{"id":17752,"date":"2015-03-16T22:03:10","date_gmt":"2015-03-16T22:03:10","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=17752"},"modified":"2015-03-16T22:03:10","modified_gmt":"2015-03-16T22:03:10","slug":"a-grama-da-amazonia-e-a-poeira-do-deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/a-grama-da-amazonia-e-a-poeira-do-deserto\/","title":{"rendered":"A grama da Amaz\u00f4nia e a poeira do deserto"},"content":{"rendered":"<p><small><i>Por Washington Novaes*<\/i><\/small><\/p>\n<div class=\"post-content\">\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Amazonia.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-108510\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Amazonia-1024x768.jpg\" alt=\"Vista a\u00e9rea da floresta amaz\u00f4nica no Acre. Foto: \u00a9 WWF-Brasil\/Bruno Taitson\" width=\"340\" height=\"255\" \/><\/a><\/p>\n<p>Passar os olhos pelos jornais \u00e9 exerc\u00edcio rico e nem sempre ameno. Ao mesmo tempo que nos d\u00e1 o privil\u00e9gio de saber o que acontece em toda parte \u2013 not\u00edcias surpreendentes e alentadoras -, essa cobertura ampla traz impl\u00edcito o risco de preocupa\u00e7\u00f5es, afli\u00e7\u00f5es, sofrimentos at\u00e9. A semana passada n\u00e3o foi diferente.<\/p>\n<p>Pode-se come\u00e7ar pela not\u00edcia (amazonia.org, 6\/3) de que \u201cgrama de R$ 2 milh\u00f5es da Arena da Amaz\u00f4nia n\u00e3o se adaptou e dever\u00e1 ser substitu\u00edda\u201d. Nada menos que R$ 2 milh\u00f5es para cobrir um campo de futebol \u2013 o que no interior do pa\u00eds se faz praticamente sem custo. E este, amaz\u00f4nico, ainda implica \u201ccusto de manuten\u00e7\u00e3o de R$ 60 mil mensais\u201d ! Segundo os respons\u00e1veis, porque \u201co tipo de grama n\u00e3o se adaptou ao clima da regi\u00e3o e ser\u00e1 substitu\u00eddo\u201d, com um novo custo de R$ 200 mil.<\/p>\n<p>Por a\u00ed, vai-se chegar a um tema forte no notici\u00e1rio durante toda a semana, que \u00e9 a pol\u00eamica sobre o projeto de acesso a recursos gen\u00e9ticos e o pagamento pelo seu uso, na \u00e1rea de conhecimentos de povos ind\u00edgenas e tradicionais. Se os implantadores da grama na arena conhecessem o tema da biodiversidade saberiam que uma esp\u00e9cie estranha ao bioma poderia n\u00e3o se adaptar. Poderiam ter evitado o preju\u00edzo. Mas biodiversidade em geral \u2013 presente em quase tudo no nosso cotidiano \u2013 \u00e9 considerada tema de \u201cambientalista exagerado\u201d. Esquecendo que a remo\u00e7\u00e3o dessa biodiversidade pode implicar mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, acr\u00e9scimo de custos econ\u00f4micos, etc.<\/p>\n<p>No dia seguinte os jornais diziam que o aumento do desmatamento e a perda de biodiversidade na Amaz\u00f4nia \u2013 mais 288 quil\u00f4metros quadrados de florestas s\u00f3 em janeiro deste ano (Ag\u00eancia Estado, 21\/2) \u2013 vem somar-se aos 763 mil km2 j\u00e1 desmatados e 1,2 milh\u00e3o de km2 quadrados j\u00e1 degradados, segundo o cientista Ant\u00f4nio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Amaz\u00f4nia.org, fevereiro de 2015).<\/p>\n<p>Nos mesmos dias, vinha a not\u00edcia (Folha de S.Paulo, 7\/3) de que um grupo de jovens cientistas no Jap\u00e3o desenvolvera m\u00e9todo para transformar uma microalga em suco e biscoito \u2013 e com isso a empresa dona dos direitos do conhecimento abrira seu capital na Bolsa de T\u00f3quio e seu valor imediatamente chegara a US$ 1 bilh\u00e3o; suas vendas em um ano chegaram a US$ 28,5 bilh\u00f5es. Agora estudam caminhos para produzir, a partir da mesma microalga, cosm\u00e9ticos, fertilizantes \u201ce at\u00e9 combust\u00edvel de avi\u00e3o\u201d. A partir de uma \u00fanica esp\u00e9cie da biodiversidade.<\/p>\n<p>O pensamento vai para o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, quando o autor destas linhas gravou o document\u00e1rio Amazonas, a p\u00e1tria da \u00e1gua, com roteiro do poeta Thiago de Mello. Sa\u00edmos de Manaus pelo Rio Amazonas num barco, entramos pelo Rio Nhamund\u00e1 e algumas horas depois chegamos a um lugar chamado pelos moradores das redondezas de Lago da Serra do Espelho da Lua \u2013 um lago coberto de flores brancas, \u00fanicas por ali, o primeiro lugar que a Lua banhava com seus raios em noites de plenil\u00fanio, quando surgia atr\u00e1s da montanha. E, diziam eles, esse era o lugar em que as amazonas se banhavam. Da janela do barco, noite mais alta, era poss\u00edvel olhar e ver ao redor 360 graus de estrelas e de Lua, no c\u00e9u e na \u00e1gua.<\/p>\n<p>A parada seguinte foi na aldeia dos \u00edndios mau\u00e9s, que haviam sido os descobridores das propriedades alimentares do guaran\u00e1 nativo, conhecimento que transmitiram aos portugueses no s\u00e9culo 17, sem nada receber por isso. Quanto vale hoje na ind\u00fastria de refrigerantes esse conhecimento sobre a biodiversidade, que, segundo os mau\u00e9s, lhes foi transmitido pelo deus que os criou? (\u00c9 o que est\u00e1 em discuss\u00e3o hoje no projeto de acesso a recursos gen\u00e9ticos e a seu conhecimento por povos ind\u00edgenas e tradicionais.) Ali, entre os mau\u00e9s, documentamos o ritual da tucandeira, em que jovens dan\u00e7am, num ritual de passagem, com a m\u00e3o enfiada numa luva de palha onde foram colocadas centenas de formigas tucandeiras enfurecidas.<\/p>\n<p>Tudo isso faz parte do modo de vida, que inclui o conhecimento da biodiversidade. E este \u00e9 fundamental, como lembra o bi\u00f3logo R\u00f4mulo Batista, da Companhia da Amaz\u00f4nia, do Greenpeace Brasil (Ecol\u00f3gico, fevereiro de 2015)): \u201cO desmatamento da Amaz\u00f4nia \u00e9 uma das poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es para essa preocupante escassez de \u00e1guas no Sudeste. Devemos nos mobilizar e exigir dos nossos representantes que o Desmatamento Zero seja transformado em lei. Sem floresta n\u00e3o tem chuva\u201d. E o desmatamento \u201caumenta as incertezas e os riscos para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, seja perto ou longe das \u00e1reas desmatadas, em fun\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as de temperatura e da altera\u00e7\u00e3o nos regimes de chuva.\u201d<\/p>\n<p>Mas seguimos fazendo de conta que n\u00e3o sabemos disso, nem de outras graves quest\u00f5es da perda da biodiversidade. N\u00e3o continuamos a derrubar a floresta para abrir pastagens? N\u00e3o continuamos a avan\u00e7ar, al\u00e9m do desmatamento, com hidrel\u00e9tricas como a de Belo Monte, que exigir\u00e1 a abertura de um canal de 100 km e est\u00e1 custando R$ 30 bilh\u00f5es (Miriam Leit\u00e3o, 7\/3), mas em certos momentos n\u00e3o conseguir\u00e1 gerar mais que mil megawatts, embora a propaganda diga que ser\u00e3o 11 mil megawatts?<\/p>\n<p>E assim vamos. Este \u00faltimo projeto est\u00e1 ainda envolvido na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, em que dirigentes de empreiteira disseram que pagaram R$ 100 milh\u00f5es a partidos pol\u00edticos pela aprova\u00e7\u00e3o do contrato. Tamb\u00e9m por l\u00e1 o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal pede \u00e0 Justi\u00e7a que suspenda a licita\u00e7\u00e3o para concess\u00e3o de manejo nas florestas p\u00fablicas amaz\u00f4nicas de Itaituba I e II, porque contraria exig\u00eancias legais \u2013 da mesma forma que outros projetos como esse, onde j\u00e1 foram constatadas irregularidades graves.<\/p>\n<p>Quando aceitaremos que tudo est\u00e1 relacionado com tudo \u2013 como vemos inclusive agora, na not\u00edcia (Geophysical Research Letters, 24\/2) de que um sat\u00e9lite da Nasa calculou em 27,7 milh\u00f5es de toneladas anuais a quantidade de f\u00f3sforo \u2013 essencial para a Floresta Amaz\u00f4nica \u2013 que \u00e9 transportada em poeira do Deserto do Saara que atravessa o Atl\u00e2ntico, trazida pelos ventos?<\/p>\n<p>Sempre ser\u00e1 tempo.<\/p>\n<p><em>* <strong>Washington Novaes<\/strong> \u00e9 jornalista.<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte: Envolverde &#8211; <\/em>O Estado de S. Paulo<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Washington Novaes* Passar os olhos pelos jornais \u00e9 exerc\u00edcio rico e nem sempre ameno.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por Washington Novaes* Passar os olhos pelos jornais \u00e9 exerc\u00edcio rico e nem sempre ameno.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17752"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17752"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17752\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}