\u00e7adores, funcion\u00e1rios&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o &#8211; digo eu &#8211; faltam 99% do consenso, n\u00e3o h\u00e1 qu\u00f3rum.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, como? Quem falta? A quem n\u00f3s n\u00e3o convocamos?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s dezenas de milhares de esp\u00e9cies de plantas e animais que formam parte fundamental do funcionamento dos ecossistemas e que n\u00e3o est\u00e3o representados, nem tem voz nem voto, como se exclu\u00edram a mulheres, \u00edndios, negros, tempos atr\u00e1s. Como uma \u00fanica esp\u00e9cie vai decidir por si s\u00f3 o destino de mais de um milh\u00e3o de esp\u00e9cies? O progresso at\u00e9 o antropoceno nos retrocedeu \u00e0 pior era imperial da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Imagine por um segundo, meu querido leitor, a cara que os pol\u00edticos fariam escutando estes argumentos.<\/p>\n<p>Esta concep\u00e7\u00e3o de igualitarismo biosf\u00e9rico pode rapidamente ser considerada rid\u00edcula pelos burocratas argumentando simplesmente que:<\/p>\n<p>a) os animais e plantas n\u00e3o podem opinar porque, simplesmente&#8230; n\u00e3o falam (ou pelo n\u00e3o o entendemos o que dizem);<br \/>\nb) n\u00e3o s\u00e3o sujeitos de direito (como n\u00e3o s\u00e3o as crian\u00e7as nem o eram os escravos, as mulheres, os \u00edndios, os negros).<\/p>\n<p>Isso \u00e9 correto, pelo menos por enquanto. Mas isso n\u00e3o implica que n\u00e3o possam ser representados por n\u00f3s, os humanos, em uma propor\u00e7\u00e3o adequada \u00e0 sua diversidade espec\u00edfica e sua funcionalidade ecossist\u00eamica. Esta &#8220;representa\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 o que se tem chamado &#8220;conserva\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica&#8221;, se algum de voc\u00eas j\u00e1 participou alguma vez de uma conversa deste tipo.<\/p>\n<p>Com a utopia da justi\u00e7a biosf\u00e9rica em mente, empreendi uma expedi\u00e7\u00e3o em busca dos t\u00edmidos representantes dos animais em congressos nacionais de v\u00e1rios pa\u00edses do mundo. Comecei a escutar atentamente os discursos. Vozes sobre desenvolvimento sustent\u00e1vel, parti\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios, uso racional, mitiga\u00e7\u00e3o da pobreza, inclus\u00e3o e outras quest\u00f5es me deram esperan\u00e7a e a busca me entusiasmou loucamente.<\/p>\n<p>Continuei sorrindo e cantando pelos corredores de secretarias, minist\u00e9rios, congressos e assembleias em busca dos tais representantes&#8230; E sabem o que? Tive uma surpresa: os encontrei!<\/p>\n<p>Bom, pelo menos as antas estavam muito bem representadas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/headshots\/adrian-monjeau.jpg\" alt=\"Foto do colunista convidado\" width=\"118\" height=\"118\" \/>*Adrian Monjeau \u00e9 ec\u00f3logo, pesquisador visitante na UFRJ, seus principais interesses s\u00e3o ligados \u00e0 biogeografia da conserva\u00e7\u00e3o. Coordena o programa de Ecofilosofia da Fundaci\u00f3n Bariloche, Argentina.<\/p>\n<p>Fonte: ((o))eco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adrian Monjeau* Faz algum tempo, os destinos do mundo eram decididos por umas poucas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Adrian Monjeau* Faz algum tempo, os destinos do mundo eram decididos por umas poucas","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18036"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18036"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18036\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}