{"id":16431,"date":"2015-02-23T12:00:51","date_gmt":"2015-02-23T12:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=16431"},"modified":"2015-02-22T14:14:07","modified_gmt":"2015-02-22T14:14:07","slug":"as-oncas-sao-mais-sociaveis-do-que-afirma-nossa-va-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/as-oncas-sao-mais-sociaveis-do-que-afirma-nossa-va-filosofia\/","title":{"rendered":"As on\u00e7as s\u00e3o mais soci\u00e1veis e t\u00e9cnicas do que afirma nossa v\u00e3 filosofia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-16432\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Um dos temas mais importantes e interessantes no estudo das on\u00e7as \u00e9 o conhecimento dos seus h\u00e1bitos alimentares, ou ecologia alimentar.<\/p>\n<p>As t\u00e9cnicas que permitem a coleta de dados sobre esse aspecto envolvem desde a simples coleta de fezes (e a identifica\u00e7\u00e3o de cada item encontrado nelas), \u00e0 procura por carca\u00e7as e restos de animais abatidos (com o registro de todas as informa\u00e7\u00f5es pertinentes), ao acompanhamento instant\u00e2neo de indiv\u00edduos aparelhados com r\u00e1dio colares, atrav\u00e9s da telemetria VHF, em suas andan\u00e7as \u00e0 procura por alimento (quando poss\u00edvel mantendo uma dist\u00e2ncia em que se possam definir os tipos de habitats utilizados e poss\u00edveis prefer\u00eancias individuais por algumas esp\u00e9cies de presas).<\/p>\n<p>Nessa ultima t\u00e9cnica, com o uso de telemetria baseada em GPS, \u00e9 poss\u00edvel definir os aglomerados de localiza\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos aparelhados onde, supostamente, possa ter ocorrido um ato de preda\u00e7\u00e3o (mais sobre esse tema, abaixo).<\/p>\n<p>Em alguns casos, at\u00e9 a t\u00e9cnica de armadilhas fotogr\u00e1ficas tem produzido, com o aumento no seu uso, cada vez mais casos fortuitos com fotos extraordin\u00e1rias, mostrando evid\u00eancias de preda\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o, como na foto acima, em que uma on\u00e7a-pintada aparece se alimentando de um tamandu\u00e1-bandeira, no Parque Nacional Grande Sert\u00e3o Veredas (Foto: Instituto Biotr\u00f3picos, acima).<\/p>\n<p>No primeiro estudo dos tigres, na \u00cdndia, o Dr. George Schaller (em The Deer and the Tiger, University of Chicago Press, 1967) deixava b\u00fafalos amarrados para atrair tigres e poder estudar t\u00e9cnicas de preda\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o social. Dessa forma, ele conseguiu habituar uma f\u00eamea com tr\u00eas filhotes subadultos, que ele observou repetidamente, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, coletando dados extremamente interessantes de comportamento parental para a esp\u00e9cie, at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos. Agora, as armadilhas fotogr\u00e1ficas substituem, at\u00e9 certo ponto, esse monitoramento intensivo de carca\u00e7as, como o Fernando Tortato nos conta, logo abaixo.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/18022015-vaca-adulta.jpg\" alt=\"18022015-vaca-adulta\" width=\"639\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/18022015-vaca-depredada.jpg\" alt=\"18022015-vaca-depredada\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p>Em uma ocasi\u00e3o, enquanto o Dr. Schaller e eu estud\u00e1vamos capivaras e jacar\u00e9s entre meados de 1978 e 1979, ao longo da rodovia Transpantaneira, ent\u00e3o ainda rec\u00e9m-constru\u00edda, eu tive uma oportunidade interessante de acompanhar um incidente envolvendo a carca\u00e7a de um touro tucura (o gado tucura, do Pantanal, \u00e9 uma variedade origin\u00e1ria do gado ib\u00e9rico, introduzido h\u00e1 mais de 220 anos e que se adaptou bem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es extremas do ambiente. O gado se encontra atualmente em extin\u00e7\u00e3o, na plan\u00edcie pantaneira).<\/p>\n<p>Eu sa\u00ed do nosso acampamento bem cedo, ainda escuro, para poder come\u00e7ar as observa\u00e7\u00f5es de comportamento dos jacar\u00e9s em uma das po\u00e7as de estudo \u00e0s 6 da manh\u00e3. Um touro tucura com mais de 500 kg havia sido atropelado por um caminh\u00e3o, no dia anterior, e a carca\u00e7a havia ficado em cima do aterro da estrada. Com os far\u00f3is da Kombi acesos, eu procurava a carca\u00e7a do touro, quando me dei conta que ela j\u00e1 n\u00e3o estava na estrada. Curioso, eu parei o carro e vi que ela havia sido arrastada, descendo o barranco de uns 3 m do leito elevado da estrada, quebrando a vegeta\u00e7\u00e3o arbustiva no trajeto.<\/p>\n<p>Achando isso estranho, eu procurei na estrada com a luz do farol e com minha lanterna, e logo encontrei pegadas de um macho grande de pintada, que certamente era o respons\u00e1vel pelo deslocamento da carca\u00e7a. Iluminando com a lanterna, vi que a carca\u00e7a tinha sido arrastada at\u00e9 uma cerca de arame liso, de quatro fios, que estava em processo de constru\u00e7\u00e3o, justamente para evitar o acesso livre do gado \u00e0 estrada, no seu lado oeste, dentro das terras da fazenda Jofre (\u00e0 \u00e9poca, de propriedade de Geraldo Gouveia). Do outro lado da cerca havia um cap\u00e3o de mato, de onde a on\u00e7a estava, com toda a certeza, me olhando naquele momento. Excitado e curioso, eu achei melhor voltar mais tarde, com a luz do dia, para coletar mais informa\u00e7\u00f5es. Quando completei o turno de 6 horas de observa\u00e7\u00e3o dos jacar\u00e9s, voltei ali e pude ver melhor o que havia acontecido. Havia alguns urubus pousados em \u00e1rvores pr\u00f3ximas, mas como nenhum estava no ch\u00e3o, eu podia concluir que a on\u00e7a se encontrava pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>A carca\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o estava na mesma posi\u00e7\u00e3o, o predador tendo tentado arrast\u00e1-la por debaixo do ultimo fio de arame da cerca, a uns 40 cm do ch\u00e3o, no processo quebrando um dos chifres do touro \u2013 dava para imaginar a for\u00e7a necess\u00e1ria para isso! Uns 15 a 20 quilos de carne dos quartos dianteiros e peito j\u00e1 haviam sido consumidos. Como naquela \u00e9poca havia ainda pouco transito pela Transpantaneira, era bem evidente que o macho tinha se alimentado na carca\u00e7a ainda exposta, em plena luz do dia.<\/p>\n<p>No final da tarde, quando passei novamente no local, a on\u00e7a havia conseguido passar aquela carca\u00e7a enorme por baixo da cerca, e a arrastado mais uns 15 m para oeste, para dentro do cap\u00e3o de mata, com isso criando um t\u00fanel pela vegeta\u00e7\u00e3o emaranhada. Os urubus ainda estavam pousados nas \u00e1rvores, e como j\u00e1 estava escurecendo, achei melhor n\u00e3o chegar mais perto. Parei novamente na manh\u00e3 seguinte e como havia um ou dois urubus se arriscando a pousar no ch\u00e3o, pelo lado de fora do cap\u00e3o, eu cheguei at\u00e9 a entrada do t\u00fanel e forcei os olhos, tentando enxergar atrav\u00e9s das sombras, na penumbra do interior da mata.<\/p>\n<p>Mais para controlar o &#8220;frio na barriga&#8221; e o arrepio dos cabelos da nuca, comecei a conversar com a on\u00e7a, caso ela estivesse por ali, em um tom baixo, tentando manter minha voz firme. \u00c0 medida que ia fazendo perguntas que estavam me intrigando (O Sr. ainda est\u00e1 por a\u00ed? N\u00e3o me leve a mal, mas eu gostaria que o Sr. me respondesse algumas perguntas&#8230; N\u00e3o precisa se preocupar, eu n\u00e3o vou roubar a sua carca\u00e7a&#8230; S\u00f3 quero saber quanto que o Sr. comeu, e quais as partes que o Sr. mais gosta&#8230;) eu ia chegando mais perto, metro a metro, batendo palmas de vez em quando.<\/p>\n<p>Pela tens\u00e3o quase palp\u00e1vel que eu sentia no ar, tenho certeza que ele estava por ali! A carca\u00e7a estava a uns 10-12 metros mais para o centro da pequena ilha de mata e, esticando o pesco\u00e7o, eu consegui ver que as v\u00edsceras haviam sido removidas e pelo menos mais uns 10 a 15 kg de carne comidos, avan\u00e7ando para a parte posterior do touro. Repeti a visita e os procedimentos ainda mais uma vez, tendo que voltar para Pocon\u00e9, no dia seguinte, por compromissos assumidos. Mas ainda hoje me lembro dos momentos eletrizantes e extremamente proveitosos que essas circunst\u00e2ncias me proporcionaram!<\/p>\n<p><strong>De olho no Urubu, por Fernando Tortato (com a colabora\u00e7\u00e3o de Rafael Hoogesteijn)<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/18022015-oncas-alimentadas.jpg\" alt=\"18022015-oncas-alimentadas\" width=\"639\" height=\"479\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/18022015-onca-femea.jpg\" alt=\"18022015-onca-femea\" width=\"640\" height=\"427\" \/>https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-admin\/post-new.php<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/18022015-oncas-mais-alimentadas.jpg\" alt=\"18022015-oncas-mais-alimentadas\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<p>Desde que comecei a trabalhar com pesquisas envolvendo as on\u00e7as-pintadas, uma das atividades que mais gosto \u00e9 monitorar carca\u00e7as de animais predados por elas. \u00c9 praticamente uma ci\u00eancia forense, onde no local do abate cada detalhe pode trazer informa\u00e7\u00f5es importantes para elucidar o &#8220;caso&#8221;. Mas antes de se aproximar da carca\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio ter muita cautela, observando cuidadosamente os rastros e sinais no entorno, evitando o risco de encontrar a on\u00e7a ainda na carca\u00e7a. Com o tempo ganha-se experi\u00eancia, mas a cautela sempre \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>A busca por carca\u00e7as tamb\u00e9m \u00e9 interessante, obviamente o primeiro sinal a se procurar s\u00e3o urubus em algum ponto da vasta plan\u00edcie que faz parte de qualquer fazenda inserida no Pantanal. Para isso, qualquer eleva\u00e7\u00e3o do terreno, ou uma \u00e1rvore boa de subir, um moir\u00e3o de cerca, ou at\u00e9 mesmo a ca\u00e7amba de uma camionete fornecem uma vis\u00e3o privilegiada, aumentando o horizonte, e permitem melhor localizar os urubus. Uma vez encontrado um urubu pousado ou uma aglomera\u00e7\u00e3o deles, a aproxima\u00e7\u00e3o deve ser feita devagar e com cuidado, sempre buscando rastros de on\u00e7a que podem estar pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Um cuidado essencial \u00e9 verificar se os urubus est\u00e3o pousados no ch\u00e3o, perto da carca\u00e7a, ou nos galhos de \u00e1rvores. Na maioria das vezes, a on\u00e7a arrasta a carca\u00e7a para um local de vegeta\u00e7\u00e3o densa, onde ela possa comer tranquila, e com isso, nem sempre \u00e9 poss\u00edvel ter uma vis\u00e3o direta da carca\u00e7a. Por isso o comportamento dos urubus \u00e9 a chave para saber se a on\u00e7a est\u00e1 ou n\u00e3o junto \u00e0 carca\u00e7a. Urubus est\u00e3o sempre em alerta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s on\u00e7as, pois se facilitarem, podem ser mortos. Portanto, se eles estiverem tranquilos na carca\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel se aproximar para investigar o local e coletar as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u00c9 importante descrever o local da preda\u00e7\u00e3o, como a presa foi abatida, o m\u00e9todo de abate (locais dos ferimentos e causa mortis), descobrir se foi on\u00e7a-pintada ou on\u00e7a-parda, se o animal foi arrastado e qual a dist\u00e2ncia, a idade estimada da presa, se presa nativa ou animal dom\u00e9stico, presen\u00e7a de rastros, se o predador estava sozinho ou acompanhado (se f\u00eamea com filhotes, casal em corte, irm\u00e3os subadultos, etc), tipo de habitat, dist\u00e2ncia de \u00e1reas florestadas e qualquer outra informa\u00e7\u00e3o que possa ajudar a entender o evento como um todo.<\/p>\n<p>Recentemente, Rafael Hoogesteijn, veterin\u00e1rio venezuelano e administrador da fazenda S\u00e3o Bento e eu, em parceria com funcion\u00e1rios da fazenda, come\u00e7amos a monitorar com armadilhas-fotogr\u00e1ficas, sistematicamente, as carca\u00e7as de gado, tanto de animais abatidos por on\u00e7as, como aquelas de animais mortos devido a outras causas, como doen\u00e7as, acidentes of\u00eddicos ou animais atolados no barro, durante a esta\u00e7\u00e3o seca. Com a alta densidade de on\u00e7as-pintadas que ocorre na \u00e1rea da fazenda, o objetivo \u00e9 saber quem que est\u00e1 consumindo a carca\u00e7a e por quanto tempo permanece na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Geralmente \u00e9 instalada uma armadilha-fotogr\u00e1fica direcionada para a carca\u00e7a e, quando poss\u00edvel, outra no entorno, em alguma trilha ou estrada onde o predador possa passar. Em pouco mais de um ano de monitoramento, j\u00e1 temos mais de 20 carca\u00e7as monitoradas e com elas aprendemos que, na maioria delas, mais de uma on\u00e7a-pintada consome a mesma carca\u00e7a. H\u00e1 casos de at\u00e9 seis indiv\u00edduos indo e vindo, dividindo uma mesma carca\u00e7a, em uma mesma noite! Neste caso espec\u00edfico, as on\u00e7as se alimentaram em hor\u00e1rios distintos, com exce\u00e7\u00e3o de uma f\u00eamea, que estava com seu filhote.<\/p>\n<p>O mais surpreendente, e um dos motivos pelo qual o Peter me convidou a escrever sobre o tema, foi o registro de sete on\u00e7as-pintadas distintas consumindo a mesma carca\u00e7a no intervalo de 48 horas. A carca\u00e7a era uma vaca adulta que, diga-se de passagem, morreu por outras causas, nem foi morta por on\u00e7a. O recurso representado pela carne na carca\u00e7a acabou originando um verdadeiro rod\u00edzio, n\u00e3o de carnes, mas de on\u00e7as! Nesta ocasi\u00e3o, foram tiradas mais de 500 fotos de on\u00e7as!<\/p>\n<p>As fotos mostraram que houve situa\u00e7\u00f5es de dois animais se alimentando ao mesmo tempo, cada um em uma extremidade da carca\u00e7a. A primeira intera\u00e7\u00e3o foi entre um macho subadulto e o macho adulto dominante da \u00e1rea. \u00c9 poss\u00edvel deduzir, pela sequencia de fotos, que o animal mais jovem se mostrou submisso, enquanto o dominante consumia tranquilamente a carca\u00e7a, mas permaneceu a uma dist\u00e2ncia de no m\u00e1ximo tr\u00eas metros. Em uma segunda intera\u00e7\u00e3o, uma f\u00eamea adulta dividiu a carca\u00e7a com outro macho adulto, e na terceira, esta mesma f\u00eamea compartilhou a carca\u00e7a com o macho subadulto que, horas antes, havia estado com o macho dominante.<\/p>\n<p>Este macho subadulto havia sido o primeiro a encontrar a carca\u00e7a e foi capturado em um la\u00e7o armado ao lado da carca\u00e7a. No fim, esse animal n\u00e3o foi aparelhado com um r\u00e1dio-colar por n\u00e3o ser uma das prioridades imediatas do estudo. O interessante, no entanto, foi que apesar da captura, envolvendo anestesia e biometria, ele permaneceu pr\u00f3ximo a carca\u00e7a durante praticamente todo per\u00edodo monitorado com a armadilha-fotogr\u00e1fica, demonstrando que todo o processo da captura pouco interferiu em sua rotina. Al\u00e9m das fotos tiradas, ele foi visto v\u00e1rias vezes por pessoas que passavam pr\u00f3ximas, na estrada interna da fazenda.<\/p>\n<p>Embora a esp\u00e9cie tenha sido sempre descrita como solit\u00e1ria, novos estudos de campo tem mostrado que essas intera\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais frequentes do que antes se imaginava. \u00c9 importante salientar que j\u00e1 foram coletadas amostras de sangue de cinco dos sete animais registrados nesta carca\u00e7a. Com isso, \u00e9 bem poss\u00edvel que, atrav\u00e9s de an\u00e1lises gen\u00e9ticas, possamos em um futuro pr\u00f3ximo, desvendar o grau de parentesco destas on\u00e7as e, desta forma, poder entender melhor as rela\u00e7\u00f5es entre indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Os fatores que levam a estas intera\u00e7\u00f5es, com sinais claros de sociabilidade com hierarquia entre os animais, \u00e9 algo que me fascina e me leva a querer entender cada vez mais a vida social destes grandes felinos. Em 2009, a pesquisadora Sandra Cavalcanti j\u00e1 havia mostrado em seus estudos no sul do Pantanal que as on\u00e7as-pintadas s\u00e3o mais soci\u00e1veis do que se imaginava. Desta forma, esperamos que, somando as informa\u00e7\u00f5es coletadas com o monitoramento das carca\u00e7as aos dados obtidos com a telemetria, atrav\u00e9s dos colares de GPS, j\u00e1 discutidos aqui recentemente, poderemos vir a entender melhor o grau de sociabilidade das on\u00e7as-pintadas, no Pantanal.<\/p>\n<p><strong>Como as on\u00e7as ca\u00e7am &#8211; por Allison Devlin<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"caption\" title=\"Perfura\u00e7\u00e3o de canino de on\u00e7a-pintada, no cr\u00e2nio de uma vaca adulta, indicando preda\u00e7\u00e3o. Foto: Panthera Brasil\" src=\"http:\/\/www.oeco.org.br\/images\/stories\/fev2015\/18022015-onca-cranio.jpg\" alt=\"18022015-onca-cranio\" width=\"639\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p>Perfura\u00e7\u00e3o de canino de on\u00e7a-pintada, no cr\u00e2nio de uma vaca adulta, indicando preda\u00e7\u00e3o. Foto: Panthera Brasil<\/p>\n<p>N\u00f3s estudamos a dieta da on\u00e7a-pintada para procurar entender o seu papel na comunidade ecol\u00f3gica em que ela vive e em conflitos com os humanos, quando as on\u00e7as predam o gado e outros animais dom\u00e9sticos. Essa informa\u00e7\u00e3o nos permite saber o que \u00e9 necess\u00e1rio para que uma on\u00e7a sobreviva em uma determinada \u00e1rea e como podemos melhorar as condi\u00e7\u00f5es em \u00e1reas de conflito. Uma vez que mais de 95% do Pantanal \u00e9 utilizado para a pecu\u00e1ria, \u00e9 de se esperar que muitas das presas que as on\u00e7as encontram naturalmente \u00e9 gado.<\/p>\n<p>Como diagnosticar a causa da morte de uma determinado animal &#8211; ou como saber se foi uma on\u00e7a-parda ou on\u00e7a-pintada que matou o animal? Quando uma carca\u00e7a \u00e9 encontrada, n\u00f3s fazemos uma necropsia detalhada, para determinar a causa da morte. Frequentemente, as presas (incluindo o gado) podem ter morrido por doen\u00e7a, acidentes, fraqueza por m\u00e1-nutri\u00e7\u00e3o, ou mordidas de serpentes pe\u00e7onhentas. No entanto, quando um animal foi morto por um predador, s\u00e3o deixados alguns sinais \u00f3bvios, que permitem a identifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;A on\u00e7a-pintada ca\u00e7a por emboscada, tipicamente se aproximando sorrateiramente de sua presa, aproveitando qualquer vegeta\u00e7\u00e3o para se mimetizar no ambiente, at\u00e9 uma dist\u00e2ncia em que possa deslanchar um ataque de surpresa.&#8221;<\/p>\n<p>Uma on\u00e7a-parda mata a sua presa com uma mordida na garganta, come\u00e7ando a comer pelos quartos traseiros. A on\u00e7a-pintada, no entanto, utiliza uma t\u00e9cnica que difere de todos os outros grandes felinos. Seu nome em ingl\u00eas, jaguar, \u00e9 however, derivado da palavra tupi-guarani &#8220;yaguara&#8221;, que significa &#8220;aquele que mata sua presa em um pulo&#8221;. A on\u00e7a-pintada ca\u00e7a por emboscada, tipicamente se aproximando sorrateiramente de sua presa, aproveitando qualquer vegeta\u00e7\u00e3o para se mimetizar no ambiente, at\u00e9 uma dist\u00e2ncia em que possa deslanchar um ataque de surpresa.<\/p>\n<p>As suas mand\u00edbulas s\u00e3o extremamente potentes caracterizam a sua mordida como a de maior for\u00e7a, dentre todos os felinos. A on\u00e7a pintada mata as suas presas como uma mordida na cabe\u00e7a, quebrando ossos no processo. Depois, consome preferencialmente os quartos dianteiros da carca\u00e7a. Eu vi a evid\u00eancia da for\u00e7a da sua mordida quando um fazendeiro me mostrou o cr\u00e2nio de uma de suas vacas premiadas, morta por uma on\u00e7a-pintada (ver foto acima).<\/p>\n<p>Uma das minhas mem\u00f3rias favoritas relacionadas com o estudo de carca\u00e7as aconteceu em outubro de 2013. Os funcion\u00e1rios da fazenda S\u00e3o Bento me avisaram que um bezerro havia sido morto em um campo pr\u00f3ximo da sede da fazenda. A chuva breve da noite anterior havia deixado a estrada coberta com uma fina camada de barro, e nela estava escrita a hist\u00f3ria do ataque ao bezerro. A estrada estava coberta de pegadas e marcas de arrasto. Eu havia achado as pegadas da on\u00e7a ao lado das marcas iniciais de arrasto, exatamente como os pe\u00f5es haviam descrito. No entanto, a marca logo se perdeu no capim.<\/p>\n<p>Comecei a procurar, primeiro pelas marcas \u00f3bvias deixadas pela carca\u00e7a sendo arrastada, depois lentamente andando em c\u00edrculos, fazendo uma espiral cobrindo uma \u00e1rea de aproximadamente 100 metros da marca inicial. Achei marcas de barro sobre o capim, amassados em uma mesma dire\u00e7\u00e3o. Segui essa trilha por mais uns 50m, encontrando algumas pegadas da on\u00e7a no trajeto por baixo do capim amassado, que me levou a um pequeno cap\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o emaranhada. Eu olhei para as \u00e1rvores e vi uns 12 urubus pousados. A on\u00e7a ainda estava ali. Eu marquei a trilha e a localiza\u00e7\u00e3o no meu GPS, e decidi voltar no dia seguinte, quando a on\u00e7a j\u00e1 tivesse sa\u00eddo de perto.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, eu falei para o Fernando sobre a exist\u00eancia da carca\u00e7a. N\u00f3s voltamos juntos ao local e vimos que os urubus j\u00e1 estavam no ch\u00e3o \u2013 um sinal de que a on\u00e7a n\u00e3o se encontrava ali. N\u00f3s abrimos uma picada para dentro do cap\u00e3o e logo encontramos os restos ainda frescos de um bezerro de cerca de 4 meses de idade, com 5 urubus se alimentando.<\/p>\n<p>Espantamos as aves e fizemos uma necropsia no animal. O cr\u00e2nio mostrava as perfura\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas da mordida de uma on\u00e7a-pintada confirmando que o bezerro havia sido predado. N\u00f3s anotamos todas as informa\u00e7\u00f5es, que se somaram ao que conhecemos sobre os h\u00e1bitos alimentares das on\u00e7as na fazenda. E assim segue o nosso trabalho com as on\u00e7as no Pantanal&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos temas mais importantes e interessantes no estudo das on\u00e7as \u00e9 o conhecimento dos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16432,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false],"thumbnail":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca-300x192.jpg",300,192,true],"medium_large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false],"large":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false],"1536x1536":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false],"2048x2048":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-2":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-3":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false],"cream-magazine-thumbnail-4":["https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/onca_vaca.jpg",415,265,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"","author_link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/author\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Um dos temas mais importantes e interessantes no estudo das on\u00e7as \u00e9 o conhecimento dos","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16431"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16431"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16431\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16432"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}