{"id":17237,"date":"2015-03-08T00:53:27","date_gmt":"2015-03-08T00:53:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=17237"},"modified":"2015-03-08T00:53:27","modified_gmt":"2015-03-08T00:53:27","slug":"o-relatorio-que-mudou-a-amazonia-de-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/o-relatorio-que-mudou-a-amazonia-de-lugar\/","title":{"rendered":"O relat\u00f3rio que mudou a Amaz\u00f4nia de lugar"},"content":{"rendered":"<p><strong>J\u00falio Ottoboni*<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/amazonia_250.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright size-full wp-image-98983\" src=\"http:\/\/www.mercadoetico.com.br\/website\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/amazonia_250.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"168\" \/><\/a>A regi\u00e3o de maior desenvolvimento econ\u00f4mico da Am\u00e9rica do Sul seria um imenso deserto sem a floresta amaz\u00f4nica e a Cordilheira dos Andes. Inclui-se nesta \u00e1rea abaixo do equador toda a faixa entre os paralelos 20 a 30, que corresponde ao Sudeste, Sul e grande parte do Centro-Oeste do Brasil, al\u00e9m de por\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis do Paraguai e o norte da Argentina, al\u00e9m de incluir toda a Bacia do Rio Prata. O desmatamento da maior floresta tropical do mundo levaria a essa regi\u00e3o, que produz 70% do Produto Interno Bruto (PIB) desta por\u00e7\u00e3o continental, ao imenso risco de tornar-se inabit\u00e1vel por falta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Um imenso deserto, escassez h\u00eddrica, calor calcinante, fal\u00eancia do modelo econ\u00f4mico, empobrecimento irrevers\u00edvel dos habitantes, popula\u00e7\u00f5es inteiras flageladas, conflitos sociais, fome generalizada, viol\u00eancia em larga escala, cidades sendo abandonadas e o caos instaurado na por\u00e7\u00e3o mais rica e pr\u00f3spera da Am\u00e9rica Latina. Longe de ser fic\u00e7\u00e3o, essa \u00e9 uma possibilidade plaus\u00edvel e que j\u00e1 pode estar em curso e seus efeitos j\u00e1 sentidos desde o final do ano passado.<\/p>\n<p>Apesar da gravidade, essa ainda n\u00e3o \u00e9 a principal conclus\u00e3o do rec\u00e9m divulgado Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica \u201cO Futuro Clim\u00e1tico da Amaz\u00f4nia\u201d, desenvolvido pelo cientista Antonio Donato Nobre, do Centro de Ci\u00eancia do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Entretanto, \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o que alarmou desde o meio cient\u00edfico, passando por empres\u00e1rios, governos at\u00e9 os habitantes da regi\u00e3o afetada pela mais severa estiagem de que a meteorologia brasileira tem registro no sudeste brasileiro, particularmente em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O impacto desta e de outras tantas informa\u00e7\u00f5es contidas 42 p\u00e1ginas do relat\u00f3rio mudou a Amaz\u00f4nia de lugar, a tirou da faixa do equador, no Norte do Brasil e dos outros oito pa\u00edses pan-amaz\u00f4nicos, e a inseriu definitivamente como um ser planet\u00e1rio de crucial para vida como conhecemos na Terra. E que teve coragem de dizer claramente que \u201cpelas evidencias de altera\u00e7\u00f5es, o futuro clim\u00e1tico da Amaz\u00f4nia j\u00e1 chegou\u201d. E s\u00e3o sombrios, muito mais do que o meio cient\u00edfico supunha. A maior floresta tropical do planeta pode desaparecer.<\/p>\n<p>Essa nova posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e universalizada da floresta est\u00e1, em muito, vinculada a credibilidade de quem formulou o trabalho para a Articulaci\u00f3n Regional Amaz\u00f4nica (ARA), entidade formada pelos pa\u00edses pan-amaz\u00f4nicos. Atualmente, o engenheiro agr\u00f4nomo e doutor de biogeoqu\u00edmica planet\u00e1ria pela University of New Hampshire, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia, Antonio Nobre, \u00e9 o mais respeitado especialista em sistemas amaz\u00f4nicos e reverenciado at\u00e9 mesmo colegas de grandes institui\u00e7\u00f5es internacionais, algo dif\u00edcil de galgar no meio cient\u00edfico.<\/p>\n<p>\u201cAcabou o tempo, n\u00e3o posso afirmar que j\u00e1 ultrapassamos o ponto de n\u00e3o retorno. O que d\u00e1 para falar \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 terminal, na UTI e meu dei conta quando li os trabalhos dos colegas. N\u00e3o d\u00e1 para cortar mais nenhuma \u00e1rvore. Eu mesmo j\u00e1 tinha dito que a situa\u00e7\u00e3o era grav\u00edssima, mas as pessoas n\u00e3o conseguem modificar seus comportamentos pela falta de identificar o fator de risco. O conforto ambiental treinou o c\u00e9rebro desta gente para acreditar de que n\u00e3o se precisa fazer nada, que a natureza controla tudo e S\u00e3o Pedro est\u00e1 a\u00ed para enviar a chuva, que n\u00e3o vai ter problema. Tenho uma convic\u00e7\u00e3o, para mudar isso \u00e9 necess\u00e1rio termos um desastre, infelizmente n\u00e3o tem outra forma para elas despertarem\u201d, comentou o cientista.<\/p>\n<p>Para essas conclus\u00f5es foram lidos e analisados 200 trabalhos cient\u00edficos transdisciplinares, como o estudo que foi publicado h\u00e1 menos de dois anos na Revista Nature, no qual se mostra que os ventos que passam sobre uma floresta provocam at\u00e9 60% mais chuvas que os que vem pelo oceano. O volume de dados gerados nas pesquisas sobre a Amaz\u00f4nia era de tal magnitude que Antonio Nobre reconhece ser praticamente imposs\u00edvel algu\u00e9m dominar todo conhecido produzido, inclusive por sua diversidade.<\/p>\n<p>Isto criou uma dificuldade inerente ao processo e que cria mais barreiras que caminhos. E sobram cr\u00edticas at\u00e9 para a estrutura do conhecimento cient\u00edfico, cada vez mais estratificado e herm\u00e9tico. \u201c A ci\u00eancia se organizou de uma maneira muito fragment\u00e1ria. Fazer um trabalho como o que eu fiz \u00e9 preciso ter muita coragem, \u00e9 muito dif\u00edcil at\u00e9 para mim que sou cientista, pois voc\u00ea acaba tendo que entrar em diversas \u00e1reas e precisa dominar os detalhes\u201d, afirma com uma sinceridade crua, sem meias palavras.<\/p>\n<p><strong>Sem medo de vulgarizar a ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Temores como cr\u00edticas de seus pares por \u2018vulgarizar a ci\u00eancia\u2019, como os mais conservadores tratam o papel da populariza\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico n\u00e3o faz o menor sentido. Antonio Nobre a enfrentar esses e outros desafios, n\u00e3o como um Quixote moderno e lancetar moinhos de ventos, mas quebrar de vez paradigmas que imobilizaram , pelas mais diversas raz\u00f5es e interesses, a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para estagnar o desmatamento amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>\u00c9 a fala dos que reconhecem a urg\u00eancia e tem pressa em conseguir eco no que identificou. Ao concluir o relat\u00f3rio, Antonio Nobre fez quest\u00e3o a afirmar seu trabalho \u00e9 voltado para o leigo, para a sociedade e n\u00e3o para os seus pares ou mesmo autoridades. Sua fun\u00e7\u00e3o agora \u00e9 divulgar ao m\u00e1ximo a necessidade de mudan\u00e7a, a quebra de paradigmas forjados ao longo de centenas de anos e criar \u2018um esfor\u00e7o para a guerra do bem\u2019 para preservar o que resta da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Em seu relat\u00f3rio ele abre a \u2018caixa de Pandora\u2019 da Amaz\u00f4nia e a sacode para que n\u00e3o sobre nenhum segredo em seu fundo. Entre as cinco verdades desvendadas. O primeiro deles, a floresta mant\u00e9m \u00famido o ar em movimento, o que leva chuva para o continente adentro. O segundo: A forma\u00e7\u00e3o de chuvas abundantes em ar limpo s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pelas \u00e1rvores emitirem subst\u00e2ncias vol\u00e1teis que condensa\u00e7\u00e3o o vapor d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Terceiro segredo: a sobreviv\u00eancia da Amaz\u00f4nia a cataclismos clim\u00e1ticos e sua compet\u00eancia em sustentar um ciclo hidrol\u00f3gico mesmo em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis se d\u00e1 a Bomba Bi\u00f3tica. Quarto: a por\u00e7\u00e3o meridional da Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o ser des\u00e9rtica se deve a exporta\u00e7\u00e3o de umidade pelos rios a\u00e9reos. E quinto e \u00faltimo: a regi\u00e3o amaz\u00f4nica e oceanos pr\u00f3ximos n\u00e3o criam condi\u00e7\u00f5es para furac\u00f5es e tornados, al\u00e9m de outros extremos clim\u00e1ticos, por distribuir e dissipara a energia dos ventos.<\/p>\n<p>Para ele, falar com a sociedade \u00e9 a melhor maneira de se criar uma nova ordem preservacionista, da qual a classe pol\u00edtica est\u00e1 a margem. Antonio Nobre cr\u00ea que esse segmento foi julgado e condenado pela pr\u00f3pria sociedade. Os dados cient\u00edficos e as assessorias necess\u00e1rias sempre estiveram a disposi\u00e7\u00e3o das autoridades de nada valeram, mesmo que a quase totalidade das pesquisas ou \u00e9 financiada integralmente ou tem dinheiro p\u00fablico. E o uso deste conhecimento \u00e9 ignorado pelos locat\u00e1rios do poder, muitas vezes at\u00e9 sob a desculpa que existe dificuldade em se compreender as pesquisas e seu vocabul\u00e1rio herm\u00e9tico. Isso n\u00e3o passaria de uma desculpa com o prop\u00f3sito de manter o mesmo status quo das rela\u00e7\u00f5es vigentes.<\/p>\n<p>\u201cO j\u00fari popular j\u00e1 condenou as nossas autoridades por procrastina\u00e7\u00e3o e neglig\u00eancia, poderiam ter exigido como fizeram com o INPE sobre o desmatamento, que criou v\u00e1rios mecanismos de vigil\u00e2ncia e de aferi\u00e7\u00e3o, e que estamos perdendo gra\u00e7as ao novo C\u00f3digo Florestal que anistiou os desmatadores e o desmatamento est\u00e1 novamente explodindo. O que estou pedindo nesta relat\u00f3rio \u00e9 o m\u00ednimo minimorum , n\u00e3o temos mais op\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos essa capacidade de reverter o quadro, como foi feito em poucas semanas para salvar diversos bancos privados com trilh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d, ressalta.<\/p>\n<p><strong>Produtora de vapor e chuva<\/strong><\/p>\n<p>Uma \u00e1rvore grande pode evaporar mais de 1 mil litros de \u00e1gua por dia. Estima-se que a floresta toda, cerca de 5,5 milh\u00f5es de km\u00b2 que restaram, consiga ainda proezas inimagin\u00e1veis. Para se ter uma ideia da dimens\u00e3o da evapora\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio florestal, o volume di\u00e1rio do Rio Amazonas atinge 17 trilh\u00f5es de litros. Enquanto a vegeta\u00e7\u00e3o lan\u00e7a \u00e0 atmosfera 20 trilh\u00f5es de litros por dia em mol\u00e9culas de \u00e1gua. Algo, inclusive, j\u00e1 cientificamente comprovado, ser maior que o pr\u00f3prio \u00edndice de vapor de \u00e1gua existente na mesma faixa no Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Um dia da energia despendida nesta evapora\u00e7\u00e3o \u2013 que forma as nuvens e auxilia na circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica \u2013 representa o esfor\u00e7o feito pela Usina de Itaipu, em carga plena, durante 145 anos. E pensar que no ano de 1500 esse volume de evapora\u00e7\u00e3o em toda por\u00e7\u00e3o sul continental e suas florestas intactas chegavam aos expressivos 25 trilh\u00f5es de litros di\u00e1rios. Hoje, mesmo com a Mata Atl\u00e2ntica reduzida a 10% de seu tamanho original, na faixa equatorial americana cerca de 22 trilh\u00f5es s\u00e3o levados a atmosfera todos os dias.<\/p>\n<p>Na floresta, um metro quadrado alcan\u00e7a no dossel at\u00e9 10 metros quadrados, o que d\u00e1 esse \u00edndice fant\u00e1stico de evapora\u00e7\u00e3o, como \u201cgeiser\u201d com tronco, ra\u00edzes profundas, galhos e folhas. Enquanto no oceano, um metro quadrado corresponder\u00e1 ao mesmo volume evaporado. O termo oceano verde veio dos estudos feitos pelo experimento que reuniu o mundo cientifico debru\u00e7ado na Amaz\u00f4nia, o LBA. Isso se deu ao baix\u00edssimo \u00edndice de poeira existente na baixa troposfera, um n\u00edvel semelhante ao registrado nos oceanos.<\/p>\n<p>Entretanto, sem aeross\u00f3is, que s\u00e3o part\u00edculas em suspens\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o de gotas de chuva. Por isso que os oceanos tendem a aridez. O que levou a outra descoberta fant\u00e1stica. A intelig\u00eancia da floresta resolveu a quest\u00e3o. Ela passou a emitir gases arom\u00e1ticos que s\u00e3o capazes de induzir as chuvas. Em outro processo, gases nocivos s\u00e3o retirados do ar tamb\u00e9m por mecanismos de autorregula\u00e7\u00e3o ambiental produzidos pelas \u00e1rvores.<\/p>\n<p>O conceito de \u2018 bomba bi\u00f3tica\u2019, surgido pelos cientistas Anastassia Makarieva e Victor Gorshkov, ambos pertencentes ao n\u00facleo de pesquisas do Instituto de F\u00edsica Nuclear de S\u00e3o Petersburgo, na R\u00fassia, em colabora\u00e7\u00e3o com Antonio Nobre, do Inpa, mostra que quando a evapora\u00e7\u00e3o gera um fluxo de vapor \u2013 maior inclusive que do rio Amazonas \u2013 a press\u00e3o atmosf\u00e9rica na Floresta Amaz\u00f4nica cai. Isso cria uma acelera\u00e7\u00e3o que \u201csuga\u201d os ventos al\u00edsios vindos do Oceano Atl\u00e2ntico e carregados de umidade. Esse efeito \u00e9 semelhante ao de uma bomba de \u00e1gua, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 puxar os ventos \u00famidos do oceano para adentrarem \u00e0 bacia Amaz\u00f4nica. Sem a floresta isso n\u00e3o ocorre e as chuvas desaparecem.<\/p>\n<p>O conjunto de \u00e1rvores atuam em sintonia, como um ar-condicionado e produzem um rio suspenso de vapor. Essa forma\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de nuvens abaixa a press\u00e3o atmosf\u00e9rica da regi\u00e3o e puxa o ar que est\u00e1 sobre os oceanos para dentro da floresta. Algo, segundo Antonio Nobre, que desafio tanto modelos clim\u00e1ticos como o senso comum. Neste bombeamento bi\u00f3tico de umidade se cria uma correia transportadora. As \u00e1rvores imensas e antigas t\u00eam enraizamento profundo, que buscam \u00e1gua a mais de 20 metros at\u00e9 40 metros abaixo do solo, num rico len\u00e7ol fre\u00e1tico. E traz essa \u00e1gua estocada no oceano de \u00e1gua doce, retroalimentado toda vez que chove.<\/p>\n<p><strong>Rios A\u00e9reos<\/strong><\/p>\n<p>Outra novidade s\u00e3o os \u2018rios a\u00e9reos\u2019, um sistema capaz de transportar imensas quantidades de \u00e1gua em forma de vapor e provocar chuvas em grande parte do por\u00e7\u00e3o mais austral do Am\u00e9rica do Sul. A faixa dos desertos existente no hemisf\u00e9rio sul do planeta atravessa enormes \u00e1reas continentais, como os desertos australianos de Great Sendy, Gibson e Great Victoria, na plataforma africana surgem as \u00e1reas desertificadas da Nam\u00edbia e do Kalahari e na Am\u00e9rica do Sul, o do Atacama.<\/p>\n<p>Sem qualquer coincid\u00eancia, ambos desertos africanos, inclusive em expans\u00e3o, est\u00e3o alinhados frontalmente, dentro das margens latitudinais, com as regi\u00f5es de S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Esp\u00edrito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O que leva aos cientistas suporem que somente uma combina\u00e7\u00e3o de fatores envolvendo a Amaz\u00f4nia tornaram essa \u00e1rea pr\u00f3spera, com um regime de chuvas estabelecido e florestas, e n\u00e3o um deserto in\u00f3spito.<\/p>\n<p>\u201cFiz esse relat\u00f3rio sobre a Amaz\u00f4nia e n\u00e3o sobre S\u00e3o Paulo, apesar de ter liga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o seria algo totalmente impens\u00e1vel que essa regi\u00e3o seria des\u00e9rtica se n\u00e3o fosse a circula\u00e7\u00e3o do ar \u00famido que sobe da floresta, bate nos Andes e acaba vindo para o sudeste. Essa \u00e9 a \u00fanica refer\u00eancia que eu fa\u00e7o. Mas num sistema autorregulado, voc\u00ea s\u00f3 percebe o dano quando ele entra em colapso. Como o sistema tem uma capacidade muito grande de absorver abusos, durante as \u00faltimas d\u00e9cadas t\u00ednhamos um certo conforto. S\u00f3 que chegamos agora no n\u00edvel de satura\u00e7\u00e3o\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Brasil, tamb\u00e9m s\u00e3o afetados por esse sistema, oriundo da Floresta Amaz\u00f4nica, os territ\u00f3rios da Bol\u00edvia, Paraguai e parte da Argentina. Isso ocorrer principalmente nos meses de ver\u00e3o, de novembro a mar\u00e7o. E \u00e9 justamente nesse per\u00edodo que chegam ao in\u00edcio destas latitudes m\u00e9dias os fluxos dos chamados rios a\u00e9reos. As frentes frias que procedem do sul do continente e chegam nessas regi\u00f5es em outros per\u00edodos do ano, sendo massas de ar frio que transportam pouca umidade.<\/p>\n<p>\u201cIsso foi comprovado pelo pesquisador En\u00e9as Salati, o pioneiro sobre reciclagem da umidade na Amaz\u00f4nia. Ele e o aviador Gerard Moss, perseguiram o caminho deste rio a\u00e9reo em meados dos anos 2000. Coletas de chuvas no Rio de Janeiro mostram que as \u00e1guas vinham tamb\u00e9m do interior do continente e haviam passado pela Amaz\u00f4nia. Constatou-se em estudos, como o de Dominick Spracklen e seus colaboradores, que a floresta \u00e9 a cabeceira dos mananciais a\u00e9reos da maior parte das chuvas na Am\u00e9rica do Sul\u201d, salientou.<\/p>\n<p><strong>Impactos atuais e futuros<\/strong><\/p>\n<p>O volume de desmatamento e suas propor\u00e7\u00f5es colossais, que al\u00e9m de se tornar o maior bioc\u00eddio (no sentido lato da palavra, exterminar a vida) de a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica na hist\u00f3ria do planeta, os efeitos e impactos desta destrui\u00e7\u00e3o s\u00e3o sentidos em diversos pontos do pa\u00eds. Se antes da destrui\u00e7\u00e3o se dizia que na regi\u00e3o amaz\u00f4nica havia duas esta\u00e7\u00f5es, a \u00famida e a mais \u00famida. Depois com o avan\u00e7o do desmatamento temos agora uma esta\u00e7\u00e3o seca pronunciada e a esta\u00e7\u00e3o \u00famida diminuindo progressivamente.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o resta a menor d\u00favida de que os impactos do desmatamento e da degrada\u00e7\u00e3o florestal, al\u00e9m de seus efeitos associados, j\u00e1 afetam a chuva pr\u00f3xima e distante da Amaz\u00f4nia. J\u00e1 causa efeitos hoje e prometer ser ainda mais severos no futuro, a ponto de que a \u00fanica op\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel \u00e9 agir vigorosamente no combate \u00e0s causas. Como a\u00e7\u00e3o principal imp\u00f5e-se a universaliza\u00e7\u00e3o e facilita\u00e7\u00e3o de acesso \u00e0s descobertas cient\u00edficas, que podem reduzir a press\u00e3o da principal causa do desmatamento: a ignor\u00e2ncia\u201d, observou Antonio Nobre.<\/p>\n<p>Formada h\u00e1 400 milh\u00f5es de anos, a Amaz\u00f4nia primordial nasceu de organismos que sa\u00edram do oceano e vieram para a terra. O tapete multicolorido, estruturado e vivo, al\u00e9m de extremamente rico em organismo prosperou. Dentro das folhas ainda existem condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s da origem marinha. O processo que trouxe a floresta continental e seus habitantes se formou nos \u00faltimos 50 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>O cientista calcula que a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia j\u00e1 destruiu nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, cerca de 42 bilh\u00f5es de \u00e1rvores, ou seja, 7 \u00e1rvores para cada habitante da Terra. S\u00e3o mais de 2 mil \u00e1rvores por minuto, de forma ininterrupta. Na somat\u00f3ria entre desmatamento e a degrada\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e1reas verdes, mas inutilizadas -, a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia alcan\u00e7a mais de 2 milh\u00f5es de km\u00b2. Se contabilizar apenas o desmatamento at\u00e9 2013 se chegar\u00e1 a marca 763 mil km\u00b2, \u00e1rea equivalente ao territ\u00f3rio de tr\u00eas estados de S\u00e3o Paulo. Em \u00e1rea degradada, mais 1,2 milh\u00e3o de km\u00b2. Detalhe, isso somente no Brasil.<\/p>\n<p>Para se ter no\u00e7\u00e3o, entre mais de 200 pa\u00edses apenas 13 deles tem uma \u00e1rea maior que a devastada. A por\u00e7\u00e3o brasileira da floresta j\u00e1 pode aniquilado 29,44% da cobertura original e somada ao corte-raso, o percentual alcan\u00e7a os 47, 34% de todo complexo impactado diretamente por atividade humana desestabilizadora do clima.<\/p>\n<p>A f\u00edsica peculiar gerada pela floresta e que est\u00e1 alterando os modelos clim\u00e1ticos que envolvem a Amaz\u00f4nia, tamb\u00e9m revelam um novo ponto de satura\u00e7\u00e3o e de convers\u00e3o para o reequil\u00edbrio ambiental. Com a remo\u00e7\u00e3o de 40% da floresta denominada \u2018oceano verde\u2019 poder\u00e1 se deflagrar a transi\u00e7\u00e3o em larga escala para ao equil\u00edbrio de savana, liquidando com o tempo at\u00e9 a por\u00e7\u00f5es de mata que n\u00e3o tenham sido alvo da a\u00e7\u00e3o dos desmatadores.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio mostra que o n\u00edvel atual de degrada\u00e7\u00e3o teria perturbado a floresta remanescente em variados graus e afeta adicionalmente mais de 20% da cobertura original. As secas em \u00e1reas avizinhadas, combinadas com outras vetores, acabam por reduzir a capacidade regenerativa da floresta. O primeiro e principal desses fatores \u00e9 o pr\u00f3prio desmatamento.<\/p>\n<p>\u201c Sem floresta, desaparecem todos os seus servi\u00e7os para o clima, o que, por sua vez, afeta a parte de mata que restou. Remover florestas quebra a bomba bi\u00f3tica de umidade, debilitando a capacidade de importar ar \u00famido e chuvas para a regi\u00e3o. No processo de remo\u00e7\u00e3o com queima, a fuma\u00e7a e a fuligem causam pane no mecanismo de nuclea\u00e7\u00e3o de nuvens, criando nuvens polu\u00eddas e dissipativas que n\u00e3o produzem chuvas\u201d, concluiu.<\/p>\n<p><strong>Esfor\u00e7o de Guerra<\/strong><\/p>\n<p>Esta hip\u00f3tese levantada por Antonio Nobre cria uma situa\u00e7\u00e3o inusitada e nova neste momento. Ela indica que somente proteger o que sobrar da cobertura vegetal n\u00e3o impedira seu desaparecimento. As consequ\u00eancias, por for\u00e7a da mudan\u00e7a clim\u00e1tica criada neste cen\u00e1rio, trar\u00e1 um novo equil\u00edbrio. E sob essa nova \u00f3tica, o cientista questiona as pol\u00edticas adotadas, pois se apenas prevalecer a preocupar na manuten\u00e7\u00e3o de uma por\u00e7\u00e3o intacta ser\u00e1 totalmente ineficiente. A necessidade \u00e9 restabelecer o todo e com o m\u00e1ximo de urg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEu digo o quanto tempo ainda temos: nenhum! Acabou-se o prazo para neglig\u00eancia e procrastina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao desmatamento. Eu n\u00e3o saberia dizer se j\u00e1 passamos do ponto de n\u00e3o-retorno, isso ningu\u00e9m sabe, pois trata-se de algo altamente complexo, mas se percebe claramente que estamos as margens deste desastre clim\u00e1tico. Mas quero crer que temos ainda a oportunidade de mudar de curso, para isso ocorrer \u00e9 necess\u00e1rio um \u201cesfor\u00e7o de guerra\u201d.<\/p>\n<p>O documento traz explicito a urg\u00eancia dentro das atividades para se reverter o quadro tr\u00e1gico que se manifesta, o esclarecimento da sociedade como o combate incisivo ao desmatamento. Mas somente zerar o desmatamento para ontem n\u00e3o \u00e9 suficiente. Pois est\u00e1 em curso a cobran\u00e7a pela natureza de um d\u00e9ficit ambiental. Outro ponto destacado \u00e9 a prem\u00eancia em se replantar e restaurar as florestas por todo o pa\u00eds, principalmente a Amaz\u00f4nica. Como Antonio Nobre define, \u201cessa \u00e9 a melhor ap\u00f3lice de seguro que podemos comprar\u201d.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio que os c\u00e9ticos e os empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio argumentam, a recupera\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia n\u00e3o passa pela segrega\u00e7\u00e3o da agricultura e outras atividades econ\u00f4micas nas zonas rurais. Todas elas podem ser otimizadas, aumentando sua capacidade produtiva e liberando espa\u00e7o para o reflorestamento com esp\u00e9cies nativas. Pois as \u00e1reas abandonadas na regi\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m enormes e essa atividade econ\u00f4mica precisa de \u00e1gua e \u00e9 abastecida pela floresta.<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio, hoje o principal esteio da balan\u00e7a comercial do pa\u00eds e que recebe especial aten\u00e7\u00e3o do governo federal, ainda contam com a vantagem de terem ao alcance das m\u00e3os e da boa vontade a tecnologia e conhecimento para essa guinada. Basta procurarem a Embrapa e conhecer\u00e3o diversos estudos sobre como intensificar a produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria e agr\u00e1ria, reduzindo a demanda por novas \u00e1reas.<\/p>\n<p>A desertifica\u00e7\u00e3o decorrente do desmatamento progressivo, prevista pela teoria da bomba bi\u00f3tica, aniquilaria tudo, inclusive a maioria das atividades humanas na Amaz\u00f4nia e a pr\u00f3pria mata entraria em colapso, num a\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel, dando espa\u00e7o inclusive para que a biomassa ressecada existente no solo fosse condutora de imensos inc\u00eandios.<\/p>\n<p>\u201cO clima in\u00f3spito \u00e9 uma realidade, n\u00e3o \u00e9 mais previs\u00e3o. Tinham que ter parado com o desmatamento h\u00e1 10 anos. E parar agora n\u00e3o resolve mais. Agora s\u00f3 se resolve com uma a\u00e7\u00e3o de guerra, um combate para e pelo o bem da floresta e das pessoas. S\u00e3o anos de abusos que est\u00e3o sendo respondidos agora, a natureza est\u00e1 apresentando a conta\u201d, observou o cientista, um tanto pessimista quanto a capacidade de rea\u00e7\u00e3o natural amaz\u00f4nica num futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Como a maior parte da \u00e1gua que irriga a por\u00e7\u00e3o produtiva na America do Sul meridional \u00e9 oriunda das florestas da Amaz\u00f4nia, o futuro clima do continente a previs\u00e3o \u00e9 que no futuro todo essa regi\u00e3o poderia secar consideravelmente Num quadro extremo, ela chegaria a se assemelhar o estado clim\u00e1tico da Austr\u00e1lia. O pa\u00eds tem um imenso deserto interior e \u00e9 cercado em uma parte por locais \u00famidos nas proximidades da costa oce\u00e2nica.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, se daria o mesmo processo. Uma pequena faixa costeira, como ocorre hoje no Nordeste, teria condi\u00e7\u00f5es de abrigar vegeta\u00e7\u00e3o e um clima menos hostil. Entretanto, algumas centenas de metros adentro o flagelo da seca e de terras est\u00e9reis pelo Sol calcinante. Isto tomaria o territ\u00f3rio nacional de norte a sul, num processo de desertifica\u00e7\u00e3o irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Apesar do relat\u00f3rio n\u00e3o apresentar quais s\u00e3o os maiores devastadores da floresta, segundo Um estudo realizado pelo Instituto do Meio-Ambiente de Estocolmo, Su\u00e9cia, o ranking \u00e9 composto por grandes pecuaristas, com 70% da destrui\u00e7\u00e3o, seguido pelos cultivadores de soja, tantos pequenos como m\u00e9dios propriet\u00e1rios, com 10% e os restantes 20% est\u00e3o distribu\u00eddos em exploradores ilegais de madeira e outros cultivos e atividades ligadas a terra, como grilagem.<\/p>\n<p><strong>* J\u00falio Ottoboni \u00e9 jornalista diplomado, p\u00f3s graduado em jornalismo cient\u00edfico. Tem 29 anos de profiss\u00e3o, atuou em diversos jornais e revistas, tem cursos de \u2018\u00c1guas Atmosf\u00e9ricas\u201d, \u201c Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas\u201d, \u201cMagnetismo Terrestre\u201d entre outros. Foi professor universit\u00e1rio no primeiro curso de jornalismo do mundo com orienta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica para jornalismo cient\u00edfico, na Univap, entre 2002 e 2003.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte: Envolverde<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Ottoboni* A regi\u00e3o de maior desenvolvimento econ\u00f4mico da Am\u00e9rica do Sul seria um imenso<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"cream-magazine-thumbnail-2":false,"cream-magazine-thumbnail-3":false,"cream-magazine-thumbnail-4":false},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"J\u00falio Ottoboni* A regi\u00e3o de maior desenvolvimento econ\u00f4mico da Am\u00e9rica do Sul seria um imenso","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17237"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17237"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17237\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}