{"id":16425,"date":"2015-02-23T11:00:57","date_gmt":"2015-02-23T11:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/?p=16425"},"modified":"2015-02-22T13:32:42","modified_gmt":"2015-02-22T13:32:42","slug":"maior-conjunto-de-canions-da-america-do-sul-possui-mais-de-200-quilometros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/maior-conjunto-de-canions-da-america-do-sul-possui-mais-de-200-quilometros\/","title":{"rendered":"Maior conjunto de c\u00e2nions da Am\u00e9rica do Sul possui mais de 200 quil\u00f4metros"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/canions.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-medium wp-image-16429\" src=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/canions-300x192.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/canions-300x192.jpg 300w, https:\/\/espacoecologico.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/canions.jpg 415w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Um lugar fascinante. Retrato da hist\u00f3ria da Terra. Aben\u00e7oado pela natureza. \u00c9 uma imensid\u00e3o em um cen\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9 delicado. Ao contr\u00e1rio: \u00e9 rude, selvagem, mas grandiosamente sedutor. A paisagem provoca sensa\u00e7\u00f5es muito diferentes. Em poucos instantes \u00e9 poss\u00edvel ir da tranquilidade de estar em um campo que parece n\u00e3o ter fim, ao frio na barriga de ver o ch\u00e3o terminar bem pertinho dos nossos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Estamos no maior conjunto de c\u00e2nions da Am\u00e9rica do Sul, onde ficamos mais pertinho do c\u00e9u. S\u00e3o 1.400 metros de altitude. Um lugar de pared\u00f5es, de rios que serpenteiam pedras gigantes, cachoeiras que mergulham nas profundezas do abismo e de florestas penduradas em precip\u00edcios.<\/p>\n<p>\u00c9 pelos c\u00e2nions entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que vamos nos aventurar. S\u00e3o campos e desfiladeiros que se espalham do Atl\u00e2ntico at\u00e9 a serra. E voc\u00ea \u00e9 nosso convidado a contemplar essa imensid\u00e3o do alto.<\/p>\n<p>S\u00f3 assim podemos viajar bem ao lado destes grandes topos. Alguns formam cordilheiras. Em outro, as escarpas finas lembram uma esp\u00e9cie de l\u00e2mina cortando o ar.<\/p>\n<p>Os vales por onde correm os rios dentro dos c\u00e2nions chegam a ter 12 quil\u00f4metros de extens\u00e3o. E os pared\u00f5es exibem as marcas em camadas dos derrames vulc\u00e2nicos que aconteceram em tempos diferentes. Fendas t\u00e3o imensas que abrigam montanhas dentro delas. Nossos olhos at\u00e9 podem se enganar, n\u00e3o registrar a verdadeira dimens\u00e3o desse lugar. Ent\u00e3o, para entender o tamanho de tudo isso, imagine que dentro de um dos maiores c\u00e2nions, o Fortaleza, caberiam quase tr\u00eas Avenidas Paulistas inteiras em todo o seu comprimento e com todos os pr\u00e9dios.<\/p>\n<p>A curiosidade desafia o medo quando resolvemos espiar as profundezas. S\u00e3o 36 c\u00e2nions espalhados por mais de 200 quil\u00f4metros e todos t\u00eam algo em comum: para onde quer que a gente vire, nossos olhos sempre v\u00e3o encontrar a imensid\u00e3o nos vales, nos pared\u00f5es e nas bordas. Uma natureza t\u00e3o grandiosa que com certeza vai ficar para sempre na nossa lembran\u00e7a<\/p>\n<p>\u00c9 uma paisagem \u00fanica, porque em nenhum outro lugar do mundo a natureza fez o que construiu aqui.<\/p>\n<p><strong>Globo Rep\u00f3rter: <\/strong>O que aconteceu com o planeta para que surgissem estas rochas?<br \/>\n<strong>Ariane da Silveira, ge\u00f3loga:<\/strong> Bom, aproximadamente 130 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, a Am\u00e9rica do Sul e \u00c1frica estavam juntas. Ent\u00e3o, neste per\u00edodo, houve uma fragmenta\u00e7\u00e3o destes continentes, e foi havendo extravasamento de lava vulc\u00e2nica. Houve uma esp\u00e9cie de rachadura na terra. Este evento foi um dos maiores eventos geol\u00f3gicos que aconteceram no planeta terra.<\/p>\n<p><strong>Todos os rios da regi\u00e3o formam cachoeiras espetaculares<\/strong><\/p>\n<p>A paisagem de milh\u00f5es de anos fica ainda mais inquietante quando nos damos conta de que ela continua a se modificar a cada segundo, bem diante de nossos olhos. A \u00e1gua que esculpe a rocha brota farta da terra. Nos campos, basta apertar um pouco a vegeta\u00e7\u00e3o com a m\u00e3o para ver que ela est\u00e1 mesmo em toda a parte. Destas \u00e1reas banhadas saem fiapos de \u00e1gua que se derramam em rios. Um reservat\u00f3rio natural de vertentes cristalinas, quase intocadas pelo homem.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o passa por dentro de lavouras, n\u00e3o tem quest\u00e3o de agrot\u00f3xico. S\u00e3o \u00e1guas realmente muito puras\u201d explica o analista ambiental Magnus Severo.<\/p>\n<p>Todos os rios da regi\u00e3o al\u00e9m de esculpirem pedras gigantes, formam cachoeiras espetaculares, uma mais alta e mais linda do que outra. Caem como se fossem m\u00fasica feita especialmente para esta regi\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um levantamento de quantas cachoeiras existem espalhadas entre as pedras, mas h\u00e1 uma infinidade e cada uma cai do jeito que o relevo obriga. Por isso nenhuma \u00e9 igual a outra.<\/p>\n<p><strong>Globo Rep\u00f3rter: <\/strong>\u00c9 um trabalho de milh\u00f5es de anos?<br \/>\n<strong>L\u00facio Santos, analista ambiental: <\/strong>Sim, o trabalho de escava\u00e7\u00e3o, da eros\u00e3o. \u00c9 um trabalho de milh\u00f5es, centenas de milh\u00f5es de anos. Exatamente por isso \u00e9 que est\u00e1 como est\u00e1.<\/p>\n<p>Em um ponto, a for\u00e7a da correnteza parece at\u00e9 ter dividido uma montanha inteira. \u00c0s vezes, o que parece um rio raso, se transforma de repente em uma queda grandiosa de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Alguns rios correm paralelamente, formando pequenas ilhas. Outros se encontram no meio do caminho, juntam suas \u00e1guas e correm para o meio dos c\u00e2nions.<\/p>\n<p>A gente n\u00e3o cansa de olhar. D\u00e1 mais um voo rasante. E outro. \u00c9 dif\u00edcil partir e deixar l\u00e1 em baixo esse lugar onde a natureza foi t\u00e3o caprichosa. E quantas surpresas neste passeio pelas alturas. Do alto, uma imagem rara: um grupo de veados campeiros, como que para nos distrair se dispersam.<\/p>\n<p>E como correm: cada animal pode alcan\u00e7ar at\u00e9 70 quil\u00f4metros por hora. T\u00e3o r\u00e1pidos que olha s\u00f3 como passam por baixo da cerca. M\u00e3e e filhote v\u00e3o juntos &#8211; ela na frente, como que para indicar o caminho. O maior perigo aqui n\u00e3o \u00e9 a proximidade dos precip\u00edcios. O homem ocupou a maior parte da terra que antes servia de casa ao animal. Sem espa\u00e7o e perseguido por ca\u00e7adores, o veado campeiro est\u00e1 quase extinto. Ent\u00e3o, quando desaparecem no cen\u00e1rio gigante, a gente n\u00e3o pode deixar de torcer para que se mantenham assim: seguros e escondidos dentro desse para\u00edso.<\/p>\n<p>Mesmo vendo tudo de cima, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o sentir vontade de estar l\u00e1, bem pertinho dos pared\u00f5es. Trocamos ent\u00e3o o helic\u00f3ptero pelo lombo do cavalo. Em grupo seguimos para o c\u00e2nion Monte Negro, o ponto mais alto do Rio Grande do Sul.<br \/>\nO dia ensolarado parece perfeito, mas como estamos nas alturas, temos que compartilhar o espa\u00e7o com elas: as nuvens, que passam grudadas no ch\u00e3o. N\u00e3o se intimidam com o belo sol da manh\u00e3 e nem com a lua minguante que ainda aparece no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, a gente desaparece na neblina. \u00c9 o que os moradores daqui chamam de vira\u00e7\u00e3o. O tempo muda assim, em apenas alguns minutos. Em um mesmo dia pode ter neblina, sol, vento e chuva.<\/p>\n<p>Apesar do nevoeiro, seguimos em frente, com frio na barriga, contornando \u00e0 beira de um abismo que n\u00e3o conseguimos enxergar. O risco s\u00f3 n\u00e3o existe porque estamos acompanhados de moradores e c\u00e3es acostumados a esse esconde-e-aparece dos precip\u00edcios. Eles sabem onde est\u00e1 o perigo. Mas que d\u00e1 medo, isso d\u00e1.<\/p>\n<p>A nuvem sai de dentro do precip\u00edcio, abaixo dos nossos p\u00e9s, como se fosse uma fuma\u00e7a surgindo do fundo da terra.<\/p>\n<p>\u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil acreditar que a poucos metros de onde estamos, tem um precip\u00edcio de 1.403 metros. \u00c9 o c\u00e2nion Monte Negro. E a neblina acontece por causa da massa de ar quente que vem do oceano que fica a mais ou menos 40 quil\u00f4metros daqui. Esta massa de ar quente, encontra a massa de ar frio aqui de cima da serra e acontece este fen\u00f4meno da natureza.<\/p>\n<p><strong>Pinheiros s\u00e3o \u00e1rvores t\u00edpicas do Sul do Brasil e podem chegar a 50 metros de altura<\/strong><\/p>\n<p>Apesar da neblina, seguimos. Porque mesmo enxergando pouco mais de um palmo a frente, o visual \u00e9 incr\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cEu posso passar trezentas vezes aqui com um, com dois, com dez pessoas, e cada vez vejo com o olho diferente. Eu tenho sempre uma luz diferente, um p\u00e1ssaro diferente. O p\u00e1ssaro, o vento. Sempre d\u00e1 para perceber\u201d, comenta o guia Paulo Hafner.<\/p>\n<p>Pacientemente esperamos. Quem sabe a neblina se dissipe? Mas, nada! Tudo o que vimos foram pedacinhos. Partimos levando na lembran\u00e7a a imagem da paisagem bela mesmo que escondida e na companhia agrad\u00e1vel de quem mora e \u00e9 feliz nessa regi\u00e3o. No dia seguinte o c\u00e2nion nos recebeu recheado de nuvens. At\u00e9 parece que queria fazer suspense, se revelando aos poucos. O engra\u00e7ado \u00e9 que assim, a gente nem sente tanto medo. As nuvens amortecem nossos temores porque aqui vale a m\u00e1xima: o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente o que os olhos n\u00e3o veem. Estamos no mesmo n\u00edvel onde os p\u00e1ssaros voam. E nas alturas vivem o beija-flor, o tico-tico, as andorinhas e a gralha azul: um p\u00e1ssaro grit\u00e3o mas que tem uma miss\u00e3o muito especial. Boa parte das arauc\u00e1rias, a \u00e1rvore com copa voltada para o c\u00e9u, foi plantada pela gralha azul. Ela se alimenta dos pinh\u00f5es, o fruto da arauc\u00e1ria e costuma esconde-los durante o inverno, \u00e9poca de safra, para buscar depois, mas a\u00ed, acaba esquecendo, e estes brotam espalhados pela regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pinheiros s\u00e3o \u00e1rvores t\u00edpicas do Sul do Brasil e podem chegar a 50 metros de altura. A gralha \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o ao homem que at\u00e9 pouco tempo derrubava arauc\u00e1rias centen\u00e1rias. Cortou tanto que o que vemos hoje \u00e9 s\u00f3 1% do que antes era uma grande floresta.<\/p>\n<p>Mesmo assim a cada final de tarde as arauc\u00e1rias com seus galhos t\u00e3o caracter\u00edsticos, feitos de espinhos, continuam encantando nossos olhos quando junto com o sol, anunciam a noite.<\/p>\n<p>E mesmo quando o sol desaparece no horizonte, a paisagem \u00e9 um presente. At\u00e9 parece que a lua e os pared\u00f5es de pedra do c\u00e2nion Itaimbezinho fizeram um pacto: que esse lugar nunca deixe de ser iluminado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um lugar fascinante. Retrato da hist\u00f3ria da Terra. 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