{"id":1711,"date":"2014-06-21T15:23:43","date_gmt":"2014-06-21T15:23:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=1711"},"modified":"2014-06-21T15:24:27","modified_gmt":"2014-06-21T15:24:27","slug":"pesquisadores-e-cientistas-passaram-os-ultimos-quatro-anos-numa-corrida-para-desenvolver-o-condimento-mais-ardido-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/pesquisadores-e-cientistas-passaram-os-ultimos-quatro-anos-numa-corrida-para-desenvolver-o-condimento-mais-ardido-do-mundo\/","title":{"rendered":"Pesquisadores e cientistas numa corrida para desenvolver o condimento mais ardido do mundo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"data-autor\"> <a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/pimenta_perfeita.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-1712\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/pimenta_perfeita.jpg\" alt=\"\" width=\"415\" height=\"265\" \/><\/a>P<strong>or Alexandre Rodrigues<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span class=\"intro\">\u00c9<\/span> como se o inferno estivesse concentrado na boca. Depois de morder um pequeno peda\u00e7o da pimenta bhutjolokia os olhos ficam vermelhos, o alto da cabe\u00e7a come\u00e7a a formigar, os l\u00e1bios adormecem, a respira\u00e7\u00e3o acelera e at\u00e9 pensar fica mais dif\u00edcil. O simples contato com a pele do rosto basta para uma experi\u00eancia traum\u00e1tica que dura horas, envolve uma s\u00e9rie de banhos e faz a pessoa se perguntar se \u00e9 preciso ir ao hospital para acabar com aquela sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Considerada a quinta mais forte do mundo, a bhutjolokia \u00e9 resultado de uma corrida que ganhou for\u00e7a nos \u00faltimos tempos: a busca pela pimenta mais ardida. O recorde mundial foi quebrado no in\u00edcio deste ano, quando o americano Ed Currie criou a Carolina Reaper. Reconhecida pelo livro Guinness dos recordes, ela tem 2,2 milh\u00f5es de unidades na escala de Scoville, que mede o ardor das pimentas. O Brasil entrou nessa disputa em mar\u00e7o, com a jandaia laranja e a juruti. Criadas no laborat\u00f3rio da Embrapa Hortali\u00e7as em Bras\u00edlia, elas t\u00eam entre 200 e 300 mil unidades de Scoville e ocupam o d\u00e9cimo lugar no ranking.<\/p>\n<p>As duas esp\u00e9cies brasileiras s\u00e3o um exemplo de como a ci\u00eancia tem sido usada para tornar as pimentas mais picantes ou para melhor\u00e1-las. Ambas s\u00e3o derivadas da habanero, uma esp\u00e9cie da Am\u00e9rica Central que chega a 500 mil unidades de Scoville. O processo de cruzamento de esp\u00e9cies de cada uma levou oito anos, custou at\u00e9 R$ 2 milh\u00f5es em desenvolvimento e incluiu, al\u00e9m do processo tradicional de sele\u00e7\u00e3o de sementes, a an\u00e1lise de DNA e o uso da cromatografia l\u00edquida de alta efici\u00eancia, t\u00e9cnica que utiliza a press\u00e3o para identificar os componentes de uma pimenta. Apesar de importante, a ard\u00eancia nem sempre \u00e9 o objetivo principal dos estudos. \u201cUm dos nossos focos \u00e9 melhorar o teor de vitamina C e criar tipos mais resistentes a doen\u00e7as\u201d, diz Francisco Reifschneider, pesquisador da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecu\u00e1rias. \u201cO aroma \u00e9 outra \u00e1rea que estamos desenvolvendo porque vem crescendo o interesse por pimentas mais cheirosas.\u201d<\/p>\n<p>Cruzar esp\u00e9cies para melhor\u00e1-las n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Estima-se que a humanidade selecione as mais favor\u00e1veis para replantar desde o in\u00edcio da agricultura, h\u00e1 cerca de 10 mil anos. No caso da pimenta, bot\u00e2nicos especulam que as mais ardidas surgiram na Bol\u00edvia e no sudeste do Brasil antes da chegada dos europeus \u00e0 Am\u00e9rica do Sul. Os colonizadores portugueses e espanh\u00f3is se encarregaram de dissemin\u00e1-las pelo mundo, criando esp\u00e9cies em todos os continentes de acordo com o clima, o solo e outros fatores. Por centenas de anos, a sele\u00e7\u00e3o foi feita separando as melhores esp\u00e9cies de pimentas para plantar, o que criava caracter\u00edsticas mais favor\u00e1veis a cada nova gera\u00e7\u00e3o. \u201cSe algu\u00e9m quiser uma pimenta mais ardida pode criar h\u00edbridos com duas pimentas superquentes e depois fazer sele\u00e7\u00f5es\u201d, afirma Paul Bosland, diretor do The Chile PepperInstitute, da Universidade do Novo M\u00e9xico, nos Estados Unidos. \u201cDepois de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es \u00e9 poss\u00edvel ter uma pimenta mais forte.\u201d<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-690\" style=\"max-width: 765px;\"><img class=\"img-responsive\" title=\"Cria\u00e7\u00e3o in vitro: Os pesquisadores Francisco Reifschneider e Claudia Ribeiro com as pimentas jandaia laranja e juruti, rec\u00e9m-criadas no laborat\u00f3rio da Embrapa (Foto: Bruno Peres\/EditoraGlobo)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/CZkCmLH_4xbQyQSzsR_53BEodx8=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/06\/05\/275_pimentas_02.jpg\" alt=\"Cria\u00e7\u00e3o in vitro: Os pesquisadores Francisco Reifschneider e Claudia Ribeiro com as pimentas jandaia laranja e juruti, rec\u00e9m-criadas no laborat\u00f3rio da Embrapa (Foto: Bruno Peres\/EditoraGlobo)\" \/><label class=\"foto-legenda\" style=\"max-width: 765px;\">Cria\u00e7\u00e3o in vitro: Os pesquisadores Francisco Reifschneider e Claudia Ribeiro com as pimentas jandaia laranja e juruti, rec\u00e9m-criadas no laborat\u00f3rio da Embrapa (Foto: Bruno Peres\/EditoraGlobo)<\/label><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>BOA PARA A SA\u00daDE<\/strong><br \/>\nO que faz uma pimenta ser ardida \u00e9 a capsaicina, um composto qu\u00edmico presente nas sementes e nas partes carnosas (aquela polpa de cor clara) do g\u00eanero capsicum, conhecidas internacionalmente como chili. S\u00e3o as mais picantes. Em contato com as membranas da boca, do nariz e da garganta, ela desencadeia um sinal de dor transmitido ao c\u00e9rebro, que reage produzindo endorfina, subst\u00e2ncia que elimina a sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel e causa bem-estar, ajudando a melhorar o sistema imunol\u00f3gico. A capsaicina tamb\u00e9m \u00e9 um poderoso oxidante e pode ser usada como analg\u00e9sico e no combate ao colesterol, artrite e doen\u00e7as card\u00edacas. Seu efeito vasodilatador impede a forma\u00e7\u00e3o de co\u00e1gulos no sangue, reduzindo a chance de um ataque card\u00edaco ou acidente vascular cerebral. Tamb\u00e9m ajuda a combater a depress\u00e3o ao elevar a quantidade de serotonina (horm\u00f4nio ligado \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de prazer) e tem at\u00e9 efeito afrodis\u00edaco. A quantidade recomendada para o consumo di\u00e1rio de pimenta \u00e9 de 3 gramas, mas a ingest\u00e3o dos brasileiros n\u00e3o passa de um sexto disso.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-690\" style=\"max-width: 765px;\"><img class=\"img-responsive\" title=\"Cuidado com a pimenta: O americano Ed Currie levou quatro anos e gastou US$ 19 mil para criar a Carolina Reaper, que tem 2,2 milh\u00f5es de unidades da escala de Scoville (Foto: TheHerald\/AP)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/ycZMzOaokp4o5tIho_YCWJMUOk8=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/06\/05\/275_pimentas_03.jpg\" alt=\"Cuidado com a pimenta: O americano Ed Currie levou quatro anos e gastou US$ 19 mil para criar a Carolina Reaper, que tem 2,2 milh\u00f5es de unidades da escala de Scoville (Foto: TheHerald\/AP)\" \/><label class=\"foto-legenda\" style=\"max-width: 765px;\">Cuidado com a pimenta: O americano Ed Currie levou quatro anos e gastou US$ 19 mil para criar a Carolina Reaper, que tem 2,2 milh\u00f5es de unidades da escala de Scoville (Foto: TheHerald\/AP)<\/label><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>POR ACIDENTE<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 o in\u00edcio dos anos 1990, apenas duas pimentas, a habanero e a scotch bonnet, tinham ultrapassado a marca das 350 mil unidades Scoville. Foi quando o cientista Paul Bosland, conhecido como \u201cHomem Pimenta\u201d, leu que o ex\u00e9rcito da \u00cdndia pretendia construir granadas usando uma pimenta local, a bhutjolokia. Ap\u00f3s testar as primeiras sementes, Boslanddescobriu, aturdido, que a esp\u00e9cie tinha 1,041 milh\u00e3o de unidades. Aqui vale um par\u00eantese: cultivada originalmente em regi\u00f5es quentes da \u00cdndia, ela foi a pimenta mais ardida do mundo entre 2007 e 2010. \u00c9 chamada de bihjolokia (veneno, no idioma local) e pode ser vista como a progenitora das variedades superfortes que vieram depois. Durante o festival de Hornbill, no sudeste indiano, acontece uma competi\u00e7\u00e3o para ver quem come mais desse tipo de pimenta. Os mais corajosos se arriscam numa disputa pior: esfreg\u00e1-la nos olhos. Loucuras \u00e0 parte, o n\u00edvel de unidades Scoville vem crescendo nos \u00faltimos quatro anos. Entre 2010 e 2011, o recorde mundial foi quebrado tr\u00eas vezes. A primeira a conseguir foi a InfinityChili (1,067 milh\u00e3o de unidades). Depois vieram a NagaViper (1,382 milh\u00e3o de unidades) e a Trinidad Scorpion (entre 1,5 milh\u00e3o e 2 milh\u00f5es de unidades), ultrapassada neste ano pela Carolina Reaper.<\/p>\n<p>Mas por que produzir pimentas que s\u00e3o quase imposs\u00edveis de se comer? Mais do que um passatempo para aficionados, \u00e9 uma grande vantagem nos neg\u00f3cios. Sementes destas pimentas n\u00e3o costumam ser vendidas por grandes distribuidores e sim pela internet, direto de pequenos vendedores. \u201cCheguei a pagar R$ 25 numa \u00fanica bhutjolokia\u201d, conta o publicit\u00e1rio Edson Martins Edson, dono da marca Mr. Bhut, que processa de 500 a 600 quilos de pimenta todos os meses. Hoje, com a produ\u00e7\u00e3o nacional, cada bhut custa, em m\u00e9dia, R$ 5 nas feiras de S\u00e3o Paulo. No Ceasa, a banca de pimentas por atacado da fam\u00edlia Akira \u00e9 uma das suas favoritas. Sobre o balc\u00e3o de madeira, 22 tipos de pimenta se espalham, misturando habanero, jalape\u00f1o, tabasco e esp\u00e9cies nacionais, como a biquinho e a dedo de mo\u00e7a \u2014 al\u00e9m da intimidadora bhutjolokia. S\u00e3o vendidos cerca de 800 quilos por semana. \u201cO gosto at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s era por pimentas m\u00e9dias, como de cheiro e malagueta\u201d, diz a nutricionista Keila Kagohara, filha de Mauro Akira, que compra e vende pimentas h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas no local. \u201cHoje a mais procurada \u00e9 a bhut.\u201d Os frequentadores da barraca t\u00eam de passar por um ritual quase obrigat\u00f3rio: provar um peda\u00e7o da bhut para conferir sua ard\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo a Comunidade Internacional de Pimenta, organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane os pa\u00edses produtores, o com\u00e9rcio mundial do produto tipo chili foi de US$ 1,78 bilh\u00e3o em 2013. No caso das superpimentas, os n\u00fameros s\u00e3o bem mais modestos e \u00e9 dif\u00edcil estim\u00e1-los, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o e venda \u00e9 artesanal, mas tamb\u00e9m garantem bons contratos entre os produtores e os fabricantes de molhos. Foi o caso de Ed Currie, que vende em seu site o PuckerButtPepper, feito com a Carolina Reaper, e diz ter investido US$ 19 mil,al\u00e9m de quatro anos de trabalho, para desenvolver a pimenta mais forte do mundo. Tudo depois de t\u00ea-la criado por acidente. Com um hist\u00f3rico de doen\u00e7as card\u00edacas na fam\u00edlia, pesquisava o assunto quando descobriu, surpreso, que pessoas com baixos problemas do cora\u00e7\u00e3o comem grandes quantidades de pimenta em cada refei\u00e7\u00e3o. A ideia era produzir uma esp\u00e9cie doce e forte cujo sabor pudesse ser sentido por pacientes de quimioterapia, que tem o paladar afetado pelo tratamento. O resultado foi uma pimenta de apar\u00eancia estranha, com uma esp\u00e9cie de ferr\u00e3o, que ningu\u00e9m conseguia comer. Um estudante local que trabalhava para ele postou na internet em 2010 que se tratava da pimenta mais ardida do mundo, mas demorou quatro anos para o Guinness reconhecer o recorde. \u201cN\u00e3o fui eu que fiz, foi Deus\u201d, diz, recusando-se a contar o segredo da pimenta. Mas o mist\u00e9rio mais importante \u00e9 outro: quem consegue com\u00ea-la sem fazer careta?<\/p>\n<div class=\"componente_materia\">\n<div class=\"intertitulo\">GRAU DE ARD\u00caNCIA<br \/>\nComo a Escala de Scoville mede o ardor das pimentas<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-100\" style=\"max-width: 128px;\"><img class=\"img-responsive\" title=\" (Foto: Revista Galileu)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/xd7atcTQZ6F8KsZ8EcqAcyxB2LM=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/06\/05\/275_pimentas_04.jpg\" alt=\" (Foto: Revista Galileu)\" \/><label class=\"foto-legenda\" style=\"max-width: 128px;\"> (Foto: Revista Galileu)<\/label><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para medir o grau de calor das pimentas, o farmac\u00eautico americano Wilbur Scoville (foto) criou uma escala em 1912. Ele misturava a pimenta pura com \u00e1gua com a\u00e7\u00facar e dava para volunt\u00e1rios provarem. Quanto mais \u00e1gua e a\u00e7\u00facar eram necess\u00e1rios para diluir a pimenta, mais alta sua pung\u00eancia.<\/p>\n<p>O sistema deu origem \u00e0s unidades de calor Scoville, o sistema oficial que mede o ardor das pimentas. Dizer que a jandaia e a juruti chegam a 300 mil unidades significa que s\u00e3o necess\u00e1rios 300 mil copos de \u00e1gua com a\u00e7\u00facar para diluir a ard\u00eancia de apenas um copo dela<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-690\"><img class=\"img-responsive\" title=\" (Foto: Revista Galileu)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/_OqEIZa7Hqq1wAnCSym-7wpk2ks=\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2014\/06\/05\/275_pimentas_05.jpg\" alt=\" (Foto: Revista Galileu)\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexandre Rodrigues \u00c9 como se o inferno estivesse concentrado na boca. 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