{"id":17759,"date":"2015-03-16T23:17:08","date_gmt":"2015-03-16T23:17:08","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=17759"},"modified":"2015-03-16T23:17:41","modified_gmt":"2015-03-16T23:17:41","slug":"tecnicos-do-projeto-peixe-boi-contam-como-animais-mudaram-suas-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/tecnicos-do-projeto-peixe-boi-contam-como-animais-mudaram-suas-vidas\/","title":{"rendered":"T\u00e9cnicos do Projeto Peixe-Boi contam como animais mudaram suas vidas"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"data_\"><\/h4>\n<div id=\"txt\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/boi-11.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-510787\" src=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/boi-11.jpg\" alt=\"Foto: Sandro Lima\" width=\"637\" height=\"376\" \/><\/a><\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 um grupo de estudantes do curso de Oceanografia do Rio Grande do Sul se interessou em se aprofundar na pesquisa sobre o peixe-boi marinho e a desova de tartarugas marinhas no litoral do Brasil.<\/p>\n<p>Naquela regi\u00e3o n\u00e3o havia o registro de ocorr\u00eancias do mam\u00edfero aqu\u00e1tico e nem se viam tartarugas desovando naquelas praias. Imaginava-se ent\u00e3o que aquelas esp\u00e9cies j\u00e1 n\u00e3o existiam mais em nossos mares.<\/p>\n<p>At\u00e9 que durante uma excurs\u00e3o pelo Nordeste aquele mesmo grupo de estudantes descobriu que o peixe-boi continuava vivo e que as tartarugas marinhas se reproduziam, dando continuidade \u00e0 exist\u00eancia da sua esp\u00e9cie naquelas praias onde o ver\u00e3o prevalecia na maior parte do ano.<\/p>\n<p>Animados com a descoberta, os jovens ga\u00fachos passaram a pesquisar mais sobre o peixe-boi marinho, pois a esp\u00e9cie j\u00e1 n\u00e3o aparecia nas praias da Bahia desde os anos 60 e tamb\u00e9m desapareceu do litoral de Sergipe no ano de 1985, quando um \u00faltimo indiv\u00edduo foi ca\u00e7ado naquele estado.<\/p>\n<p>\u201cNosso pa\u00eds \u00e9 o \u00fanico do mundo que registra a ocorr\u00eancia de duas esp\u00e9cies de peixe-boi: o marinho e o da Amaz\u00f4nia. Quando descobrimos que esses animais ainda existiam entre o Nordeste e o Norte do Brasil, passamos a monitorar e a resgatar os filhotes que encalhavam\u201d, conta a pioneira do projeto Peixe-Boi, Eunice Maria Oliveira, que fazia parte daquele grupo de estudantes que veio do Sul para \u201csalvar\u201d o peixe-boi marinho no Nordeste.<\/p>\n<p>O grupo contabilizou a exist\u00eancia de apenas 500 indiv\u00edduos atrav\u00e9s de pesquisa de campo. Os jovens estudantes visitaram diversas praias, realizaram campanhas contra a matan\u00e7a do peixe-boi marinho, conversaram com os pescadores mais antigos e colheram informa\u00e7\u00f5es importantes sobre a esp\u00e9cie com seus pr\u00f3prios ca\u00e7adores, que sabiam sobre o comportamento do animal e assim, ajudavam a encontr\u00e1-lo na natureza.<\/p>\n<p>Dali em diante se deu in\u00edcio ao trabalho de preserva\u00e7\u00e3o do peixe-boi marinho. As comunidades ribeirinhas se tornaram aliadas depois de receber orienta\u00e7\u00f5es sobre a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do animal e tamb\u00e9m dos manguezais, ambiente onde v\u00e1rias esp\u00e9cies se reproduzem, inclusive o peixe-boi.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/boi-21.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-510788\" src=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/boi-21.jpg\" alt=\"Nat\u00e1lia \u00e9 retirada da \u00e1gua para receber o cinto com o transmissor de sinais\" width=\"320\" height=\"215\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Nat\u00e1lia ap\u00f3s o processo de soltura<\/strong><\/p>\n<p>\u201cContratamos pessoas das comunidades para observar os animais e nos levar aos locais de ocorr\u00eancias. Aprendemos a perceber qual a melhor mar\u00e9 para avist\u00e1-los, tudo ensinado pelos pr\u00f3prios pescadores\u201d, conta Eunice.<\/p>\n<p>Trinta e cinco anos depois, o jornal Tribuna Independente acompanhou a soltura de uma f\u00eamea de peixe-boi marinho no dia 5 de mar\u00e7o de 2015, na base do Centro de Mam\u00edferos Aqu\u00e1ticos Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (CMA\/ICMBio), localizadas em Porto de Pedras, no litoral norte de Alagoas.<\/p>\n<p>\u00c9 o 40\u00ba animal a ser solto em Alagoas e toda a hist\u00f3ria desde o resgate at\u00e9 o momento da soltura envolve a vida de muitas pessoas que deixaram sua cidade natal, sua fam\u00edlia, o conforto da modernidade, para se dedicar \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o desses 500 indiv\u00edduos ainda resistentes \u00e0 interfer\u00eancia do homem, \u00e0 polui\u00e7\u00e3o dos rios, ao desmatamento dos manguezais, aos grandes empreendimentos constru\u00eddos em \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o e, principalmente, \u00e0 ignor\u00e2ncia dos que ainda t\u00eam a capacidade de tirar a vida de um indiv\u00edduo d\u00f3cil por pura maldade.<\/p>\n<p><strong>Pioneira se emociona com dedica\u00e7\u00e3o de seus sucessores<\/strong><\/p>\n<p>Chegou a hora de Nat\u00e1lia voltar para o seu habitat. A decis\u00e3o da equipe formada por profissionais veterin\u00e1rios, bi\u00f3logos, zootecnistas e tratadores foi tomada depois de terem cuidado do animal no recinto de Porto de Pedras durante 9 meses.<\/p>\n<p>Homenageada durante a soltura, a pioneira no projeto Eunice Maria \u2013 que hoje \u00e9 servidora da Unidade Avan\u00e7ada de Administra\u00e7\u00e3o e Finan\u00e7as (UAAF) do ICMBio, em Arembepe na Bahia \u2013 conta que desde os primeiros resgates, a equipe tentava devolver o filhote para a m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u201cDesde os primeiros encalhes que a nossa prioridade sempre foi tentar devolver o filhote para a m\u00e3e, mas na maioria das vezes n\u00e3o conseguimos, ent\u00e3o levamos para o cativeiro, para que o animal passe por uma reabilita\u00e7\u00e3o at\u00e9 estar pronto para ser solto na natureza\u201d, explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Eunice destaca o empenho dos seus sucessores na preserva\u00e7\u00e3o do peixe-boi<\/strong><\/p>\n<p>Nice, como \u00e9 chamada pelos colegas de trabalho, acompanhava a soltura do 40\u00ba animal reabilitado no recinto alagoano. Ela foi escolhida para ser a madrinha de Nat\u00e1lia.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente come\u00e7ou o trabalho, ningu\u00e9m ouvia falar no peixe-boi. Se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos come\u00e7ado o projeto talvez hoje n\u00e3o existisse nenhum indiv\u00edduo desses na natureza. Estou muito feliz por estar participando desse momento\u201d.<\/p>\n<p>Emocionada ao ser homenageada durante a soltura de Nat\u00e1lia, Eunice se disse realizada por ver que os novos profissionais cuidam do peixe-boi com a mesma dedica\u00e7\u00e3o da primeira equipe, a que iniciou o projeto e que ela fazia parte.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 gratificante ver como a equipe trabalha com o mesmo amor que n\u00f3s t\u00ednhamos no in\u00edcio. Como eles est\u00e3o fazendo bem esse trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o e envolvendo a comunidade! Me admiro por ver como esses meninos hoje conhecem o peixe-boi mais do que eu\u201d, relata Eunice.<\/p>\n<p><strong>Nath\u00e1lia<\/strong><\/p>\n<p>Nat\u00e1lia foi resgatada na Praia de Retiro Grande, na cidade de Icapu\u00ed, no Cear\u00e1 ainda filhote. Era dia de Natal, 25 de dezembro de 2011. Da\u00ed o nome escolhido para batizar o animal.<\/p>\n<p>A f\u00eamea de peixe-boi foi levada do Cear\u00e1 para o cativeiro localizado em Itamarac\u00e1, Pernambuco. L\u00e1 o animal foi alimentado com mamadeiras e recebeu tratamento veterin\u00e1rio. Ent\u00e3o, quando atendeu aos crit\u00e9rios determinados pela equipe respons\u00e1vel pela sa\u00fade do animal, foi levado para o recinto em Alagoas para que fosse iniciado o processo de reintrodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos tr\u00eas anos e 10 meses, medindo cerca de 2,5 metros e com peso estimado em 300 quilos, Nat\u00e1lia ganhou a liberdade no dia 5 de mar\u00e7o de 2015, depois do processo de readapta\u00e7\u00e3o ao seu ambiente natural e aprendendo a se alimentar sozinha. O alimento principal da sua dieta \u00e9 o capim agulha, encontrado em rios e mares.<\/p>\n<p>A equipe entende que o animal est\u00e1 pronto para ser solto quando est\u00e1 saud\u00e1vel, com um bom peso e tamanho.<\/p>\n<p><strong>Equipe do projeto Peixe-Boi captura Nat\u00e1lia durante o trabalho de reintrodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Mas o trabalho dos profissionais envolvidos na preserva\u00e7\u00e3o do animal n\u00e3o acaba com a soltura. Agora Nat\u00e1lia est\u00e1 sendo monitorada \u2013 de forma mais intensiva nos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses \u2013 atrav\u00e9s de sinais de sat\u00e9lite enviados de um transmissor colocado em um cinto preso na sua cauda. As informa\u00e7\u00f5es chegam at\u00e9 os profissionais do Projeto Peixe-Boi pela internet e esse acompanhamento deve durar por um ano, per\u00edodo onde o risco de encalhe ainda existe e o animal pode ainda encontrar dificuldades para se alimentar e encontrar \u00e1gua doce, podendo se desidratar.<\/p>\n<p>Cada peixe-boi solto pelo Projeto tamb\u00e9m recebe um chip com um c\u00f3digo de barras, podendo ser identificado mesmo depois que o transmissor parar de enviar mensagens por sat\u00e9lite.<\/p>\n<p>O trabalho conta ainda com a participa\u00e7\u00e3o da comunidade e principalmente dos pescadores, que avisam sobre avistamentos do animal e assim, a equipe que trabalha com a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie consegue acompanhar o seu desenvolvimento na natureza.<\/p>\n<p><strong>\u2018\u00c9 um projeto de vida e n\u00e3o um trabalho\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Iran Normande faz parte do Projeto Peixe-Boi desde o ano de 2006. O analista ambiental mudou de Macei\u00f3 para Porto de Pedras no ano de 2010, quando passou a viver mais perto dos animais e a se dedicar ainda mais ao trabalho de conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o foi nenhum sacrif\u00edcio, afinal, eu moro em um lugar lindo. \u00c9 um projeto de vida e n\u00e3o um trabalho. Nossa vida se converte a isso, a salvar o peixe-boi. Passamos muito tempo longe da fam\u00edlia e acabamos construindo uma nova fam\u00edlia aqui, um novo ciclo de amizades. Eu n\u00e3o me arrependo. Eventos como o da soltura de Nat\u00e1lia fazem a decis\u00e3o de mudar de vida valer a pena\u201d.<\/p>\n<p><strong>Iran Normande diz que construiu um novo ciclo de amizades ao mudar de vida pelo Projeto<\/strong><\/p>\n<p>A veterin\u00e1ria Fernanda Niemeyer Attademo \u00e9 parceira do Projeto desde 2003. Ela conta que j\u00e1 viu mais de 50 peixes-boi serem resgatados e em torno de 30 serem devolvidos ao seu habitat natural depois de passar pela reabilita\u00e7\u00e3o em recinto.<\/p>\n<p>\u201cQuando eles s\u00e3o devolvidos \u00e0 natureza eu sinto o mesmo que uma m\u00e3e sente ao ver seu filho se formar na universidade e conseguir seu primeiro emprego. \u00c9 muito boa a sensa\u00e7\u00e3o de ter contribu\u00eddo para a conserva\u00e7\u00e3o e o futuro da esp\u00e9cie\u201d, descreve.<\/p>\n<p><strong>Para Fernanda Niemeyer a sa\u00fade dos \u201cgorduchos\u201d \u00e9 a grande prioridade da sua vida<\/strong><\/p>\n<p>Fernanda conta ainda que deixou toda a fam\u00edlia e os amigos de inf\u00e2ncia no Rio de Janeiro para se dedicar aos \u201cgorduchos\u201d, como ela costuma chamar os peixes-boi.<\/p>\n<p>\u201cAs rela\u00e7\u00f5es acabam ficando em segundo plano, pois como veterin\u00e1ria estou sempre priorizando a sa\u00fade dos animais e isso faz com que alguns momentos pessoais sejam perdidos. Mas com certeza tudo isso vale a pena. Nada \u00e9 mais gratificante do que ver os animais saud\u00e1veis e repovoando a natureza gra\u00e7as ao empenho da nossa equipe\u201d.<\/p>\n<p>A coordenadora do CMA, F\u00e1bia Luna, destaca a import\u00e2ncia do Projeto para a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o houvesse a atua\u00e7\u00e3o do Projeto, muitos filhotes teriam morrido encalhados. Uma das atividades de maior import\u00e2ncia \u00e9 o resgate e a devolu\u00e7\u00e3o desses animais ao seu habitat natural. Cada vez que um animal desses \u00e9 devolvido \u00e0 natureza, tenho a sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido. Sinto uma grande satisfa\u00e7\u00e3o em ver o animal seguir seu caminho, livre\u201d.<\/p>\n<p>F\u00e1bia est\u00e1 no projeto h\u00e1 17 anos e j\u00e1 acompanhou o tratamento e a soltura de mais de 50 peixes-boi.<\/p>\n<p>\u201cEu deixei minha cidade natal e meus amigos para abra\u00e7ar o Projeto. A fam\u00edlia a gente sempre leva com a gente, apesar de deix\u00e1-los saudosos por n\u00e3o estarmos presentes fisicamente em momentos importantes. Para mim a escolha valeu pena. Ver a esp\u00e9cie se recuperando e contribuir para a conserva\u00e7\u00e3o dos gorduchos vale sim a pena\u201d.<\/p>\n<p><strong>A import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o integrada ao Projeto Peixe-Boi<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ulisses Santos era diretor de uma escola em Macei\u00f3 e planejava fazer mestrado. Foi quando o ent\u00e3o educador resolveu concorrer a uma vaga no concurso do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama).<\/p>\n<p>\u201cQuando passei no concurso para atuar como analista ambiental, eu pensava no retorno financeiro, que seria bom. Ent\u00e3o meu objetivo de continuar atuando como professor mudou e em 2007 eu entrei para o Projeto Peixe-Boi. Eu era o \u00fanico da equipe com forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o e tinha d\u00favidas sobre como seria a minha atua\u00e7\u00e3o\u201d, conta.<\/p>\n<p>Foi quando Ulisses viu nas comunidades carentes a chance de unir seu papel de educador ao trabalho de preserva\u00e7\u00e3o do mam\u00edfero aqu\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>Ulisses conta que as crian\u00e7as envolvidas no Projeto crescem conscientes<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEu iniciei um trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o nas comunidades carentes. Foi a forma que encontrei para contribuir com o projeto, com a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e descobri que trabalhar com isso vai muito al\u00e9m do trabalho do veterin\u00e1rio e do bi\u00f3logo. \u00c9 muito mais amplo do que se imagina. \u00c9 preciso envolver as pessoas, manter um di\u00e1logo com a comunidade, com as lideran\u00e7as pol\u00edticas, porque o projeto imp\u00f5e regras por sua vis\u00e3o mais t\u00e9cnica e isso pode incomodar\u201d.<\/p>\n<p>Ulisses sempre convida os estudantes de escolas p\u00fablicas de Porto de Pedras para participar dos eventos relacionados ao Projeto Peixe-Boi. Na soltura de Nat\u00e1lia, v\u00e1rias crian\u00e7as puderam participar e acompanhar o trabalho da equipe que tratou e libertou a f\u00eamea.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso envolver essas crian\u00e7as para que haja um processo de sensibiliza\u00e7\u00e3o e de envolvimento delas e de toda a comunidade. Elas entendem desde cedo a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, entendem que \u00e9 um animal d\u00f3cil e que precisamos da participa\u00e7\u00e3o delas para ajudar a salvar a esp\u00e9cie\u201d.<\/p>\n<p>O analista conta que o Projeto Peixe-Boi conta com parcerias para realizar a capacita\u00e7\u00e3o de professores que passam a atuar tamb\u00e9m com educa\u00e7\u00e3o ambiental dentro da sala de aula.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 foram capacitados 40 professores em Porto de Pedras e 30 em S\u00e3o Miguel dos Milagres. As crian\u00e7as que moram na zona rural estudam de perto sobre a import\u00e2ncia do manguezal e todo esse trabalho tem dado resultado. \u00c9 um envolvimento muito grande\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ulisses explica que existe uma diferen\u00e7a entre o trabalho com as crian\u00e7as e o trabalho com os adultos.<\/p>\n<p>\u201cTrabalhar com as crian\u00e7as \u00e9 um trabalho a longo prazo. Elas v\u00e3o crescer conscientes. J\u00e1 o trabalho com os adultos tem que ser realizado por meio de trocas. Orientamos os pescadores sobre a import\u00e2ncia de conservar os corais e que isso ir\u00e1 atrair mais turistas, trazendo renda para a comunidade. Tamb\u00e9m sobre a preserva\u00e7\u00e3o dos mangues, ber\u00e7\u00e1rio de muitas esp\u00e9cies como o caranguejo e o camar\u00e3o, importantes fontes de renda dos moradores da regi\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n<p>Antes do Projeto chegar \u00e0 regi\u00e3o existia um conflito muito grande entre os pescadores e o peixe-boi.<\/p>\n<p>\u201cPorque os animais acabavam destruindo o material de trabalho deles, rasgando as redes, e por isso aconteciam muitos registros de agress\u00f5es contra o bicho. A solu\u00e7\u00e3o encontrada pela equipe do projeto foi negociar com os pescadores. Quando um peixe-boi rasgar uma rede de pesca ou danificar qualquer material de trabalho, eles acionam a nossa equipe, que registra a ocorr\u00eancia e realiza o ressarcimento do material danificado. Isso acontece hoje depois de muito trabalho de informa\u00e7\u00e3o nas col\u00f4nias de pescadores\u201d.<\/p>\n<p>Para Ulisses, o trabalho de di\u00e1logo tem dado resultado mas, mesmo com todo esfor\u00e7o da equipe do Projeto Peixe-Boi, ainda existem conflitos entre pescadores e o mam\u00edfero aqu\u00e1tico em munic\u00edpios onde o Projeto ainda n\u00e3o realiza um trabalho t\u00e3o intensivo.<\/p>\n<p><strong>\u2018Animais est\u00e3o seguros na natureza\u2019<\/strong><\/p>\n<p>O analista ambiental Jos\u00e9 Ulisses lembra que nas primeiras solturas de peixes-boi em que esteve presente, se sentiu preocupado com o que os animais iriam encontrar estando em liberdade.<\/p>\n<p>Ele imaginava que os animais poderiam ser agredidos pelos pescadores ou se ferirem ao se aproximarem de embarca\u00e7\u00f5es motorizadas, por exemplo.<\/p>\n<p>Mas depois dos anos em que aliou sua experi\u00eancia de professor com o trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o da comunidade, ele diz que p\u00f4de contar com a ajuda das crian\u00e7as, dos moradores, dos turistas e dos pescadores para preservar o peixe-boi na natureza.<\/p>\n<p><strong>Estudantes de escolas p\u00fablicas chegam ao recinto de Porto de Pedras para participar da soltura de Nat\u00e1lia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAntes eu ficava tenso, preocupado com os problemas que os peixes-boi iriam encontrar l\u00e1 fora. A gente se apega ao animal e acaba criando um v\u00ednculo. Eu ficava pensando no perigo que eles corriam de encontrar com pescadores desinformados, o contato direto com a comunidade, com os turistas, o perigo de se deparar com embarca\u00e7\u00f5es motorizadas, com a pr\u00e1tica de esportes n\u00e1uticos e todas essas atividades humanas que nos enchem de preocupa\u00e7\u00e3o\u201d, conta Ulisses.<\/p>\n<p>\u201cMas hoje eu me sinto mais tranquilo e feliz por saber que eles est\u00e3o livres e seguros. O nosso trabalho de orienta\u00e7\u00e3o tem dado resultado e contamos com muitos parceiros e informantes, pessoas que protegem o animal e que nos deixam muito felizes por participarem conosco do trabalho de preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie\u201d.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio conta que os turistas v\u00e3o a Porto de Pedras conhecer o animal<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEu troquei a pesca pelo passeio de jangada em 2008. Cerca de 50 fam\u00edlias ganham a vida com os passeios e com o artesanato feito geralmente pelas mulheres dos pescadores. Hoje eu vivo para passar para os turistas a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do peixe-boi. Falo do comportamento d\u00f3cil e do quanto \u00e9 importante n\u00e3o se aproximar e nem alimentar o animal. Apenas observar e fotografar, caso contr\u00e1rio ele pode ficar dependente do homem e estar sempre se aproximando da orla, podendo encalhar. Al\u00e9m do mais, o bicho \u00e9 inocente e pode acabar tentando se aproximar de pessoas ruins, que podem machuc\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>Para Jos\u00e9 Ismar toda a comunidade de Tatuamunha \u2013 onde est\u00e1 localizado o recinto do Projeto Peixe-Boi em Porto de Pedras \u2013 est\u00e1 totalmente consciente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do animal.<\/p>\n<p>\u201cOs pescadores trabalham em conjunto com o Projeto. Eles avisam onde avistam os animais e entenderam que aquele territ\u00f3rio \u00e9 do animal e que n\u00e3o devem machuc\u00e1-lo. Todos temos consci\u00eancia de que a popula\u00e7\u00e3o de peixe-boi \u00e9 pequena e que precisamos preservar o animal\u201d.<\/p>\n<p><strong>Regras<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ismar explica que existem regras estabelecidas pelo ICMBio e Minist\u00e9rios P\u00fablico Estadual e Federal em rela\u00e7\u00e3o aos passeios realizados pela Associa\u00e7\u00e3o Peixe-Boi.<\/p>\n<p>\u201cDesde o ano de 2008 que foram criadas regras para a pr\u00e1tica dos passeios de jangada no Rio Tatuamunha, onde vivem alguns peixes-boi que foram reintroduzidos na natureza. Como haviam conflitos entre os pescadores que praticavam a atividade, os \u00f3rg\u00e3os competentes definiram que 20 guias seriam capacitados para realizar os passeios, num rod\u00edzio de 10 em 10 por hor\u00e1rio\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Nat\u00e1lia ganha a liberdade no Rio Tatuamunha sob os olhares da equipe<\/strong><\/p>\n<p>O pescador conta ainda que somente 70 pessoas podem realizar o passeio por dia entre as 10h e as 17h, pontualmente.<\/p>\n<p>\u201cDesde 2009 que come\u00e7amos a construir nossa pr\u00f3pria sede e hoje temos guias credenciados e seguindo todas as regras estabelecidas. Entre os profissionais que atuam na Associa\u00e7\u00e3o est\u00e3o os guias e os remadores. Os s\u00f3cios pagam uma taxa de 35 reais por m\u00eas e s\u00e3o convidados a atuar com a produ\u00e7\u00e3o de artesanatos como as pel\u00facias dos peixes-boi, sabonetes, camisas e bolsas. A Associa\u00e7\u00e3o \u00e9 a fonte de renda de muitas fam\u00edlias\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u2018O Peixe-Boi trouxe prosperidade para a comunidade\u2019<\/strong><\/p>\n<p>O guia tur\u00edstico e artes\u00e3o Jos\u00e9 Cl\u00e1udio deixou a cria\u00e7\u00e3o de porcos para se dedicar ao trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o voltado ao peixe-boi marinho.<br \/>\n\u201cEu moro em Porto de Pedras h\u00e1 26 anos e desde que comecei a trabalhar como guia que levo as pessoas para conhecerem o Projeto Peixe-Boi. A maioria dos turistas que v\u00eam para a cidade pergunta pelo bicho\u201d, relata.<\/p>\n<p>Para Jos\u00e9 Cl\u00e1udio, o peixe-boi fez com que outros atrativos da cidade tamb\u00e9m ganhassem mais destaque.<br \/>\n\u201cAs pessoas que v\u00eam para a cidade conhecer o animal tamb\u00e9m acabam levando com elas a hist\u00f3ria da cidade e visitam nossas praias, piscinas naturais e restaurantes. O Projeto tem ajudado muito na economia local\u201d.<\/p>\n<p><strong>Equipe segura o animal enquanto a veterin\u00e1ria do Projeto avalia o seu estado de sa\u00fade<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ismar, vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Peixe-Boi, lembra que antes da chegada do Projeto Peixe-Boi na regi\u00e3o, a cidade de Porto de Pedras tinha como fonte de renda apenas a pesca, o coco e a cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>\u201cCom a chegada do peixe-boi na regi\u00e3o muitos empres\u00e1rios passaram a investir em pousadas, hot\u00e9is e passeios de jangada. Todo esse crescimento de Porto de Pedras e das cidades vizinhas vem do Projeto, desse processo de conscientiza\u00e7\u00e3o para a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, que atraiu mais turistas e pesquisadores. Agora somos conhecidos em todo o mundo como a cidade que tem a quinta praia mais bonita do Brasil, a Praia do Patacho. Talvez a cidade n\u00e3o fosse t\u00e3o divulgada sem a chegada do Aldo, o primeiro peixe-boi a viver no cativeiro de Tatuamunha\u201d.<\/p>\n<p><strong>Astro e Lua foram os primeiros animais reabilitados pelo Projeto Peixe-Boi em Alagoas<\/strong><\/p>\n<p>O Projeto Peixe-Boi Marinho em Alagoas reintroduziu os primeiros animais de volta \u00e0 natureza em 12 de outubro de 1994. O \u201ccasal\u201d Astro e Lua ganhou a liberdade nas \u00e1guas do mar de Paripueira e come\u00e7ava ali a hist\u00f3ria de luta pela conserva\u00e7\u00e3o de uma das esp\u00e9cies mais amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o no Brasil. Durante os mais de 20 anos de exist\u00eancia em nosso estado, a equipe do Programa de Manejo \u2013 desenvolvido pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conserva\u00e7\u00e3o de Mam\u00edferos Aqu\u00e1ticos (CMA), \u00f3rg\u00e3o ligado ao Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio) \u2013 tem se engajado e alcan\u00e7ado grandes resultados com o trabalho de reabilita\u00e7\u00e3o, devolvendo os animais ao seu ambiente natural e recolonizando as \u00e1reas j\u00e1 ocupadas pela esp\u00e9cie no passado.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 um grupo de estudantes do curso de Oceanografia do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"No in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 um grupo de estudantes do curso de Oceanografia do","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17759"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17759"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17759\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}