{"id":18034,"date":"2015-03-21T16:01:48","date_gmt":"2015-03-21T16:01:48","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=18034"},"modified":"2015-03-21T16:01:48","modified_gmt":"2015-03-21T16:01:48","slug":"nazca-pelo-avesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/nazca-pelo-avesso\/","title":{"rendered":"Nazca pelo avesso"},"content":{"rendered":"<p>Por Maria Tereza Jorge P\u00e1dua*<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"caption\" title=\"Vicunhas e guanacos no Reserva Nacional de Pampa Galeras. Foto: Marc Dourojeanni\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/07022015-vichunhas-guanacos.jpg\" alt=\"07022015-vichunhas-guanacos\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\nVicunhas e guanacos no Reserva Nacional de Pampa Galeras. Foto: Marc Dourojeanni<\/p>\n<p>Todos que conhecem um pouco do Peru sabem o enorme potencial tur\u00edstico, cultural e especialmente ecotur\u00edstico do pa\u00eds. Depois de Machu Picchu, talvez seja Nazca (ou Nasca) o local mais falado e conhecido desse pa\u00eds, devido \u00e0s suas estranhas linhas no deserto.<\/p>\n<p>Fomos l\u00e1 h\u00e1 alguns dias e o que vimos me preocupou muito. O melhor hotel da cidade, no passado caro e sempre cheio, quase inacess\u00edvel aos nossos bolsos, estava vazio. \u00c9ramos os \u00fanicos h\u00f3spedes nos dois primeiros dias. Estava extraordinariamente barato pela qualidade do servi\u00e7o e pelas magn\u00edficas e belas instala\u00e7\u00f5es. O restaurante na pra\u00e7a, que nos orgulh\u00e1vamos de indicar, parecia um vel\u00f3rio com comida p\u00e9ssima e tamb\u00e9m vazio. Os sobrevoos caros e outrora in\u00fameros se contavam nos dedos da m\u00e3o. Vazio era a palavra certa para a outrora t\u00e3o frequentada e efervescente Nazca.<\/p>\n<p>Era at\u00e9 assustador. Parecia um cen\u00e1rio fantasmag\u00f3rico. A outra face. Onde est\u00e1 a Nazca cheia de turistas do mundo todo, vibrante que todos conhec\u00edamos? Parece que em sua \u00faltima agonia. Porque, como isto \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a m\u00e1 gest\u00e3o do turismo, que \u00e9 evidente. Nem tampouco a corrup\u00e7\u00e3o que \u00e9 comum em nossos pa\u00edses, mesclada com interesses eleitoreiros. \u00c9 muito mais.<\/p>\n<p>Acontece que agora \u00e9 mais f\u00e1cil visitar as Linhas de Nazca de outro ponto tur\u00edstico, a cada dia mais conhecida Reserva Nacional de Paracas, localizada na prov\u00edncia de Pisco, a 250 km de Lima e que tem um bom aeroporto. Paracas disp\u00f5e na atualidade de numerosos hot\u00e9is de todo n\u00edvel, inclu\u00eddos pelo menos tr\u00eas de grande luxo. Porque se gastar mais indo at\u00e9 Nazca, a 450 km de Lima s\u00f3 para sobrevoar as linhas de Nazca? N\u00e3o faz sentido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"caption\" title=\"A paisagem muda de acordo com a altitude, mas ainda d\u00e1 para avistar vicunhas e guanacos. Fotografia tirada no Reserva Nacional de Pampa Galeras. Foto: Maria Tereza P\u00e1dua\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/07022015-vichunhas-guanacos-2.jpg\" alt=\"07022015-vichunhas-guanacos-2\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\npaisagem muda de acordo com a altitude, mas ainda d\u00e1 para avistar vicunhas e guanacos. Fotografia tirada no Reserva Nacional de Pampa Galeras. Foto: Maria Tereza P\u00e1dua<\/p>\n<p>Ai \u00e9 que est\u00e1 o xis da quest\u00e3o. Os que promovem Pisco como ponto de partida para sobrevoar as Linhas de Nazca esquecem que Nazca oferece muito mais que as linhas, por mais famosas e misteriosas que sejam.<\/p>\n<p>Pode-se visitar a partir de Nazca com seus 400 metros de altitude a Reserva Nacional de Pampa Galeras a mais de 4 mil metros de altitude. A estrada \u00e9 asfaltada e oferece paisagens espetaculares, de ecossistemas diferentes em cada altitude. Na subida, que sai do deserto e da maior duna do mundo, se passa por todas as paisagens dos Andes ocidentais at\u00e9 chegar a uma extensa pampa onde se localiza a Reserva Nacional de Pampa Galeras onde se v\u00ea, ademais da maior popula\u00e7\u00e3o de vicunhas do mundo, uma rica fauna que inclui guanacos, pumas, vizcachas, zorros, cervos andinos e at\u00e9 condores. A vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 variada e fascinante pela sua adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 altitude e ao intenso frio noturno, incluindo cactos e at\u00e9 a estranha Puya raimondii, uma esp\u00e9cie de abacaxi de v\u00e1rios metros de altura. Os riachos e as florestas de \u00e1rvores andinos oferecem in\u00fameras op\u00e7\u00f5es para fazer piquenique.<\/p>\n<p>Isto tudo, pasmem, em algumas horas que ser\u00e3o inesquec\u00edveis tamanha \u00e9 a import\u00e2ncia e a beleza do local. Mas&#8230; h\u00e1 alguma instala\u00e7\u00e3o tur\u00edstica? N\u00e3o. H\u00e1 alguma infraestrutura tur\u00edstica? N\u00e3o. O Peru parece que se apraz em desprezar seus in\u00fameros encantos. Talvez por serem t\u00e3o abundantes. Talvez pelo desconhecimento das autoridades. Talvez&#8230; porque?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s visitar a Reserva Nacional de Pampa Galeras, fomos conhecer um local de que sempre me falou meu amigo Paul Pierret, o primeiro a propor \u00e1reas protegidas na regi\u00e3o, que foram efetivadas pelo Dr. Marc Dourojeanni. Curiosamente, estes dois personagens nunca visitaram esse outro lugar, que foi efetivamente protegido pelo Dr. Ant\u00f4nio Brack, recentemente falecido, convertendo-o em Reserva Nacional.<\/p>\n<p><strong>Tesouros ignorados<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"caption\" title=\"A deslumbrante paisagem de San Fernando. Foto: Marc Dourojeanni\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/08022015-san-fernando.jpg\" alt=\"08022015-san-fernando\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\nA deslumbrante paisagem de San Fernando. Foto: Marc Dourojeanni<\/p>\n<p>San Fernando se encontra ao oeste de Nazca, e tamb\u00e9m pode ser visitada em apenas um dia. Com seus 160 mil hectares abrange v\u00e1rios ecossistemas: deserto, tilansial (extensa forma\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies de Tillandsia), dunas, lomas (vegeta\u00e7\u00e3o formada pela deposi\u00e7\u00e3o de umidade de nuvens costeiras), farelh\u00f5es costeiros, ilhas e praias. Sua beleza \u00e9 indescrit\u00edvel. Suas flora e fauna impactantes. A melhor vis\u00e3o foi de cinco condores vistos de cima, voando e pousando onde v\u00e3o para comer os filhotes mortos ou as placentas dos lobos finos (Arctocephalus), ou dos &#8220;chuscos&#8221; (Otaria) e tamb\u00e9m onde milh\u00f5es de aves guaneras e centenas de pinguins d\u00e3o seus espet\u00e1culos. As aves guaneras pescando as anchovas s\u00e3o uma sinfonia da natureza com milh\u00f5es de atores.<\/p>\n<p>Tudo isto em um dia. Sai-se de Nazca pela Estrada Pan-americana sul por vinte e oito quil\u00f4metros e da\u00ed segue-se em linha reta at\u00e9 a costa. Os guias, muito bons, v\u00e3o nos mostrando os rastros de guanacos em pleno deserto, onde descem de Pampa Galeras para comer umas &#8220;batatinhas&#8221; de um cacto nativo. Falam dos zorros e dos pumas, talvez para nos impressionar. Sabe quem frequenta esta Reserva \u00fanica? Os bugueiros.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m que conhe\u00e7o no Peru conhece a Reserva. \u00c9 uma ilustre desconhecida. Resta a pergunta que claro n\u00e3o tem resposta imediata: porque tudo isto \u00e9 desperdi\u00e7ado pela humanidade?<\/p>\n<p>O j\u00e1 dito parece bastante? Pois pasmem-se: um pouco mais ao sul existe outro lugar inacredit\u00e1vel pelas paisagens e pela concentra\u00e7\u00e3o de aves guaneras e lobos marinhos dentre outras centenas de esp\u00e9cies em especial de aves. Trata-se da Ponta San Juan, que \u00e9 uma das \u00e1reas inclu\u00eddas na Reserva Nacional das Ilhas e Pontas Guaneras, tamb\u00e9m estabelecida recentemente pelo Dr. Ant\u00f4nio Brack, cumprindo um antigo desejo dos conservacionistas peruanos. Pode-se visitar a partir de Nazca em apenas meio dia, sem problema, tudo por estradas asfaltadas&#8230;. Mas como os demais locais mencionados quase ningu\u00e9m (nenhum turista estrangeiro) vai ver esses locais, porque os peruanos &#8220;n\u00e3o d\u00e3o bola&#8221; a tanta maravilha.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"caption\" title=\"O mar visto de San Fernando. Foto: Marc Dourojeanni\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/08022015-san-fernando-mar.jpg\" alt=\"08022015-san-fernando-mar\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\nO mar visto de San Fernando. Foto: Marc Dourojeanni<\/p>\n<p>Querem mais? Al\u00e9m das Linhas de Nazca h\u00e1 muito, mais muito mais, em termos arqueol\u00f3gicos bem pertinho da cidade. Est\u00e1 l\u00e1 a famosa capital do Reino Nazca: Cahuache, que foi restaurada. Est\u00e3o os formid\u00e1veis aquedutos que ainda regam os arredores da cidade, v\u00e1rios cemit\u00e9rios dessa cultura onde ainda podem se observar m\u00famias antiqu\u00edssimas e tamb\u00e9m h\u00e1 museus. Quer ainda mais? A regi\u00e3o de Nazca \u00e9 prol\u00edfica em restos paleontol\u00f3gicos, incluindo baleias e tubar\u00f5es gigantes e assim mesmo restos de mamutes e de tigres dente de sabre&#8230; Quer esportes radicais? As m\u00faltiplas e enormes dunas oferecem quanta aventura possa ser procurada.<\/p>\n<p>Nazca vai se desenvolver de todas as maneiras, pois a minera\u00e7\u00e3o j\u00e1 chegou. Chega enfeando tudo, pois San Juan tamb\u00e9m \u00e9 um espet\u00e1culo perto de Nazca, mas h\u00e1 que se atravessar uma cidade de mineradores, muito feia, como s\u00f3i acontecer.<\/p>\n<p>Porque me preocupo com Nazca? Sou meio peruana tamb\u00e9m, mas o que se tem por l\u00e1 s\u00e3o verdadeiros patrim\u00f4nios da humanidade, quer sejam ou n\u00e3o declarados pela UNESCO, que est\u00e3o se perdendo.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para a gente se conformar. Os peruanos devem despertar. As autoridades devem trabalhar com vis\u00e3o de futuro, principalmente as locais, para favorecer seus cidad\u00e3os e todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/08022015-san-fernando-aves.jpg\" alt=\"08022015-san-fernando-aves\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\nSan Fernando &#8211; aves<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/08022015-san-fernando-lobos-marinhos.jpg\" alt=\"08022015-san-fernando-lobos-marinhos\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\nSan Fernando &#8211; lobos-marinhos<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/08022015-san-fernando-condores.jpg\" alt=\"08022015-san-fernando-condores\" width=\"640\" height=\"427\" \/><br \/>\nSan Fernando &#8211; condores<\/p>\n<p><img class=\" alignleft\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/media\/k2\/categories\/36.png\" alt=\"\" \/>*Maria Tereza Jorge P\u00e1dua \u00e9 engenheira agr\u00f4noma, presidente da Associa\u00e7\u00e3o O Eco, membro do Conselho da Funda\u00e7\u00e3o Grupo Botic\u00e1rio de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Natureza e da comiss\u00e3o mundial de Parques Nacionais da UICN.<\/p>\n<p>Fonte: ((o))eco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maria Tereza Jorge P\u00e1dua* Vicunhas e guanacos no Reserva Nacional de Pampa Galeras. 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